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Poupança ainda vale a pena? Veja quanto rende com a Selic a 14%

Caderneta continua segura e isenta de IR, mas perde rentabilidade para CDBs e Tesouro Selic no atual cenário de juros.

por Maria Helena Costa
01/09/2026 às 14h36
em Economia
Poupança Ainda Vale A Pena? Veja Quanto Rende Com A Selic A 14% - Gazeta Mercantil - Economia

A resposta curta é: para quem busca rentabilidade, não. Para quem prioriza simplicidade absoluta e disponibilidade imediata do dinheiro, a poupança ainda pode ter alguma utilidade, mas dificilmente é hoje a melhor alternativa para concentrar as reservas financeiras.

Com a taxa Selic em 14% ao ano desde 6 de agosto, o Brasil continua oferecendo uma das maiores remunerações nominais do mundo para investimentos de renda fixa. A poupança, porém, não acompanha integralmente esse movimento. Pela legislação, sempre que a Selic permanece acima de 8,5% ao ano, a caderneta rende 0,5% ao mês mais a Taxa Referencial, a TR.

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Na prática, um depósito com aniversário em 1º de setembro de 2026 apresentou rendimento de 0,6701% no período mensal, segundo dados do Banco Central. Se uma taxa desse nível fosse repetida por 12 meses, apenas como exercício de comparação, a rentabilidade acumulada seria de aproximadamente 8,34%.

É um rendimento positivo e, nas condições recentes de inflação, capaz de preservar o poder de compra. O problema aparece quando a poupança é comparada com outros investimentos conservadores disponíveis ao pequeno investidor.

Com a Selic efetiva girando ao redor de 13,9% ao ano, aplicações que acompanham o CDI ou a própria Selic podem proporcionar uma remuneração significativamente superior, mesmo depois da cobrança de Imposto de Renda.

Por que a poupança rende tão menos que a Selic?

Existe um detalhe importante na regra da caderneta.

Quando a taxa básica está acima de 8,5% ao ano, como ocorre atualmente, o rendimento adicional da poupança deixa de aumentar junto com a Selic. Ele fica limitado a 0,5% ao mês, acrescido da TR.

Essa parcela fixa de 0,5% ao mês corresponde a aproximadamente 6,17% ao ano antes da inclusão da TR.

Isso significa que uma Selic de 10%, 12%, 14% ou 15% não provoca aumento proporcional do rendimento da caderneta. A diferença entre a poupança e os investimentos diretamente vinculados aos juros tende, portanto, a aumentar quando a política monetária permanece restritiva.

Foi exatamente esse ambiente que tornou a poupança relativamente menos competitiva.

O Copom reduziu em agosto a meta da Selic para 14% ao ano. A taxa efetiva passou a operar próxima de 13,9%. Enquanto isso, a remuneração recente da caderneta permaneceu ao redor de 0,65% a 0,67% ao mês, dependendo da data de aniversário e da TR aplicável.

R$ 10 mil: quanto a diferença pode representar

Uma simulação simples ajuda a dimensionar o custo de oportunidade.

Considere R$ 10 mil mantidos durante um ano e, para facilitar a comparação, suponha que o rendimento mensal recente de 0,6701% da poupança fosse repetido durante os próximos 12 meses.

Ao final do período, o saldo ficaria próximo de:

Poupança: R$ 10.834

Agora considere um CDB que pague aproximadamente 100% do CDI, usando como referência uma taxa anual próxima de 13,9%.

Depois de 365 dias, o rendimento estaria sujeito à alíquota de 17,5% de Imposto de Renda sobre o lucro. Numa aproximação simplificada, o resultado líquido ficaria próximo de:

CDB a 100% do CDI: R$ 11.147

A diferença seria de aproximadamente R$ 312 em apenas um ano para cada R$ 10 mil investidos.

Com R$ 50 mil, mantidas as mesmas premissas, a diferença poderia superar R$ 1,5 mil.

Com R$ 100 mil, passaria de R$ 3 mil.

As contas são ilustrativas. CDI, Selic e TR podem mudar ao longo do período, e as condições dos CDBs variam entre instituições. Ainda assim, o exercício mostra por que a vantagem tributária da poupança não é suficiente, no cenário atual, para compensar integralmente sua remuneração menor.

“Mas a poupança não paga Imposto de Renda”

Esse é um dos principais argumentos em favor da caderneta — e é verdadeiro.

Para a pessoa física, os rendimentos da poupança são isentos de Imposto de Renda. Já CDBs e títulos do Tesouro Direto seguem a tabela regressiva de tributação da renda fixa.

A alíquota é de 22,5% para aplicações de até 180 dias; 20% de 181 a 360 dias; 17,5% de 361 a 720 dias; e 15% para aplicações mantidas por prazo superior a 720 dias.

Mesmo assim, com os juros nos níveis atuais, diversos investimentos tributados conseguem entregar rendimento líquido superior ao da poupança.

Essa é uma distinção importante. O investidor não deve comparar apenas a taxa anunciada. É necessário comparar o rendimento líquido, depois dos impostos e das eventuais tarifas.

A poupança vence algumas aplicações muito mal remuneradas. Mas começa a perder competitividade rapidamente diante de produtos que entregam percentuais razoáveis do CDI.

O aniversário da poupança também pesa contra ela

Existe outro aspecto pouco percebido.

O rendimento da poupança não é acumulado diariamente para o investidor. Ele é creditado na chamada data de aniversário da aplicação.

O Banco Central determina que a remuneração seja calculada sobre o menor saldo de cada período de rendimento.

Isso cria uma desvantagem para quem precisa movimentar o dinheiro.

Se o investidor depositou recursos no dia 10 e retirá-los antes do próximo aniversário, por exemplo, não recebe a remuneração correspondente àquele período sobre a parcela retirada.

