Um relatório de inteligência financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), obtido pela revista piauí, registra uma transferência de US$ 1.666.667 feita em 16 de setembro de 2025 por Daniel Vorcaro para o Havengate Development Fund, estrutura nos Estados Unidos utilizada no financiamento de “Dark Horse”, cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
A operação acrescenta aproximadamente US$ 1,67 milhão ao volume de recursos já conhecido e modifica a cronologia pública do financiamento do longa. Até então, eram conhecidos seis pagamentos atribuídos a Vorcaro, realizados entre fevereiro e maio de 2025 e que somavam US$ 10,6 milhões. Com a parcela de setembro, o total identificado sobe para aproximadamente US$ 12,3 milhões.
O pagamento também contrasta com uma declaração feita por Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Ao comentar o financiamento do filme em maio deste ano, o senador afirmou que o último pagamento realizado por Vorcaro havia ocorrido em maio de 2025. O registro financeiro divulgado agora aponta uma transferência aproximadamente quatro meses depois.
A reportagem da piauí afirma ainda que o repasse de setembro ocorreu oito dias depois de Flávio procurar Vorcaro para cobrar parcelas que estavam atrasadas. A nova informação indica que a relação financeira envolvendo o projeto permaneceu ativa no segundo semestre de 2025, quando o Banco Master já enfrentava crescente pressão regulatória e questionamentos sobre sua situação financeira.
O documento mencionado pela revista não é público. O próprio Coaf informa que os Relatórios de Inteligência Financeira, conhecidos pela sigla RIF, são protegidos por sigilo e encaminhados às autoridades competentes quando as análises identificam fundados indícios relacionados a lavagem de dinheiro ou outros ilícitos. Por isso, a Gazeta Mercantil trata o valor e a data como informações constantes de documento obtido pela piauí, e não como uma divulgação oficial feita pelo Coaf.
Novo pagamento eleva total conhecido para US$ 12,3 milhões
Os desembolsos atribuídos a Vorcaro passaram, com a operação de setembro, de US$ 10,6 milhões para aproximadamente US$ 12,3 milhões. O aumento é de cerca de 16% em relação ao montante conhecido anteriormente.
O valor também corresponde a pouco mais da metade dos US$ 24 milhões que teriam sido negociados para financiar o projeto. Mensagens e documentos revelados anteriormente indicaram que Vorcaro havia se comprometido a fornecer esse montante para viabilizar a produção.
Considerado o valor arredondado de US$ 12,3 milhões, aproximadamente 51% do compromisso financeiro indicado nos documentos já teria sido identificado em transferências. Permaneceria uma diferença próxima de US$ 11,7 milhões entre o valor negociado e os desembolsos atualmente conhecidos.
O dado de setembro acrescenta ainda uma sétima parcela à sequência de pagamentos atribuídos a Vorcaro.
A primeira transferência conhecida ocorreu em 13 de fevereiro de 2025, no valor de US$ 2 milhões. As operações posteriores levaram o total a US$ 10,6 milhões até maio. O repasse de setembro rompe, portanto, o intervalo de aproximadamente quatro meses durante o qual, segundo a versão apresentada anteriormente por Flávio Bolsonaro, os pagamentos já teriam sido interrompidos.
A divergência não permite concluir, por si só, que tenha ocorrido crime ou irregularidade. Ela estabelece, porém, uma diferença verificável entre a cronologia apresentada publicamente pelo senador e aquela descrita no relatório financeiro obtido pela revista.
Mensagens apontam possível oitava parcela em outubro
Há ainda indícios de que os pagamentos possam ter continuado depois de setembro.
Segundo a piauí, mensagens trocadas em 22 de outubro de 2025 mostram nova movimentação para obter recursos destinados ao filme. Naquela manhã, já durante as gravações de “Dark Horse”, Flávio voltou a procurar Vorcaro para tratar das dificuldades financeiras da produção.
Pouco depois, o publicitário Thiago Miranda, que participou da captação de recursos, perguntou a Vorcaro se seria possível liberar parcelas para evitar a interrupção do projeto. O ex-banqueiro respondeu que havia liberado “mais uma” naquele dia.
A mensagem é relevante porque indica que as tratativas continuavam, mas não constitui, isoladamente, prova bancária de que uma nova transferência tenha efetivamente ocorrido.
Também não há, no trecho divulgado, indicação precisa do valor eventualmente liberado.
Caso essa oitava parcela tenha seguido o padrão aproximado de US$ 1,6 milhão das transferências anteriores e tenha sido efetivamente liquidada, o total dos desembolsos poderia se aproximar de US$ 14 milhões. Esse número, entretanto, permanece hipotético enquanto não houver registro financeiro que confirme a operação.
A distinção é essencial: US$ 12,3 milhões correspondem ao total atualmente associado aos pagamentos identificados, incluindo a transferência de setembro mencionada no RIF. A cifra de aproximadamente US$ 14 milhões depende da confirmação da possível operação de outubro.
Rota do dinheiro passa por fundo no Texas
A investigação sobre “Dark Horse” não se limita à quantidade de dinheiro destinada ao projeto. Um dos pontos centrais é reconstruir o percurso dos recursos até a produtora responsável pelo longa.
As informações divulgadas até agora indicam que o dinheiro não era transferido diretamente de Vorcaro para a Go Up Entertainment, responsável pela produção nos Estados Unidos.
