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CSN (CSNA3) troca CEO após 24 anos; Fabio Schvartsman assume lugar de Steinbruch

Ex-presidente da Vale (VALE3) assume o comando executivo enquanto Steinbruch passa ao conselho e grupo acelera estratégia para reduzir endividamento.

por João Souza
03/09/2026 às 03h07
em Empresas
Csn (Csna3) - Gazeta Mercantil

A Companhia Siderúrgica Nacional (CSN — CSNA3) fará nesta quinta-feira, 3 de setembro, sua maior mudança de comando em mais de duas décadas. Fabio Schvartsman assumirá a presidência executiva no lugar de Benjamin Steinbruch, que deixa a função exercida desde abril de 2002 e passa a presidir o Conselho de Administração da companhia. A troca ocorre justamente quando o grupo intensifica uma estratégia de venda de ativos, alongamento da dívida e reorganização da estrutura de capital.

A mudança foi aprovada pelo Conselho de Administração da CSN e comunicada ao mercado em fato relevante nesta quarta-feira, 2. Steinbruch não está deixando o grupo nem perdendo sua influência sobre as decisões estratégicas: ele retorna à presidência do conselho, posição que ocupou anteriormente entre 1995 e 2023. Schvartsman passa a responder pela administração executiva e pelo cotidiano de um conglomerado que hoje reúne siderurgia, mineração, cimento, logística e energia. Leia também: FMI assume que banir criptomoedas não é efetivo.

A sucessão encerra uma permanência de aproximadamente 24 anos e quatro meses de Steinbruch como diretor-presidente. Segundo informações corporativas da própria CSN, ele ocupa a função desde 30 de abril de 2002. Ao longo desse período, a companhia deixou de estar concentrada apenas na produção de aço e construiu uma estrutura diversificada, mas também acumulou um nível de endividamento que passou a ocupar posição central na estratégia financeira e na avaliação dos investidores.

O novo CEO assume uma empresa que encerrou junho com dívida líquida consolidada de R$ 42,14 bilhões e alavancagem de 3,49 vezes a relação entre dívida líquida e Ebitda dos últimos 12 meses. A própria administração reconheceu no balanço do segundo trimestre que continua comprometida com uma solução para a estrutura de capital e que vem avançando em vendas de ativos e operações destinadas a ampliar os prazos de pagamento das obrigações financeiras. Leia também: Por que o filme da Barbie é para maiores de 12 anos?.

Schvartsman assume com desalavancagem no centro da agenda

Fabio Schvartsman chega à CSN num momento em que a discussão sobre quem administra o grupo se mistura diretamente com uma segunda questão: como reduzir o tamanho da dívida sem comprometer os negócios considerados estratégicos.

No segundo trimestre, a CSN registrou receita líquida de R$ 11,31 bilhões, crescimento de 6,6% em relação aos três primeiros meses do ano e avanço de 5,7% na comparação anual. O Ebitda ajustado atingiu R$ 2,77 bilhões, alta de 4,8% sobre o trimestre anterior, com margem de 23,4%. Leia também: Vale da Morte | Qual é o lugar mais quente do mundo?.

A melhora operacional, entretanto, não impediu um prejuízo líquido de R$ 773,1 milhões. O resultado financeiro ficou negativo em R$ 1,84 bilhão no trimestre, pressionado, entre outros fatores, pelos efeitos cambiais sobre as despesas financeiras.

A combinação desses números sintetiza parte do desafio colocado diante do novo presidente. A operação produz Ebitda elevado e possui negócios rentáveis em diferentes setores, mas uma parcela importante dessa geração financeira convive com o custo de uma estrutura de capital pesada. Leia também: Por geração de empregos, comércio registra crescimento em 10 anos – Economia.

A dívida líquida de R$ 42,14 bilhões equivalia a aproximadamente 15 vezes o Ebitda ajustado produzido apenas no segundo trimestre. Essa comparação não substitui a métrica tradicional de alavancagem — calculada sobre os últimos 12 meses —, mas ajuda a mostrar o tamanho absoluto do passivo frente à geração trimestral de resultado operacional.

A CSN encerrou junho com R$ 15,4 bilhões em disponibilidades, volume que a administração considera suficiente para cumprir os compromissos financeiros de curto prazo. A companhia também registrou fluxo de caixa livre positivo de R$ 808,1 milhões no trimestre, revertendo a dinâmica negativa observada em períodos anteriores.

