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Ferrovia do Café de R$ 1 bi vai ligar Sul de Minas a Angra dos Reis com 740 km de trilhos

Projeto para recuperar trecho ocioso da FCA entre Varginha e Lavras avança na ANTT e terá leilão em outubro; Minas responde por 70% do arábica brasileiro.

por Ana Luiza Farias
04/08/2026 às 11h27
em Negócios
Ferrovia Do Café De R$ 1 Bi Vai Ligar Sul De Minas A Angra Dos Reis Com 740 Km De Trilhos-Gazeta Mercantil

Divulgação

Um projeto para reativar parte da malha ociosa da Ferrovia Centro-Atlântica no Sul de Minas e criar um corredor de exportação de café até o litoral fluminense ganhou tração em 2026 com articulação do setor produtivo, aval da Agência Nacional de Transportes Terrestres e entrada no Programa de Parcerias de Investimentos. A proposta, chamada de Ferrovia do Café, pretende recuperar trechos sem tráfego desde 2011 entre Varginha, Três Corações e Lavras e conectá-los aos portos do Rio de Janeiro, com investimento inicial estimado em mais de R$ 1 bilhão apenas no ramal mineiro.

Segundo a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo de Minas Gerais, que articula a iniciativa em conjunto com a federação fluminense, há grupos privados interessados na recuperação dos segmentos. O desenho prevê operação com retorno de cargas, como fertilizantes e insumos industriais, para aumentar a eficiência e reduzir o custo logístico da principal região produtora de arábica do país.

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O fato novo é a mudança de estágio regulatório. De acordo com a Agência Nacional de Transportes Terrestres, o corredor Minas-Rio foi aprovado como primeiro projeto de chamamento público do novo marco ferroviário e segue para análise do Tribunal de Contas da União antes da publicação do edital. O leilão, inicialmente previsto para abril de 2026, foi reprogramado para outubro de 2026.

Corredor Minas-Rio de 740 km será primeiro teste do novo modelo de autorizações

O corredor Minas-Rio totaliza cerca de 740 quilômetros e conecta municípios mineiros como Arcos, Lavras e Varginha a Barra Mansa e Angra dos Reis, no Rio de Janeiro. Segundo o Ministério dos Transportes, o traçado faz parte atualmente da malha da Ferrovia Centro-Atlântica, mas está quase inoperante e demanda investimentos para ampliação e modernização.

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A modelagem aprovada pela ANTT divide o corredor em dois lotes. O primeiro possui cerca de 625 quilômetros e liga Iguatama, em Minas Gerais, a Barra Mansa. O segundo conecta Barra Mansa ao Porto de Angra dos Reis, em aproximadamente 107 quilômetros. O ramal específico entre Varginha e Lavras, com cerca de 130 quilômetros, é tratado como segmento estratégico para o café.

O modelo é inédito. Em vez de concessão tradicional com pagamento de outorga elevada à União, o governo adotará chamamento público com autorização de exploração por até 99 anos e outorga simbólica de R$ 1. O critério de seleção será o maior valor proposto em investimento, com possibilidade de exploração de negócios associados. Se houver mais de um interessado, o governo escolhe a proposta mais vantajosa ao interesse público.

De acordo com a ANTT, a proposta busca ampliar a participação da iniciativa privada em trechos devolvidos ou subutilizados, permitindo que empresas de menor porte, as chamadas shortlines, operem linhas fora do foco das grandes concessionárias. A carteira total de trechos passíveis de devolução no Brasil soma cerca de 10 mil quilômetros, segundo a agência.

FCA devolverá mais de 3 mil quilômetros e renovará concessão com R$ 24 bilhões

A Ferrovia do Café só se tornou viável após a negociação de renovação antecipada da Ferrovia Centro-Atlântica. Segundo a ANTT, a FCA possui aproximadamente 7.220 quilômetros de extensão e interliga Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia, Sergipe e Goiás, além do Distrito Federal. Com a prorrogação antecipada, a malha será reduzida para 5.469 quilômetros.

Conforme a agência, serão devolvidos entre 3.051 e 3.110 quilômetros de trechos considerados antieconômicos ou inativos. A concessionária VLI, operadora da FCA, manterá cerca de 4,1 mil quilômetros no novo contrato de 30 anos, com vencimento até 2056. A concessão atual termina em setembro de 2026.

O acordo de renovação prevê investimentos privados de R$ 24 bilhões, segundo o Ministério dos Transportes, com R$ 13,82 bilhões em Capex, além de R$ 1 bilhão em conta vinculada, R$ 500 milhões em projetos e R$ 200 milhões para solução de conflitos urbanos. Há ainda previsão de teto de R$ 4,2 bilhões em indenizações pela devolução, cujo valor final será calculado após a assinatura.

Para o governo, a devolução permite aumentar a eficiência dos corredores de maior tráfego, hoje com baixa produtividade por operarem trechos construídos há mais de um século, e destinar os ramais regionais a novos operadores. Os trechos devolvidos poderão receber chamamentos públicos, autorizações independentes ou projetos de transporte de passageiros, conforme regulamentação da Resolução nº 6058 da ANTT de 2024.

Sul de Minas concentra 70% do arábica e paga até 41% em custo logístico

O Sul de Minas Gerais é o coração da cafeicultura brasileira. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento, a safra total de café do Brasil em 2026 deve atingir 66,7 milhões de sacas de 60 quilos, alta de 18% sobre 2025, configurando recorde histórico. Para o arábica, a Conab prevê produção de 45,8 milhões de sacas, aumento de 28% sobre o ano anterior e a terceira maior da série, atrás apenas de 2020 e 2018.

