Com a Selic em 14% ao ano, a renda fixa continua oferecendo retornos elevados ao investidor brasileiro e duas alternativas baseadas em títulos públicos passaram a disputar atenção: o Tesouro Selic, comprado diretamente pelo Tesouro Direto, e o LFTB11, ETF negociado na B3.
Apesar de ambos investirem em dívida pública federal, os produtos têm estruturas diferentes. O Tesouro Selic dá ao investidor exposição direta a uma Letra Financeira do Tesouro (LFT), título pós-fixado cuja remuneração acompanha a taxa básica de juros. O LFTB11 reúne diversas LFTs e também uma parcela de títulos indexados à inflação.
Na composição divulgada pela Investo com data-base de 1º de setembro de 2026, o ETF tinha como principais posições LFTs com diferentes vencimentos e uma NTN-B com vencimento em agosto de 2060 equivalente a aproximadamente 9,18% da carteira. O índice de referência utilizado pelo fundo possui atualmente 17 títulos.
Essa parcela de Tesouro IPCA+ faz com que o comportamento do LFTB11 não seja idêntico ao de uma aplicação direta em Tesouro Selic. Em contrapartida, o ETF apresenta uma característica tributária relevante: na configuração atual da carteira, o Imposto de Renda é de 15% sobre o ganho, independentemente do período pelo qual o investidor mantém as cotas. Não há incidência de IOF nem come-cotas.
No Tesouro Selic, o IR segue a tabela regressiva tradicional da renda fixa e só chega aos mesmos 15% após mais de 720 dias.
A escolha depende, portanto, não apenas da rentabilidade esperada, mas também de prazo, tributação, custos e objetivo do investimento.
LFTB11 mistura Tesouro Selic e Tesouro IPCA+
O LFTB11 é um ETF de renda fixa gerido pela Investo e listado na B3. O fundo procura acompanhar o MarketVector Brazil Treasury 760 Day Target Duration Index.
A metodologia busca um prazo de repactuação próximo de 760 dias. Os títulos LFT que atendem às regras de elegibilidade entram no índice e uma NTN-B de prazo longo recebe peso suficiente para aproximar a carteira do objetivo estabelecido.
Na página oficial do fundo consultada em setembro, o prazo médio informado era de 764,67 dias.
Na composição de 1º de setembro, a maior posição era uma LFT com vencimento em março de 2027, com 11,56%. A LFT de setembro de 2027 representava 9,98%, enquanto a NTN-B de agosto de 2060 tinha participação de 9,18%.
Também estavam entre as principais posições LFTs com vencimentos entre 2028 e 2032.
Isso significa que o investidor não está simplesmente comprando Tesouro Selic por meio da Bolsa. Está adquirindo uma carteira de títulos públicos construída segundo uma metodologia específica.
Tesouro Selic oferece estrutura mais simples
No Tesouro Selic, o investidor compra diretamente uma LFT emitida pelo Tesouro Nacional.
O rendimento acompanha a Selic, acrescido ou reduzido pela pequena taxa negociada no momento da aquisição.
O título sofre marcação a mercado, o que significa que uma venda antes do vencimento ocorre pelo preço vigente naquele momento. Como se trata de um papel pós-fixado, porém, suas oscilações normalmente são menores do que as verificadas em títulos prefixados ou IPCA+ de prazo longo.
No LFTB11, a parcela de NTN-B acrescenta uma fonte adicional de variação de preço.
IR de 15% é uma das principais diferenças
A tributação é um dos pontos mais relevantes da comparação.
No Tesouro Selic, o Imposto de Renda segue a tabela regressiva:
- 22,5% para aplicações de até 180 dias;
- 20% entre 181 e 360 dias;
- 17,5% entre 361 e 720 dias;
- 15% acima de 720 dias.
Caso haja resgate nos primeiros 30 dias, também incide IOF regressivo sobre o rendimento.
No LFTB11, a tributação dos ETFs de renda fixa depende do prazo médio de repactuação da carteira, e não do período pelo qual cada investidor mantém as cotas.
Como o fundo está enquadrado na faixa superior a 720 dias, sua alíquota atual é de 15% sobre o ganho, inclusive para quem vende antes de completar dois anos.
O imposto é retido na fonte, e o ETF não sofre come-cotas nem IOF.
Essa característica pode favorecer o LFTB11 em aplicações de curto e médio prazo.
Tributação menor não garante retorno maior
A diferença fiscal, isoladamente, não determina qual investimento entregará o maior resultado líquido.
Considere dois investimentos hipotéticos que produzam R$ 1 mil de ganho e sejam encerrados após um ano.
No Tesouro Selic, a alíquota de 17,5% resultaria em R$ 175 de Imposto de Renda. No LFTB11, considerando a alíquota atual de 15%, seriam R$ 150.
A diferença seria de R$ 25 para cada R$ 1 mil de rendimento.
O cálculo serve apenas para mostrar o efeito do imposto. Os dois produtos não necessariamente terão a mesma rentabilidade no período, porque o ETF contém uma parcela de Tesouro IPCA+ e possui custos próprios.