Parte dos recursos passou pela Entre Investimentos e Participações antes de chegar ao Havengate Development Fund, sediado no Texas. O fundo funcionava como uma etapa intermediária entre os recursos atribuídos a Vorcaro e a produção cinematográfica.
A existência dessa estrutura torna relevante identificar quanto dinheiro entrou no Havengate, quanto saiu, em quais datas e quais destinatários receberam os valores.
Também será necessário confrontar os recursos enviados com contratos, despesas de produção, pagamentos a fornecedores e demais documentos apresentados pela Go Up.
A produtora tem sustentado que prestou contas às autoridades e que os recursos utilizados em “Dark Horse” eram privados. A abertura das investigações, por si só, não representa comprovação de desvio ou utilização irregular do dinheiro.
O ponto ainda não esclarecido publicamente é a rastreabilidade integral dos recursos entre sua origem e o pagamento das despesas da produção.
Banco Master foi liquidado pelo Banco Central
A dimensão do caso aumentou depois da deterioração financeira do conglomerado controlado por Vorcaro.
O Banco Central decretou em 18 de novembro de 2025 a liquidação extrajudicial do Banco Master S.A., Banco Master de Investimento, Banco Letsbank e Master Corretora. Na ocasião, a autoridade monetária afirmou que a medida decorreu de grave crise de liquidez, comprometimento significativo da situação econômico-financeira e graves violações às normas do Sistema Financeiro Nacional.
Desde então, investigações relacionadas ao conglomerado passaram a alcançar diferentes operações, empresas e pessoas vinculadas a Vorcaro.
O Banco Central também constituiu comissão de inquérito para apurar responsabilidades nas instituições do conglomerado Master. Essas apurações administrativas são distintas da investigação sobre o financiamento de “Dark Horse”, embora documentos obtidos nas diferentes frentes possam eventualmente ser compartilhados entre autoridades dentro das regras legais.
O Supremo Tribunal Federal também acompanha investigações envolvendo Vorcaro. Em julho, o ministro André Mendonça autorizou diligências da Polícia Federal em uma nova etapa da Operação Compliance Zero relacionada ao caso Master.
A existência dessas investigações, novamente, não significa que todas as operações realizadas por Vorcaro estejam contaminadas pelas suspeitas que levaram às ações contra o conglomerado. Cada fluxo financeiro precisa ser analisado individualmente.
Flávio transfere explicações à produtora
Questionado nesta terça-feira, 1º de setembro, após a revelação do pagamento de setembro, Flávio Bolsonaro evitou detalhar a operação e afirmou que questões relativas às parcelas e à prestação de contas deveriam ser respondidas pela produtora.
O senador disse que sua participação no projeto consistiu em autorizar o uso de sua imagem e captar investimentos. Também afirmou que os valores estariam contemplados na prestação de contas da produção.
Flávio sustentou ainda que a nova reportagem não apresentaria fato novo relevante para sua campanha.
A transferência de setembro, entretanto, altera objetivamente a cronologia até então conhecida.
Em maio, ao explicar sua relação com Vorcaro, Flávio afirmou que o banqueiro havia feito seu último pagamento naquele mês de 2025. O documento agora atribuído ao Coaf registra uma operação realizada em 16 de setembro.
A controvérsia ocorre durante a campanha presidencial. Flávio Bolsonaro foi escolhido pelo Partido Liberal para disputar a Presidência da República e teve seu pedido de registro apresentado à Justiça Eleitoral. O TSE informou em agosto que o nome do senador estava entre os pedidos protocolados para a disputa presidencial.
Nesta terça-feira, o próprio Tribunal também incluiu em sua pauta uma representação envolvendo o uso de inteligência artificial durante a Convenção Nacional do PL que oficializou a candidatura.
O processo eleitoral e a investigação sobre “Dark Horse” possuem objetos distintos.
Investigação precisa reconstruir cadeia completa dos recursos
O principal ponto ainda em aberto é determinar o tamanho efetivo do financiamento realizado por Vorcaro.
Até o momento, os pagamentos conhecidos somam aproximadamente US$ 12,3 milhões. Existe indicação, em mensagens, de pelo menos outra parcela negociada em outubro, mas sua efetiva liquidação e seu valor ainda precisam ser demonstrados documentalmente.
A investigação também deverá esclarecer quanto dos recursos recebidos pelo Havengate foi efetivamente transferido à Go Up Entertainment e empregado na realização do filme.
Com isso, o foco deixa de ser apenas a pergunta sobre quem financiou “Dark Horse” e passa a envolver quatro questões distintas: quanto dinheiro foi transferido, por quanto tempo os aportes continuaram, qual caminho os recursos percorreram e em quais despesas foram efetivamente utilizados.
A transferência de US$ 1.666.667 registrada em setembro adiciona uma peça objetiva a essa reconstrução e mostra que os pagamentos atribuídos a Vorcaro não terminaram no momento anteriormente indicado por Flávio Bolsonaro.
A próxima etapa dependerá da obtenção dos registros bancários, contratos e documentos contábeis capazes de confirmar a eventual oitava parcela e reconstruir integralmente o trajeto dos aproximadamente US$ 12,3 milhões já identificados entre os financiadores, os intermediários financeiros, o Havengate e a produtora de “Dark Horse”.








