O Pix tornou-se um dos principais símbolos de uma reorganização do sistema financeiro internacional capaz de reduzir a influência das empresas e infraestruturas dos Estados Unidos, segundo análise publicada pela revista britânica The Economist neste domingo, 12 de julho. A publicação usa o sistema brasileiro para mostrar como países da Europa, da Ásia e de outras regiões estão desenvolvendo redes próprias de pagamentos, em busca de custos menores, maior autonomia econômica e menor dependência de companhias norte-americanas como Visa (V) e Mastercard (MA).
A reportagem, intitulada “Storm clouds gather over America’s financial supremacy” — em tradução livre, “Nuvens de tempestade se formam sobre a supremacia financeira dos Estados Unidos” — sustenta que as empresas norte-americanas de pagamentos podem estar entre as primeiras vítimas de um processo mais amplo de fragmentação financeira.
O ponto de partida da análise é a pressão exercida pelo governo dos Estados Unidos sobre o Pix. A The Economist menciona as críticas feitas pelo representante de Comércio norte-americano, Jamieson Greer, segundo o qual o sistema administrado pelo Banco Central prejudicaria empresas dos Estados Unidos no mercado brasileiro.
O argumento foi incorporado ao processo comercial que pode resultar em uma tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos importados do Brasil. Para a revista, a controvérsia revela uma transformação maior: governos passaram a enxergar a infraestrutura financeira como instrumento de soberania, segurança e projeção de poder.
A publicação não afirma que o Pix, isoladamente, seja capaz de derrubar o domínio do dólar ou substituir o sistema financeiro norte-americano. A tese é que o modelo brasileiro faz parte de uma proliferação de redes nacionais e regionais que, juntas, podem enfraquecer a posição privilegiada das companhias dos Estados Unidos nos pagamentos globais.
Pix representa desafio direto às bandeiras norte-americanas
A The Economist descreve o Pix como uma ameaça competitiva para Visa (V) e Mastercard (MA), empresas que construíram redes globais capazes de conectar bancos, consumidores e estabelecimentos comerciais em diferentes países.
Ao contrário das transações com cartão, que envolvem bandeira, emissor, credenciadora e outros participantes, o Pix permite a transferência de recursos diretamente entre contas em poucos segundos. O sistema está disponível durante 24 horas por dia, inclusive aos fins de semana e feriados.
Essa estrutura reduz intermediários e pode diminuir o custo para os estabelecimentos comerciais. A ampla adoção entre consumidores brasileiros transformou o Pix em uma alternativa efetiva ao dinheiro, aos boletos, às transferências bancárias tradicionais e a parte dos pagamentos realizados por cartões.
Para a revista, o sucesso do sistema brasileiro expõe uma vulnerabilidade das empresas norte-americanas. Visa e Mastercard dependem de que bancos, lojistas e consumidores continuem utilizando redes nas quais as companhias cobram tarifas pelo processamento das transações.
Quando uma infraestrutura pública ou doméstica permite concluir o pagamento sem passar por essas redes, uma parcela da receita potencial deixa de ser capturada pelas bandeiras.
A ameaça não significa o desaparecimento dos cartões. O crédito parcelado, os programas de pontos, as garantias oferecidas aos consumidores e a aceitação internacional ainda sustentam a relevância de Visa e Mastercard no Brasil.
O que mudou foi a ausência de dependência exclusiva. Consumidores e comerciantes passaram a dispor de uma alternativa de alcance nacional, operação instantânea e custo geralmente inferior.
Pressão dos EUA transformou Pix em questão de soberania
A The Economist destaca a reação política brasileira às críticas norte-americanas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que o Pix é uma conquista nacional e que o país não abrirá mão do sistema.
A publicação também menciona a posição do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Apesar de defender a preservação do Pix, ele sugeriu que o Brasil evitasse conectar a plataforma a redes internacionais que disputassem diretamente espaço com a infraestrutura financeira dos Estados Unidos.
A diferença entre as posições mostra que o debate deixou de se limitar à eficiência do meio de pagamento. A discussão passou a envolver a possibilidade de integração do Pix com sistemas estrangeiros e o papel que o Brasil pretende ocupar na reorganização das finanças internacionais.
Uma conexão entre plataformas nacionais permitiria, em tese, que pagamentos entre diferentes países fossem realizados com menos intermediários. Dependendo do modelo, as operações poderiam utilizar moedas locais e reduzir a necessidade de passar por instituições correspondentes ou redes sediadas nos Estados Unidos.
É justamente essa possibilidade que amplia a importância geopolítica das infraestruturas de pagamento. Sistemas originalmente criados para transferências domésticas podem formar conexões internacionais e passar a concorrer com os trilhos financeiros tradicionais.
A The Economist apresenta o episódio brasileiro como parte de uma tendência em que governos tratam pagamentos, liquidação e circulação de moedas como componentes de segurança econômica.