LFTB11 cobra 0,19% ao ano
A taxa de administração e gestão do LFTB11 é de 0,19% ao ano e já é descontada do patrimônio do fundo.
No Tesouro Direto, a taxa de custódia da B3 é de 0,20% ao ano, mas há isenção para posições de até R$ 10 mil por CPF em Tesouro Selic.
Quando o saldo supera esse valor, a cobrança incide somente sobre a parcela excedente.
Assim, para aplicações menores, o Tesouro Selic pode apresentar vantagem de custo. No ETF, a taxa de 0,19% incide sobre todo o patrimônio aplicado.
Também é necessário considerar eventuais tarifas da instituição financeira, embora muitas corretoras pratiquem taxa zero tanto no Tesouro Direto quanto na negociação de ETFs.
Liquidez funciona de maneira diferente
O Tesouro Selic possui liquidez diária oferecida pelo Tesouro Nacional.
Nas regras atuais, resgates solicitados em dias úteis entre 9h30 e 13h podem ter os recursos disponibilizados a partir das 13h do mesmo dia. Solicitações posteriores seguem os prazos previstos pelo Tesouro Direto.
No LFTB11, a saída ocorre pela venda das cotas na B3 durante o horário de negociação, e a liquidação financeira acontece em D+1.
O ETF possui formador de mercado, que ajuda a manter ofertas de compra e venda, mas o investidor continua sujeito aos preços disponíveis no mercado secundário.
Para dinheiro que pode precisar ser utilizado rapidamente, essa diferença operacional deve entrar na decisão.
NTN-B pode ampliar ganhos e perdas
A parcela de NTN-B 2060 é a principal fonte de comportamento diferente em relação ao Tesouro Selic.
Quando os juros reais de mercado caem, o preço dos títulos IPCA+ tende a subir, o que pode favorecer o desempenho do LFTB11.
Quando os juros reais avançam, o efeito é inverso.
Como o título da carteira tem vencimento longo, mesmo uma participação inferior a 10% pode influenciar o resultado do ETF em períodos de maior movimentação das taxas.
Por essa razão, a rentabilidade passada do LFTB11 não deve ser tratada como indicação de que o fundo sempre superará o Tesouro Selic.
Para reserva de emergência, Tesouro Selic tende a ser mais adequado
Quando o dinheiro tem função de reserva de emergência, simplicidade e disponibilidade costumam pesar mais do que eficiência tributária.
O Tesouro Selic oferece exposição direta a um título pós-fixado, menor sensibilidade às taxas de mercado e possibilidade de resgate dentro das regras do Tesouro Direto.
O LFTB11 pode oferecer tributação mais favorável em períodos curtos, mas sua liquidação ocorre em D+1 e sua carteira contém exposição a títulos IPCA+.
Para recursos que não precisam estar imediatamente disponíveis, essas diferenças podem ter peso menor.
Selic em 14% mantém pós-fixados competitivos
A comparação ganhou relevância porque os juros brasileiros permanecem elevados.
O Comitê de Política Monetária reduziu a Selic para 14% ao ano em agosto de 2026.
Mesmo após o corte, o nível continua favorecendo aplicações pós-fixadas vinculadas aos juros básicos.
No Relatório Focus divulgado nesta semana, a mediana das projeções apontava Selic de 13,75% ao final de 2026, indicando expectativa de redução gradual dos juros.
Esse cenário mantém as LFTs competitivas e, ao mesmo tempo, pode favorecer títulos de inflação caso as taxas reais recuem.
Afinal, LFTB11 ou Tesouro Selic?
O Tesouro Selic tende a fazer mais sentido para quem procura simplicidade, menor oscilação e exposição direta à taxa básica de juros, especialmente quando o dinheiro poderá ser necessário em curto prazo.
O LFTB11 pode ser interessante para quem aceita as características de uma carteira que combina LFTs e IPCA+, deseja negociar o investimento pela Bolsa e valoriza a alíquota atual de 15% de IR mesmo antes de dois anos.
Para valores de até R$ 10 mil, a isenção da taxa de custódia da B3 também aumenta a competitividade do Tesouro Selic.
Já a principal vantagem estrutural do LFTB11 está na tributação e na possibilidade de manter uma carteira diversificada de títulos públicos em uma única cota.
A escolha não deve ser resumida à pergunta sobre qual investimento paga menos imposto. Embora ambos tenham títulos públicos como base, Tesouro Selic e LFTB11 cumprem funções diferentes e podem produzir resultados distintos conforme o prazo e o comportamento dos juros.
Fontes:
Investo – composição, tributação, taxa de administração, prazo médio, horários de negociação e liquidação do LFTB11
MarketVector – metodologia e composição do MarketVector Brazil Treasury 760 Day Target Duration Index
Tesouro Direto – regras de tributação, liquidez e taxa de custódia do Tesouro Selic
B3 – regras tributárias aplicáveis aos ETFs de renda fixa
Banco Central do Brasil – decisões do Comitê de Política Monetária e taxa Selic vigente