Em investimentos pós-fixados com remuneração diária, a lógica é diferente: o dinheiro tende a acumular rendimento a cada dia útil em que permanece aplicado, observadas as regras específicas de cada produto.

Para uma reserva que pode ser movimentada várias vezes durante o mês, essa diferença operacional merece atenção.

E para a reserva de emergência?

É aqui que a análise precisa ser mais equilibrada.

A poupança continua tendo características relevantes: não exige conhecimento financeiro, normalmente não cobra tarifas, permite resgate simples, tem rendimento isento de IR e conta com proteção do Fundo Garantidor de Créditos nas instituições participantes.

O FGC cobre depósitos de poupança e CDBs elegíveis em até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ por instituição financeira ou conglomerado, respeitado ainda o teto global de R$ 1 milhão em garantias pagas dentro de um período de quatro anos.

Por isso, manter uma pequena parcela de dinheiro na poupança por conveniência não representa necessariamente um erro.

Uma pessoa pode, por exemplo, querer deixar recursos para necessidades imediatas em uma conta facilmente acessível, sem se preocupar com vencimentos, impostos ou seleção de investimentos.

O problema é transformar essa conveniência em estratégia para todo o patrimônio.

Para uma reserva de emergência maior, existem CDBs com liquidez diária e Tesouro Selic que podem oferecer remuneração superior. O investidor deve, porém, conferir cuidadosamente as regras de resgate, horários de liquidação e disponibilidade efetiva dos recursos.

Emergência exige liquidez real, não apenas rentabilidade.

Tesouro Selic também entra na comparação

O Tesouro Selic é outra alternativa frequentemente utilizada para reservas conservadoras.

O título acompanha a taxa básica de juros e possui liquidez oferecida pelo Tesouro Direto dentro das regras do programa.

Há incidência de Imposto de Renda pela mesma tabela regressiva aplicada à renda fixa. Resgates realizados antes de 30 dias também podem sofrer IOF sobre o rendimento.

Existe ainda taxa de custódia da B3 de 0,2% ao ano, mas, no caso do Tesouro Selic, os primeiros R$ 10 mil por CPF são isentos dessa cobrança. Acima desse valor, a taxa incide apenas sobre o excedente.

O Tesouro Selic não possui garantia do FGC porque é um título da dívida pública federal. O risco, nesse caso, é associado diretamente ao governo brasileiro, e não à instituição financeira utilizada para realizar a compra.

A inflação ainda permite ganho real à poupança

Seria incorreto afirmar que o dinheiro colocado na poupança atualmente está necessariamente perdendo poder de compra.

O IPCA acumulado em 12 meses até junho estava em 4,64%, segundo o IBGE. Considerando apenas como referência uma rentabilidade anualizada próxima de 8,34%, a poupança entregaria ganho acima da inflação se essas condições fossem mantidas.

Portanto, o problema atual da caderneta não é necessariamente produzir retorno real negativo.

O problema é quanto o investidor deixa de ganhar utilizando a poupança quando poderia assumir nível semelhante de risco financeiro e obter remuneração maior em outras modalidades conservadoras.

Esse custo de oportunidade aumenta com o tamanho do patrimônio e com o tempo.

Uma diferença aparentemente pequena em um único mês se torna relevante quando acumulada durante vários anos.

Então, quem ainda deveria usar a poupança?

A poupança pode continuar fazendo sentido para três situações principais.

A primeira é para valores pequenos destinados a necessidades imediatas, quando a facilidade de movimentação vale mais que alguns pontos adicionais de rentabilidade.

A segunda é para pessoas que, por qualquer razão, não utilizam produtos de investimento e preferem manter o dinheiro em uma estrutura extremamente simples.

A terceira é como parcela operacional de uma reserva, desde que o investidor compreenda que está aceitando ganhar menos em troca dessa simplicidade.

Fora dessas situações, há poucos argumentos financeiros para concentrar quantias relevantes na caderneta enquanto a Selic permanece muito acima de 8,5%.

Gazeta Mercantil responde: afinal, vale a pena?

Como investimento destinado a rentabilizar patrimônio, a poupança não é hoje a opção mais eficiente.

Ela continua segura, simples, isenta de Imposto de Renda e capaz de gerar ganho real nas condições atuais. Mas essas vantagens não eliminam a diferença de remuneração em relação a CDBs competitivos e ao Tesouro Selic.

Para quem possui R$ 20 mil, R$ 50 mil ou R$ 100 mil parados na caderneta durante vários anos, a diferença acumulada pode se transformar em milhares ou dezenas de milhares de reais.

A conclusão, portanto, não é que todos devam zerar imediatamente a poupança. É que a caderneta deixou de justificar, na maior parte dos casos, a função de principal investimento conservador de uma carteira.

A próxima variável decisiva será a trajetória da Selic. Enquanto a taxa básica permanecer acima de 8,5%, a poupança continuará submetida à fórmula de 0,5% ao mês mais TR. Novos cortes do Copom podem reduzir a vantagem das alternativas pós-fixadas, mas será necessário acompanhar até que ponto essa diferença diminui antes de a caderneta voltar a se tornar competitiva.

Fontes

Banco Central do Brasil — decisão do Copom de 5 de agosto de 2026 e histórico da Taxa Selic.

Banco Central do Brasil — remuneração oficial dos depósitos de poupança e Taxa Referencial.

Banco Central do Brasil — séries da taxa Selic efetiva.

Tesouro Nacional — regras, tributação, liquidez e taxa de custódia do Tesouro Direto.

Receita Federal — tabela de tributação de aplicações de renda fixa em 2026.

Fundo Garantidor de Créditos — regras e limites da garantia ordinária.

IBGE — Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo.

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