Europa procura alternativa a Visa e Mastercard
A movimentação não está restrita às economias emergentes. A revista chama atenção para os esforços europeus destinados a reduzir a dependência de plataformas norte-americanas.
Uma das iniciativas citadas é a expansão da Área Única de Pagamentos em Euros, a Sepa, que busca padronizar transferências e pagamentos realizados em euro entre os países participantes.
A Europa também desenvolve o Wero, uma carteira digital apoiada por bancos e instituições financeiras do continente. O projeto conecta sistemas de pagamentos instantâneos e pretende oferecer transferências entre pessoas, compras digitais, pagamentos em estabelecimentos e outras funcionalidades.
O objetivo estratégico é criar uma solução europeia capaz de competir com cartões e carteiras controlados por empresas estrangeiras. O projeto ganhou importância diante das tensões comerciais e das preocupações sobre a dependência de infraestruturas que podem ser afetadas por decisões políticas tomadas fora da União Europeia.
A The Economist menciona ainda o projeto do euro digital. O Banco Central Europeu trabalha para estar tecnicamente preparado para uma eventual emissão até 2029, caso a legislação necessária seja aprovada.
O euro digital seria diferente do Pix. Enquanto o sistema brasileiro transfere recursos depositados em contas bancárias e de pagamentos, o projeto europeu envolve uma representação digital da própria moeda emitida pelo banco central.
As duas iniciativas, no entanto, refletem a mesma busca por autonomia: assegurar que cidadãos e empresas possam realizar pagamentos por uma infraestrutura sujeita às regras e à jurisdição de seus próprios países.
Índia transforma UPI em instrumento de projeção internacional
A Índia aparece na análise como outro exemplo de país que construiu uma alternativa doméstica de grande escala.
A Unified Payments Interface, conhecida como UPI, permite transferências instantâneas entre contas por meio de aplicativos e códigos QR. O sistema possui características semelhantes às do Pix e se tornou uma das principais redes de pagamento da economia indiana.
O governo e as instituições financeiras da Índia passaram a buscar acordos para ampliar a aceitação do UPI fora do país. A infraestrutura já é usada ou testada em diferentes mercados e integra a estratégia indiana de exportar tecnologia financeira.
A expansão internacional altera o papel econômico do sistema. A UPI deixa de ser apenas uma solução para consumidores domésticos e passa a servir como instrumento de integração com outros países.
A Índia também oferece apoio técnico para economias interessadas em desenvolver plataformas próprias. Essa política amplia a influência de padrões tecnológicos indianos e cria alternativas às redes globais operadas por companhias norte-americanas.
Para a The Economist, o caso demonstra como sistemas nacionais podem se transformar em blocos financeiros regionais. Quanto maior o número de países conectados a uma rede, menor a necessidade de recorrer aos intermediários tradicionais.
China amplia pagamentos internacionais em yuan
A China avança em uma frente diferente. Em vez de concentrar sua estratégia apenas nos pagamentos cotidianos dos consumidores, o país desenvolve uma infraestrutura destinada a operações internacionais em yuan.
O Cross-Border Interbank Payment System, conhecido como Cips, permite processar e liquidar transações transfronteiriças denominadas na moeda chinesa.
O sistema não substitui integralmente a Swift, rede global utilizada para a troca de mensagens financeiras entre bancos. Sua expansão, contudo, oferece uma rota alternativa para instituições que realizam negócios com a China.
A iniciativa faz parte do esforço de Pequim para ampliar a utilização internacional do yuan. O avanço é especialmente relevante em transações comerciais, financiamento de projetos e pagamentos entre países que procuram reduzir a exposição ao dólar.
A The Economist relaciona essa movimentação ao mesmo fenômeno observado no Brasil, na Índia e na Europa: a construção de sistemas financeiros paralelos ou complementares às infraestruturas historicamente dominadas pelos Estados Unidos e por seus aliados.
O resultado não é uma substituição imediata do sistema atual, mas sua divisão progressiva em redes nacionais, regionais e blocos de influência.
Visa e Mastercard aumentam investimentos locais
A crescente concorrência já aparece nas comunicações das empresas norte-americanas aos investidores.
Segundo a The Economist, Visa (V) e Mastercard (MA) reconhecem que a expansão de redes domésticas pode afetar seus negócios. Governos podem favorecer sistemas locais, exigir que as transações sejam processadas internamente ou limitar a participação de operadores estrangeiros em determinados mercados.
As companhias começaram a reagir com investimentos em infraestrutura regional e acordos com outras redes.
A Visa anunciou € 500 milhões em investimentos na Europa, incluindo um centro tecnológico previsto para entrar em operação na Polônia em 2027. A empresa também estabeleceu parceria com a chinesa UnionPay para viabilizar pagamentos em tempo real dentro da China.
