O tanque flex voltou a ficar mais barato na segunda semana de julho e, pela primeira vez em 19 meses, o etanol aparece como escolha economicamente óbvia na maior parte do país. O biocombustível caiu ao menor valor desde a primeira semana de dezembro de 2024, a R$ 4,17 por litro na média nacional, enquanto a gasolina recuou para R$ 6,70 e o diesel S-10, que move o frete, caiu a R$ 6,95. A combinação alivia o bolso de 40 milhões de motoristas flex, reduz pressão sobre o IPCA de transportes e força usinas a recalibrar o mix entre açúcar e etanol no pico da safra.
Os números são do Monitor de Preços de Combustíveis da Veloe, elaborado com apoio técnico da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, a Fipe, que acompanha semanalmente postos em todo o país a partir de transações reais. Os dados são do Monitor de Preços de Combustíveis da Veloe, com apoio técnico da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe). O levantamento mostra que o alívio, embora generalizado, foi desigual entre regiões, combustíveis e elos da cadeia, e ainda não devolveu os preços ao patamar anterior à escalada do petróleo no Oriente Médio.
Segundo a Veloe, a gasolina comum saiu de R$ 6,73 na última semana de junho para R$ 6,70 na segunda semana de julho, recuo de R$ 0,03 ou 0,42%. O etanol hidratado foi de R$ 4,21 para R$ 4,17, baixa de R$ 0,04 ou 0,95%. O diesel S-10 liderou o movimento, de R$ 7,04 para R$ 6,95, queda de R$ 0,09 ou 1,35%. Na prática, a sequência de recuos interrompe a escalada de maio e junho, quando o Brent voltou a pressionar refinarias e importadores, mas mantém gasolina e diesel em nível superior ao observado antes das tensões geopolíticas recentes.
Diesel cai mais no país, mas capitais seguram repasse e frete sente menos
A queda do diesel foi a mais relevante do ponto de vista macro. Combustível responde por cerca de 40% do custo do frete rodoviário e tem transmissão direta para alimentos, material de construção e bens industriais. O recuo nacional de R$ 0,09 por litro deveria, em tese, tirar pressão do custo logístico.
O que o dado regional mostra, porém, é que o alívio não chegou com a mesma intensidade aos grandes centros. Nas capitais, a redução média foi de R$ 0,05 por litro, quase metade da média nacional. A diferença se explica por estoques formados a preços mais altos, contratos de frotas com preço travado e menor concorrência em corredores urbanos, onde postos de bandeira branca têm menos peso.
Para o agronegócio e para transportadoras de longa distância, que abastecem no interior e em postos de rodovia, o efeito é mais imediato. Para o consumidor urbano, que depende de ônibus e de entrega de última milha, o repasse ainda é parcial. É por isso que, mesmo com a queda na bomba, o preço do frete fracionado caiu menos que o do diesel puro nas duas primeiras semanas de julho.
Gasolina com queda marginal segura IPCA, mas segue acima do pré-conflito
A gasolina teve a menor variação entre os três combustíveis, mas é a que mais pesa na inflação. Com peso próximo de 5% no IPCA, qualquer oscilação de alguns centavos altera o índice cheio. No IPCA-15 de maio, a queda de 1,47% nos preços dos combustíveis puxou a redução de custos com transportes, segundo dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A gasolina recuou 1,32%, o principal alívio individual na inflação do mês.
Em maio, os recuos nos preços da gasolina, etanol e óleo diesel ajudaram a deter a inflação oficial em 0,13 ponto porcentual, com o grupo Transportes saindo de alta de 0,06% em abril para queda de 0,46% em maio. O movimento de julho, embora menor, aponta na mesma direção, contenção do grupo Transportes após meses em que a gasolina foi o item de maior pressão.
A Veloe ressalva que, apesar da sequência recente de recuos, gasolina e diesel seguem em patamares superiores aos observados antes da escalada de tensões geopolíticas internacionais que pressionaram as cotações do petróleo. Isso significa que o mercado acomodou parte do choque, mas não reverteu o choque. Para a Petrobras (PETR4), que evita repasses automáticos e diários, a janela de petróleo mais baixo e real relativamente estável abriu espaço para manter preços de refinaria sem novos reajustes.
Etanol a R$ 4,17 e paridade de 65,9% recoloca vantagem histórica do flex
O dado mais estrutural está no etanol. A R$ 4,17, o hidratado atingiu o menor valor desde o início de dezembro de 2024 e empurrou o Indicador Flex nacional, que mede a relação entre preço do etanol e da gasolina, de 66,2% para 65,9%, redução de 0,3 ponto. Abaixo de 70%, o biocombustível passa a ser financeiramente mais vantajoso para a maioria dos carros flex, considerando rendimento médio 30% menor.