O avanço, porém, ainda não foi suficiente para reduzir a dívida líquida. A alavancagem chegou a 3,49 vezes, pressionada por amortizações de contratos de pré-pagamento, variação cambial e aporte de R$ 495 milhões na Transnordestina.

Leia também: Disputa entre herdeiros pressiona comando da dona da Ray-Ban após queda das ações

Venda da CSN Cimentos pode ser peça-chave

Uma das principais decisões que chegarão à mesa de Schvartsman é a possível alienação integral da CSN Cimentos. A companhia informou em 10 de agosto que recebeu propostas vinculantes de potenciais compradores autorizados a participar da fase competitiva do processo.

A CSN não identificou oficialmente os interessados nem informou os valores das ofertas. O fato relevante confirmou que a subsidiária está em processo de potencial venda integral e que as propostas recebidas passaram a ser analisadas.

O movimento faz parte de uma estratégia anunciada anteriormente para redução de alavancagem por meio da monetização de ativos. O negócio de cimento é particularmente relevante porque vem apresentando desempenho operacional forte ao mesmo tempo em que pode gerar uma entrada substancial de caixa caso a venda seja concluída.

No segundo trimestre, a divisão de cimentos atingiu Ebitda de R$ 426,9 milhões, recorde para o segmento, com margem ajustada de 30,8%. Isso torna a operação valiosa, mas também revela o custo econômico envolvido na decisão de venda: para reduzir dívida, a CSN considera se desfazer de um ativo que atualmente possui alta rentabilidade.

A análise das propostas, portanto, não depende apenas do preço oferecido. A companhia precisa comparar o valor obtido com a venda ao resultado que deixará de ser consolidado no grupo e ao benefício financeiro da redução de dívida.

Esse equilíbrio entre desalavancagem e preservação de geração operacional deverá ser uma das questões centrais da nova administração.

Steinbruch deixa a operação, mas permanece no topo da estrutura

A mudança não representa uma ruptura completa com o modelo de poder construído nas últimas décadas. Benjamin Steinbruch continua dentro da estrutura e passa da presidência executiva para a presidência do Conselho de Administração.

Na prática, há uma separação maior entre a gestão cotidiana e a orientação estratégica, mas o controlador permanece em uma posição de influência decisiva sobre os rumos da companhia.

Steinbruch integra o conselho da CSN desde abril de 1993 e presidiu o colegiado de abril de 1995 até abril de 2023. Desde abril de 2002, acumulava o posto de diretor-presidente e responsabilidades nas áreas institucional e de participações minerárias e ferroviárias.

Com Schvartsman na presidência executiva, a companhia passa a contar com um executivo profissional fora da família Steinbruch no principal cargo operacional, enquanto Benjamin permanece na instância responsável por definir políticas e estratégias gerais e supervisionar a diretoria.

Para o mercado, uma das questões que surgem dessa estrutura será o grau de autonomia efetivamente concedido ao novo CEO na execução da estratégia de desalavancagem, venda de ativos e eventual reposicionamento dos diferentes negócios.

Novo CEO já comandou Vale (VALE3) e Klabin (KLBN11)

Fabio Schvartsman possui mais de quatro décadas de experiência na administração de grandes companhias brasileiras. Engenheiro de produção formado pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, já comandou empresas de diferentes setores, entre elas Klabin (KLBN11) e Vale (VALE3).

Schvartsman presidiu a Klabin antes de assumir a Vale em 2017. Ficou no comando da mineradora até 2019 e deixou a presidência semanas após o rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, Minas Gerais.

A tragédia matou 272 pessoas e provocou uma das maiores crises corporativas, ambientais e judiciais da história empresarial brasileira. A ruptura ocorreu durante a gestão de Schvartsman, embora a existência desse fato não deva ser confundida, por si só, com uma conclusão sobre responsabilidade pessoal do executivo.

Depois da Vale, Schvartsman passou a atuar principalmente em conselhos. A chegada à CSN representa seu retorno à presidência executiva de uma grande companhia aberta brasileira.

