segunda-feira, 2 de novembro de 2026
contato@gazetamercantil.com
GAZETA MERCANTIL
GAZETA MERCANTIL
GAZETA MERCANTIL
Home Política

Caiado promete anistia ampla a Bolsonaro, mas evita detalhar ajuste fiscal e Previdência

Em sabatina no Jornal Nacional, candidato do PSD apresentou o perdão como caminho para “pacificar o país”, defendeu cooperação policial sul-americana e atacou a polarização, mas deixou sem resposta detalhes sobre Previdência, salário mínimo e cortes de despesas

por Carlos Menezes
26/08/2026 às 02h47
em Política
Ronaldo Caiado Globo Sabatina - Gazeta Mercantil

Reprodução: Globo/ Manoella Mello

O candidato do PSD à Presidência, Ronaldo Caiado, colocou a anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro e aos condenados pelos atos de 8 de Janeiro entre os compromissos centrais de sua campanha durante a sabatina do Jornal Nacional desta terça-feira (25). Ao longo de cerca de 40 minutos de entrevista, o ex-governador de Goiás tentou se apresentar como uma alternativa à disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o bolsonarismo, defendeu uma política de segurança mais agressiva contra o crime organizado e prometeu enviar ao Congresso um projeto de anistia “ampla, geral e irrestrita”.

A proposta foi apresentada por Caiado como um instrumento para encerrar o ciclo de confronto político iniciado após as eleições de 2022. Questionado pelos jornalistas César Tralli e Renata Vasconcellos sobre se o perdão alcançaria também Bolsonaro e pessoas condenadas pela tentativa de golpe de Estado, o candidato reafirmou que caberia ao Congresso definir o texto, mas não indicou exceções à anistia que pretende propor. Bolsonaro cumpre atualmente prisão domiciliar humanitária depois de ter sido condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 27 anos e três meses na ação penal sobre a tentativa de golpe.

Leia também: Eliziane Gama deixa o PSD após avanço de Caiado e se aproxima do PT.

A anistia dominou o início da entrevista e serviu de ponto de partida para a estratégia política que Caiado vem tentando construir. Ele afirmou que o país precisa sair da divisão permanente entre os campos de Lula e Bolsonaro e sustentou que um perdão amplo permitiria “pacificar o Brasil”. Na sabatina, vinculou diretamente as duas ideias e insistiu que encaminharia a medida ao Legislativo caso chegasse ao Palácio do Planalto.

Plano de governo fala em pacificação, mas anistia não aparece

A defesa de uma pacificação nacional está, de fato, no centro do programa apresentado por Caiado ao Tribunal Superior Eleitoral. O plano de governo de 100 páginas da chapa formada pelo PSD dedica um capítulo inteiro ao tema “Governar um país dividido” e afirma que a polarização teria reduzido a capacidade do Estado de enfrentar questões fiscais, econômicas e institucionais.

Leia também: Farmácias habilitadas já podem realizar exames clínicos.

Há, porém, uma diferença entre o documento registrado no TSE e o compromisso assumido na televisão. O programa diz que “pacificação não significa omissão, relativização da lei ou ausência de convicções” e propõe formação de maioria parlamentar, pacto de governabilidade, reorganização da relação entre Executivo e Congresso e respeito às competências constitucionais dos Poderes. Ao final do capítulo, estabelece como compromisso “pacificar o país”. A palavra “anistia”, contudo, só aparece uma vez em todo o documento, em um trecho sobre regularização ambiental, sem relação com o 8 de Janeiro.

Isso não impede que o candidato acrescente propostas durante a campanha, mas mostra que uma iniciativa que ganhou protagonismo na sabatina não havia sido incorporada ao programa formal entregue à Justiça Eleitoral. A questão tende a acompanhar Caiado nas próximas semanas porque a abrangência defendida na entrevista é maior do que uma simples revisão das penas aplicadas aos participantes do 8 de Janeiro.

O Congresso já aprovou neste ano a chamada Lei da Dosimetria, que alterou regras para reduzir penas em determinados crimes contra o Estado Democrático de Direito. O texto havia sido vetado pelo presidente Lula, mas o veto foi derrubado em abril por 318 deputados e 49 senadores, e a Lei nº 15.402 entrou em vigor em maio. Entre outras mudanças, a norma determina tratamento específico para crimes cometidos no mesmo contexto e estabelece redução de um terço a dois terços quando determinados delitos forem praticados em contexto de multidão, desde que o agente não tenha financiado os atos nem exercido liderança.

Anistia é algo diferente. Ela extingue a punição dos fatos abrangidos pela lei, enquanto a legislação de dosimetria altera a maneira como as penas são calculadas ou executadas. Há atualmente no Senado um projeto específico para conceder anistia a pessoas processadas ou condenadas por manifestações relacionadas ao 8 de Janeiro. O PL 3/2026, de Esperidião Amin (PP-SC), está na Comissão de Constituição e Justiça e tem como relator Fabiano Contarato.