O levantamento da ANP compilado pelo AE-Taxas considera que o etanol de cana ou de milho, por ter menor poder calorífico, tenha um preço limite de 70% do derivado de petróleo nos postos para ser considerado vantajoso. Em Mato Grosso, o hidratado é vendido em média por 60,25% do preço da gasolina, em São Paulo por 63,29%, em Minas Gerais a 64,07% e em Goiás em 67,29%. Na média brasileira, a paridade é de 64,38% segundo a mesma base, também favorável ao biocombustível.
A ANP confirma que os preços médios do etanol permanecem vantajosos sobre os da gasolina nos cinco estados entre os maiores produtores do país, São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Goiás e Mato Grosso. Mato Grosso, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Paraná, Goiás e Distrito Federal aparecem justamente como os mercados onde o etanol reforçou a vantagem em julho, exatamente onde a logística da cana é mais curta e a concorrência entre usinas é maior.
Para o motorista, a conta é objetiva. Com gasolina a R$ 6,70 e etanol a R$ 4,17, um tanque de 50 litros sai por R$ 335 com gasolina e R$ 208,50 com etanol, diferença nominal de R$ 126,50. Descontada a autonomia menor, a vantagem líquida ainda fica entre 4% e 8% em São Paulo e Mato Grosso, e acima de 10% em cidades do interior paulista e goiano onde a paridade está abaixo de 63%.
Mapa da queda mostra Rio Grande do Norte na liderança e Amazonas na contramão
A média nacional esconde um mapa muito desigual. No caso do etanol, a queda não foi uniforme entre os estados. O Rio Grande do Norte registrou o maior recuo, de R$ 0,21 por litro, seguido por Ceará com menos R$ 0,10, Pará e Pernambuco com menos R$ 0,08 cada e Espírito Santo com menos R$ 0,07, segundo a Veloe.
Em São Paulo, principal mercado do biocombustível, a redução foi de R$ 0,05, suficiente para manter a paridade favorável. Já Amazonas, Distrito Federal e Maranhão tiveram alta de R$ 0,24, R$ 0,08 e R$ 0,04, respectivamente. No Norte, a alta reflete frete fluvial, estoques mais apertados e menor número de distribuidoras. No Distrito Federal, o mercado é mais concentrado e o repasse do ICMS tem peso maior.
Essa dispersão explica por que a tradicional regra dos 70% perdeu precisão nos últimos anos. Motores flex mais modernos têm rendimento mais próximo entre os dois combustíveis, e a decisão ótima varia por modelo, perfil de condução e cidade. Ainda assim, a paridade abaixo de 66% é um sinalizador forte de que o etanol deve ganhar participação no ciclo Otto nas próximas semanas.
Safra recorde e mix mais alcooleiro explicam por que o etanol ficou barato agora
O pano de fundo agrícola explica a queda. A safra 2026/27 começou oficialmente em abril com mudança de perfil produtivo das usinas do Centro-Sul. A projeção aponta um mix mais alcooleiro, diante de preços pressionados do açúcar e maior expectativa de oferta de etanol. Segundo estimativas da SCA Brasil, a moagem deve alcançar 629 milhões de toneladas, acima das 610 milhões projetadas para o ciclo 2025-2026.
A Companhia Nacional de Abastecimento, a Conab, elevou a aposta. A safra de cana-de-açúcar do Brasil deve alcançar 709,13 milhões de toneladas em 2026/27, o segundo maior volume da série histórica. A fabricação total de etanol no Brasil, incluindo cana e milho, foi estimada em 40,69 bilhões de litros na safra 2026/27, alta de 8,5% frente à temporada passada.
Os dados quinzenais confirmam a tendência. A moagem de cana-de-açúcar deve ter atingido 38,35 milhões de toneladas no período, uma queda de 1,3% em relação ao mesmo período do ano anterior, mas com produção de açúcar em queda de 9,5% e produção de etanol em alta de 18%. Na primeira quinzena de maio, a moagem no Centro-Sul alcançou 42,35 milhões de toneladas, alta de 1,4% na comparação anual, enquanto a fabricação de etanol saltou mais de 20%. Na primeira quinzena de abril, primeira da safra 2026/27, a moagem somou 19,96 milhões de toneladas, alta de 19,67%.
