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Fachin determina que Mendonça retire sigilo de investigação do caso Master

Presidente do STF manda compartilhar procedimentos com os demais ministros antes da sessão de 15 de setembro e admite sigilo apenas para diligências sensíveis.

por Júlia Campos
10/09/2026 às 23h27
em Política
Edson Fachin - Gazeta Mercantil

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, determinou nesta quinta-feira, 10 de setembro, que o ministro André Mendonça providencie a retirada do sigilo dos procedimentos relacionados à investigação do Banco Master e entregue aos demais integrantes da Corte o material reunido no caso. A medida ocorre cinco dias antes da sessão extraordinária convocada para 15 de setembro, quando o plenário deverá enfrentar a crise provocada pelos relatórios da Polícia Federal envolvendo Daniel Vorcaro, Alexandre de Moraes e a própria condução das investigações.

A determinação não significa divulgação irrestrita de tudo o que está sob apuração. Fachin admite a preservação do sigilo sobre diligências ainda em andamento quando a publicidade puder comprometer a investigação, expor medidas pendentes ou prejudicar a obtenção de provas. O restante do material, porém, deverá ser disponibilizado aos gabinetes dos ministros e ter seu grau de publicidade revisto por Mendonça, que é relator dos procedimentos relacionados ao Master.

Na prática, a providência amplia o acesso ao conjunto de documentos que está no centro de uma das mais graves disputas internas recentes do Supremo. Até agora, diferentes peças do caso tinham níveis distintos de sigilo, enquanto relatórios, decisões e informações atribuídas à Polícia Federal chegavam ao conhecimento público de forma fragmentada.

A decisão de Fachin busca colocar os 11 ministros em condições de analisar o mesmo conjunto documental antes da sessão extraordinária. O plenário deverá discutir, entre outros pontos, a validade dos relatórios produzidos no âmbito das apurações, questionamentos feitos pela Procuradoria-Geral da República e as consequências das decisões conflitantes tomadas nos últimos dias.

Fachin quer todos os ministros com acesso ao caso Master

O ponto central da determinação é a circulação do material dentro da própria Corte.

Mendonça deverá encaminhar à Presidência do STF e aos gabinetes dos demais ministros cópias dos procedimentos relacionados à investigação do Banco Master. A medida reduz a assimetria de informação que marcou parte da crise, na qual alguns documentos estavam sob responsabilidade de relatores específicos enquanto outros chegaram ao presidente do tribunal por caminhos processuais diferentes.

A publicidade também ganha peso porque o caso deixou de ser uma controvérsia restrita à investigação financeira conduzida contra o Banco Master e passou a envolver diretamente membros do Supremo, dirigentes da Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República.

Fachin tenta, assim, transferir a solução da disputa para uma decisão colegiada.

A sessão de 15 de setembro foi convocada justamente para que os ministros enfrentem conjuntamente questões que vinham sendo decididas por despachos individuais e que passaram a produzir ordens potencialmente incompatíveis entre si.

Relatórios sobre Vorcaro estão no centro da crise

A origem imediata da disputa está em relatórios produzidos pela Polícia Federal durante investigações relacionadas a Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.

O material reuniu informações sobre contatos mantidos por Vorcaro com autoridades e pessoas influentes e passou a chamar atenção para comunicações relacionadas ao ministro Alexandre de Moraes.

Parte dessas informações chegou aos autos sob relatoria de André Mendonça.

A divulgação do conteúdo desencadeou questionamentos sobre a forma pela qual os dados haviam sido produzidos, sua finalidade dentro da investigação e os limites da atuação da Polícia Federal.

A Procuradoria-Geral da República passou a contestar atos da investigação e levantou dúvidas sobre a possibilidade de um ministro do STF determinar, de ofício, diligências que pudessem atingir outro integrante da Corte.

Moraes também reagiu.

Documentos produzidos posteriormente colocaram em discussão a própria atuação de Mendonça na condução dos processos relacionados ao Banco Master. O conflito, que inicialmente envolvia o conteúdo dos relatórios, transformou-se rapidamente em uma disputa sobre competência, regularidade processual e limites institucionais.

Moraes levou acusações contra Mendonça a Fachin

Em 3 de setembro, Alexandre de Moraes encaminhou ao presidente do STF documentos nos quais apontou possíveis irregularidades na atuação de André Mendonça.

Moraes havia retirado o sigilo de sua própria decisão e determinado que o material fosse entregue a Fachin para as providências que a Presidência entendesse cabíveis.

