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Alan Greenspan, ex-presidente do Federal Reserve, morre aos 100 anos nos Estados Unidos

Economista liderou o Fed por quase 19 anos, atravessou quatro governos e marcou a política monetária americana entre os anos 1980 e 2000.

por Henrique Valverde
22/06/2026 às 11h33
em Economia
Alan Greenspan, Ex-Presidente Do Federal Reserve, Morre Aos 100 Anos Nos Estados Unidos-Gazeta Mercantil

Reprodução/X

Alan Greenspan, um dos economistas mais influentes da história contemporânea e ex-presidente do Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, morreu nesta segunda-feira (22), aos 100 anos. A informação foi divulgada pela imprensa americana e confirmada por sua esposa, a jornalista Andrea Mitchell. Segundo a família, Greenspan morreu em sua residência em decorrência de complicações relacionadas à doença de Parkinson.

A morte encerra a trajetória de uma das figuras mais emblemáticas da política monetária global. Durante quase 19 anos à frente do Federal Reserve, entre 1987 e 2006, Greenspan comandou a autoridade monetária americana em um período marcado por profundas transformações econômicas, incluindo a expansão dos mercados financeiros, o avanço da globalização, a revolução tecnológica dos anos 1990 e o início da bolha imobiliária que culminaria na crise financeira mundial.

Sua passagem pelo Fed atravessou quatro administrações presidenciais — Ronald Reagan, George H. W. Bush, Bill Clinton e George W. Bush — e consolidou sua reputação como um dos principais formuladores de política econômica do século XX.

“Alan faleceu em nossa casa esta manhã, aos 100 anos, devido a complicações da doença de Parkinson”, afirmou Andrea Mitchell em comunicado divulgado à imprensa americana.

A jornalista destacou ainda a influência exercida pelo economista ao longo de décadas e ressaltou sua capacidade de reconhecer equívocos em momentos decisivos da história econômica dos Estados Unidos.

Trajetória começou em Nova York e ganhou projeção em Washington

Nascido em 6 de março de 1926, no bairro de Washington Heights, em Nova York, Alan Greenspan construiu uma carreira que o levaria do mercado financeiro privado ao centro das decisões econômicas da maior potência mundial.

Formado em Economia pela Universidade de Nova York, onde também concluiu estudos de pós-graduação, Greenspan iniciou sua trajetória profissional como consultor econômico e analista de mercado. Sua atuação no setor privado rapidamente chamou atenção de empresários e investidores, consolidando sua reputação como especialista em conjuntura econômica e política monetária.

Ainda nos anos 1950, aproximou-se da escritora e filósofa Ayn Rand, uma das principais defensoras do liberalismo econômico nos Estados Unidos. A convivência com o círculo intelectual liderado por Rand influenciou parte de sua visão sobre livre mercado, intervenção estatal e funcionamento da economia.

Nas décadas seguintes, Greenspan ampliou sua participação na vida pública americana.

Em 1968, integrou a campanha presidencial de Richard Nixon. Posteriormente, durante o governo de Gerald Ford, assumiu a presidência do Conselho de Assessores Econômicos da Casa Branca, cargo que lhe proporcionou experiência direta na formulação de políticas públicas em um período marcado por inflação elevada, choques do petróleo e desaceleração econômica.

Nomeação para o Fed ocorreu em meio a turbulências nos mercados

A ascensão de Greenspan ao comando do Federal Reserve ocorreu em 1987, quando foi indicado pelo então presidente Ronald Reagan para substituir Paul Volcker, responsável pelo combate à inflação que marcou os anos 1970 e início da década de 1980.

Poucos meses após assumir o cargo, Greenspan enfrentou um dos maiores desafios de sua carreira: o colapso dos mercados acionários conhecido como “Black Monday”, ou Segunda-Feira Negra.

Em 19 de outubro de 1987, o índice Dow Jones registrou uma das maiores quedas diárias de sua história, provocando temor de uma crise sistêmica.

A resposta rápida do Federal Reserve foi considerada decisiva para conter o pânico e restaurar a confiança dos investidores. O banco central garantiu liquidez ao sistema financeiro e sinalizou disposição para atuar de forma firme caso a turbulência se agravasse.

A atuação naquele episódio ajudou a consolidar a imagem de Greenspan como um gestor capaz de conduzir a política monetária em momentos de elevada instabilidade.

Período de crescimento econômico fortaleceu sua influência

Ao longo dos anos 1990, Greenspan tornou-se uma figura central na economia americana.

Sua gestão coincidiu com um dos mais longos ciclos de expansão econômica da história recente dos Estados Unidos. O avanço da produtividade, impulsionado pela disseminação da tecnologia da informação, permitiu crescimento robusto sem pressão inflacionária significativa durante parte daquele período.

