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Copom reduz Selic para 14% em decisão unânime e mantém cautela com inflação

Banco Central promove o quarto corte consecutivo de 0,25 ponto, mas mantém os juros em nível restritivo diante dos riscos inflacionários.

por Camila Braga
05/08/2026 às 19h17
em Economia
Taxa Selic - Gazeta Mercantil

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduziu nesta quarta-feira, 5 de agosto, a taxa Selic de 14,25% para 14% ao ano. A decisão foi unânime e representou o quarto corte consecutivo de 0,25 ponto percentual desde o início do ciclo de flexibilização monetária, em março. Mesmo com a nova redução, o colegiado manteve uma comunicação cautelosa e afirmou que a política monetária precisa continuar suficientemente restritiva para assegurar a convergência da inflação à meta.

A decisão diminuiu a taxa básica em 1 ponto percentual desde janeiro, quando a Selic estava em 15% ao ano. O ritmo permaneceu gradual porque, embora os indicadores mais recentes mostrem desaceleração da inflação e moderação da atividade econômica, o Banco Central ainda identifica pressões no mercado de trabalho, incerteza externa elevada e riscos inflacionários acima do padrão histórico.

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No cenário de referência do Copom, a inflação projetada para o primeiro trimestre de 2028, novo horizonte relevante da política monetária, ficou em 3,2%. O número está próximo da meta contínua de 3%, mas ainda acima dela. A projeção reforçou a avaliação de que o processo de desinflação avança lentamente e exige manutenção dos juros em terreno contracionista.

Corte mantém ciclo gradual iniciado em março

O Banco Central manteve a Selic em 15% na reunião de janeiro e iniciou o ciclo de redução em março, quando cortou a taxa para 14,75%. Em abril, promoveu nova diminuição para 14,50%, e em junho levou o juro básico a 14,25%. Com a decisão de agosto, o Copom acumulou quatro cortes consecutivos de 0,25 ponto percentual.

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A sequência mostra que o colegiado optou por calibrar a política monetária sem acelerar o ritmo, mesmo diante da melhora de alguns índices de preços. A estratégia busca evitar que uma flexibilização mais rápida reative pressões inflacionárias, provoque desancoragem adicional das expectativas ou comprometa a credibilidade do regime de metas.

A Selic de 14% continua elevada em termos nominais e reais. O nível permanece capaz de restringir o consumo, o crédito e os investimentos financiados, ao mesmo tempo em que aumenta a atratividade de aplicações vinculadas aos juros de curto prazo. O corte não significa abandono da postura contracionista, mas uma redução moderada do grau de aperto.

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A autoridade monetária também evitou antecipar a decisão de setembro. Ao afirmar que seguirá acompanhando a evolução do cenário, o comitê preservou liberdade para cortar novamente, interromper temporariamente o ciclo ou alterar o ritmo, conforme o comportamento da inflação, das expectativas, da atividade e dos mercados.

Inflação desacelera, mas permanece acima do limite

Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostram melhora na inflação corrente. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) avançou 0,16% em junho, após alta de 0,58% em maio. Em 12 meses, o índice acumulou 4,64%, ainda acima do limite superior de 4,50% estabelecido no regime de metas.

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A prévia da inflação de julho reforçou o movimento de desaceleração. O IPCA-15 subiu 0,06% no mês e acumulou 4,52% em 12 meses, praticamente encostado no teto da faixa de tolerância. O resultado foi inferior aos 4,80% registrados nos 12 meses encerrados em junho pelo mesmo indicador.

A meta contínua de inflação é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo, o que estabelece uma faixa entre 1,5% e 4,5%. Desde janeiro de 2025, a verificação ocorre com base na inflação acumulada em 12 meses, apurada mensalmente, e não apenas no índice fechado em dezembro.

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No comunicado, o Copom reconheceu que a inflação cheia desacelerou. As medidas subjacentes, que procuram retirar itens mais voláteis para identificar a tendência dos preços, também perderam força e passaram a um patamar ligeiramente inferior ao limite superior da meta. Ainda assim, a autoridade monetária não considerou o processo suficientemente consolidado para acelerar os cortes.

Mercado de trabalho limita espaço para redução mais rápida

A atividade econômica apresenta sinais de moderação gradual, mas o Banco Central identificou comportamento desigual entre os setores. Parte dos indicadores aponta desaceleração, enquanto outros continuam demonstrando resistência. Essa combinação dificulta a avaliação sobre a intensidade efetiva do esfriamento da economia.

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O mercado de trabalho permanece entre as principais fontes de atenção. Níveis elevados de ocupação e renda podem sustentar a demanda por serviços, segmento no qual a inflação costuma responder mais lentamente aos juros. Quando empresas enfrentam custos salariais crescentes e consumidores mantêm capacidade de gasto, a redução da inflação de serviços tende a ocorrer de maneira mais demorada.

A política monetária atua com defasagem. Cortes realizados agora não se traduzem imediatamente em crédito mais barato, aumento do consumo ou retomada dos investimentos. Da mesma forma, os efeitos dos juros elevados mantidos durante os trimestres anteriores continuam sendo transmitidos para a economia e podem aprofundar a desaceleração nos próximos meses.

