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Governo vai bloquear dinheiro de bets ilegais e destinar valores à segurança pública

Decreto assinado por Lula atinge contas de operadores clandestinos após investigação identificar 37 empresas com movimentação bilionária.

por Maria Helena Costa
19/06/2026 às 10h52
em Economia
Governo Divulga Arrecadação De Abril Com Impostos Sobre Bets E Loterias

O governo federal vai bloquear preventivamente recursos financeiros vinculados a bets ilegais e poderá destinar os valores apreendidos ao Fundo Nacional de Segurança Pública após a conclusão dos procedimentos legais, anunciou o ministro da Fazenda, Dario Durigan, nesta sexta-feira, 19 de junho. O decreto foi assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como parte de uma nova ofensiva contra plataformas de apostas que operam sem autorização no Brasil.

A medida busca atingir diretamente a estrutura financeira das bets ilegais, impedindo que os responsáveis movimentem, ocultem, convertam ou transfiram para o exterior recursos obtidos por meio de operações clandestinas. O governo considera que o bloqueio de páginas na internet, embora necessário, não é suficiente para retirar essas empresas do mercado.

Leia também: Por que a gestão pública do Pix é essencial para a segurança e inclusão financeira no Brasil.

O decreto foi anunciado um dia após a Operação Conto da Sorte, que apura a atuação de um grupo formado por 37 empresas de apostas de quota fixa sem autorização da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda. Segundo estimativa preliminar apresentada pelo governo, essas empresas teriam movimentado até R$ 50 bilhões.

A operação cumpriu 14 mandados de busca e apreensão em Pernambuco, Ceará e São Paulo. As decisões judiciais também autorizaram medidas para assegurar até R$ 145 milhões em bens e direitos, destinados a garantir eventual reparação dos prejuízos e recuperação de recursos caso as suspeitas sejam confirmadas.

Leia também: Governo estuda destinar R$ 30 bi do BNDES para apoio a empresas afetadas por tarifas dos EUA.

Os investigados são tratados como suspeitos e têm direito à defesa, ao contraditório e à presunção de inocência. O valor efetivamente movimentado pelo grupo ainda será apurado a partir dos documentos, equipamentos, dados financeiros e materiais recolhidos durante as diligências.

Decreto mira o fluxo de dinheiro das plataformas clandestinas

O novo decreto representa uma mudança de escala na estratégia federal contra as bets ilegais. Até agora, uma das ações mais visíveis do governo era a retirada de sites do ar em cooperação com a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).

Mais de 39 mil endereços eletrônicos ligados a apostas irregulares já foram bloqueados desde o início da ofensiva. O governo, porém, reconhece que operadores clandestinos conseguem criar novos domínios, migrar usuários para aplicativos ou usar páginas espelho pouco tempo depois de uma restrição.

Ao atacar o fluxo financeiro, o Executivo pretende atingir o ponto central do modelo de negócio. Sem contas bancárias, instituições de pagamento, intermediadores e mecanismos para receber depósitos ou efetuar saques, as bets ilegais perdem capacidade de atrair apostadores e manter suas operações.

O bloqueio preventivo também busca evitar que o dinheiro desapareça durante investigações ou processos administrativos. Plataformas digitais podem transferir recursos rapidamente para contas de terceiros, empresas de fachada, ativos virtuais ou estruturas mantidas em outras jurisdições.

A medida permitirá preservar os valores enquanto as autoridades apuram a origem, o destino e os beneficiários das movimentações. Somente após o devido processo legal e a confirmação das irregularidades os recursos poderão receber a destinação prevista pelo governo.

Valores poderão reforçar Fundo Nacional de Segurança Pública

Uma das principais novidades é a possibilidade de direcionar ao Fundo Nacional de Segurança Pública os recursos definitivamente apreendidos de bets ilegais. O dinheiro poderá financiar políticas de combate ao crime organizado, inteligência financeira, investigação e segurança pública.

A destinação não será automática. O uso dos valores dependerá da conclusão dos procedimentos administrativos ou judiciais aplicáveis e do reconhecimento definitivo de que os recursos estavam ligados a atividades ilegais.

A iniciativa aproxima o combate às apostas clandestinas da política de enfrentamento ao crime organizado. O governo avalia que parte do mercado ilegal pode ser utilizada para lavagem de dinheiro, ocultação patrimonial, evasão de divisas e circulação de recursos de origem criminosa.

