Morgan Stanley recalibra projeções e aponta novo favorito entre as ações do varejo para 2026
O cenário para as ações do varejo na Bolsa brasileira passa por uma revisão estratégica significativa. Em um relatório robusto divulgado ao mercado, o banco norte-americano Morgan Stanley alterou drasticamente sua percepção sobre os principais players do setor de vestuário e e-commerce, provocando uma rotação de carteiras imediata na B3.
O grande destaque do documento é a elevação da recomendação para a C&A (CEAB3), que deixou a posição neutra para se tornar uma das principais apostas de compra da instituição. O movimento impulsionou os papéis da varejista, que chegaram a disparar mais de 5% no intradia, descolando-se de seus pares e sinalizando um novo momento operacional para a companhia.
No entanto, o relatório vai muito além de uma única empresa. Os analistas do banco traçaram um panorama detalhado para as ações do varejo visando o ano de 2026, ponderando o impacto de um ciclo de juros ainda desafiador — com a Selic projetada em 11,5% ao fim do ano — e a concorrência acirrada de plataformas internacionais.
Para o investidor que busca posicionamento em ações do varejo, a mensagem do Morgan Stanley é clara: a seletividade será o nome do jogo. Não há uma maré que levantará todos os barcos; haverá vencedores claros, impulsionados por execução impecável e valuation atrativo, e perdedores que ainda lutarão contra alavancagem e margens pressionadas.
C&A (CEAB3): A nova “Top Pick” do vestuário
A mudança de recomendação para a C&A foi o gatilho que agitou o mercado. O Morgan Stanley elevou a classificação de equal-weight (exposição em linha com a média do mercado) para overweight (exposição acima da média, equivalente a compra).
Embora o banco tenha ajustado o preço-alvo de R$ 21,50 para R$ 19,50 — refletindo uma correção nas premissas macroeconômicas —, o potencial de valorização (upside) permanece expressivo: cerca de 75% em relação ao fechamento anterior, de R$ 11,10.
O racional por trás dessa aposta agressiva nas ações do varejo de moda reside na melhora operacional da C&A. Após trimestres de ajustes, a companhia demonstra maior eficiência na gestão de estoques e na concessão de crédito via C&A Pay, dois pilares que corroeram margens no passado recente. O banco enxerga espaço para múltiplos vencedores no varejo de vestuário brasileiro, e a C&A, negociando a múltiplos descontados frente ao seu potencial de entrega, desponta como uma oportunidade assimétrica.
A reação do mercado foi imediata: as ações subiam 5,77%, cotadas a R$ 11,74, confirmando a leitura de que o papel estava excessivamente penalizado.
Mercado Livre (MELI34): A tese de crescimento secular
Enquanto a C&A representa uma tese de “turnaround” (virada), o Mercado Livre segue como a tese de crescimento estrutural dominante entre as ações do varejo. O Morgan Stanley reiterou sua recomendação de compra (overweight) para a gigante do e-commerce, estipulando um preço-alvo de US$ 2.950 para os papéis listados na Nasdaq.
A análise destaca que, mesmo sendo uma empresa de grande porte, o Mercado Livre negocia a múltiplos atrativos quando ajustados ao crescimento (PEG Ratio). O banco projeta que a empresa negocie a 32 vezes o Preço sobre Lucro (P/L) estimado para 2026 e 22 vezes para 2027. Pode parecer alto para setores tradicionais, mas é barato para uma companhia que deve entregar uma Taxa Composta Anual de Crescimento (CAGR) de 35% entre 2024 e 2027.
Dois fatores sustentam essa visão otimista para as ações do varejo digital do Mercado Livre:
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Aceleração da Rentabilidade: Espera-se um segundo semestre robusto, com o fim do impacto negativo dos subsídios de frete grátis no Brasil.
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Ecossistema Publicitário e Crédito: A receita de Ads (publicidade) e a expansão do braço financeiro (Mercado Pago) devem continuar impulsionando as margens, permitindo que a empresa ganhe participação de mercado (market share) mesmo diante da agressividade de concorrentes asiáticos.
Lojas Renner (LREN3) e Vivara (VIVA3): Qualidade a preço justo
No segmento de alta qualidade e execução comprovada, o Morgan Stanley mantém o otimismo com Lojas Renner e Vivara, considerando-as portos seguros dentro do universo volátil das ações do varejo.
Para a Lojas Renner, a recomendação de compra foi reiterada com preço-alvo de R$ 18,50. A tese se baseia em um valuation convidativo: a empresa negocia a cerca de 9 vezes o lucro estimado para 2026. Além disso, a Renner oferece um “colchão” de segurança para o acionista através de um rendimento de dividendos (dividend yield) em torno de 3% e um programa agressivo de recompra de ações, que pode retirar de circulação até 7,5% do free float. O banco projeta um crescimento de 11% no lucro ajustado, sinalizando que o pior momento operacional da varejista gaúcha ficou para trás.
