A ascensão e queda do Banco Master: a história da instituição que se reinventou e virou protagonista do sistema financeiro
A trajetória do Banco Master sintetiza algumas das transformações mais profundas do mercado financeiro brasileiro nas últimas décadas. De uma pequena corretora fundada nos anos 1970 ao conglomerado multibilionário que se consolidou na Faria Lima, o banco passou por sucessivas reinvenções, mudanças de controle, períodos de expansão acelerada e estratégias heterodoxas que dividiram opiniões entre analistas. Em meio ao crescimento incomum para uma instituição de médio porte e a aposta em segmentos considerados de risco elevado, o Master se converteu em símbolo de um modelo agressivo de negócios que marcou a última década do setor, especialmente após a chegada de Daniel Vorcaro ao comando.
Para entender o impacto da instituição no sistema financeiro, é preciso reconstruir a origem do banco, sua expansão, as operações estratégicas, as aquisições que formaram o conglomerado e a virada operacional que elevou seu patrimônio a patamares inéditos. A história recente também evidencia a importância do banco no debate sobre supervisão regulatória, modelos de crédito, investimentos em empresas em dificuldade e o papel de instituições de médio porte na economia brasileira.
Das origens como corretora ao primeiro salto corporativo
A história do Banco Master teve início na década de 1970, quando ainda funcionava como a corretora Máxima. O ambiente do mercado de capitais brasileiro era limitado, concentrado e pouco sofisticado, mas a empresa conseguiu sobreviver às sucessivas crises econômicas que marcaram o período, incluindo o fim do milagre econômico, a hiperinflação e as mudanças regulatórias que afetaram o setor ao longo dos anos 1980.
Na década de 1990, em meio a um processo de reorganização do sistema financeiro impulsionado pelo Plano Real e pela abertura de mercado, a corretora Máxima deu o passo que mudaria sua estrutura: transformou-se oficialmente em banco. O novo formato ampliou sua atuação, permitindo oferecer um leque maior de produtos, operar com linhas de crédito e competir com instituições de maior porte.
Apesar da mudança societária, o desempenho da instituição oscilou ao longo dos anos seguintes. A baixa escala, a competição elevada e a necessidade de capitalização constante criaram um cenário de vulnerabilidade. No começo dos anos 2010, a instituição enfrentava dificuldades financeiras e operacionais, acumulando desafios estruturais que ameaçavam sua continuidade.
A chegada de Daniel Vorcaro e a virada estratégica
Foi em 2018 que o Banco Master viveu a transformação mais profunda de sua história. Daniel Vorcaro assumiu o controle da instituição em um momento em que o banco enfrentava forte pressão de caixa. A entrada do novo gestor veio acompanhada de uma capitalização de R$ 400 milhões, necessária para garantir liquidez e redesenhar a estratégia empresarial.
A nova gestão promoveu mudanças societárias e operacionais que alteraram completamente o posicionamento do banco. A modernização interna, aliada a uma revisão de processos e à adoção de um plano agressivo de expansão, preparou a instituição para um crescimento acelerado nos anos seguintes.
Com o plano revisado, o Máxima passou a adotar práticas pouco usuais entre bancos de médio porte e abriu caminho para a estratégia que se tornaria marca do Banco Master: a aposta em operações mais arriscadas e em empresas em dificuldade financeira, o chamado turnaround.
O renascimento como Banco Master em 2021
Após a consolidação da nova gestão, o banco passou por sua mudança de marca mais significativa. Em 2021, a instituição abandonou o nome Banco Máxima e passou a se chamar Banco Master. A reestruturação foi acompanhada de um reposicionamento estratégico, com foco no sistema financeiro de São Paulo e na aproximação com o ecossistema de investimentos e crédito estruturado da Faria Lima.
O novo nome simbolizava a ambição de crescer rapidamente e consolidar-se como uma força relevante no mercado. E, em poucos anos, os números mostraram que a estratégia havia sido implementada com velocidade incomum.
Entre 2018 e 2023, o patrimônio líquido do banco saltou de R$ 219 milhões para mais de R$ 5 bilhões. Em 2018, a receita anual girava em torno de R$ 190 milhões. No ano seguinte, já sob a nova gestão, superou R$ 1 bilhão — um crescimento que chamou a atenção do mercado por sua velocidade e intensidade.
Esse movimento posicionou o Banco Master como uma das instituições financeiras de médio porte que mais cresceram no Brasil na última década.
Estratégia de risco: turnaround, distress e CDBs agressivos
O crescimento do Master foi sustentado por uma combinação de estratégias consideradas ousadas pelo setor financeiro. Em vez de focar em clientes tradicionais ou operações conservadoras, o banco adotou uma abordagem que unia rentabilidade elevada com produtos associados a maior risco.
