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Justiça dos EUA suspende compra da Warner Bros pela Paramount de US$ 110 bi

Ação de 12 estados dos EUA trava plano de fusão que criaria um novo rival de Netflix e Disney.

por Eduardo Toscano
22/07/2026 às 08h51
em Empresas
Ação De 12 Estados Dos Eua Trava Plano De Fusão Que Criaria Um Novo Rival De Netflix E Disney.-Gazeta Mercantil

Divulgação

Paramount Warner

A Justiça Federal dos Estados Unidos determinou na última segunda-feira, 20, a suspensão da aquisição da Warner Bros. Discovery pela Paramount, em transação avaliada em US$ 110 bilhões, após ação antitruste movida por uma coalizão de 12 estados liderada pela Califórnia. A decisão impede o fechamento do negócio até análise de mérito e recoloca em xeque a maior consolidação da indústria de mídia em quase uma década.

Leia também: Volkswagen prepara corte de até 100 mil empregos e fechamento de 4 fábricas na Alemanha em maior reestruturação em 89 anos

Segundo a Reuters, o pedido foi acatado pelo tribunal federal de Oakland. De acordo com a ação, protocolada em 13 de julho, a fusão criaria um conglomerado com poder para aumentar preços de ingressos, assinaturas de streaming, publicidade e licenciamento de conteúdo, além de reduzir concorrência na produção audiovisual. Os estados argumentaram que, se a operação avançasse, a Paramount começaria imediatamente a cortar empregos e a compartilhar informações confidenciais com a Warner Bros., movimento de difícil reversão caso a fusão fosse considerada ilegal depois.

Leia também: Justiça antecipa proteção contra cobrança de credores para empresas do grupo SouthRock.

A Paramount afirmou que a ação distorce a legislação antitruste já estabelecida e que adiar a transação apenas prejudica profissionais do entretenimento, que enfrentaram anos de turbulência com greves, cortes e reestruturações.

Fusão de US$ 110 bi mira rivalidade com Netflix e Disney

O acordo, anunciado em dezembro de 2025, é a aposta do presidente-executivo da Paramount, David Ellison, para transformar a companhia em uma competidora direta de Netflix (NFLX) e Disney (DIS). A Paramount Global (PARA) carrega catálogo com Paramount Pictures, CBS e Paramount+, enquanto a Warner Bros. Discovery (WBD) reúne Warner Bros. Studios, HBO, Max, CNN e canais de TV paga.

Combinadas, as duas empresas somariam receita anual superior a US$ 60 bilhões, biblioteca com mais de 200 mil horas de conteúdo e dois estúdios com poder de negociação ampliado frente a operadoras de TV paga, anunciantes e exibidores de cinema nos Estados Unidos. Para Ellison, filho do fundador da Oracle, a escala é condição para sustentar investimentos de US$ 20 bilhões ao ano em conteúdo original e esportes, patamar já praticado por Netflix e Disney.

A companhia comunicou ao mercado que a fusão geraria sinergias de custo e receita, mas não detalhou número de demissões. O histórico do setor indica que a maior parte das sinergias em mídia vem de cortes em áreas administrativas, marketing e distribuição internacional, além de unificação de plataformas de streaming.

Ação de 12 estados muda eixo do antitruste na mídia

A coalizão liderada pela Califórnia inclui procuradores-gerais de estados com forte presença da indústria do entretenimento, como Nova York e Illinois. O argumento central é que a operação reduz de cinco para quatro o número de grandes estúdios com capacidade de produzir e distribuir filmes em larga escala nos EUA, elevando concentração em janelas de cinema, streaming e licenciamento.

O caso marca uma mudança de abordagem. Em vez de ação exclusiva do Departamento de Justiça ou da FTC, são os estados que pedem medida cautelar para evitar o chamado “scrambled egg”, quando ativos são integrados de forma irreversível. O tribunal de Oakland concordou que o risco de dano irreparável à concorrência justificava a suspensão.

A decisão ocorre em um momento em que o governo americano intensificou o escrutínio sobre fusões de tecnologia e mídia, após a Suprema Corte derrubar parte das tarifas globais e o USTR passar a usar a Seção 301 para temas comerciais. Para a Gazeta Mercantil, o recado é que operações com prêmio elevado e alto endividamento terão de demonstrar benefício direto ao consumidor, não apenas ganho de escala para acionistas.

Impacto para investidores e para o mercado de streaming

Para investidores, a suspensão cria três efeitos imediatos. Primeiro, trava a arbitragem entre os papéis. Warner Bros. Discovery (WBD) vinha negociando com prêmio sobre o preço de tela justamente pela expectativa de fechamento. Paramount (PARA) acumulava volatilidade por dúvidas sobre como financiar US$ 110 bilhões em um balanço já alavancado.

Segundo, pressiona o plano de desalavancagem da WBD. A companhia carrega dívida superior a US$ 40 bilhões desde a fusão entre WarnerMedia e Discovery, em 2022, e via na venda uma saída para reduzir alavancagem e investir no Max. Com a operação suspensa, a empresa precisará manter cortes de custos e licenciamento de conteúdo para terceiros, estratégia que adotou nos últimos dois anos.

Terceiro, beneficia concorrentes. Netflix e Disney ganham tempo para reter assinantes sem enfrentar um terceiro player com biblioteca combinada de HBO, DC, Paramount e Showtime. Exibidores de cinema, representados por redes como AMC, também veem a decisão como freio a um potencial aumento de taxas de aluguel de filmes.

Quem ganha e quem perde com a trava na fusão

Ganham, no curto prazo, profissionais de Hollywood que temiam demissões imediatas, e procuradores que buscam estabelecer jurisprudência contra consolidação em conteúdo. Ganham ainda anunciantes e operadoras de TV paga, que manteriam maior poder de barganha.

Perdem acionistas que apostavam no fechamento rápido, bancos assessores que estruturaram financiamento e fornecedores que esperavam contratos maiores com um estúdio combinado. No Brasil, onde Warner Bros. Discovery opera Max, TNT, Cartoon Network e produz conteúdo local, a suspensão mantém a estrutura atual de distribuição e não altera, por ora, contratos com operadoras e agências de publicidade.

O que observar agora

O tribunal marcou audiência para analisar o mérito da liminar nas próximas semanas. A Paramount pode recorrer, propor remédios como venda de canais a cabo ou compromissos de não aumentar preços de streaming por período determinado, ou renegociar valor e estrutura de pagamento.

A Gazeta Mercantil apurou que o mercado monitora dois gatilhos. Primeiro, se o Departamento de Justiça decide entrar como amicus curiae ao lado dos estados, o que elevaria o risco regulatório. Segundo, se as agências de rating colocam a Paramount em revisão para rebaixamento caso a empresa precise manter financiamento de compromisso, o chamado bridge loan, por mais tempo.

Para o setor, a mensagem é que escala deixou de ser argumento suficiente. A Justiça quer ver como a fusão reduz preço de assinatura, amplia produção independente e preserva empregos em um mercado que já cortou mais de 20 mil vagas desde 2023. Sem essa demonstração, o acordo de US$ 110 bilhões entre Paramount e Warner Bros. Discovery seguirá suspenso.

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