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Correios reduzem prejuízo trimestral a R$ 2,39 bi, mas perdas no semestre sobem 30%

Estatal melhora resultado em relação ao primeiro trimestre, mas encerra junho com patrimônio líquido negativo de R$ 19,9 bilhões, forte consumo de caixa e pressão financeira.

por João Souza
31/08/2026 às 20h58
em Empresas
Correios - Gazeta Mercantil

Os Correios reduziram o prejuízo líquido no segundo trimestre de 2026, mas os números completos do balanço mostram que a estatal permanece diante de um quadro financeiro severo. Entre abril e junho, a companhia registrou perda de R$ 2,39 bilhões, resultado 24,4% menor que o prejuízo de R$ 3,16 bilhões apurado nos três primeiros meses do ano. Na comparação com o segundo trimestre de 2025, quando a perda havia alcançado R$ 2,53 bilhões, houve melhora de 5,5%.

O avanço trimestral, porém, não impediu uma deterioração no acumulado do ano. No primeiro semestre de 2026, os Correios perderam R$ 5,55 bilhões, contra R$ 4,26 bilhões no mesmo período do ano passado. A diferença representa aumento de 30,4% no prejuízo em doze meses e mostra que a recuperação observada entre o primeiro e o segundo trimestre ainda não foi suficiente para reverter a situação financeira da companhia.

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As demonstrações contábeis divulgadas pela estatal revelam outros sinais de pressão. O patrimônio líquido terminou junho negativo em R$ 19,91 bilhões, ante R$ 14,41 bilhões no encerramento de 2025. O fluxo de caixa das atividades operacionais ficou negativo em R$ 4,42 bilhões no semestre, enquanto ativos circulantes de R$ 3,33 bilhões eram inferiores aos R$ 7,50 bilhões de passivos de curto prazo.

A situação ganha relevância adicional porque o relatório de revisão dos auditores independentes foi emitido com ressalva. A Consult Auditores afirmou não ter conseguido concluir sobre a adequação integral dos R$ 8,91 bilhões registrados em provisões relacionadas a processos judiciais e precatórios, apontando pontos que ainda precisam de aprimoramento nos critérios e controles utilizados para mensurar esses passivos.

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Resultado melhora no trimestre, mas piora no semestre

A melhora do segundo trimestre ocorreu principalmente quando o desempenho é comparado aos três primeiros meses de 2026. O prejuízo antes do resultado financeiro caiu de aproximadamente R$ 2,52 bilhões no primeiro trimestre para R$ 1,89 bilhão entre abril e junho, redução próxima de 25%.

A receita líquida também reagiu na comparação trimestral. Passou de cerca de R$ 3,86 bilhões no primeiro trimestre para R$ 4,01 bilhões no segundo, aumento de 3,8%. A recuperação mostra que algumas medidas do Plano de Reestruturação 2025–2027 começaram a produzir efeitos operacionais, embora ainda distantes do necessário para recolocar a empresa no lucro.

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Quando a comparação é feita com 2025, entretanto, o quadro continua desfavorável. A receita líquida do primeiro semestre caiu de R$ 8,19 bilhões para R$ 7,87 bilhões, redução de 3,9%. Apenas no segundo trimestre, o faturamento líquido recuou 5,4%, de R$ 4,24 bilhões para R$ 4,01 bilhões.

O lucro bruto do semestre avançou de R$ 233 milhões para R$ 274 milhões, mas esse ganho foi absorvido por despesas de vendas, administrativas, financeiras e contingências. O resultado antes das despesas financeiras permaneceu negativo em R$ 4,41 bilhões, pior que a perda operacional de R$ 3,70 bilhões registrada nos primeiros seis meses de 2025.

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Despesa financeira mais que dobra

Um dos principais fatores de pressão está no custo financeiro. As despesas financeiras saltaram de R$ 673 milhões no primeiro semestre de 2025 para R$ 1,76 bilhão neste ano, crescimento superior a 160%.

Mesmo com receitas financeiras de R$ 625,6 milhões, o resultado financeiro líquido foi negativo em R$ 1,13 bilhão. No mesmo período do ano passado, a perda financeira havia sido de R$ 525 milhões. Em outras palavras, o impacto líquido das finanças mais que dobrou em doze meses.

Parte desse movimento está associada à reorganização do endividamento. Em dezembro de 2025, os Correios contrataram uma operação de crédito de R$ 12 bilhões junto a Banco do Brasil, Bradesco, Caixa Econômica Federal, Itaú e Santander, com garantia da União.

O financiamento tem vencimento final em dezembro de 2040 e carência para amortização até o fim de 2028. No encerramento de junho, o saldo contábil da operação já chegava a R$ 12,90 bilhões, incluindo os juros apropriados.