Comparação com Lula não corresponde ao que STF decidiu

Para justificar sua posição, Caiado também comparou a situação de Bolsonaro à de Lula e afirmou que o Supremo teria concedido ao atual presidente um tratamento especial semelhante a uma anistia. A comparação, porém, mistura mecanismos jurídicos distintos.

Lula não foi anistiado. Em abril de 2021, o plenário do STF confirmou, por 8 votos a 3, a anulação das condenações impostas nos processos da Lava Jato julgados pela 13ª Vara Federal de Curitiba. A decisão foi tomada porque a Corte considerou aquele juízo incompetente para analisar as ações envolvendo o tríplex do Guarujá, o sítio de Atibaia e o Instituto Lula.

A diferença é relevante no debate proposto por Caiado. No caso de Lula, houve uma decisão judicial sobre a validade dos processos. Uma anistia a Bolsonaro ou aos condenados pelo 8 de Janeiro dependeria de lei aprovada pelo Congresso e teria como objeto extinguir efeitos penais de fatos definidos pelo Legislativo.

A comparação foi questionada durante a própria entrevista. Quando os apresentadores perguntaram sobre o alcance do perdão diante das condenações relacionadas à trama golpista e mencionaram o plano Punhal Verde Amarelo, Caiado não entrou no mérito de quais condutas deveriam permanecer fora da anistia e voltou ao argumento da pacificação.

Esse ponto tende a ser decisivo caso a promessa avance durante a campanha. Uma expressão como “ampla, geral e irrestrita” tem força política, mas a lei precisaria estabelecer objetivamente quais fatos, períodos e crimes seriam alcançados. Também teria de deixar claro se a medida se limitaria aos participantes dos atos de 8 de Janeiro ou abrangeria pessoas condenadas por planejamento, financiamento e articulação da tentativa de golpe.

Caiado tenta ocupar terceira via, mas deixa questões econômicas abertas

Se a anistia foi o tema em que Caiado apresentou sua posição de maneira mais direta, o mesmo não ocorreu em parte da agenda econômica. Questionado sobre ajuste fiscal, salário mínimo e Previdência Social, o candidato concentrou suas respostas na defesa de uma gestão mais eficiente, no combate a desvios e na reforma administrativa, sem especificar quais despesas seriam reduzidas ou quais mudanças pretende promover no sistema previdenciário. A falta de detalhamento foi um dos pontos de insistência dos entrevistadores.

A discussão ocorre num momento em que as contas públicas ocupam posição central na agenda do próximo presidente. Segundo o Banco Central, a Dívida Bruta do Governo Geral atingiu 81,9% do PIB em junho, ou R$ 10,8 trilhões, após avanço de 0,9 ponto percentual em apenas um mês. No acumulado do ano, o crescimento chegou a 3,3 pontos percentuais do PIB, influenciado principalmente pela incorporação de juros.

O próprio plano de Caiado reconhece o problema e dedica um capítulo à estabilização fiscal. O documento promete revisar privilégios, subsídios sem resultado e desperdícios, além de melhorar a qualidade do gasto público. Na sabatina, entretanto, quando pressionado a transformar as diretrizes em medidas concretas, o candidato não indicou quais programas ou despesas sofreriam cortes.

Essa distância entre diagnóstico e execução é particularmente relevante para uma candidatura que utiliza a experiência de Caiado em Goiás como demonstração de capacidade administrativa. O candidato recorre frequentemente ao ajuste fiscal realizado no Estado como credencial para assumir as contas federais, mas administrar um orçamento nacional com Previdência, dívida pública, transferências obrigatórias e vinculações constitucionais envolve uma estrutura significativamente mais complexa.

Proposta de polícia sul-americana já está no programa

Na segurança pública, Caiado apresentou uma proposta mais estruturada. Durante a sabatina, defendeu uma organização regional para combater narcotráfico, lavagem de dinheiro e contrabando de armas e afirmou que policiais poderiam atuar de maneira integrada em países vizinhos, desde que houvesse reciprocidade. A ideia foi comparada pelo candidato à Europol, agência europeia de cooperação policial.

Diferentemente da anistia, essa proposta consta expressamente no programa registrado no TSE. O documento prevê a criação da SULPOL, definida como uma agência permanente de cooperação policial sul-americana, destinada a integrar bases de dados, formar núcleos conjuntos de investigação e coordenar operações contra tráfico de drogas e armas, lavagem de dinheiro, cibercrime, tráfico de pessoas e outras redes criminosas transnacionais.

