A BlackRock reduziu de acima da média para neutra sua recomendação para ações de mercados emergentes, mas manteve a América Latina — e especialmente o Brasil — entre as regiões consideradas estratégicas para o segundo semestre de 2026. Ao mesmo tempo, a gestora elevou para acima da média a alocação em títulos emergentes denominados em moedas locais, classe na qual o mercado brasileiro se destaca pelos juros elevados.
A mudança faz parte do relatório semestral 2026 Midyear Global Outlook, apresentado pela BlackRock Investment Institute. O documento sustenta que a economia mundial entrou em uma fase marcada pelo conflito entre abundância e escassez: de um lado, a inteligência artificial pode acelerar a produtividade e o crescimento; de outro, sua expansão depende de recursos limitados, como energia, chips, memória, infraestrutura, capital e minerais críticos.
Essa leitura amplia o universo de empresas e países potencialmente beneficiados pela inteligência artificial. Depois de um período dominado pelas grandes companhias de tecnologia dos Estados Unidos, a BlackRock passou a observar com maior atenção os fornecedores de eletricidade, redes, data centers, equipamentos industriais e matérias-primas necessárias para sustentar os investimentos globais no setor.
É nesse ponto que Brasil, Chile, Peru, México, Colômbia e Argentina ganham relevância. A América Latina reúne grandes reservas minerais, capacidade de produção energética e empresas ligadas a commodities, logística e infraestrutura. Essas características permitem que a região participe da expansão da inteligência artificial mesmo sem concentrar os principais fabricantes mundiais de semicondutores.
A BlackRock administrava US$ 13,89 trilhões ao fim de março de 2026, último valor trimestral divulgado pela companhia. O montante, equivalente a dezenas de trilhões de reais, mantém a empresa como a maior gestora de ativos do mundo e amplia a repercussão de suas decisões de alocação entre investidores institucionais.
Gestora abandona recomendação ampla e aumenta seletividade
A alteração nas ações emergentes não representa uma avaliação negativa generalizada sobre os países em desenvolvimento.
Segundo Axel Christensen, estrategista-chefe de investimentos da BlackRock para a América Latina, a redução decorre parcialmente da realização de ganhos acumulados no primeiro semestre, sobretudo nos mercados asiáticos diretamente associados à cadeia de semicondutores.
Empresas de Taiwan e Coreia do Sul foram beneficiadas pelo aumento da demanda por chips, memória e equipamentos utilizados em inteligência artificial. O desempenho elevou as bolsas desses países e aumentou a concentração da exposição aos emergentes em setores tecnológicos asiáticos.
Diante dessa valorização, a BlackRock passou a adotar uma posição neutra para o conjunto das ações emergentes. A decisão sinaliza que a gestora já não considera adequado manter uma exposição indiscriminada ao bloco, mas não elimina oportunidades específicas por país, setor ou empresa.
O próprio relatório destaca a América Latina como uma das regiões em que a construção da infraestrutura de inteligência artificial pode gerar demanda adicional. A tese inclui produtores de minerais, empresas de energia, operadores logísticos e negócios vinculados à expansão de redes elétricas e instalações industriais.
A BlackRock continua, porém, acima da média em ações dos Estados Unidos. A gestora entende que boa parte dos vencedores da inteligência artificial ainda deverá permanecer no mercado norte-americano, onde estão sediadas as maiores plataformas de tecnologia, computação em nuvem, semicondutores e data centers.
A visão sobre a América Latina funciona, portanto, como complemento e diversificação, e não como substituição integral da exposição aos Estados Unidos.
Renda fixa em moeda local passa a ocupar posição central
A principal mudança favorável aos emergentes ocorreu na renda fixa.
A BlackRock elevou de neutra para acima da média sua recomendação para títulos de mercados emergentes denominados nas moedas de cada país. Ao mesmo tempo, reduziu para neutra a posição em papéis emergentes emitidos em moedas fortes, como dólar e euro.
A gestora considera que a dívida em moeda local apresenta atualmente uma relação mais atraente entre rendimento e volatilidade. O argumento combina juros elevados, melhora de fundamentos em diferentes países e maior capacidade das economias emergentes de enfrentar choques externos.
Brasil, Colômbia e México foram citados por Christensen entre os mercados que oferecem oportunidades nesse segmento. No caso brasileiro, a combinação de juros nominais e reais elevados aumenta o retorno potencial dos títulos públicos e privados para investidores globais.