Os Correios afirmam que o empréstimo permitiu substituir obrigações mais curtas e caras e alongar o perfil da dívida. A empresa liquidou antecipadamente uma operação anterior de R$ 1,8 bilhão e informa que o novo financiamento possui custo efetivo inferior ao crédito substituído.

Caixa operacional consumiu R$ 4,42 bilhões em seis meses

A demonstração dos fluxos de caixa evidencia que o desafio vai além do prejuízo contábil. As atividades operacionais consumiram R$ 4,42 bilhões no primeiro semestre de 2026. No mesmo período de 2025, a saída operacional havia sido de R$ 265,6 milhões.

Essa diferença indica que a operação cotidiana ainda não produz recursos suficientes para financiar sozinha as necessidades da estatal. Parte da sustentação financeira vem, portanto, de empréstimos, resgates de aplicações financeiras, renegociação de obrigações e outras medidas previstas no plano de reestruturação.

Ao fim de junho, os Correios possuíam R$ 180,2 milhões em caixa e equivalentes de caixa. A empresa também mantinha aproximadamente R$ 4,69 bilhões em aplicações financeiras classificadas entre curto e longo prazo.

A relação entre ativos e passivos de curto prazo, entretanto, continua apertada. Os ativos circulantes somavam R$ 3,33 bilhões, enquanto as obrigações circulantes chegavam a R$ 7,50 bilhões. Isso corresponde a um índice de liquidez corrente próximo de 0,44, ou seja, R$ 0,44 em ativos de curto prazo para cada R$ 1 de obrigação com vencimento equivalente.

A própria administração reconhece nas demonstrações que a melhora operacional ainda não se converteu integralmente em geração recorrente de caixa e que a preservação da liquidez continuará sendo um elemento central do plano de recuperação.

Receita internacional despenca, enquanto logística avança

A composição das receitas ajuda a explicar parte da dificuldade enfrentada pelos Correios. O faturamento bruto com postagem internacional caiu de R$ 815,2 milhões no primeiro semestre de 2025 para R$ 354,8 milhões neste ano.

A redução foi de R$ 460,4 milhões, equivalente a aproximadamente 56,5%. A própria companhia identifica a retração da postagem internacional como o principal fator para a queda da receita líquida no semestre.

Esse segmento sofreu uma mudança estrutural nos últimos anos. O Tribunal de Contas da União registrou que a participação dos Correios no mercado de encomendas internacionais, que havia alcançado 99% em dezembro de 2023, caiu para 31% em junho de 2025 após mudanças regulatórias e aumento da competição privada.

Em sentido contrário, a área de logística apresentou crescimento expressivo. A receita bruta dessa atividade passou de R$ 204,9 milhões para R$ 422,8 milhões no primeiro semestre, mais que dobrando em um ano.

A evolução mostra a tentativa de compensar o encolhimento de negócios tradicionais com serviços de logística integrada e soluções para empresas. O desafio é fazer com que essas novas fontes cresçam em escala suficiente para neutralizar as perdas observadas em áreas historicamente relevantes.

PDV já retirou 6.545 trabalhadores

A redução de despesas com pessoal aparece como uma das frentes mais visíveis do plano. Até 30 de junho, 6.545 empregados que aderiram ao Programa de Desligamento Voluntário de 2024 já haviam deixado os Correios.

Desse total, 5.762 já receberam integralmente os incentivos financeiros previstos, enquanto 783 ainda possuíam valores a receber. Os pagamentos podem ser feitos à vista ou parcelados por períodos que chegam a 96 meses, conforme a opção realizada pelo empregado.

O custo de pessoal diretamente relacionado aos serviços caiu aproximadamente 4%, de R$ 5,61 bilhões no primeiro semestre de 2025 para R$ 5,38 bilhões em 2026. A redução ocorreu mesmo após reajuste salarial linear de 5,1% previsto no acordo coletivo.

Os cortes ajudaram a melhorar parte dos indicadores operacionais, mas as despesas administrativas continuaram elevadas. Elas somaram R$ 3,80 bilhões no primeiro semestre, acima dos R$ 3,30 bilhões registrados um ano antes.

Processos judiciais levam auditor a emitir ressalva

Uma das informações mais relevantes do balanço está no relatório da Consult Auditores Independentes. A firma apresentou conclusão com ressalva sobre as demonstrações intermediárias dos Correios.

Segundo os auditores, a empresa possuía R$ 8,91 bilhões registrados entre provisões para processos judiciais e precatórios em 30 de junho. Embora tenham sido identificados avanços na classificação dos riscos processuais, a auditoria afirmou que ainda existem pontos que precisam ser aprimorados nos critérios utilizados e nos controles internos.