Minas Gerais deve responder por 32,8 milhões de sacas de arábica, de acordo com a Conab, o que representa cerca de 70% da produção nacional da variedade e aproximadamente metade da safra total brasileira. Em algumas projeções estaduais, o volume chega a 33,4 milhões de sacas, com crescimento de 29,8% sobre 2025, impulsionado pela bienalidade positiva e pela melhor distribuição de chuvas nos meses que antecederam a floração.

Hoje, a maior parte do café exportado segue por caminhão até os portos, especialmente Santos, o que torna a cadeia vulnerável ao preço do diesel e a gargalos rodoviários. Segundo estudos logísticos citados pela Confederação Nacional do Transporte, os custos logísticos respondem por cerca de 41% do preço final do café convencional e por 31% do café especial. Em levantamentos do Conselho dos Exportadores de Café, o frete rodoviário até os terminais pode chegar a 2% do valor da saca dependendo da região, com impacto maior em anos de alta do combustível.

O problema se agravou em 2025 e 2026. Exportadores encerraram 2025 com prejuízo logístico estimado em R$ 66,1 milhões, com 55% dos navios apresentando atrasos e 1.824 contêineres deixando de ser exportados por mês, segundo dados do setor. Em março de 2026, com instabilidades no Estreito de Ormuz, importante rota de combustíveis, o contrato futuro do café arábica avançou 2,94% refletindo preocupação com custos de transporte.

O projeto ferroviário aposta na reversão dessa lógica. Segundo o Ministério dos Transportes, a ferrovia pode reduzir entre 30% e 40% o preço do frete em relação ao rodoviário e viabilizar a importação de fertilizantes no retorno, além de transporte de calcário, clínquer, dolomita e insumos siderúrgicos. Atualmente, o corredor Minas-Rio movimenta cerca de 1,7 milhão de toneladas por ano, com projeção de superar 2,5 milhões nas próximas décadas.

Investimento vai de R$ 720 milhões no ramal a R$ 23 bilhões no corredor completo

As estimativas de investimento variam conforme o escopo considerado. Para o segmento de 130 quilômetros entre Varginha, Três Corações e Lavras, sem tráfego desde 2011, o investimento estimado é de R$ 449,6 milhões, segundo estudos setoriais. Para o conjunto do corredor entre Minas e Rio, a previsão inicial divulgada pela Federação do Comércio mineira é de aporte superior a R$ 1 bilhão na recuperação dos trechos, com atração de operadores privados.

Em apresentações do Porto Seco de Varginha, que atua como exportador e articulador logístico, o investimento total do projeto Varginha-Angra pode alcançar entre R$ 20 bilhões e R$ 23 bilhões considerando modernização completa, pátios intermodais e aproximação de 5 quilômetros até o porto de Angra. Já a renovação total da FCA envolve R$ 24 bilhões a R$ 40 bilhões, conforme diferentes fases de negociação divulgadas pela agência reguladora e pelo governo.

O modelo de autorização prevê que o vencedor do chamamento assine contrato de uso e inicie operações de forma gradual. Segundo o governo, a assinatura do contrato de concessão de uso deve ocorrer em outubro, após aval do Tribunal de Contas da União, com início das obras entre dois e quatro anos após a assinatura dos contratos, conforme prazo de licenciamento, desapropriações e obras de arte especiais.

O projeto também inclui potencial turístico. A ANTT incluiu a possibilidade de transporte de passageiros em seis trechos com perfil turístico no planejamento do PAC, e o corredor Minas-Rio é visto como indutor de mobilidade interurbana regional entre Lavras e Varginha.

Leilão em outubro no TCU e obras entre 2028 e 2030 definem viabilidade do café por trilhos

O cronograma atualizado mostra atraso em relação ao plano original. Segundo o Ministério dos Transportes, o governo pretendia leiloar oito ferrovias em 2026 com carteira de R$ 140 bilhões em investimentos, além de R$ 516 bilhões em operações. O Corredor Minas-Rio era previsto para abril, mas segue em análise no TCU e teve leilão reprogramado para outubro, coincidindo com o período eleitoral.

Conforme a ANTT, o edital era esperado para janeiro e a expectativa agora é que seja publicado após junho, após a análise da Corte de Contas, com leilão no último trimestre de 2026. A pasta informou que trabalha para publicar no segundo semestre pelo menos cinco editais estratégicos, incluindo o Anel Ferroviário Sudeste, Malha Oeste, Ferrogrão, Fico-Fiol e o chamamento da Minas-Rio.

Para o setor cafeeiro, o prazo é relevante. A safra recorde de 2026 deve pressionar a logística de escoamento até meados de 2027, enquanto a ferrovia só entraria em operação parcial entre 2028 e 2030 no cenário mais otimista. Até lá, o transporte permanecerá majoritariamente rodoviário, com dependência do Porto de Santos e exposição a variações do diesel.

O Tribunal de Contas da União avalia a segurança jurídica da modelagem, incluindo outorga simbólica, prazo de 99 anos e mecanismos de investimento cruzado e garantias via Fundo de Desenvolvimento da Infraestrutura Regional Sustentável. A aprovação do TCU é considerada etapa fundamental para atrair investidores e evitar leilões vazios, risco apontado por consultorias especializadas em infraestrutura.

Se viabilizado, o corredor poderá consolidar um novo eixo logístico entre o interior mineiro e o litoral fluminense, reduzindo tempo e custo de exportação de café, ampliando a competitividade do arábica brasileiro no mercado internacional e criando alternativa a portos congestionados. A diversificação de cargas e a possibilidade de receitas acessórias com negócios imobiliários nos pátios ferroviários são apontadas como fatores para viabilidade econômica da shortline.

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