PGR arquiva pedido de impedimento de Toffoli no caso Banco Master e mantém relatoria no STF
Em uma decisão de forte impacto político e jurídico, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, determinou nesta quinta-feira (22/1) o arquivamento do pedido apresentado pela oposição parlamentar que visava afastar o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), da relatoria do caso Banco Master. A decisão do chefe do Ministério Público Federal (MPF) joga um balde de água fria nas pretensões de congressistas que apontavam conflito de interesses na conduta do magistrado, assegurando, ao menos por ora, a manutenção de Toffoli à frente de um dos inquéritos mais sensíveis que tramitam na Corte.
O caso Banco Master envolve uma complexa teia de investigações sobre operações financeiras, tentativas de aquisição e supostas irregularidades que conectam a instituição privada ao Banco Regional de Brasília (BRB). A controvérsia sobre a permanência de Toffoli ganhou tração após a revelação de que o ministro viajou para Lima, no Peru, para assistir à final da Copa Libertadores da América, na companhia do advogado Augusto de Arruda Botelho, defensor de um dos diretores do banco investigado.
O Fundamento da Decisão de Gonet
O procurador-geral da República fundamentou o arquivamento sob a premissa de que os fatos narrados na representação da oposição já estão sob o escrutínio das autoridades competentes. Segundo Gonet, “o caso a que se refere a representação já é objeto de apuração perante o Supremo Tribunal Federal, com atuação regular da Procuradoria-Geral da República. Não há, portanto, qualquer providência a ser adotada no momento.
Essa postura técnica do PGR sinaliza uma intenção de evitar o acirramento dos ânimos entre o Ministério Público e a Suprema Corte. Ao decidir não levar adiante o pedido de impedimento no âmbito do caso Banco Master, Gonet reforça a tese da autonomia do relator, a menos que fatos novos e contundentes de parcialidade sejam comprovados processualmente, o que, na visão da PGR, não ficou estabelecido apenas pela viagem compartilhada.
A Viagem a Lima e a Sombra da Parcialidade
O episódio que gerou o pedido de afastamento no caso Banco Master remonta a 29 de novembro, quando Dias Toffoli foi visto em um jatinho particular pertencente ao empresário Luiz Oswaldo Pastore. A aeronave tinha como destino a capital peruana, palco da final da Libertadores entre Flamengo e Palmeiras. A bordo, além do ministro, estava o advogado criminalista Augusto de Arruda Botelho.
A presença conjunta de julgador e defensor no mesmo voo privado levantou questionamentos éticos imediatos por parte da oposição e de setores da sociedade civil. Botelho atua na defesa de um dos diretores envolvidos no caso Banco Master, o que, para os críticos, configuraria uma relação de proximidade incompatível com a imparcialidade exigida pela magistratura.
Na época, tanto o ministro quanto o advogado refutaram qualquer irregularidade. A defesa pública apresentada foi a de que ambos “eram apenas torcedores” naquele contexto e que não houve qualquer tratativa sobre o caso Banco Master ou outros processos em curso durante o trajeto ou a estadia em Lima. No entanto, a explicação não foi suficiente para estancar a crise de imagem, que culminou na representação agora arquivada por Gonet.
As Entranhas do Caso Banco Master: BRB e Operações Cruzadas
Para compreender a gravidade do pedido de impedimento, é necessário dissecar o objeto central da investigação: o caso Banco Master não é um inquérito trivial. As apurações conduzidas pela Polícia Federal indicam a existência de operações financeiras consideradas irregulares entre o Banco Regional de Brasília (BRB) e o Banco Master.
A tese dos investigadores é que o BRB teria realizado movimentações para “dar fôlego” financeiro à instituição comandada pelo banqueiro Daniel Vorcaro. Essas operações ocorreram em um período crítico, justamente enquanto o Banco Central (BC) analisava uma proposta de aquisição do Master pelo BRB. A oferta de compra foi formalizada em março do ano passado, mas acabou vetada pela autoridade monetária, que identificou riscos e inconsistências no negócio.
O caso Banco Master, portanto, investiga se houve uso de uma instituição pública (BRB) para alavancar ou socorrer uma instituição privada (Master) à margem das regras de prudência bancária e com possíveis interesses escusos. A relatoria desse processo nas mãos de Toffoli é estratégica, pois define o ritmo das quebras de sigilo, das homologações de delações e das medidas cautelares contra os investigados.
A Ofensiva Parlamentar e o Senador Eduardo Girão
O arquivamento do pedido da oposição não encerra totalmente a pressão sobre o ministro. O procurador-geral Paulo Gonet ainda deve analisar outro requerimento robusto, apresentado pelo senador Eduardo Girão (Novo-CE), que também solicita a declaração de impedimento de Toffoli no caso Banco Master.