As apostas online envolvem elevado número de transações, depósitos e saques, muitas vezes realizados em valores fragmentados. Essa característica pode dificultar a identificação da origem do dinheiro e facilitar tentativas de dissimular movimentações ilícitas.

Ao bloquear os recursos e prever sua destinação à segurança pública, o governo procura transformar o patrimônio retirado de operadores clandestinos em financiamento para a própria estrutura de repressão ao crime.

Bancos e fintechs terão de interromper transações

O endurecimento das regras amplia as obrigações de bancos, fintechs, instituições de pagamento, adquirentes e demais empresas que participam do processamento financeiro das apostas.

Uma norma do Ministério da Fazenda estabelece que as instituições notificadas deverão bloquear, em até 24 horas, transações associadas a bets ilegais. A comunicação será feita pela Secretaria de Prêmios e Apostas e pela Receita Federal.

As empresas financeiras terão de conferir se os operadores estão autorizados a atuar no país, identificar movimentações incompatíveis e interromper relações com plataformas clandestinas. Também deverão reforçar mecanismos de conhecimento do cliente, rastreamento de beneficiários e prevenção à lavagem de dinheiro.

O governo pretende impedir que bets ilegais utilizem empresas aparentemente regulares para receber depósitos de apostadores. Uma das preocupações é o uso de sociedades com atividades econômicas distintas, contas de passagem ou intermediários para mascarar a verdadeira finalidade das transações.

A nova estrutura aumenta os custos de conformidade para o sistema financeiro, mas também reduz a exposição de bancos e fintechs a riscos regulatórios, investigações e danos de reputação.

Instituições que continuarem facilitando operações clandestinas após serem formalmente notificadas poderão enfrentar responsabilização administrativa e tributária, conforme as regras aplicáveis.

Operação Conto da Sorte investiga 37 empresas

A Operação Conto da Sorte foi deflagrada para investigar um grupo suspeito de explorar apostas de quota fixa sem autorização federal. As apurações envolvem a Receita Federal, órgãos do Ministério Público e a Secretaria de Prêmios e Apostas.

Segundo Dario Durigan, o grupo identificado reunia 37 empresas que atuavam como bets ilegais. A movimentação preliminar atribuída às companhias chega a R$ 50 bilhões, mas o governo ressalta que o montante exato ainda será verificado.

As diligências foram realizadas em Pernambuco, Ceará e São Paulo. Os investigadores buscam documentos societários, registros contábeis, dados bancários, equipamentos eletrônicos e informações que permitam reconstruir o fluxo financeiro das empresas.

A investigação também deverá apurar quem controlava efetivamente as plataformas, quais instituições processavam os pagamentos e como os valores eram distribuídos entre empresas, sócios e possíveis intermediários.

As autoridades pretendem verificar ainda se houve prática de lavagem de dinheiro, crimes tributários, exploração irregular de apostas ou outras infrações relacionadas ao funcionamento das plataformas.

O bloqueio de até R$ 145 milhões em bens e direitos busca garantir que parte dos recursos permaneça disponível para eventual ressarcimento, pagamento de obrigações ou execução de decisões futuras.

Bets ilegais competem sem impostos e controles regulatórios

A ofensiva é acompanhada de perto pelas empresas autorizadas a operar no Brasil. O mercado regulado afirma enfrentar concorrência desigual com plataformas que não pagam os mesmos tributos nem cumprem as exigências impostas pelo Ministério da Fazenda.

Operadores licenciados precisam adotar mecanismos de identificação dos apostadores, proteção de dados, prevenção à lavagem de dinheiro e promoção do jogo responsável. Também estão sujeitos a regras de publicidade, fiscalização e pagamento de taxas e tributos.

As bets ilegais funcionam fora desse sistema. Algumas oferecem bônus mais agressivos, utilizam publicidade proibida, dificultam a retirada de prêmios ou não mantêm mecanismos adequados de atendimento ao consumidor.

Essa concorrência reduz a capacidade de o Estado arrecadar, fiscalizar as atividades e proteger os usuários. Também afeta empresas que pagaram pela autorização e investiram em sistemas para atender às normas brasileiras.

O bloqueio do fluxo financeiro é visto como instrumento potencialmente mais eficaz do que a simples retirada de páginas do ar. Sem meios para receber dinheiro e pagar os apostadores, a continuidade da operação se torna mais difícil.

Governo tenta impedir lavagem de dinheiro e evasão

O combate às bets ilegais ganhou relevância não apenas pela perda de arrecadação, mas pelos riscos associados à circulação de recursos sem rastreabilidade.

