O Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M) caiu 0,22% em agosto, completando o terceiro mês consecutivo de retração e levando a inflação acumulada pelo indicador a 2,16% em 12 meses. O resultado divulgado nesta sexta-feira (28) pela Fundação Getulio Vargas (FGV) mostra, porém, movimentos bastante diferentes dentro do índice: enquanto preços no atacado e ao consumidor recuaram, os custos da construção aceleraram, principalmente pela alta da mão de obra.
A queda de agosto foi bem menor que a registrada em julho, quando o IGP-M havia recuado 1,16%. Em junho, o indicador já havia apresentado baixa de 0,50%. Considerados os três meses em conjunto, o índice acumulou retração de aproximadamente 1,87%, cálculo feito a partir das variações mensais divulgadas pela FGV. A sequência interrompeu a pressão observada entre março e maio, período que incluiu uma alta de 2,73% somente em abril.
Apesar das três quedas consecutivas, o IGP-M ainda acumula avanço de 1,85% entre janeiro e agosto. Em 12 meses, a taxa de 2,16% ficou 0,87 ponto percentual abaixo dos 3,03% registrados em agosto de 2025. Isso representa uma redução de quase 29% na inflação acumulada pelo indicador na comparação entre os dois períodos.
Queda perde força após recuo mais intenso em julho
A variação negativa de 0,22% em agosto representa uma redução expressiva da intensidade da deflação em relação ao mês anterior. A queda foi 0,94 ponto percentual menor que a de julho e, em termos relativos, aproximadamente 81% menos intensa.
A composição do IGP-M ajuda a explicar essa diferença. O indicador é formado por três índices com pesos distintos: o Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA), responsável por 60% da composição; o Índice de Preços ao Consumidor (IPC), com participação de 30%; e o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC), que responde pelos 10% restantes.
Em agosto, dois componentes que representam juntos 90% da estrutura do IGP-M ficaram negativos. O IPA caiu 0,34% e o IPC recuou 0,41%. O INCC seguiu na direção contrária e avançou 0,85%, impedindo uma queda mais intensa do índice geral.
Esse comportamento mostra que a inflação medida pelo IGP-M não está se movimentando de maneira uniforme. Há alívio nos preços recebidos pelos produtores e em diferentes despesas das famílias, enquanto a construção enfrenta uma pressão mais persistente, especialmente nos custos associados ao trabalho.
Preços no atacado caem 0,34%, mas agro volta a subir
O IPA, componente de maior peso no IGP-M, registrou queda de 0,34% em agosto. O resultado continuou negativo, mas foi consideravelmente menos intenso que o recuo de 1,74% observado em julho.
Por trás dessa desaceleração aparece uma mudança importante no comportamento dos produtos agropecuários. A taxa desse grupo passou de queda de 0,20% em julho para avanço de 2,73% em agosto, uma diferença de 2,93 pontos percentuais de um mês para o outro. Segundo a avaliação da FGV, a alta do segmento agrícola compensou parcialmente a continuidade da baixa dos produtos industriais.
Os diferentes estágios da produção também apontaram direções distintas. Os bens finais caíram 0,40%, ante retração de 0,82% em julho. Quando são retirados alimentos in natura e combustíveis destinados ao consumo, entretanto, o indicador passou de queda de 0,10% para alta de 0,39%.
Nos bens intermediários, o movimento foi mais forte no sentido contrário. Depois de subir 0,35% em julho, esse estágio registrou queda de 1,90% em agosto, uma mudança de 2,25 pontos percentuais. Quando combustíveis e lubrificantes destinados à produção são excluídos da conta, a retração foi menor, passando de 0,40% em julho para 0,23% em agosto.
As matérias-primas brutas, por sua vez, tiveram uma reversão significativa. Depois de cair 3,89% no mês anterior, avançaram 0,88% em agosto. A diferença de 4,77 pontos percentuais entre as duas leituras ajuda a explicar por que a deflação do IPA perdeu força apesar da continuidade da queda no índice agregado.
Esse comportamento também mostra a sensibilidade do IGP-M às oscilações de commodities, matérias-primas e preços industriais. Como o IPA representa 60% do indicador, mudanças relativamente rápidas nos preços no atacado podem produzir efeitos relevantes sobre o resultado mensal mesmo antes que esses movimentos apareçam integralmente nos preços pagos pelas famílias.
Energia, passagens e combustíveis ajudam a derrubar preços ao consumidor
No varejo, o movimento de agosto foi mais claramente desinflacionário. O IPC caiu 0,41%, aprofundando a retração de 0,01% registrada em julho. Seis das oito classes de despesas acompanhadas pela FGV apresentaram taxas menores no mês.
A principal mudança ocorreu em Habitação, cuja variação passou de alta de 0,35% em julho para queda de 1,24% em agosto, diferença de 1,59 ponto percentual. A energia elétrica esteve entre os itens que contribuíram para o resultado negativo do indicador.
Educação, Leitura e Recreação também mudou de direção, saindo de uma alta de 0,80% para uma queda de 0,52%. Passagens aéreas ajudaram nesse movimento. Comunicação passou de estabilidade para retração de 0,81%, enquanto Transportes ampliou ligeiramente a queda, de 0,09% para 0,16%.