Girão tem sido uma das vozes mais ativas no Senado contra a conduta do magistrado. O senador solicita à PGR a “instauração imediata de procedimento investigatório” para apurar não apenas a viagem, mas um quadro mais amplo de “análise técnica independente sobre possíveis conflitos de interesse. A representação de Girão toca em pontos sensíveis, citando supostas ligações da família do magistrado com Daniel Vorcaro, o dono do Banco Master.
Essas acusações elevam a temperatura institucional. Se comprovadas, as ligações familiares poderiam configurar impedimento objetivo segundo o Código de Processo Civil e o Regimento Interno do STF, forçando uma redistribuição do caso Banco Master. Contudo, até o momento, a PGR tem mantido uma postura cautelosa, evitando confrontar a Corte Suprema sem provas cabais.
A Polêmica das Provas e a Autonomia da Polícia Federal
Outro ponto nevrálgico no caso Banco Master sob a relatoria de Toffoli foi a gestão das provas apreendidas. O ministro proferiu decisões controversas que, em um primeiro momento, determinaram que materiais apreendidos na investigação fossem lacrados e mantidos sob custódia direta do Supremo Tribunal Federal. Essa ordem impedia a realização de perícia técnica prévia pela Polícia Federal (PF), gerando acusações de interferência na autonomia investigativa da corporação.
A decisão gerou forte repercussão negativa na opinião pública e nos bastidores jurídicos. Delegados e peritos viram no ato uma tentativa de blindagem ou de controle excessivo sobre o fluxo da investigação do caso Banco Master. Diante do desgaste, Toffoli recuou parcialmente, autorizando posteriormente que a Polícia Federal tivesse acesso às provas para análise.
Esse vaivém de decisões — avanços e recuos — é citado pelos parlamentares como um indicativo de instabilidade e falta de isenção na condução do processo. A oposição argumenta que o caso Banco Master exige um relator cuja conduta não suscite dúvidas sobre a integridade da cadeia de custódia das provas.
O Xadrez Institucional: PGR e STF
A decisão de Paulo Gonet de arquivar o pedido de impedimento deve ser lida também sob a ótica da realpolitik de Brasília. A expectativa nos corredores do poder é que o chefe do Ministério Público Federal mantenha essa linha de atuação para evitar um desgaste institucional com o Supremo Tribunal Federal. O STF, por sua vez, tenta driblar as críticas sobre a conduta individual de seus ministros, operando muitas vezes com um espírito de corpo para proteger a instituição de ataques externos.
No entanto, o caso Banco Master continua a ser uma pedra no sapato. A cada nova revelação ou decisão monocrática polêmica, a pressão retorna. A blindagem oferecida pela PGR tem limites, e a persistência de parlamentares como Eduardo Girão indica que o tema continuará na pauta do Congresso Nacional.
Impactos no Sistema Financeiro e na Segurança Jurídica
Para o mercado financeiro, o desenrolar do caso Banco Master é monitorado com lupa. A investigação envolve a credibilidade de instituições bancárias e a atuação do regulador (Banco Central). A percepção de que o processo judicial pode estar sujeito a influências políticas ou pessoais gera insegurança jurídica e afeta a reputação do sistema bancário nacional.
A manutenção de Toffoli, confirmada pelo arquivamento da PGR, traz uma previsibilidade processual imediata, mas mantém a nuvem de suspeição que paira sobre o inquérito. O mercado aguarda os próximos passos da investigação da PF e se o caso Banco Master resultará em denúncias formais contra os banqueiros e gestores públicos envolvidos.
O arquivamento do pedido de impedimento pelo PGR Paulo Gonet é um capítulo vitória para o ministro Dias Toffoli, mas não o fim da guerra política em torno do caso Banco Master. Enquanto a oposição insiste na tese de conflito de interesses — alimentada pela viagem a Lima e pelas decisões sobre as provas da PF —, a PGR opta pela cautela institucional.
O caso Banco Master permanece como um dos testes de estresse mais importantes para o Judiciário brasileiro neste ano. ele coloca em xeque a capacidade do Supremo de investigar a si mesmo e de lidar com as relações promíscuas entre o poder togado e o poder econômico. Com a relatoria mantida, todos os olhos se voltam agora para o mérito das investigações: as operações suspeitas entre BRB e Master e o papel de Daniel Vorcaro nesse xadrez financeiro. A sociedade e o mercado exigem respostas claras, independentemente de quem esteja segurando a caneta da relatoria.