A Mastercard anunciou investimento de € 250 milhões em três centros de dados na França, ampliando sua estrutura tecnológica no continente europeu.
A estratégia indica que as bandeiras não pretendem enfrentar os sistemas nacionais apenas por meio de pressão regulatória. As companhias procuram se adaptar, processar operações localmente e integrar redes que não controlam.
Nesse novo ambiente, a vantagem competitiva pode deixar de depender apenas do tamanho da rede própria. A capacidade de conectar sistemas diferentes e cumprir exigências locais tende a ganhar importância.
Fragmentação pode elevar fraudes e dificultar sanções
Embora reconheça os ganhos de autonomia e concorrência, a The Economist alerta para os custos da divisão do sistema financeiro global.
A existência de várias redes incompatíveis pode aumentar a complexidade das transferências internacionais. Uma operação simples dentro de um país pode continuar cara e demorada quando precisa atravessar diferentes sistemas, moedas e regimes regulatórios.
A fragmentação também pode dificultar o combate a fraudes, lavagem de dinheiro e financiamento de atividades ilegais. Informações distribuídas entre plataformas que não se comunicam adequadamente reduzem a visibilidade das autoridades e das instituições financeiras.
Outro efeito envolve as sanções econômicas. Os Estados Unidos utilizam o acesso ao dólar, aos bancos correspondentes e às redes financeiras internacionais como instrumentos de política externa.
O surgimento de rotas alternativas pode permitir que governos, empresas e pessoas sujeitas a restrições encontrem caminhos para movimentar recursos fora das infraestruturas tradicionais.
A revista também aponta o risco de redução da liquidez entre moedas. Mercados fragmentados podem concentrar transações dentro de blocos específicos, tornando determinadas conversões mais caras e dificultando o financiamento internacional.
O resultado seria um sistema com maior autonomia nacional, mas potencialmente menos eficiente em escala global.
Fragmentação pode retirar 2,6% do PIB global
A The Economist cita um estudo da Economist Impact, patrocinado pela Swift, que procura medir os custos econômicos da fragmentação financeira.
No cenário em que a tendência atual se mantém, o PIB mundial em 2030 poderia ficar 2,6% abaixo da trajetória projetada sem o aumento das barreiras. A diferença equivaleria a aproximadamente US$ 2,8 trilhões.
A estimativa não significa que a economia global encolheria 2,6% em relação ao tamanho atual. O cálculo indica que o PIB seria menor do que o previsto para 2030 caso os fluxos de capital, investimentos e pagamentos continuem se fragmentando.
Em um cenário mais grave, com aceleração da divisão financeira, a perda poderia chegar a US$ 6,5 trilhões. Uma trajetória de maior cooperação e interoperabilidade reduziria o impacto para cerca de US$ 1,3 trilhão.
O estudo considera que barreiras financeiras podem restringir investimentos, aumentar custos de transação, reduzir comércio e dificultar o movimento de capital entre países.
A advertência reforça o ponto central da revista: redes nacionais podem oferecer eficiência e soberania dentro das fronteiras, mas seu crescimento sem coordenação internacional pode produzir custos para todos os participantes.
Pix expõe limite do domínio financeiro norte-americano
A análise da The Economist coloca o Pix em uma posição incomum. Um sistema criado para modernizar pagamentos domésticos passou a ser tratado como exemplo de uma mudança na distribuição global de poder financeiro.
O Brasil não criou o único sistema de pagamentos instantâneos do mundo. Também não possui, sozinho, capacidade para substituir as redes de cartões, o dólar ou as principais infraestruturas bancárias internacionais.
A relevância do Pix está no que ele demonstrou ser possível: uma rede administrada por um banco central pode alcançar adesão de massa, reduzir custos e concorrer diretamente com empresas privadas globais.
A reprodução desse modelo em diferentes regiões altera a posição das companhias norte-americanas. Visa e Mastercard continuarão relevantes, mas precisarão disputar mercados nos quais governos e bancos locais construíram alternativas próprias.
A transformação também alcança os Estados Unidos. A pressão contra o Pix indica que a supremacia financeira norte-americana passou a enfrentar concorrência não apenas de outras moedas, mas de tecnologias, regulações e sistemas de pagamento desenvolvidos fora do país.
Para a The Economist, as empresas de pagamentos podem ser as primeiras afetadas. O risco maior, porém, está na formação de uma economia global dividida em redes que operam dentro de blocos e se conectam com dificuldade.
O Pix ocupa o centro dessa história não porque possa derrubar sozinho a arquitetura financeira internacional, mas porque se tornou uma prova concreta de que países podem construir seus próprios trilhos — e de que o domínio das empresas dos Estados Unidos sobre os pagamentos já não deve ser tratado como permanente.