Investimento em empresas em crise
Um dos pilares da expansão foi a compra e reestruturação de empresas em crise. A tese do turnaround — ou distress — consiste em adquirir companhias com dificuldades financeiras, reestruturá-las e tentar recuperar sua capacidade operacional. É um modelo adotado por fundos de investimento especializados, mas pouco comum em bancos tradicionais.
O Banco Master participou de operações desse tipo com empresas como:
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Veste (VSTE3), antiga Restoque, dona das marcas Le Lis Blanc, Dudalina e John John
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Metalfrio, referência em refrigeração
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Flytour, empresa do setor de viagens
As operações se tornaram objeto de debates no mercado. Parte dos analistas apoiava a estratégia por seu potencial de retorno financeiro elevado. Outros apontavam para o risco, já que empresas em crise pagam juros altos, mas também apresentam maior probabilidade de inadimplência.
CDBs com taxas acima do mercado
Outro fator decisivo para a rápida expansão do banco foi a oferta de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com taxas agressivas. Enquanto boa parte do mercado remunerava até 110% do CDI, o Master oferecia CDBs acima de 130% do CDI, atraindo investidores em busca de rentabilidade elevada.
O produto fez o volume de captação crescer rapidamente, permitindo ao banco expandir suas operações e financiar novas aquisições.
A formação do conglomerado: aquisições e diversificação
Com o caixa fortalecido, o Banco Master iniciou uma série de aquisições que consolidaram sua presença em diferentes segmentos financeiros. Uma das compras mais relevantes foi a do banco de investimento Vipal, que ampliou a atuação do grupo no mercado de capitais.
Em fevereiro de 2024, o banco adquiriu o controle do will bank, instituição conhecida por atuar de forma 100% digital, com forte presença no Nordeste. A aquisição ampliou o ecossistema tecnológico do grupo e fortaleceria a capacidade do Master de operar com produtos de varejo, algo que a instituição buscava expandir.
Na época da transação, a direção do banco destacou que a compra do will bank completava um ecossistema financeiro digital robusto, integrado e com ampla capilaridade. A aquisição era parte de uma estratégia de modernização e alcance nacional.
O conglomerado também comprou o Banco Voiter (antigo Indusval). No entanto, em agosto de 2025, o controle acionário foi vendido para Augusto Lima, sócio de Vorcaro no Master. A estrutura acionária contava ainda com a participação relevante de Maurício Quadrado, um dos nomes centrais na construção da estratégia do grupo.
A entrada no setor de seguros
Uma das iniciativas mais ousadas foi o lançamento da Kovr Seguradora, uma empresa criada para integrar o portfólio do conglomerado. A presença no setor de seguros permitiria ao Master ampliar sua oferta de produtos e diversificar fontes de receita.
Meses depois, a Kovr foi vendida para o grupo J&F, dos irmãos Joesley e Wesley Batista. A operação reforçou o reposicionamento estratégico do Master, que priorizava operações de maior rentabilidade.
A expansão meteórica e as consequências para o setor
O crescimento acelerado do Banco Master trouxe debates sobre supervisão regulatória, capacidade de gestão de risco e impacto no sistema financeiro. A atuação agressiva causava preocupação em alguns setores do mercado, ao mesmo tempo em que chamava atenção pelo desempenho financeiro.
A rápida expansão, baseada em operações de risco elevado, gerou questionamentos sobre a sustentabilidade de longo prazo do modelo. Para apoiadores da estratégia, o banco representava a ousadia necessária para competir com grandes conglomerados. Para críticos, o crescimento acelerado poderia elevar fragilidades típicas de instituições de médio porte expostas a práticas mais arriscadas.
Independentemente da análise, o Master se tornou uma das instituições mais comentadas do país. Sua transformação em poucos anos, as aquisições sucessivas e a entrada em setores estratégicos o colocaram em posição de destaque no sistema financeiro.
A síntese de uma história marcada por risco, reinvenção e expansão
A história do Banco Master é marcada por ciclos de reinvenção. De uma corretora modesta nos anos 1970 a um conglomerado com patrimônio multibilionário, a instituição percorreu um caminho incomum e acelerado. A chegada de Daniel Vorcaro representou o ponto de virada decisivo na trajetória do banco, que adotou uma estratégia ousada, diversificada e intensamente criticada e elogiada ao mesmo tempo.
O Master se tornou sinônimo de expansão rápida, aposta em empresas em crise, captação agressiva e aquisições múltiplas. Sua presença na Faria Lima, seu protagonismo no mercado e sua política de investimentos de alto risco o colocaram como um ator relevante nas discussões sobre o futuro do sistema financeiro brasileiro.






