A Embraer (B3: EMBJ3; NYSE: EMBJ) deu mais um passo para ampliar sua presença no mercado global de aviação executiva ao obter, nesta terça-feira (25), certificação simultânea no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa para o Phenom 300EV, nova geração de uma das aeronaves comercialmente mais importantes de seu portfólio.
O movimento é relevante para a fabricante brasileira porque retira uma das principais barreiras regulatórias à comercialização do modelo nos maiores mercados de jatos executivos do mundo e fortalece uma divisão que encerrou o segundo trimestre de 2026 com US$ 7,8 bilhões em pedidos firmes.
As aprovações foram concedidas pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), pela Federal Aviation Administration (FAA), dos Estados Unidos, e pela European Union Aviation Safety Agency (Easa).
Com isso, a Embraer consegue levar ao mercado a nova geração do Phenom 300 já respaldada pelas três autoridades aeronáuticas de maior relevância para sua operação internacional.
A companhia espera começar as entregas do Phenom 300EV em 2028.
Até lá, a fabricante entra em uma nova fase: transformar a certificação técnica em pedidos, preparar a produção e tentar prolongar a liderança comercial de uma família de aeronaves que encerrou 2025 como o jato leve mais vendido do mundo pelo 14º ano consecutivo.
Embraer transforma tecnologia em argumento comercial
A principal inovação incorporada ao modelo é o Garmin Emergency Autoland, sistema capaz de assumir a aeronave e executar automaticamente um pouso em uma situação de incapacitação do piloto.
Segundo a Embraer, o Phenom 300EV tornou-se o primeiro avião da categoria de jatos leves certificado com a tecnologia e também o maior jato executivo atualmente equipado com o sistema.
Para a empresa, o recurso adiciona um novo argumento comercial à disputa no segmento.
O Phenom 300 é certificado para operação com apenas um piloto, característica que reduz custos e amplia a flexibilidade de utilização por proprietários e operadores.
Essa mesma possibilidade cria uma vulnerabilidade específica: caso o único piloto fique incapacitado, não existe necessariamente um segundo comandante treinado disponível.
É justamente nesse cenário que o Autoland foi desenvolvido para atuar.
O sistema pode ser acionado manualmente ou automaticamente e assume diferentes funções necessárias para conduzir a aeronave até um aeroporto e realizar o pouso.
A Embraer passa, assim, a utilizar automação não apenas como ferramenta operacional, mas como elemento de diferenciação comercial de uma de suas principais famílias de jatos.
Fabricante desenvolveu tecnologia própria para integrar o sistema
A adaptação do avião exigiu mais do que simplesmente instalar novos aviônicos.
A própria Embraer desenvolveu o Multi-Purpose Electronic Controller (MEC), controlador eletrônico responsável pela integração de diversas funções necessárias aos sistemas automatizados da aeronave.
Entre elas estão o autobrake e o rudder-by-wire, sistema em que comandos relacionados ao leme são transmitidos eletronicamente.
O controlador permite que a arquitetura da aeronave converse com os novos sistemas de automação e, segundo a fabricante, também reduz a carga de trabalho dos pilotos e simplifica atividades de manutenção.
A capacidade de desenvolver internamente componentes desse tipo é estratégica para a Embraer.
Quanto maior o domínio sobre integração eletrônica, sistemas de voo e arquitetura do avião, menor a dependência da fabricante de soluções externas para introduzir atualizações em suas plataformas.
Isso também permite que tecnologias criadas para uma determinada família possam futuramente gerar conhecimento aplicável a outros programas.
Phenom 300EV amplia alcance e desempenho
A Embraer não limitou a atualização do Phenom 300 à segurança.
O novo modelo passou a oferecer alcance de 2.055 milhas náuticas, equivalentes a aproximadamente 3.806 quilômetros, considerando quatro passageiros e reservas IFR de acordo com os critérios da National Business Aviation Association.
A velocidade máxima chega a Mach 0,80.
A ampliação da autonomia permite que o avião realize um número maior de rotas sem escalas.
Entre os exemplos apresentados pela fabricante estão São Paulo–Manaus, Aspen–Nova York e Dubai–Maldivas.
O modelo também recebeu melhorias na capacidade de carga útil.
Esse conjunto de alterações é comercialmente relevante porque a aviação executiva leve opera sob uma equação sensível entre número de passageiros, bagagem, combustível, alcance e performance.
Quanto maior a flexibilidade oferecida nessas variáveis, maior o número de missões que a aeronave consegue realizar sem precisar migrar para uma categoria superior e mais cara.
Automação avança sobre outras funções do avião
O Emergency Autoland é apenas uma parte da atualização.
A aeronave utiliza o conjunto de aviônicos Garmin G3000 Prodigy Touch, além de autothrottle, autobrake, sistema automático de descida de emergência e comandos rudder-by-wire.
Também está disponível o Runway Overrun Awareness and Alerting System, tecnologia destinada a alertar a tripulação caso exista risco de ultrapassar a pista durante pousos.
Outros recursos incluem orientação tridimensional durante o taxiamento, alertas relacionados à ocupação de pista e visão sintética.
A estratégia mostra como a Embraer está aumentando progressivamente a automação de suas aeronaves executivas.
A companhia procura reduzir o número de tarefas que dependem exclusivamente da intervenção humana e utilizar sistemas eletrônicos como camadas adicionais de segurança.
Conectividade passa a fazer parte do pacote
A disputa pela aviação executiva não ocorre apenas no cockpit.
A Embraer também incorporou ao Phenom 300EV soluções voltadas à experiência de passageiros.
A aeronave poderá sair de fábrica com acesso à rede de satélites de baixa órbita Gogo Galileo.
A empresa também trabalha para disponibilizar conectividade Starlink posteriormente por meio de um Certificado Suplementar de Tipo.