No dia seguinte, Fachin deu prazo para que Mendonça e o procurador-geral da República, Paulo Gonet, se manifestassem sobre os questionamentos.

A partir desse momento, a Presidência do Supremo passou a assumir papel central na administração da crise.

O problema deixou de envolver apenas eventual responsabilidade de personagens investigados no caso Master. Passou a existir um conflito explícito entre ministros sobre a legalidade de atos praticados dentro das próprias investigações.

Afastamento da cúpula da PF ampliou conflito

A temperatura aumentou ainda mais quando André Mendonça determinou o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada.

A decisão estava relacionada a questionamentos sobre a produção e circulação dos relatórios que abasteceram as investigações.

Mendonça colocou sob suspeita a forma pela qual determinados documentos haviam sido elaborados e utilizados e decidiu afastar preventivamente os dois integrantes da cúpula da corporação.

A medida teve efeitos imediatos porque Andrei Rodrigues ocupa o posto máximo da Polícia Federal e porque a Diretoria de Inteligência participa de investigações sensíveis em diferentes áreas.

A reação veio por meio do ministro Flávio Dino.

Dino determinou que os dirigentes retornassem aos cargos ao analisar os impactos do afastamento sobre procedimentos que estavam sob sua relatoria. Entre eles estavam investigações relacionadas a emendas parlamentares e ao financiamento do projeto cinematográfico “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro.

Passaram, então, a coexistir decisões tomadas por dois ministros do Supremo com efeitos contraditórios sobre a mesma direção da Polícia Federal.

Fachin suspendeu decisões conflitantes

Diante do impasse, Fachin interveio.

O presidente do STF suspendeu os efeitos das decisões conflitantes relacionadas ao comando da Polícia Federal e manteve Andrei Rodrigues na direção da corporação enquanto a Corte organiza a análise das competências envolvidas.

Ao justificar sua intervenção, Fachin destacou a necessidade de preservar segurança jurídica e impedir que diferentes processos produzam comandos incompatíveis dentro do próprio tribunal.

A Presidência passou também a concentrar a análise de procedimentos capazes de resultar em investigações contra ministros do Supremo, tema particularmente sensível devido às garantias institucionais e às regras de competência envolvendo integrantes da Corte.

Foi nesse contexto que Fachin convocou a sessão extraordinária para 15 de setembro.

Agora, a determinação para que Mendonça retire o sigilo amplia o movimento de centralização e prepara o terreno documental para o julgamento.

Sigilo será preservado em diligências sensíveis

A retirada do sigilo não deverá alcançar automaticamente todos os detalhes da investigação.

Informações relacionadas a diligências ainda não concluídas poderão permanecer protegidas caso sua divulgação possa comprometer o trabalho da Polícia Federal, antecipar medidas aos alvos ou prejudicar a coleta de provas.

Essa ressalva segue uma lógica tradicional de investigações criminais.

O princípio da publicidade dos atos judiciais pode sofrer restrições quando existe fundamento legal para proteger diligências, intimidade, dados bancários, comunicações ou a eficácia da investigação.

A diferença estabelecida agora é que o segredo não deverá funcionar de maneira abrangente sobre todo o processo apenas porque determinadas diligências precisam permanecer reservadas.

A determinação de Fachin exige uma análise mais específica do que realmente necessita permanecer protegido.

Transparência sobre Master ganhou dimensão política

A questão do sigilo ultrapassou os limites do Judiciário.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu publicamente nesta quinta-feira a divulgação das investigações relacionadas ao Banco Master e afirmou que as apurações precisam avançar independentemente de quem seja atingido.

A pressão por transparência ocorre em pleno calendário eleitoral de 2026 e num momento em que diferentes personagens ligados ao caso possuem relações ou contatos com integrantes de campos políticos adversários.

O Banco Master e Daniel Vorcaro aparecem em investigações distintas que passaram a produzir efeitos tanto sobre figuras associadas ao bolsonarismo quanto sobre integrantes de instituições frequentemente atacadas pela oposição.

Essa característica aumenta o risco de que informações parciais sejam utilizadas politicamente antes que o Supremo defina a validade e o contexto de cada documento.

A disponibilização do material aos 11 ministros pretende reduzir essa fragmentação dentro da própria Corte.

Caso Master deixou de ser apenas uma investigação bancária

O Banco Master entrou inicialmente no centro das atenções por suspeitas financeiras e pelas investigações conduzidas após o agravamento de sua situação.