Enquanto diversos economistas defendiam elevações mais agressivas dos juros para conter riscos inflacionários, Greenspan argumentava que os ganhos de produtividade estavam alterando estruturalmente a economia americana.

Essa interpretação influenciou decisões importantes do Federal Reserve e contribuiu para a manutenção de condições monetárias consideradas favoráveis ao crescimento.

O resultado foi um período marcado pela expansão do emprego, valorização dos ativos financeiros e fortalecimento da economia dos Estados Unidos no cenário global.

A influência de Greenspan ultrapassou as fronteiras americanas. Suas declarações eram acompanhadas atentamente por investidores, bancos centrais e governos em todo o mundo.

Mudanças de tom em seus discursos frequentemente provocavam reações imediatas nos mercados financeiros internacionais.

Críticas cresceram após a crise financeira global

Apesar do prestígio acumulado durante quase duas décadas, a reputação de Greenspan passou a ser reavaliada após a crise financeira de 2007 e 2008.

Diversos estudos, investigações e análises econômicas apontaram que parte da política adotada pelo Federal Reserve nos anos anteriores pode ter contribuído para a formação de desequilíbrios que desembocaram no colapso do mercado imobiliário americano.

Críticos argumentaram que a manutenção de juros baixos por períodos prolongados e a defesa de menor intervenção regulatória favoreceram a expansão excessiva do crédito e o crescimento de operações financeiras consideradas de alto risco.

A crença de que os mercados seriam capazes de se autorregular tornou-se alvo de questionamentos após a quebra de instituições financeiras e a necessidade de grandes programas de resgate implementados pelo governo americano.

O próprio Greenspan reconheceu posteriormente que alguns pressupostos que sustentavam sua visão sobre os mercados haviam se mostrado equivocados diante da magnitude da crise.

Mesmo com as críticas, sua importância histórica para a política monetária e para o desenvolvimento dos mercados financeiros permaneceu amplamente reconhecida por economistas e autoridades monetárias.

Legado influenciou sucessivas gerações de dirigentes do Fed

Greenspan deixou o comando do Federal Reserve em janeiro de 2006, após quase 19 anos no cargo.

Depois de deixar a instituição, dedicou-se à atividade de consultoria econômica, publicação de livros e participação em debates sobre política monetária, crescimento econômico e finanças públicas.

Sua experiência continuou sendo frequentemente requisitada por governos, universidades, centros de pesquisa e instituições financeiras.

Ao longo das últimas duas décadas, o ex-presidente do Fed acompanhou discussões relacionadas à crise financeira global, aos desafios da dívida pública americana, às mudanças demográficas e às transformações do sistema financeiro internacional.

Seu nome permaneceu associado a uma geração de formuladores de política econômica que moldou a atuação dos bancos centrais modernos.

Além disso, Greenspan influenciou sucessores diretos e indiretos no comando do Federal Reserve, ajudando a consolidar conceitos que continuam presentes nos debates sobre inflação, crescimento e estabilidade financeira.

Defesa da independência do Federal Reserve marcou seus últimos anos

Nos últimos anos, Greenspan voltou ao centro do debate público em razão das discussões sobre a autonomia do Federal Reserve.

O economista esteve entre os ex-dirigentes da instituição que defenderam publicamente a preservação da independência do banco central americano diante de pressões políticas.

Em um dos episódios mais recentes, assinou um documento que alertava para riscos institucionais decorrentes de eventuais interferências externas na condução da política monetária.

A manifestação reuniu nomes de peso da economia americana, incluindo a ex-presidente do Federal Reserve Janet Yellen, posteriormente secretária do Tesouro dos Estados Unidos, e Ben Bernanke, responsável pela condução do banco central durante a crise financeira global.

O grupo argumentou que a credibilidade do Federal Reserve depende da capacidade de tomar decisões técnicas sem influência político-partidária.

A posição reforçou uma das bandeiras históricas de Greenspan: a defesa de instituições monetárias capazes de atuar de forma independente para preservar a estabilidade econômica.

Mesmo afastado dos cargos públicos, o economista continuou sendo uma voz relevante nos debates sobre juros, inflação, credibilidade institucional e funcionamento dos mercados financeiros.

Sua morte ocorre em um momento em que os bancos centrais voltam a ocupar papel central na economia global diante dos desafios relacionados ao crescimento, à inflação e às transformações do sistema financeiro internacional.

Com quase duas décadas à frente do Federal Reserve, Alan Greenspan deixa um legado que continuará sendo objeto de estudo, admiração e controvérsia entre economistas, formuladores de políticas públicas e participantes do mercado financeiro em todo o mundo.

Tags: Alan Greenspanbanco central dos Estados UnidosBen BernankeEconomiaeconomia americanaFedFederal ReserveJanet YellenJerome Powellmercados financeirospolítica monetária

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