O Comitê de Política Monetária reduziu a Selic para 14,25% ao ano em junho de 2026. Mesmo após o corte, a taxa brasileira permanece entre as mais altas das grandes economias, mantendo elevada a remuneração dos ativos de renda fixa.
O retorno, no entanto, não pode ser interpretado de forma isolada. Taxas altas também refletem riscos relacionados à inflação, à dívida pública, ao crescimento das despesas e à necessidade de manter uma política monetária restritiva.
Para investidores estrangeiros, existe ainda a exposição cambial. Um título pode oferecer rendimento elevado em reais, mas parte ou todo o ganho pode ser reduzido caso a moeda brasileira se desvalorize diante do dólar.
A posição da BlackRock expressa uma avaliação favorável da relação entre risco e retorno, e não uma garantia de valorização dos títulos ou da moeda brasileira.
Títulos longos perderam parte do papel de proteção
A preferência pela renda fixa emergente também está ligada a uma mudança mais ampla no funcionamento dos portfólios globais.
Durante décadas, títulos públicos de economias desenvolvidas foram utilizados como proteção em períodos de queda das bolsas. A expectativa era que, diante de crises, os investidores migrassem para esses papéis, elevando seus preços e compensando parte das perdas da renda variável.
A BlackRock avalia que essa relação se tornou menos confiável. Inflação mais persistente, déficits públicos elevados e aumento da emissão de dívida obrigam os governos a oferecer remuneração maior, especialmente nos papéis de longo prazo.
Choques de oferta também podem pressionar simultaneamente ações e títulos. Um aumento abrupto nos preços da energia, por exemplo, pode reduzir as margens das empresas e elevar a inflação, provocando perdas nas duas classes de ativos.
Nesse contexto, a gestora prefere títulos soberanos de curto e médio prazos nos Estados Unidos e na Europa e mantém posição abaixo da média nos papéis norte-americanos de longo prazo.
Nos emergentes, a oportunidade está mais concentrada na renda gerada pelos juros do que na função tradicional de proteção. A BlackRock entende que o rendimento oferecido por alguns países compensa melhor a volatilidade esperada.
Brasil pode se beneficiar dos pontos de escassez da IA
O relatório da BlackRock tem como tema central a disputa entre escassez e abundância.
A inteligência artificial pode produzir abundância ao reduzir custos, automatizar tarefas, ampliar a capacidade de pesquisa e elevar a produtividade. Para chegar a esse resultado, entretanto, exige uma grande expansão física.
Modelos mais sofisticados precisam de centros de processamento, semicondutores, sistemas de refrigeração, redes de transmissão e uma quantidade crescente de energia elétrica. A construção dessas estruturas aumenta a demanda por cobre, lítio, níquel, grafita, terras raras e outros materiais industriais.
A Agência Internacional de Energia aponta que minerais críticos possuem aplicações centrais em redes elétricas, baterias, data centers, equipamentos de alta tecnologia, defesa e sistemas digitais. O cobre, em particular, é necessário em redes, veículos elétricos, construções, equipamentos industriais e instalações de processamento de dados.
O Brasil possui reservas relevantes de nióbio, grafita, terras raras, níquel, manganês, bauxita e lítio, além de produção de minério de ferro e uma matriz elétrica com participação elevada de fontes renováveis.
Esses recursos tornam o país potencial fornecedor para diferentes cadeias globais. O potencial, contudo, não é automaticamente convertido em crescimento econômico ou retorno para investidores.
Boa parte do valor agregado está nas etapas posteriores à extração: processamento, refino, produção de componentes, fabricação de equipamentos e desenvolvimento tecnológico. O país ainda enfrenta gargalos de infraestrutura, licenciamento, financiamento, logística e capacidade industrial.
O desafio é avançar além da exportação de matérias-primas e ampliar a presença brasileira nas etapas mais rentáveis das cadeias produtivas.
Energia, mineração e infraestrutura entram no radar
A visão da BlackRock amplia a exposição à inteligência artificial para setores que tradicionalmente não são classificados como tecnologia.
Empresas de geração e transmissão de energia podem se beneficiar da necessidade de abastecer data centers. Mineradoras podem receber demanda adicional por cobre, lítio e outros insumos. Companhias de logística podem participar do transporte de equipamentos e matérias-primas.
Também entram nesse grupo fabricantes de componentes elétricos, construtoras, operadores de infraestrutura e fornecedores de equipamentos industriais.
No mercado brasileiro, a tese pode alcançar companhias de mineração, energia, saneamento, concessões, equipamentos elétricos e logística. Isso não significa que todas as empresas desses setores serão beneficiadas da mesma forma.