Por esse motivo, não foi possível concluir sobre a adequação integral desse saldo nem determinar eventuais efeitos adicionais sobre o resultado do período.

Dentro desse montante, as provisões específicas para contingências somavam R$ 6,12 bilhões, contra R$ 4,86 bilhões no fim de 2025. O aumento foi de R$ 1,26 bilhão em seis meses, puxado principalmente por processos trabalhistas.

Os Correios explicam que a variação não significa necessariamente o surgimento de R$ 1,26 bilhão em novos processos. Parte do aumento decorreu de reavaliações das probabilidades de perda, atualização de valores e mudanças nas estimativas de desembolso relacionadas a ações já existentes.

TCU já havia alertado para fragilidades no plano

A deterioração financeira dos Correios também está sendo acompanhada pelo Tribunal de Contas da União. Em maio, o plenário analisou o Plano de Reestruturação 2025–2027 e apontou insuficiência na demonstração das premissas operacionais e econômico-financeiras adotadas pela companhia.

O TCU também identificou fragilidades nos mecanismos de monitoramento do plano e risco de que os recursos inicialmente previstos não sejam suficientes para restaurar a sustentabilidade da empresa.

Na ocasião, a Corte determinou que os Correios criassem indicadores mais objetivos para acompanhar os resultados financeiros das principais medidas, incluindo metas, realizações, diferenças entre o previsto e o executado e taxas de cumprimento.

A análise do Tribunal foi feita antes da divulgação das contas do segundo trimestre. Os novos números mostram melhora em alguns indicadores, como redução do prejuízo entre o primeiro e o segundo trimestre, mas confirmam a permanência de patrimônio líquido negativo, forte saída operacional de caixa e dependência de financiamento externo.

A administração dos Correios, por outro lado, afirma nas demonstrações de junho que, consideradas conjuntamente as fontes de liquidez já disponíveis, os financiamentos previstos e a execução do plano, não identifica atualmente incerteza relevante capaz de colocar em dúvida a continuidade das operações.

Correios negociam mais R$ 7 bilhões e preveem aporte da União

A próxima etapa financeira envolve novas fontes de recursos. As demonstrações informam que uma operação adicional de aproximadamente R$ 7 bilhões estava em estágio avançado de estruturação, também com previsão de garantia da União.

Até a autorização do balanço, entretanto, o novo empréstimo ainda não havia sido formalmente contratado. Os Correios afirmam que discutem as condições econômico-financeiras e contratuais com instituições interessadas.

A companhia também revelou negociações com o New Development Bank, o banco dos Brics, para uma operação externa estimada em R$ 4,2 bilhões destinada a um programa de modernização e transformação ecológica. Esse financiamento igualmente ainda não estava contratado na data do balanço.

Além disso, a União assumiu compromisso de realizar aporte de capital de R$ 6 bilhões até o fim de 2027. O valor integra o planejamento financeiro usado pela empresa em sua análise de continuidade operacional.

Os dados do segundo trimestre mostram, portanto, uma recuperação parcial, mas ainda insuficiente para caracterizar uma virada financeira. O prejuízo trimestral caiu, a receita melhorou em relação ao início do ano e os custos com pessoal recuaram. Ao mesmo tempo, a perda do semestre aumentou 30%, o caixa operacional consumiu R$ 4,42 bilhões, o patrimônio líquido negativo se aproximou de R$ 20 bilhões e a auditoria manteve ressalva sobre uma parcela bilionária dos passivos judiciais.

O próximo teste será verificar se o avanço operacional observado no segundo trimestre conseguirá se transformar em geração recorrente de caixa durante a segunda metade do ano. Também serão decisivas a contratação ou não dos novos financiamentos, a evolução das receitas e o cumprimento das metas do Plano de Reestruturação, que determinarão quanto apoio financeiro adicional a estatal ainda precisará para equilibrar suas contas.


FONTES:

Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos — Demonstrações Contábeis Intermediárias do 2º trimestre de 2026.

Consult Auditores Independentes — Relatório de revisão das informações contábeis intermediárias dos Correios, de 24 de agosto de 2026.

Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos — comunicado sobre o resultado do segundo trimestre de 2026, de 29 de agosto de 2026.

Tribunal de Contas da União — Acórdão 1.359/2026, Plenário, processo TC 021.622/2025-6.

Tribunal de Contas da União — acompanhamento do Plano de Reestruturação dos Correios.

Secretaria do Tesouro Nacional — operação de crédito de R$ 12 bilhões garantida pela União.

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