Na alimentação, os preços continuaram recuando, embora em ritmo um pouco menor. A taxa passou de -0,74% em julho para -0,67% em agosto. Entre os produtos que contribuíram para conter o IPC estiveram tomate e batata-inglesa. A gasolina também apareceu entre os itens que ajudaram a pressionar o índice para baixo.
Duas classes apresentaram aceleração. Despesas Diversas passou de 0,35% para 2,24%, enquanto Alimentação, apesar de continuar no campo negativo, teve queda menos intensa.
A leitura do IPC dentro do IGP-M não deve ser confundida com outros indicadores oficiais de inflação ao consumidor. Ele possui metodologia, universo de coleta e estrutura próprios e representa 30% do índice geral calculado pela FGV.
Construção vai na direção contrária e sobe 0,85%
Se atacado e consumo puxaram o IGP-M para baixo, a construção fez o movimento inverso. O INCC avançou 0,85% em agosto, acelerando em relação aos 0,62% registrados em julho.
O principal foco de pressão veio da mão de obra. A variação desse grupo passou de 0,93% para 1,56%, uma aceleração de 0,63 ponto percentual em apenas um mês. Como salários e acordos coletivos possuem dinâmica diferente dos preços de produtos e commodities, o custo do trabalho pode permanecer pressionado mesmo em períodos de redução de preços em outras partes da economia.
Materiais e Equipamentos apresentaram comportamento mais moderado, com desaceleração de 0,42% em julho para 0,33% em agosto. Serviços também avançaram 0,33%, acima dos 0,25% registrados no mês anterior.
A divergência entre os três componentes é relevante para empresas do setor imobiliário, construtoras e incorporadoras porque mostra que o alívio verificado em parte dos preços de produtos não se traduz automaticamente em redução do custo total das obras. A pressão salarial pode manter despesas elevadas mesmo quando materiais e equipamentos apresentam variações menores.
IGP-M acumula 1,85% no ano após forte oscilação em 2026
O percurso do indicador ao longo de 2026 mostra uma inflação marcada por mudanças bruscas de direção. Janeiro começou com alta de 0,41%, seguida por queda de 0,73% em fevereiro. Março voltou ao campo positivo, com avanço de 0,52%, e abril registrou uma aceleração muito mais forte, de 2,73%.
Em maio, a alta perdeu força para 0,84%. A partir de junho, iniciou-se a atual sequência negativa: queda de 0,50% naquele mês, retração de 1,16% em julho e baixa de 0,22% em agosto.
A combinação dessas altas e quedas levou o acumulado do ano a 1,85%, consideravelmente abaixo do pico observado depois dos aumentos de abril e maio. Ao final de maio, o indicador acumulava alta de 3,79% em 2026. Em apenas três meses, portanto, a taxa acumulada no ano foi reduzida em 1,94 ponto percentual.
A trajetória também ajuda a explicar por que o resultado mensal precisa ser analisado pela composição e não apenas pelo número final. A queda de agosto foi pequena em comparação com julho, mas ocorreu com preços ao consumidor mais fracos, recuperação de produtos agropecuários no atacado e aceleração da mão de obra na construção.
IGP-M em 12 meses cai para 2,16%
Outra mudança relevante aparece na comparação de 12 meses. Em agosto de 2025, o IGP-M acumulava alta de 3,03%. Agora, a taxa está em 2,16%. Além da diferença de 0,87 ponto percentual, o resultado atual está muito distante das variações mais elevadas que o índice já apresentou em períodos de forte pressão sobre commodities e preços ao produtor.
O IGP-M foi desenvolvido para acompanhar preços em diferentes etapas da economia, abrangendo produtor, consumidor e construção. Essa composição explica por que o indicador pode divergir de índices concentrados no orçamento das famílias e por que oscilações de matérias-primas, commodities e preços industriais têm peso tão relevante em seu comportamento.
Embora tenha ficado conhecido também pelo uso histórico em contratos e reajustes, o número divulgado mensalmente funciona principalmente como uma medida abrangente de preços. Para empresas, investidores e setores produtivos, a decomposição do indicador pode fornecer sinais sobre custos que ainda estão percorrendo as cadeias de produção.
A leitura de agosto deixa justamente essa mensagem: a inflação geral medida pelo IGP-M permaneceu negativa, mas a força da queda diminuiu bastante em relação a julho. O comportamento dos produtos agropecuários reduziu a deflação no atacado, enquanto a mão de obra manteve pressão significativa sobre a construção.
Nos próximos meses, o comportamento desses dois grupos será importante para determinar se a sequência de quedas do IGP-M continuará ou se a recomposição de preços no atacado e os custos da construção voltarão a levar o indicador ao campo positivo. Até agosto, apesar da volatilidade registrada ao longo do ano, a inflação acumulada permanece em 1,85%, enquanto a taxa em 12 meses está em 2,16%.
Fontes:
Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE) — divulgação oficial do IGP-M de agosto de 2026, com resultados do índice geral, IPA, IPC e INCC.
Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE) — divulgações oficiais do IGP-M de junho e julho de 2026, utilizadas para reconstrução da sequência de três quedas mensais e do acumulado recente.
Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE) — metodologia do Índice Geral de Preços e estrutura de ponderação de 60% para o IPA, 30% para o IPC e 10% para o INCC.