O interior recebeu ainda novo centro para bebidas e refeições, aprimoramentos no controle de temperatura, ionização de ar e lavatório a vácuo.
A altitude máxima de cabine anunciada é de 6.600 pés.
Esses itens assumem importância crescente porque fabricantes de jatos executivos disputam clientes não apenas por velocidade e autonomia, mas pela possibilidade de transformar o avião em uma extensão do ambiente corporativo.
Conectividade constante, conforto e capacidade de trabalho durante o voo passaram a integrar diretamente a proposta comercial das aeronaves.
Phenom 300 é uma das franquias mais importantes da Embraer
A certificação chega apoiada em uma plataforma que já possui escala global.
A família Phenom 300 foi o jato leve mais vendido do mundo pelo 14º ano consecutivo em 2025.
Também terminou o ano passado como o avião bimotor a jato com maior número de entregas globalmente pelo sexto ano seguido.
A Embraer entregou 72 aeronaves da família em 2025.
Mais de 900 unidades estavam em operação em aproximadamente 70 países no início de 2026, acumulando mais de 2,9 milhões de horas de voo.
Esses números tornam a atualização particularmente importante para a fabricante.
Diferentemente do lançamento de uma plataforma completamente nova, a Embraer pode oferecer o 300EV para uma base já estabelecida de operadores, proprietários, empresas de fretamento e centros de manutenção.
A familiaridade do mercado com a família reduz parte do risco comercial do lançamento.
Aviação Executiva ganha peso nos resultados da Embraer
O novo modelo também chega em um momento favorável para a divisão.
A Aviação Executiva registrou R$ 3,7 bilhões em receitas no segundo trimestre de 2026, crescimento de 19% sobre o mesmo período do ano anterior.
Segundo a companhia, o desempenho foi sustentado pelo aumento das entregas e por uma combinação mais favorável de modelos comercializados.
A carteira de pedidos da divisão terminou junho em US$ 7,8 bilhões, alta de 5% em 12 meses.
Isso significa que a unidade possui um volume relevante de receitas futuras contratadas antes mesmo de iniciar as entregas do Phenom 300EV.
Para uma fabricante aeronáutica, o tamanho do backlog é uma variável central porque a produção envolve ciclos longos, contratos assinados com antecedência e necessidade de planejar fornecedores, mão de obra e capacidade industrial.
Embraer acumula recorde de US$ 34,5 bilhões em pedidos
O momento positivo não está restrito aos jatos executivos.
A Embraer encerrou o segundo trimestre com uma carteira total de pedidos de US$ 34,5 bilhões, novo recorde histórico.
Foi o sétimo trimestre consecutivo em que o indicador atingiu máxima.
A empresa entregou 65 aeronaves entre abril e junho, o maior volume para um segundo trimestre em 16 anos.
A receita consolidada chegou a R$ 11,3 bilhões, enquanto o EBIT ajustado alcançou R$ 1,5 bilhão, com margem de 13,4%.
O avanço da carteira cria visibilidade para os próximos anos, mas também aumenta a pressão sobre execução.
A Embraer precisa elevar entregas e administrar uma cadeia global de fornecedores que ainda enfrenta gargalos em determinados componentes.
Nesse contexto, introduzir uma nova versão de uma aeronave já consolidada apresenta vantagens industriais em relação à criação de um programa totalmente novo.
Novo jato ajuda Embraer a defender posição contra concorrentes
A aviação executiva é um mercado altamente competitivo, dominado por fabricantes dos Estados Unidos, Canadá, França e Brasil.
No segmento leve, a Embraer conseguiu construir uma posição particularmente forte com a família Phenom.
Manter essa liderança exige atualizar continuamente a plataforma.
A certificação do 300EV mostra uma estratégia baseada em adicionar autonomia, automação, conectividade e segurança sem abandonar uma arquitetura de aeronave já conhecida pelo mercado.
Isso reduz o risco tecnológico para o cliente e permite que a fabricante utilize uma estrutura industrial e de suporte já estabelecida.
A incorporação do Autoland também oferece uma característica fácil de diferenciar comercialmente diante de concorrentes.
Certificação abre fase comercial até 2028
A aprovação simultânea por Anac, FAA e Easa encerra uma etapa importante, mas não o trabalho da Embraer com o programa.
A fabricante tem agora aproximadamente dois anos até o início previsto das entregas.
Nesse intervalo, precisará formar carteira de pedidos, preparar fornecedores, organizar capacidade industrial, concluir treinamentos e estruturar suporte técnico para a nova configuração.
O mercado poderá medir o sucesso inicial do projeto principalmente pela quantidade de encomendas acumuladas antes das primeiras entregas.
Também será necessário acompanhar se a Embraer conseguirá ampliar a produção de jatos executivos sem pressionar custos ou provocar atrasos.
Para a companhia, o Phenom 300EV é mais do que uma atualização tecnológica de uma aeronave.
O modelo é uma tentativa de prolongar a vida comercial de uma das plataformas mais bem-sucedidas da Embraer justamente em um momento em que sua divisão de aviação executiva cresce, sua carteira de pedidos está em expansão e o grupo registra recordes históricos de backlog.
A certificação tripla coloca o produto em condições de disputar pedidos nos principais mercados.
O próximo teste será comercial: converter a liderança construída pelo Phenom 300 em uma nova geração de encomendas capaz de sustentar o crescimento da Embraer na aviação executiva até a próxima década.
Fontes primárias
Embraer — certificação do Phenom 300EV pela Anac, FAA e Easa
Embraer — lançamento do Phenom 300EV
Embraer — resultados do segundo trimestre de 2026
Embraer — carteira de pedidos do segundo trimestre de 2026