Sua experiência tanto na mineração quanto na indústria de base se encaixa na composição da própria CSN, cujo resultado depende não apenas da siderurgia, mas também da CSN Mineração e de operações de logística, cimento e energia.

Siderurgia recupera margem enquanto mineração enfrenta pressão

Schvartsman também assume em um momento operacional melhor em algumas divisões importantes do grupo.

Na siderurgia, o Ebitda ajustado do segundo trimestre chegou a R$ 636,3 milhões, com margem de 10,5%. A companhia atribuiu a melhora à combinação de aumento das vendas no mercado doméstico, recuperação de preços e desempenho das exportações, apesar da pressão nos custos das matérias-primas.

Na mineração, o Ebitda ajustado foi de R$ 929,7 milhões, com margem de 32%. O segmento registrou desempenho operacional elevado, mas foi afetado por custos de frete e pela valorização do real.

Já o cimento atingiu os R$ 426,9 milhões de Ebitda, com margem superior a 30%, justamente enquanto a companhia avalia propostas de compra pela subsidiária.

Essa diversificação é ao mesmo tempo uma vantagem operacional e um dos elementos que tornam a reorganização da CSN mais complexa. Uma venda capaz de reduzir significativamente a dívida pode retirar do grupo um negócio gerador de caixa. Manter todos os ativos, por outro lado, prolonga a necessidade de administrar uma estrutura de dívida elevada.

Companhia alongou vencimentos para ganhar tempo

A redução do endividamento não depende apenas da venda de ativos. A CSN também realizou operações financeiras para alterar o perfil dos vencimentos.

Em abril, o grupo firmou um empréstimo-ponte de US$ 1,2 bilhão com um sindicato de bancos. Em julho, lançou uma operação de troca de títulos para alongar em dois anos o vencimento de aproximadamente US$ 1,3 bilhão originalmente previsto para 2028.

Segundo a companhia, essas operações reduziram a pressão do cronograma de amortizações de curto e médio prazos e criaram mais tempo para a execução das iniciativas estratégicas.

O balanço do segundo trimestre afirma de forma explícita que a administração pretende combinar vendas de ativos, alongamento da dívida e iniciativas para ampliar o retorno de caixa no curto prazo.

É esse plano que Schvartsman herdará a partir de 3 de setembro.

Troca de comando cria novo teste para CSN

A sucessão na presidência altera mais do que o nome do principal executivo. Durante 24 anos, a gestão da CSN esteve diretamente associada a Benjamin Steinbruch. A empresa agora tenta separar parte da condução operacional da presença do controlador, sem afastá-lo da principal instância estratégica.

Fabio Schvartsman chega com um mandato que será avaliado sobretudo pela evolução do balanço. A companhia já apresentou melhora operacional, geração positiva de caixa e alongamento de vencimentos, mas continua com R$ 42,14 bilhões de dívida líquida e alavancagem de 3,49 vezes.

A possível venda da CSN Cimentos será um dos primeiros grandes eventos capazes de mudar essa equação. Se concretizada em condições consideradas atraentes, poderá acelerar a redução do endividamento. Depois dela, a própria companhia já indicou que outras alternativas de monetização de ativos podem fazer parte do processo de reorganização.

Steinbruch continuará participando dessas decisões como presidente do conselho. Schvartsman, porém, passa a ser o executivo responsável por transformá-las em execução.

A próxima fotografia objetiva dessa transição virá nos resultados do terceiro trimestre, cuja divulgação está prevista pela CSN para 10 de novembro. Até lá, investidores acompanharão principalmente o destino da CSN Cimentos, os próximos passos do plano de gestão de passivos e os primeiros sinais de como será dividida, na prática, a condução do grupo entre o novo CEO e o controlador que comandou a empresa durante mais de duas décadas.

Fontes:

Companhia Siderúrgica Nacional – fato relevante sobre a eleição de Benjamin Steinbruch para a presidência do Conselho de Administração e a entrada de Fabio Schvartsman na presidência executiva

Companhia Siderúrgica Nacional – Release de Resultados do segundo trimestre de 2026

Companhia Siderúrgica Nacional – informações de governança sobre Diretoria Executiva e Conselho de Administração

Companhia Siderúrgica Nacional – fato relevante sobre o recebimento de propostas vinculantes para a potencial alienação integral da CSN Cimentos

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