O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) firmou um compromisso de financiamento com a canadense Porter Aviation Holdings para viabilizar a exportação de até 19 jatos E195-E2 fabricados pela Embraer (EMBJ3). A operação, anunciada pela compradora em Toronto em 29 de julho, abrange entregas previstas até dezembro de 2030 e amplia o apoio público à comercialização externa de produtos brasileiros de alto valor agregado.
Os aviões fazem parte de uma encomenda firme de 75 unidades mantida pela Porter Airlines, controlada pela holding canadense. Desse total, 54 já haviam sido incorporadas à frota quando o novo compromisso foi anunciado. Três desses jatos contaram com apoio anterior do BNDES, o que torna a nova estrutura uma extensão relevante da relação financeira já estabelecida entre o banco e a companhia aérea.
O crédito terá cobertura do Seguro de Crédito à Exportação, lastreado pelo Fundo de Garantia à Exportação (FGE) e administrado pela Agência Brasileira Gestora de Fundos Garantidores e Garantias (ABGF). A proteção reduz a exposição do financiador a eventos que possam impedir o pagamento da dívida no exterior, sem transferir à Embraer a obrigação de financiar diretamente o cliente ao longo de todo o prazo.
Para a fabricante, o principal efeito é aproximar o recebimento financeiro da entrega dos aviões, enquanto a compradora estrangeira amortiza a operação conforme o contrato firmado com o banco. Esse desenho é especialmente relevante na indústria aeronáutica, na qual os valores por unidade são elevados, as encomendas atravessam vários anos e a disponibilidade de crédito pode influenciar a escolha do fornecedor.
Linha pós-embarque antecipa recursos ao exportador
O apoio se enquadra na lógica do BNDES Exim Pós-embarque para aeronaves. Nessa linha, o banco pode estruturar o crédito diretamente com o importador, na modalidade conhecida como buyer credit, ou descontar títulos gerados pela venda externa, no supplier credit. Nos dois casos, o mecanismo procura assegurar que o exportador receba no Brasil, em reais, e que o devedor estrangeiro pague a prazo.
Na modalidade de crédito ao comprador, a fabricante celebra o contrato comercial, apresenta ao BNDES as informações da exportação e as garantias e entrega a aeronave depois da aprovação. Comprovado o embarque e atendidas as condições contratuais, o banco libera os recursos ao exportador. A amortização fica a cargo do importador ou de outra pessoa jurídica que tenha assumido formalmente a dívida.
As regras gerais da linha para aeronaves permitem participação de até 85% do valor exportado e prazo de até 15 anos. Esses limites não significam que tenham sido integralmente aplicados à Porter, porque percentual financiado, custo, carência e cronograma de pagamentos dependem da análise de crédito e da estrutura específica de cada operação.
O custo de referência pode combinar títulos do Tesouro dos Estados Unidos, curva de juros da zona do euro ou Euribor, acrescido da remuneração do BNDES e da taxa correspondente ao risco de crédito. A linha prevê remuneração mínima de 0,9% ao ano para o banco, além de encargos administrativos aplicáveis. As condições efetivamente contratadas com a holding canadense não foram detalhadas no anúncio.
Seguro cobre inadimplência e eventos fora do controle das partes
A presença do FGE é central na montagem financeira. O Seguro de Crédito à Exportação pode cobrir risco comercial, como inadimplência, falência ou insolvência do comprador, e riscos políticos e extraordinários. Nesse segundo grupo estão restrições cambiais, moratórias, conflitos e eventos de força maior que impeçam o pagamento ou a transferência dos recursos ao Brasil.
A ABGF faz a análise, o acompanhamento e a gestão das coberturas concedidas pela União com lastro no fundo. Operações de grande porte com prazo superior a dois anos podem receber proteção contra riscos comerciais, políticos e extraordinários. A concessão também está sujeita a procedimentos de integridade e prevenção à corrupção previstos no sistema oficial de apoio às exportações.
Esse arranjo separa três funções. A Embraer produz e exporta os jatos; a Porter assume a aquisição e o pagamento; e o BNDES fornece o crédito, amparado pela cobertura pública de risco. O seguro não elimina a obrigação da compradora nem transforma a operação em transferência sem retorno: ele define como perdas cobertas seriam tratadas caso ocorra um evento previsto na apólice.
O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, associou o financiamento à diversificação da base de clientes da Embraer na América do Norte e à difusão de um modelo com tecnologias mais recentes e menor impacto ambiental. A entrada de uma companhia canadense na carteira direta do banco também amplia a distribuição geográfica das operações ligadas à fabricante brasileira.