Há, entretanto, uma diferença entre a formulação escrita e a explicação dada na televisão. O plano fala em cooperação, inteligência e coordenação de operações. Na entrevista, Caiado sugeriu uma liberdade operacional mais ampla para forças de segurança atravessarem fronteiras, algo que dependeria de tratados, legislação específica e consentimento dos países envolvidos.

A própria referência à Europol tem limites. A agência europeia coordena informações e presta apoio técnico às forças nacionais, mas não possui poder próprio para prender cidadãos ou iniciar investigações. Essas atribuições continuam pertencendo às autoridades de cada país.

Caiado também rejeitou a possibilidade de permitir uma intervenção dos Estados Unidos em território brasileiro para combater organizações criminosas. Ao responder sobre soberania, afirmou que o país deve resolver internamente seus problemas de segurança, embora tenha defendido acordos internacionais de tecnologia e inteligência.

Anistia passa a ser teste da estratégia eleitoral

A sabatina deixou mais clara a posição que Caiado pretende ocupar na eleição. O candidato tenta se afastar simultaneamente de Lula e do grupo político de Bolsonaro, mas adota uma das bandeiras de maior apelo entre os apoiadores do ex-presidente. Ao prometer anistiar Bolsonaro, busca diálogo com o eleitor conservador; ao apresentar o perdão como uma política de pacificação e criticar a polarização, procura evitar que a proposta seja interpretada como adesão ao bolsonarismo.

A estratégia contém uma tensão evidente. Bolsonaro não é apenas personagem indireto do debate: foi condenado definitivamente pelo STF como líder da organização envolvida na tentativa de golpe e permanece cumprindo pena, atualmente em regime domiciliar humanitário. A promessa de Caiado, portanto, teria consequência concreta sobre a situação jurídica do ex-presidente caso fosse aprovada com alcance suficiente.

Ao mesmo tempo, o candidato ainda precisa dar conteúdo econômico à imagem de administrador que pretende levar para a disputa nacional. A entrevista mostrou que seu programa possui propostas detalhadas para segurança e um diagnóstico extenso da situação fiscal, mas questões como Previdência, política para o salário mínimo e medidas específicas para estabilizar a dívida continuaram abertas.

Caiado saiu da sabatina com uma promessa de fácil identificação eleitoral: se eleito, pretende enviar ao Congresso uma proposta abrangente de anistia. O próximo passo será explicar o que exatamente significa “ampla, geral e irrestrita” quando essa expressão sair do discurso político e precisar ser transformada em texto de lei — e como essa escolha se encaixa na candidatura de terceira via que ele tenta construir.

Leia também

  • TSE condena ex-vereador por violência política de gênero e impõe inelegibilidade de oito anos
  • Quem é Willer Tomaz, advogado próximo de Flávio Bolsonaro citado pela PF como “hub financeiro” no caso INSS

LEIA MAIS

Alcolumbre Marca Votação Da Pec Da Segurança Para Terça (3) E Maioridade Penal Divide Senado - Gazeta Mercantil - Política
Política

Alcolumbre marca votação da PEC da Segurança para terça (3) e maioridade penal divide Senado

Alcolumbre marca votação da PEC da Segurança Pública para terça (3). Proposta enfrenta impasse sobre redução da maioridade penal no Senado.

Leia MaisDetails
Willer Tomaz E Flavio Bolsonaro - Gazeta Mercantil
Política

Disputa entre Richarlison e Willer Tomaz em Angra expõe debate sobre terrenos de marinha

Disputa entre Richarlison e Willer Tomaz em Angra dos Reis expõe regras sobre terrenos de marinha e propostas de Flávio Bolsonaro no Senado.

Leia MaisDetails
Rafael Fonteles, Cogitado Para O Ministério Da Fazenda - Gazeta Mercantil
Política

Rafael Fonteles: governador do Piauí é cotado para ser ministro da Fazenda de Lula

Conheça Rafael Fonteles, governador reeleito do Piauí com 70,90% dos votos e cotado para ministro da Fazenda de Lula. Veja trajetória, gestão e propostas.

Leia MaisDetails
Ibovespa - Gazeta Mercantil
Ibovespa

Ibovespa apaga ganhos e fecha outubro com queda de 9,88%; dólar sobe 5,22%

Ibovespa fecha outubro com queda de 9,88%, pior mês desde junho de 2022. Dólar sobe 5,22% após eleições e mercado aguarda definições fiscais.

Leia MaisDetails
Ibovespa Sobe Com Petrobras E Petróleo Enquanto Mercado Acompanha Eleições E Juros Dos Eua-Gazeta Mercantil
Mercados

Dólar dispara 9,04% na semana e Ibovespa cai 18,12% após eleições

Dólar dispara 9,04% na semana, maior alta desde 2008, e Ibovespa cai 18,12% após eleições. Mercado reage a incertezas fiscais e juros elevados.

