A CazéTV se consolidou como o maior fenômeno da mídia esportiva brasileira da última década. Com números que impressionam até os maiores grupos
de comunicação do país, a plataforma digital acumula 31 milhões de inscritos, ultrapassa 8 bilhões de visualizações no YouTube e faturou cerca de R$ 2 bilhões apenas com patrocínios da Copa do Mundo de 2026. A operação, controlada pela LiveMode, já recebeu aportes de R$ 450 milhões de fundos como General Atlantic e XP, e projeta expandir sua atuação
para novos mercados, mostrando que o modelo tradicional de transmissão de jogos deixou de ser a única via de sucesso.
A trajetória de crescimento começou longe dos grandes estúdios e das estruturas consolidadas da televisão aberta. O diferencial esteve na combinação de uma estratégia ousada de negociação de direitos, um conteúdo adaptado ao comportamento do público digital e uma linguagem próxima e autêntica, que transformou espectadores em uma comunidade engajada e fiel.
Origem: aposta no digital antes que o mercado enxergasse a tendência
A LiveMode, empresa responsável pela CazéTV, foi criada em 2017 pelos executivos Edgar Diniz e Sérgio Lopes, com passagens anteriores por veículos esportivos. No início, a operação era pequena: funcionava em um espaço compartilhado, contava com poucos colaboradores e tinha como foco principal a distribuição
de conteúdo por plataformas digitais — uma aposta considerada arriscada na época, quando a maior parte dos recursos e contratos ainda ficava restrita à TV convencional.
O ponto de inflexão aconteceu em 2022, durante a Copa do Mundo do Catar. A equipe identificou uma oportunidade inédita: os direitos de transmissão digital dos jogos ainda não haviam sido fechados com nenhuma emissora. A negociação direta com a Fifa garantiu à LiveMode a exclusividade para veicular as partidas no ambiente online.
Para colocar o projeto em prática, os gestores convidaram Casimiro Miguel, até então conhecido por produzir conteúdo leve e informal, para ser a voz e a imagem da transmissão. A estreia, no confronto entre Brasil e Sérvia, registrou 3,5 milhões de espectadores simultâneos — um recorde absoluto para transmissões esportivas no YouTube no Brasil e um sinal claro de que o modelo tinha potencial.
Autenticidade como o principal ativo do negócio
Ao contrário do formato tradicional, com apresentadores com discursos ensaiados e análises rígidas, a CazéTV adotou uma linguagem próxima da conversa cotidiana. Casimiro, que costuma iniciar sua rotina profissional apenas por volta do meio-dia, mantém nas transmissões a mesma espontaneidade que marcou seu conteúdo inicial.
“Quem assiste não está buscando apenas uma narração ou uma avaliação técnica do jogo, está buscando uma experiência compartilhada”, destaca a colunista e investidora Camila Farani. Essa característica ajudou a transformar audiência em comunidade. Um exemplo marcante ocorreu nas quartas de final da Copa do Catar, quando a seleção brasileira foi eliminada pela Croácia: quase 7 milhões de pessoas acompanharam a partida ao mesmo tempo, dividindo a mesma emoção, algo que ampliou a percepção de pertencimento do público.
Esse tipo de vínculo é difícil de replicar com estratégias convencionais de marketing. A fidelidade do espectador faz com que ele permaneça conectado mesmo que haja pequenos atrasos ou diferenças em relação às transmissões da TV, reforçando o valor do modelo construído.
Investimentos e receitas confirmam solidez do modelo
Os números financeiros refletem a força da operação. Somente em 2025, a plataforma registrou 3,7 bilhões de visualizações. A estrutura de capital também foi reforçada: a LiveMode recebeu um aporte de R$ 450 milhões, com participação da General Atlantic, um dos maiores fundos de investimento globais, e do braço de investimentos da XP.
Para a Copa do Mundo de 2026, a receita comercial atingiu R$ 2 bilhões, com a venda de 11 cotas de patrocínio no valor de R$ 185 milhões cada. Grandes marcas como a Vivo aderiram ao projeto, reconhecendo que a atenção do público jovem está cada vez mais concentrada no ambiente digital.
O
mercado de direitos de mídia esportiva deve alcançar R$ 12 bilhões no Brasil nos próximos anos, segundo projeções do Itaú BBA. A CazéTV já ocupa uma posição central nesse cenário, competindo em igualdade de condições com grupos que atuam há décadas no setor.
Expansão abre novas frentes de crescimento
Com a consolidação no mercado nacional, a empresa passou a ampliar seu alcance. Lançou um canal em Portugal, tendo como sócio o jogador Cristiano Ronaldo, e estuda atuar também na televisão aberta. Além disso, garantiu os direitos de transmissão da Copa Libertadores e fechou acordos de longo prazo com clubes brasileiros, com contratos que se estendem até 2075.
O cenário global também é favorável: o mercado de transmissão esportiva por streaming deve chegar a US$ 14,2 bilhões até o final de 2026, conforme dados do setor. Nesse ambiente, a CazéTV construiu uma posição que muitas emissoras tradicionais ainda buscam, em um tempo muito menor.
Mesmo com todo o sucesso, a equipe reconhece que o setor continua em transformação. “Alguém pode estar criando, hoje, o modelo que vai mudar o que construímos. Não é impossível — afinal, eu mesmo comecei de uma forma simples”, comentou Casimiro em entrevista recente.
A trajetória da plataforma mostra que as regras do jogo mudaram. O sucesso na mídia esportiva não depende mais apenas de estruturas grandes ou tradição, mas da capacidade de entender o público, criar vínculos e agir com agilidade. É essa combinação que transformou um projeto iniciado em um espaço compartilhado em uma das maiores potências do mercado de comunicação do país.