Porter fez do E195-E2 o eixo de sua expansão
A Porter introduziu o E195-E2 em sua operação em 2023 e passou a usar o jato para ampliar a malha além de sua base tradicional no leste do Canadá. A companhia atende hoje destinos no Canadá, nos Estados Unidos, no México, no Caribe e na América Central, combinando os aviões da Embraer com turboélices De Havilland Dash 8-400 em rotas de perfis diferentes.
Em novembro de 2023, a empresa exerceu direitos de compra sobre mais 25 E195-E2, adicionados aos 50 pedidos firmes existentes. O lote adicional foi avaliado pela Embraer em US$ 2,1 bilhões a preços de tabela e levou o compromisso firme a 75 aeronaves, além de preservar direitos de compra para outras 25. Se esses direitos forem exercidos, a frota potencial poderá chegar a cem jatos do modelo.
A configuração escolhida pela Porter acomoda 132 passageiros, abaixo da capacidade máxima de 146 assentos informada para a aeronave. A cabine distribui duas poltronas de cada lado do corredor, sem assento central. O avião tem alcance aproximado de 3 mil milhas náuticas, ou 5.556 quilômetros, característica que permite conectar cidades canadenses a mercados dos Estados Unidos, do México e do Caribe sem depender de jatos maiores.
A fabricante entregou a 50ª unidade à companhia em dezembro de 2025. Nos sete meses seguintes, o total avançou para 54. A nova linha cobre até 19 dos 21 aviões ainda necessários para completar a encomenda firme, caso seja utilizada no limite, e oferece à Porter uma alternativa para financiar praticamente todo o fluxo remanescente de entregas até 2030.
Carteira recorde eleva pressão sobre produção e entregas
O compromisso surge em um momento de expansão da carteira da Embraer. A empresa encerrou o segundo trimestre de 2026 com US$ 34,5 bilhões em pedidos firmes, recorde pelo sétimo trimestre consecutivo. O montante cresceu 7% diante dos três primeiros meses do ano e 16% na comparação anual, segundo os dados corporativos mais recentes.
Na Aviação Comercial, a carteira chegou a US$ 15,1 bilhões, alta de 15% em doze meses. O programa E2 ultrapassou quinhentos pedidos firmes após novas encomendas registradas no trimestre. O avanço reforça a necessidade de combinar vendas, capacidade industrial, fornecedores e financiamento para transformar contratos de longo prazo em entregas e receita.
A fabricante entregou 65 aeronaves no segundo trimestre, seu melhor resultado para o período em 16 anos. Foram 20 jatos comerciais, entre eles seis E195-E2, e 45 unidades da aviação executiva. No primeiro semestre, as entregas totais somaram 109 aviões, cerca de 20% acima das 91 unidades registradas um ano antes.
Para 2026, a Embraer mantém a previsão de entregar de 80 a 85 aeronaves comerciais e de 160 a 170 jatos executivos. O financiamento à Porter não altera a quantidade já contratada, mas reduz uma das incertezas associadas ao recebimento das unidades que ainda serão produzidas. O vice-presidente executivo financeiro e de Relações com Investidores, Felipe Santana, classificou a companhia canadense como uma das maiores operadoras do E2 e destacou a parceria com o banco no apoio às exportações.
Parceria entre BNDES e Embraer começou em 1997
O BNDES iniciou o financiamento às exportações de aeronaves da Embraer em 1997, quando incorporou a modalidade de crédito direto ao comprador estrangeiro ao programa pós-embarque. Naquele ano, foram apoiados 35 aviões dos modelos ERJ-145 e EMB-120 destinados a companhias de Portugal e da França, conforme o histórico publicado pelo próprio banco.
Até julho de 2024, mais de 1.300 aeronaves haviam sido exportadas com financiamento superior a US$ 25 bilhões. Naquele momento, o BNDES formalizou uma operação de aproximadamente R$ 4,5 bilhões para 32 jatos E175 adquiridos por uma empresa dos Estados Unidos. O precedente mostra a escala necessária para sustentar contratos de aviação comercial em mercados disputados por fabricantes com acesso a agências de crédito à exportação.
O crédito oficial atua de forma complementar às alternativas privadas, que incluem empréstimos bancários, arrendamento e operações de venda com posterior locação. A escolha entre esses instrumentos depende do custo, da disponibilidade de capital e do perfil de cada lote de aeronaves.
No novo compromisso, o diretor financeiro da Porter, Rob Palmer, afirmou que a estrutura assegura uma alternativa para a maior parte do saldo de pedidos firmes. O passo seguinte será vincular o financiamento às entregas abrangidas pelo contrato e ao cumprimento das exigências documentais e de garantia. O limite temporal informado é dezembro de 2030, quando termina o fluxo planejado das aeronaves incluídas na operação.