Já no caso da Vivara, a joalheria é vista como uma oportunidade tática. Após uma queda de 19% nos papéis este ano — motivada por ruídos na governança e troca de CEO —, o Morgan Stanley enxerga um ponto de entrada extremamente atrativo. Com recomendação de compra e preço-alvo de R$ 40,00, a Vivara negocia a apenas 8,7 vezes o P/L estimado para 2026. Os analistas consideram exageradas as preocupações do mercado com uma desaceleração no curto prazo, reforçando a resiliência da marca e seu poder de precificação no segmento de alta renda.
O lado cauteloso: Azzas, Magalu e Casas Bahia
Se há otimismo com C&A e Mercado Livre, o relatório adota um tom de cautela e até pessimismo com outros nomes populares entre as ações do varejo.
A Azzas 2154 (AZZA3), fruto da fusão entre Arezzo e Soma, sofreu um rebaixamento. O banco cortou a recomendação para equal-weight (neutro) e reduziu o preço-alvo para R$ 30,50. A justificativa é pragmática: fusões desse porte trazem riscos de execução elevados. Após problemas operacionais recentes e incertezas sobre a captura de sinergias, o Morgan Stanley prefere aguardar nas margens. Para o banco, a Azzas tornou-se uma história de “provar na execução” (show me story) antes de merecer uma alocação maior de capital.
No segmento de eletroeletrônicos e e-commerce 1P (venda direta), a situação é ainda mais delicada. O banco reiterou a recomendação de venda (underweight) para Magazine Luiza (MGLU3), com preço-alvo de R$ 8,00. A análise é de que é prematuro esperar uma virada operacional consistente em 2026. O efeito defasado dos juros elevados continua drenando o poder de compra do consumidor de classe média, principal cliente do Magalu.
A mesma lógica se aplica à Casas Bahia (BHIA3). Apesar dos esforços hercúleos da gestão para reestruturar a dívida e alongar passivos, a visibilidade para um retorno ao lucro líquido contábil ainda é limitada. O banco manteve a recomendação de venda com preço-alvo de R$ 3,00, indicando que a empresa ainda tem um longo caminho de desalavancagem pela frente antes de se tornar atrativa para o investidor institucional focado em fundamentos.
Cenário Macro em 2026: Juros, IA e Concorrência Global
A análise das ações do varejo não pode ser dissociada do ambiente macroeconômico. O Morgan Stanley traçou premissas importantes que balizam seus preços-alvo.
A principal delas é a taxa de juros. A equipe econômica do banco projeta que a Selic encerre o ano em 11,5%, uma queda relevante frente ao patamar atual de 15% citado no modelo dos analistas. Essa redução no custo do dinheiro é o oxigênio vital para o setor, reduzindo as despesas financeiras das empresas (que impactam diretamente o lucro final) e barateando o crediário para o consumidor.
No entanto, o cenário é misto. O crescimento do varejo físico brasileiro deve ser mais fraco do que a média histórica, exigindo que as empresas busquem eficiência interna. Os analistas veem oportunidades seletivas para companhias que:
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Capturem a digitalização: Integrando canais físicos e online com fluidez.
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Usem Inteligência Artificial: O avanço do uso de IA para prever demanda, personalizar ofertas e otimizar logística será um divisor de águas na rentabilidade.
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Ganhem Market Share: Em um mercado que cresce pouco, crescer significa roubar cliente do concorrente.
O Fator China e os Riscos no Radar
Nenhuma análise sobre ações do varejo em 2026 estaria completa sem abordar a concorrência internacional. Plataformas globais como Shopee, Amazon, Temu e TikTok Shop já são realidade consolidada na América Latina.
O Morgan Stanley alerta que uma eventual intensificação na guerra de preços por parte desses players poderia pressionar as margens do e-commerce na região, especialmente no Brasil. A “guerra do frete grátis” ou subsídios agressivos são riscos que o investidor deve monitorar.
Por outro lado, no segmento de vestuário, a barreira de entrada parece ser maior. A chegada da gigante europeia H&M ao Brasil é vista, por enquanto, como um evento sem impacto relevante no curto prazo. O setor de moda brasileiro é altamente fragmentado e possui uma complexidade tributária que serve, ironicamente, como uma proteção para os incumbentes locais como Renner e C&A.
Hora de rebalancear a carteira
O relatório do Morgan Stanley serve como um guia de navegação para um ano que promete ser volátil, mas repleto de oportunidades. A elevação da C&A para compra não é um evento isolado, mas um sintoma de que o mercado está começando a premiar empresas que fizeram a lição de casa operacional.
Para o investidor, a estratégia sugerida é clara: buscar qualidade e crescimento secular (Mercado Livre, Renner, Vivara) e apostas táticas de virada (C&A), enquanto se evita exposição a teses que dependem excessivamente de uma queda abrupta de juros ou que enfrentam riscos de execução de fusões (Magalu, Casas Bahia, Azzas). As ações do varejo estão baratas, mas nem todas subirão na mesma velocidade.