Com o avanço das apurações, entretanto, os investigadores passaram a examinar relações mantidas por Daniel Vorcaro com empresários, políticos, advogados e autoridades.

Foi nesse processo que informações envolvendo integrantes do Supremo começaram a aparecer.

Os relatórios que mencionam Alexandre de Moraes produziram a maior tensão institucional porque passaram a colocar um ministro do tribunal no universo de fatos que outro ministro acompanhava como relator.

A existência de contatos, isoladamente, não significa prática de crime. O ponto em discussão é a natureza das comunicações, seu contexto e se existe algum elemento juridicamente relevante que justifique aprofundamento investigativo.

É justamente essa avaliação que o plenário deverá enfrentar sem antecipar conclusões de responsabilidade.

PGR questiona validade de parte da apuração

A Procuradoria-Geral da República ocupa posição central nesse debate.

A PGR questionou a maneira pela qual determinados relatórios foram produzidos e incorporados às investigações e sustentou que atos capazes de atingir ministros do Supremo devem observar regras específicas de competência.

O tema vai além do conteúdo dos documentos.

Mesmo uma informação verdadeira pode gerar controvérsia processual caso tenha sido obtida fora das hipóteses legais, produzida sem autorização competente ou utilizada para finalidade diferente daquela que justificou originalmente a coleta dos dados.

Por isso, uma das questões enfrentadas pelo Supremo será definir se os procedimentos adotados respeitaram as competências institucionais e quais efeitos eventuais irregularidades teriam sobre as provas.

O julgamento do dia 15 pode estabelecer parâmetros para investigações futuras envolvendo integrantes da própria Corte.

Decisão aumenta pressão sobre Mendonça

A ordem coloca André Mendonça diante de uma providência objetiva antes da sessão.

Como relator, caberá a ele efetivar a revisão do sigilo nos procedimentos sob sua responsabilidade e preservar apenas os elementos cuja confidencialidade possa ser juridicamente justificada.

O episódio também reforça a mudança ocorrida na condução institucional da crise.

Nos primeiros momentos, Mendonça tinha papel predominante porque parte relevante das investigações estava sob sua relatoria. Com o conflito envolvendo Moraes, a reação de Dino e o afastamento da cúpula da PF, Fachin passou a exercer um controle cada vez maior sobre os pontos de interseção entre os processos.

Isso não significa que o presidente do STF tenha assumido automaticamente todas as atribuições dos relatores.

Significa que as questões capazes de produzir choques institucionais dentro do tribunal estão sendo encaminhadas para uma solução colegiada.

Sessão de 15 de setembro será decisiva

A próxima segunda-feira, 15 de setembro, torna-se agora o principal marco da crise.

Fachin convocou os 11 ministros para uma sessão extraordinária destinada a discutir as investigações relacionadas ao caso e os conflitos processuais que surgiram nas últimas semanas.

Até lá, a intenção é que todos tenham acesso ao mesmo conjunto de informações.

A retirada do sigilo também pode tornar pública uma quantidade maior de documentos que até agora circulavam apenas de forma parcial em reportagens, decisões individuais ou vazamentos atribuídos a integrantes das investigações.

O efeito político e institucional dessa publicidade dependerá do conteúdo efetivamente liberado.

Documentos podem confirmar informações já conhecidas, fornecer contexto que altere a interpretação de trechos divulgados isoladamente ou revelar novos elementos sobre a atuação de Vorcaro e seus interlocutores.

Por isso, a decisão de Fachin tem consequência que vai além da transparência formal.

Ao determinar que Mendonça retire o sigilo e compartilhe o material, o presidente do Supremo coloca os documentos originais no centro da discussão e reduz o espaço para que a crise continue sendo conduzida apenas a partir de versões apresentadas isoladamente pelos diferentes envolvidos.

O que permanecerá sob reserva deverá estar relacionado a diligências cuja publicidade possa efetivamente prejudicar a investigação.

O restante deverá ficar disponível para análise antes de uma sessão que poderá definir não apenas os próximos passos do caso Banco Master, mas também os limites de atuação de ministros, Polícia Federal e Procuradoria-Geral da República em investigações que atinjam integrantes do próprio Supremo.

Fontes: Supremo Tribunal Federal; Procuradoria-Geral da República; Polícia Federal; informações públicas dos processos relacionados ao Banco Master; apurações jornalísticas sobre a decisão de Edson Fachin.

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