Plataformas clandestinas podem ser utilizadas para converter dinheiro de origem ilícita em valores aparentemente relacionados a ganhos em apostas. O setor também permite grande volume de transferências em curto espaço de tempo, o que exige monitoramento permanente.

O governo pretende integrar informações da Secretaria de Prêmios e Apostas, Receita Federal, Conselho de Controle de Atividades Financeiras, Banco Central, Polícia Federal e Ministério Público.

A Anatel continuará atuando no bloqueio de sites, enquanto órgãos financeiros e fiscais concentrarão esforços nas contas, beneficiários, intermediadores e estruturas societárias vinculadas às operações.

A coordenação entre os órgãos será determinante para impedir que as bets ilegais apenas migrem de uma instituição financeira para outra. Também será necessário acompanhar o uso de criptoativos e contas mantidas fora do país.

Bloqueio preventivo exigirá segurança jurídica

Embora o bloqueio rápido seja considerado necessário para preservar recursos, a medida deverá respeitar garantias legais. Empresas e pessoas atingidas terão direito a conhecer os fundamentos da restrição e apresentar defesa.

O bloqueio preventivo não equivale a uma condenação. Trata-se de uma medida destinada a impedir a dissipação de patrimônio enquanto as autoridades analisam os indícios reunidos.

Para que os valores sejam definitivamente apreendidos ou transferidos ao Fundo Nacional de Segurança Pública, será necessária a observância do devido processo legal. A destinação dependerá da confirmação das irregularidades e das decisões administrativas ou judiciais cabíveis.

A segurança jurídica será um dos principais desafios da nova política. Restrições sem fundamentação adequada podem ser contestadas nos tribunais, enquanto uma atuação lenta pode permitir que operadores retirem o dinheiro do alcance das autoridades.

O governo terá de demonstrar que os mecanismos de identificação das bets ilegais são objetivos, atualizados e capazes de evitar o bloqueio indevido de empresas autorizadas ou de terceiros sem relação com as irregularidades.

Regulação das apostas entra em etapa de repressão financeira

A assinatura do decreto indica que a regulação das apostas online entrou em uma nova fase no Brasil. Depois de estabelecer as regras para concessão de autorizações, o governo concentra esforços em retirar do mercado as plataformas que permaneceram na clandestinidade.

O Ministério da Fazenda sustenta que proibir integralmente as apostas poderia fortalecer a ilegalidade. A estratégia adotada é manter um mercado autorizado sob fiscalização e aumentar a repressão aos operadores que não cumprem as exigências.

A efetividade do modelo depende da capacidade de diferenciar claramente plataformas regulares e clandestinas. Também exige que publicidade, meios de pagamento e serviços digitais deixem de atender empresas sem licença.

O governo enfrenta ainda pressão política para reduzir os danos sociais associados às apostas, como endividamento, compulsão, uso de benefícios sociais e publicidade direcionada a públicos vulneráveis.

Nesse contexto, o decreto combina objetivos econômicos, regulatórios e de segurança pública. O bloqueio busca proteger consumidores, preservar a arrecadação e impedir que estruturas de apostas sejam utilizadas para movimentar recursos ilícitos.

Cerco financeiro amplia pressão sobre bets ilegais

A decisão de atingir diretamente o dinheiro das bets ilegais representa o movimento mais duro do governo desde o início da regulamentação do setor.

O bloqueio de sites continuará sendo usado, mas passa a fazer parte de uma estratégia mais ampla, que envolve contas bancárias, instituições de pagamento, patrimônio, responsabilização tributária e possível destinação de recursos apreendidos à segurança pública.

A Operação Conto da Sorte evidenciou a dimensão do problema ao identificar um grupo de 37 empresas com movimentação preliminar estimada em até R$ 50 bilhões. A apuração dos valores exatos e das responsabilidades dependerá da análise do material recolhido.

Para bancos e fintechs, o novo cenário exige controles mais rigorosos e resposta rápida às notificações oficiais. Para as plataformas autorizadas, a medida pode reduzir a concorrência irregular. Para os operadores clandestinos, o risco deixa de se limitar à retirada de páginas do ar e passa a alcançar o patrimônio.

O resultado da ofensiva dependerá da coordenação entre Fazenda, Receita Federal, Banco Central, Coaf, Anatel, Polícia Federal, Ministério Público e Poder Judiciário. Com o decreto, o governo tenta fechar o caminho financeiro que permite às bets ilegais continuar funcionando mesmo após o bloqueio de seus sites.

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