Banco Central decreta o fim da linha: Entenda a liquidação extrajudicial do Will Bank e os impactos no sistema financeiro
O cenário das fintechs e neobancos brasileiros sofreu um abalo sísmico nesta quarta-feira (21). Em uma decisão que reverbera por toda a Faria Lima e acende o alerta entre investidores e correntistas, o Banco Central (BC) decretou a liquidação extrajudicial do Will Bank. A medida marca o encerramento definitivo das tentativas de salvamento da instituição, que até então operava sob o Regime de Administração Especial Temporária (Raet). A decisão da autoridade monetária expõe as fragilidades de governança que contaminaram o ativo, anteriormente integrante do agora colapsado Grupo Master.
A derrocada do Will Bank não é um evento isolado, mas o capítulo final de uma crônica anunciada de dificuldades operacionais e crises de reputação que envolveram sua controladora. A intervenção direta do BC visa estancar os riscos sistêmicos e proteger, na medida do possível, a poupança popular e a credibilidade do Sistema Financeiro Nacional (SFN).
O Caminho até a Liquidação Extrajudicial
A trajetória que culminou na liquidação
do Will Bank foi pavimentada por meses de incertezas. A instituição encontrava-se sob intervenção branda, o Raet, desde novembro do ano passado. Este mecanismo é utilizado pelo regulador quando há esperança de recuperação da instituição, geralmente através da venda para um player mais robusto ou capitalização. O Banco Central, em sua prudência habitual, preservou o Will Bank quando decretou a liquidação do Grupo Master, sua matriz, sob a premissa de que o ativo possuía valor intrínseco e base de clientes atraente o suficiente para justificar uma operação de M&A (Fusões e Aquisições).No entanto, a expectativa de uma “solução de mercado” frustrou-se. A avaliação de que haveria interessados firmes na aquisição do Will Bank desmoronou diante da realidade dos números e dos riscos de compliance. Segundo apurações de bastidores, confirmadas pela Folha de S. Paulo, as tratativas não avançaram, deixando a autoridade monetária sem alternativa senão a decretação da liquidação. O mercado observou com atenção o desenrolar dos fatos, e a ausência de uma proposta vinculante selou o destino do banco digital.
A Crise do Grupo Master e o Efeito Contágio
Para compreender a queda do Will Bank, é imprescindível analisar o contexto de sua controladora. O Grupo Master foi alvo da operação “Compliance Zero”, que expôs práticas heterodoxas e fragilidades contábeis insustentáveis. O efeito contágio foi imediato. Embora o Will Bank operasse como uma entidade apartada, a reputação e a saúde financeira estavam intrinsecamente ligadas à matriz.
Investidores institucionais e analistas de risco já precificavam o ativo com um desconto agressivo. A marca Will Bank, que outrora simbolizava a democratização do crédito no Nordeste e a inclusão bancária, viu-se arrastada para o epicentro de uma crise corporativa. A incapacidade de segregar completamente a operação saudável dos problemas estruturais do grupo controlador foi o principal entrave para a continuidade dos negócios. A liquidação do Master funcionou como um dominó, cuja peça final, infelizmente, foi a fintech.
O “Quase” Negócio com Luciano Huck e a Desistência
Um dos pontos mais nevrálgicos deste processo foi a quase aquisição da instituição por investidores de peso. Pouco antes de o escândalo do Grupo Master vir a público com a deflagração da operação Compliance Zero, o apresentador e empresário Luciano Huck chegou a demonstrar interesse formal no Will Bank.
A entrada de um nome como Huck poderia ter alterado o curso da história da instituição, aportando não apenas capital, mas um ativo intangível de credibilidade e imagem. Contudo, o processo de due diligence (diligência prévia) é impiedoso. Ao se deparar com a realidade dos dados e o risco reputacional iminente, o empresário recuou. A desistência de Huck serviu como um sinal de fumaça para o restante do mercado: se um investidor com alto apetite e capacidade financeira desistiu, os problemas internos do Will Bank eram provavelmente mais profundos do que os relatórios superficiais indicavam.
Esse episódio ilustra a importância crucial da governança corporativa. Mesmo bancos digitais com grande base de usuários tornam-se “invendáveis” se não passarem pelo crivo rigoroso do compliance. A marca Will Bank sofreu, assim, um golpe de confiança do qual não conseguiu se recuperar.
O Colapso Operacional: O Bloqueio da Mastercard
O sinal derradeiro de que a liquidação era iminente ocorreu no front operacional. Na terça-feira (20), um dia antes do decreto do BC, a gigante de pagamentos Mastercard suspendeu a aceitação de transações realizadas com cartões emitidos pelo Will Bank.
No mercado financeiro, a confiança é a moeda mais valiosa, e a liquidez é o seu lastro. A suspensão ocorreu porque o Will Bank falhou em liquidar suas operações financeiras na segunda-feira (19). Em termos técnicos, a instituição não honrou os pagamentos devidos à bandeira, gerando um risco de crédito na câmara de compensação. A medida da Mastercard, embora drástica, teve como objetivo evitar o “acúmulo de valores em aberto”, protegendo a integridade do arranjo de pagamentos.
Para o cliente final, a situação foi caótica. Cartões recusados em estabelecimentos comerciais e transações online bloqueadas foram o prelúdio do anúncio oficial do Banco Central. A falha na liquidação financeira é, historicamente, o ponto de não retorno para qualquer instituição bancária. Quando um banco não consegue mover dinheiro, ele deixa de ser funcional.
O Que Significa a Liquidação Extrajudicial para o Mercado?
A decretação da liquidação extrajudicial do Will Bank pelo Banco Central é um ato administrativo de força máxima. Diferente do Raet, que afasta a diretoria mas tenta manter a operação viva, a liquidação visa encerrar as atividades, apurar os ativos (o que o banco tem) e os passivos (o que o banco deve) para pagar os credores na medida do possível.