Leia MaisDetails

GAZETA MERCANTIL ENCERRADO

19:01:07
IBOV

IBOVESPA

B3
Consultando... buscando última cotação
$

DÓLAR

USD/BRL
Consultando... buscando última cotação
€

EURO

EUR/BRL
Consultando... buscando última cotação
₿

BITCOIN

BRL
Consultando... buscando última cotação
Gazeta Mercantil · dados de mercado
Sênior Sistemas Sênior Sistemas Sênior Sistemas
PUBLICIDADE

Veja Também

Admin Ajax 2025 12 11T094346.625 (1)
Economia

Nota fiscal do Simples Nacional mudou: veja 4 passos para emitir NFS-e no novo sistema

Leia MaisDetails
Telemarketing - Gazeta Mercantil
Economia

SAC terá atendimento humano obrigatório a partir de hoje; veja as novas regras

Leia MaisDetails
Bitcoin (Btc) E Criptomoedas (Imagem: Canva Pro)
Criptomoedas

Binance registra saída de US$ 4,72 bilhões após ataque hacker de US$ 6,3 bilhões

Leia MaisDetails
Embraer (Embj3) Salta Quase 8% E Lidera Ibovespa Com Expectativa De Novos Contratos-Gazeta Mercantil
Empresas

Embraer (EMBJ3) fecha acordo para até seis aviões KC-390 à Grécia; contrato inicial soma € 590 milhões

Leia MaisDetails
Ouro Hoje - Gzt - Gazeta Mercantil
Mercados

Ouro sobe quase 2% com queda do petróleo e fecha a US$ 3.969,60

Leia MaisDetails

EDITORIAS

  • Economia
  • Mercados
    • Dólar
    • Ibovespa
    • Fundos Imobiliários
    • Criptomoedas
  • Empresas
  • Negócios
  • Política
  • Brasil
  • Mundo
  • Tecnologia
  • Agronegócio
  • Trabalho
  • Saúde
  • Loterias
  • Esportes
    • Futebol
  • Cultura & Lazer
    • Filmes e Séries
  • Lifestyle
  • Anuncie Conosco
Gazeta Mercantil Logo White

contato@gazetamercantil.com

Gazeta Mercantil — marca jornalística fundada em 1920, com continuidade editorial contemporânea no ambiente digital por meio do domínio oficial gazetamercantil.com.

EDITORIAS

  • Economia
  • Mercados
    • Dólar
    • Ibovespa
    • Fundos Imobiliários
    • Criptomoedas
  • Empresas
  • Negócios
  • Política
  • Brasil
  • Mundo
  • Tecnologia
  • Agronegócio
  • Trabalho
  • Saúde
  • Loterias
  • Esportes
    • Futebol
  • Cultura & Lazer
    • Filmes e Séries
  • Lifestyle
  • Anuncie Conosco

Veja Também:

Nota fiscal do Simples Nacional mudou: veja 4 passos para emitir NFS-e no novo sistema

SAC terá atendimento humano obrigatório a partir de hoje; veja as novas regras

Binance registra saída de US$ 4,72 bilhões após ataque hacker de US$ 6,3 bilhões

Embraer (EMBJ3) fecha acordo para até seis aviões KC-390 à Grécia; contrato inicial soma € 590 milhões

Ouro sobe quase 2% com queda do petróleo e fecha a US$ 3.969,60

Hackers atacam supermercados na Europa e elevam temperatura de freezers a 50°C

  • Anuncie Conosco
  • Política de Correções
  • Política Editorial
  • Política de Privacidade
  • Termos de Uso
  • Sobre a Gazeta Mercantil
  • Expediente
  • Política de Conflitos de Interesse

© 2026 GAZETA MERCANTIL - Marca jornalística fundada em 1920. Site oficial: gazetamercantil.com - Todos os direitos reservados. - ISSN 1519-0129 - contato@gazetamercantil.com - Grupo SMEdit - Av.Paulista 777 - Bela Vista - São Paulo - SP

  • Economia
  • Mercados
    • Dólar
    • Ibovespa
    • Fundos Imobiliários
    • Criptomoedas
  • Empresas
  • Negócios
  • Política
  • Brasil
  • Mundo
  • Tecnologia
  • Agronegócio
  • Trabalho
  • Saúde
  • Loterias
  • Esportes
    • Futebol
  • Cultura & Lazer
    • Filmes e Séries
  • Lifestyle
  • Anuncie Conosco

© 2026 GAZETA MERCANTIL - Marca jornalística fundada em 1920. Site oficial: gazetamercantil.com - Todos os direitos reservados. - ISSN 1519-0129 - contato@gazetamercantil.com - Grupo SMEdit - Av.Paulista 777 - Bela Vista - São Paulo - SP

Últimas notícias da Gazeta Mercantil