O resultado dependerá da exposição efetiva aos projetos, da capacidade de investimento, do endividamento, dos custos, dos contratos e da qualidade da gestão de cada companhia.
A própria BlackRock defende uma abordagem granular. Em vez de escolher apenas um país ou setor, o investidor precisaria identificar onde estão as restrições físicas e quais empresas possuem condições de capturar o valor gerado pela solução desses gargalos.
América Latina oferece diversificação fora da tecnologia asiática
A América Latina possui participação relativamente pequena nos principais índices globais de mercados emergentes. A maior parte desses indicadores é concentrada em países asiáticos, como China, Taiwan, Índia e Coreia do Sul.
Essa composição ajuda a explicar por que a BlackRock reduziu a recomendação geral para ações emergentes mesmo mantendo uma leitura construtiva sobre a América Latina. A região latino-americana, isoladamente, não possui peso suficiente para determinar a avaliação de toda a classe.
Sua menor correlação com as empresas de semicondutores, contudo, pode funcionar como fonte de diversificação.
Enquanto parte da Ásia responde diretamente ao ciclo de chips, os países latino-americanos são mais influenciados por preços de commodities, política monetária, decisões fiscais, eleições e condições econômicas locais.
Christensen considera essa característica útil em um momento no qual os portfólios globais estão fortemente concentrados em inteligência artificial e grandes companhias norte-americanas.
A diversificação não elimina perdas. Ela procura reduzir a dependência de um único fator, país ou grupo de empresas.
Eleições aumentam volatilidade, mas não anulam a tese
O calendário eleitoral brasileiro tende a aumentar a volatilidade dos ativos no segundo semestre. Investidores acompanharão propostas fiscais, projeções para a dívida pública, prioridades orçamentárias e possíveis mudanças na política econômica.
A BlackRock trata as eleições como um fator específico do país, mas não como motivo suficiente para abandonar a exposição ao Brasil.
Christensen afirmou que, independentemente do resultado, o próximo governo enfrentará dois desafios: elevar o ritmo de crescimento econômico e criar condições para juros mais baixos que viabilizem investimentos de longo prazo.
A infraestrutura ocupa posição central nessa equação. Projetos de energia, transporte, saneamento, mineração e conectividade exigem financiamento por períodos extensos. Quanto maior o custo de capital, menor o número de projetos economicamente viáveis.
A redução sustentável dos juros dependerá do controle da inflação, da credibilidade da política monetária e da percepção sobre a trajetória das contas públicas.
O risco fiscal continua sendo uma das principais limitações da tese brasileira. Caso investidores passem a exigir remuneração maior para financiar o governo, as taxas de longo prazo podem permanecer elevadas mesmo com eventuais cortes da Selic.
Visão positiva exige seleção de ativos e controle de risco
O relatório não representa uma recomendação automática para comprar títulos ou ações brasileiras.
A posição acima da média em dívida emergente é uma orientação de alocação construída a partir de um investidor global em dólares e com horizonte de seis a 12 meses. O resultado individual varia conforme moeda, prazo, tributação, preço de entrada e perfil de risco.
Ações ligadas à mineração, energia e infraestrutura também permanecem sujeitas a oscilações de commodities, mudanças regulatórias, atrasos em projetos e aumento do endividamento.
A própria tese da escassez pode produzir efeitos contraditórios. A valorização de um mineral beneficia produtores, mas aumenta o custo de empresas que dependem desse insumo. O aumento da demanda por energia pode impulsionar investimentos, mas também gerar inflação e pressionar juros.
A mensagem central da BlackRock é que a inteligência artificial deixou de ser apenas uma tese sobre empresas de tecnologia. A expansão do setor depende de uma estrutura física que inclui eletricidade, minerais, fábricas, redes e logística.
O Brasil aparece nessa estratégia por reunir recursos naturais, produção energética, empresas de grande porte e um mercado financeiro capaz de financiar projetos. Para transformar esse potencial em crescimento e valorização dos ativos, o país ainda precisa ampliar investimentos, reduzir incertezas e melhorar as condições de financiamento.
Os próximos sinais virão da evolução da inflação, das decisões do Banco Central, do debate fiscal e do volume de investimentos anunciados em mineração, energia e infraestrutura. Esses fatores determinarão se o interesse identificado pela BlackRock será convertido em fluxo efetivo de capital para o mercado brasileiro.