Este movimento retira o Will Bank do Sistema Financeiro Nacional. A partir de agora, um liquidante nomeado pelo BC assume o comando com a missão de vender a massa falida, cobrar empréstimos concedidos e organizar a fila de credores. Para o mercado de fintechs, o evento serve como um “banho de realidade. O período de crescimento desenfreado, financiado por valuations esticados e governança frouxa, parece ter chegado ao fim. O regulador está enviando uma mensagem clara: não haverá salvamento para instituições que não demonstrem solvência e conformidade rigorosa.
A quebra do Will Bank também levanta questões sobre a consolidação do setor. Bancos médios e pequenos que dependem de estruturas de capital frágeis estão sob escrutínio redobrado. O custo de captação para essas instituições tende a subir, à medida que o mercado exige um prêmio de risco maior para operar com nomes que não sejam os grandes bancos de varejo.
A Situação dos Clientes e o FGC
Com a liquidação do Will Bank, a preocupação imediata se volta para os milhões de correntistas e poupadores. A legislação brasileira, contudo, oferece uma rede de proteção robusta. Os depósitos à vista, caderneta de poupança e aplicações em CDBs e RDBs do Will Bank são cobertos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
A garantia ordinária do FGC cobre até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição financeira. Isso significa que a grande maioria dos clientes do Will Bank, que possui um perfil de varejo e baixa renda, terá seus recursos integralmente ressarcidos. O processo, embora burocrático, é seguro. O liquidante preparará a lista de credores, que será enviada ao FGC para o início do pagamento, geralmente realizado através de um aplicativo próprio do Fundo.
No entanto, o transtorno operacional é inevitável. O bloqueio dos cartões e o congelamento das contas deixam os usuários sem acesso imediato ao seu dinheiro, o que pode gerar dificuldades financeiras pontuais para famílias que dependiam do Will Bank para suas movimentações diárias.
O Papel do Banco Central na Manutenção da Estabilidade
A atuação do Banco Central no caso do Will Bank reafirma a qualidade da regulação bancária no Brasil. Ao identificar que a instituição não possuía mais condições de solvência e que a venda para terceiros era inviável, o BC agiu para estancar a sangria. Manter um banco “zumbi” operando no mercado, sem liquidez para honrar compromissos com bandeiras como a Mastercard, representaria um risco muito maior do que a liquidação em si.
A autoridade monetária monitorou de perto a deterioração dos indicadores do Will Bank sob o regime de Raet. A decisão de quarta-feira (21) foi técnica e baseada na constatação de inviabilidade econômico-financeira. O BC demonstra, mais uma vez, que não hesitará em retirar do mercado players que coloquem em risco a poupança popular ou a eficiência do sistema de pagamentos.
Análise: O Fim do Sonho da “Nova Bancarização”?
O caso do Will Bank deve ser analisado sob a ótica dos ciclos econômicos. Durante o boom das fintechs, o Will Bank se destacou por oferecer crédito a uma parcela da população negligenciada pelos bancões. Contudo, crescer concedendo crédito em um ambiente de juros altos e inadimplência elevada é uma tarefa hercúlea.
Quando somamos a esse cenário macroeconômico desafiador os problemas de gestão e compliance herdados do Grupo Master, a equação torna-se insolúvel. A liquidação do Will Bank não decreta o fim das fintechs, mas simboliza o fim da inocência do setor. O modelo de “crescimento a qualquer custo” foi substituído pela exigência de “rentabilidade e conformidade.
Analistas de mercado preveem que os clientes do Will Bank migrarão naturalmente para outras instituições digitais mais sólidas ou retornarão aos bancos tradicionais, que têm investido pesadamente em digitalização. A disputa por essa base de clientes “órfãos” já começou, com concorrentes oferecendo portabilidade de crédito e abertura de contas facilitada.
O Futuro do Processo de Liquidação
Nos próximos meses, o nome Will Bank frequentará as páginas de economia não mais por suas campanhas publicitárias, mas pelos relatórios do liquidante. Haverá o levantamento da massa falida, a venda de carteiras de crédito (provavelmente com grande deságio) e a apuração de responsabilidades dos ex-administradores.
O Banco Central também deverá investigar a conduta dos gestores durante o período que antecedeu a intervenção. Se comprovadas fraudes ou gestão temerária, os ex-controladores do Will Bank e do Grupo Master poderão ter seus bens indisponibilizados para cobrir o prejuízo causado aos credores e ao sistema.
A “operação limpeza” no sistema financeiro, da qual a liquidação do Will Bank é o capítulo mais recente, é dolorosa, mas necessária. Ela expurga ineficiências e garante que apenas instituições aptas continuem a captar a poupança pública.
Lições de um Colapso
A quarta-feira, 21 de janeiro, entra para a história do mercado financeiro brasileiro como o dia em que o Will Bank fechou as portas. O episódio deixa lições amargas, mas valiosas. Para os investidores, fica o alerta sobre a importância fundamental da due diligence e da análise de governança dos grupos controladores. Para os clientes, reforça-se a necessidade de diversificar recursos e conhecer a solidez da instituição onde depositam sua confiança.
O Will Bank prometeu revolucionar a relação bancária, mas sucumbiu às velhas práticas de má gestão e à insolvência. O mercado segue, agora mais cético e seletivo. A liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central encerra o ciclo de incertezas, mas abre um longo processo jurídico e financeiro para ressarcir os prejuízos deixados pelo caminho. Resta aguardar os próximos passos do liquidante e o desenrolar da fila de pagamentos do FGC, enquanto o setor financeiro absorve o impacto e recalcula suas rotas de risco.