Essa defasagem explica parte da cautela. Se o Copom esperar todos os indicadores confirmarem uma desaceleração intensa, poderá manter uma restrição excessiva. Se reduzir os juros rápido demais, poderá interromper a convergência da inflação. A estratégia de cortes pequenos procura administrar esses dois riscos.

Cenário externo amplia volatilidade para emergentes

O Copom voltou a destacar a incerteza no ambiente internacional. Os conflitos armados no Oriente Médio afetam petróleo, energia, transporte e expectativas globais. Oscilações expressivas das commodities podem chegar à inflação brasileira por meio dos combustíveis, dos custos de produção, do frete e da taxa de câmbio.

A indefinição sobre a política monetária em economias avançadas também interfere nas decisões brasileiras. Juros elevados nos Estados Unidos e em outros mercados desenvolvidos aumentam a atratividade de ativos denominados em moedas fortes, pressionam fluxos de capitais para países emergentes e podem provocar desvalorização cambial.

Um real mais fraco encarece produtos importados, insumos industriais, combustíveis e componentes tecnológicos. Embora o repasse cambial não seja automático nem integral, uma desvalorização persistente aumenta o risco de inflação e reduz o espaço para cortes mais rápidos da Selic.

O balanço de riscos permanece mais elevado que o usual, tanto para cima quanto para baixo, mas com assimetria altista. Isso significa que, na avaliação do Copom, os fatores capazes de levar a inflação acima do cenário central têm peso maior do que aqueles que poderiam produzir uma desinflação mais intensa.

Selic de 14% ainda restringe crédito e consumo

A redução de 0,25 ponto percentual tende a produzir efeitos graduais sobre o custo do dinheiro. Linhas de crédito para empresas e consumidores não acompanham a Selic de forma imediata ou proporcional, pois também incorporam inadimplência, despesas administrativas, impostos, garantias, prazos e margens das instituições financeiras.

Em financiamentos longos, como crédito imobiliário e operações de investimento empresarial, a trajetória esperada dos juros futuros pode ser tão importante quanto a taxa corrente. Se o mercado acreditar que o processo de queda continuará com inflação controlada, os custos podem recuar. Caso aumentem as dúvidas sobre os preços, os juros de longo prazo podem permanecer elevados.

Para empresas, a redução diminui marginalmente o custo de novas captações vinculadas ao CDI e pode aliviar despesas financeiras ao longo do tempo. O impacto é maior em companhias endividadas a taxas pós-fixadas. Para consumidores, a mudança pode aparecer lentamente em empréstimos pessoais, consignado e financiamento de veículos.

Mesmo depois do corte, aplicações vinculadas à Selic ou ao CDI continuam oferecendo remuneração nominal elevada. Títulos públicos pós-fixados, CDBs e outros instrumentos de renda fixa permanecem beneficiados pelo nível dos juros, embora o retorno líquido dependa de tributação, prazo, risco de crédito e custos.

Bolsa e câmbio dependem da trajetória futura

Juros menores reduzem a taxa utilizada para descontar resultados futuros e podem favorecer empresas mais dependentes do crédito ou do consumo. Entretanto, uma Selic de 14% ainda representa concorrência relevante para ativos de risco e mantém elevado o custo de capital das companhias.

O câmbio responde à diferença entre juros domésticos e externos, mas não apenas a ela. Fluxos comerciais, preços de commodities, cenário fiscal, eleições e percepção de risco também influenciam o real. Por isso, um corte de 0,25 ponto percentual não permite prever sozinho a direção do dólar.

A reação dos mercados também dependerá da leitura sobre a continuidade do ciclo. Caso investidores entendam que a inflação continuará cedendo, as taxas futuras podem recuar. Se os riscos inflacionários aumentarem, o mercado pode antecipar uma pausa ou até uma interrupção mais prolongada dos cortes.

Próxima decisão dependerá de novos dados

A próxima reunião ordinária do Copom está marcada para 15 e 16 de setembro. Até lá, o colegiado avaliará novas leituras de inflação, atividade, emprego, crédito, câmbio e expectativas. A ata da reunião de agosto deverá detalhar os argumentos discutidos pelos integrantes e indicar como o Banco Central interpreta a evolução dos riscos.

O ponto central será verificar se a inflação continuará se aproximando da faixa de tolerância sem perda de controle das expectativas. Também será relevante observar se o mercado de trabalho começa a apresentar sinais mais consistentes de moderação e se as pressões externas sobre energia e câmbio diminuem.

Ao reduzir a Selic para 14%, o Banco Central manteve o ciclo de flexibilização, mas não sinalizou uma retirada rápida da restrição monetária. A decisão combina reconhecimento da melhora dos indicadores com a avaliação de que a inflação ainda não convergiu de forma segura para a meta.

O cenário de referência de 3,2% para o primeiro trimestre de 2028 mostra que o Copom trabalha com uma convergência lenta. A continuidade dos cortes dependerá de evidências de que a desaceleração dos preços é sustentável e de que a redução dos juros não comprometerá o retorno da inflação ao objetivo de 3%.

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