Na prática, as usinas estão moendo mais e destinando menos caldo para açúcar. A forte queda nos preços do açúcar ao longo de 2025, combinada à escalada dos preços do etanol no Centro-Sul no fim de 2025 e início de 2026, criou incentivo à produção alcooleira. Se a maioria das usinas mudar para esmagamento máximo, o mix será mais equilibrado, o que pressiona preço do etanol no curto prazo, mas sustenta oferta.
O que a Petrobras fez e por que o preço na bomba demora a cair
O segundo vetor é o preço na refinaria. A Petrobras informou que implementará a partir de 1º de julho uma redução nos seus preços de venda de óleo diesel A, de uso rodoviário, no valor de R$ 0,3515 por litro. Concomitantemente, suspendeu o desconto temporário no mesmo valor concedido no âmbito da subvenção econômica instituída pela Medida Provisória nº 1.358, de 13 de maio de 2026. Na prática, a companhia informou que o preço médio de venda às distribuidoras permanecerá em R$ 3,30 por litro, evitando alteração para clientes diretos, após anunciar redução de R$ 0,3515 por litro no preço do diesel A vendido às distribuidoras.
O movimento é técnico, mas tem impacto comercial. Ao trocar subvenção por redução de preço de lista, a estatal mantém o preço final para distribuidoras estável, mas retira um subsídio temporário criado em maio para conter reajustes. Para o consumidor, o efeito líquido depende de quanto distribuidoras e postos repassam e de quanto a concorrência com importadores permite.
A estatal estima que, quando há corte efetivo de refinaria, se o reajuste for integralmente repassado ao consumidor, o preço da gasolina pode ser reduzido em 0,4% ou R$ 0,02 por litro e o diesel em 2,6% ou R$ 0,08 por litro, em cálculos anteriores similares. A defasagem entre refinaria e bomba, que costuma ser de 7 a 15 dias, explica por que o diesel caiu mais no país e menos nas capitais nesta quinzena.
Quem ganha e quem perde com a nova tabela nas bombas
Para empresas, o cenário cria ganhadores e perdedores claros. Ganham motoristas de aplicativo, frotistas leves e empresas de logística urbana que operam com flex e conseguem migrar rapidamente para etanol quando a paridade está abaixo de 67%. Ganham também supermercados e atacarejos, que veem custo de frete de curta distância cair e podem segurar repasses de hortifrutis.
Perdem margem, no curto prazo, postos que formaram estoque a R$ 7,04 no diesel e agora precisam vender a R$ 6,95, e usinas que estocaram etanol hidratado esperando preços maiores. Para Raízen (RAIZ4), São Martinho (SMTO3), Jalles Machado e outras do setor sucroenergético, o preço menor do etanol é compensado parcialmente pelo volume maior e pelo açúcar ainda remunerador no mercado externo, embora com prêmio menor que em 2024.
Para o Banco Central, o alívio nos combustíveis é um componente benigno para a inflação de julho e agosto, mas não muda o diagnóstico de núcleo pressionado por serviços. Para o Ministério da Fazenda, a queda do diesel ajuda a conter o custo Brasil sem necessidade de nova subvenção, após a MP da subvenção econômica de maio.
O que observar agora
O mercado vai monitorar três calendários. O da ANP, que divulga preços médios por município e confirma se a queda do diesel se espalha para capitais e regiões metropolitanas. O da Petrobras, que decide se mantém a política de espaçar reajustes ou volta a ajustar com mais frequência diante da volatilidade do Brent. E o da safra, com dados da Unica e do Ministério da Agricultura sobre moagem, ATR e mix de produção até o fim de agosto, quando tradicionalmente se define se o ano será mais açucareiro ou mais alcooleiro.
Se a moagem se mantiver acima de 630 milhões de toneladas no Centro-Sul e a produção de etanol ficar próxima dos 40,7 bilhões de litros previstos pela Conab, a tendência é de etanol competitivo até o fim do terceiro trimestre, com paridade abaixo de 70% em São Paulo, Goiás, Mato Grosso e Minas. Se o petróleo voltar a subir ou o real desvalorizar, a vantagem do etanol aumenta, porque a gasolina sobe mais rápido que o biocombustível, que tem dinâmica local.
Para o motorista, a recomendação prática continua sendo calcular a paridade do posto onde abastece. Com a média nacional em 65,9% e estados com paridade de 60,25% no Mato Grosso e 93,73% em Roraima, onde a gasolina ainda é mais vantajosa, a decisão ótima varia por cidade, não por país. Para o país, o recado de julho é que, mesmo com petróleo ainda acima do pré-conflito, a combinação de safra recorde, real estável e concorrência no varejo foi suficiente para devolver ao flex a vantagem que não se via desde dezembro de 2024.










