O Itaú Unibanco (ITUB4) registrou resultado recorrente gerencial de R$ 12,407 bilhões no segundo trimestre de 2026, crescimento de 7,8% em relação ao mesmo período do ano passado e de 1% frente aos três primeiros meses deste ano. A carteira de crédito atingiu R$ 1,522 trilhão, enquanto a inadimplência acima de 90 dias permaneceu em 1,9% pelo sexto trimestre consecutivo.
O retorno recorrente gerencial sobre o patrimônio líquido médio anualizado, o ROE, ficou em 24,3%. O indicador avançou 1 ponto percentual sobre os 23,3% do segundo trimestre de 2025, embora tenha recuado 0,5 ponto frente aos 24,8% registrados no primeiro trimestre. Considerando apenas as operações brasileiras, o retorno ficou em 25,7%.
O resultado ficou praticamente em linha com as estimativas acompanhadas pelo próprio Itaú. O consenso divulgado pela companhia apontava lucro gerencial de R$ 12,466 bilhões, diferença negativa de 0,5% em relação ao realizado. A instituição manteve quase todas as projeções financeiras para 2026, mas reduziu significativamente a faixa esperada para receitas de prestação de serviços e resultado de seguros.
A revisão ocorre em um ambiente de juros ainda elevados, desaceleração gradual da atividade econômica e aumento dos índices de inadimplência no sistema financeiro brasileiro. O balanço do Itaú, porém, continuou mostrando uma qualidade de crédito superior à média do mercado, resultado de uma política de concessão mais seletiva e de mudanças realizadas na composição da carteira nos últimos anos.
Carteira de crédito cresce 9,6% e supera R$ 1,5 trilhão
A carteira total de crédito aumentou 2,7% entre março e junho e 9,6% em 12 meses, alcançando R$ 1,522 trilhão. Sem o efeito da variação cambial, a expansão anual foi de 10,3%. As operações no Brasil somaram R$ 1,269 trilhão, enquanto a América Latina respondeu por R$ 253 bilhões.
Entre pessoas físicas, o saldo chegou a R$ 487,1 bilhões, avanço de 7,8% em relação a junho de 2025. O crédito imobiliário apresentou uma das maiores expansões, de 13,3% em 12 meses, para R$ 152,2 bilhões. A modalidade cresceu 3,9% somente no segundo trimestre.
O crédito consignado alcançou R$ 81,3 bilhões, alta anual de 11,7% e trimestral de 3,5%. Dentro desse segmento, o consignado privado apresentou avanço de 14,3% apenas entre março e junho. A originação dessa modalidade cresceu 90,1% sobre o primeiro trimestre, segundo os indicadores divulgados pela instituição.
O Itaú vem ampliando sua exposição ao consignado destinado aos trabalhadores do setor privado por considerar que a estrutura de desconto vinculada à renda permite oferecer taxas menores e manter controle de risco. O banco, entretanto, continua utilizando critérios de capacidade de pagamento e perfil individual na concessão, estratégia destinada a evitar que o crescimento da carteira se converta em aumento proporcional da inadimplência.
A carteira de cartões de crédito somou R$ 150,4 bilhões, crescimento de 6,6% em 12 meses, enquanto o crédito pessoal ficou praticamente estável, em R$ 68,1 bilhões. Financiamentos de veículos recuaram 3,3%, para R$ 35,1 bilhões.
Crédito empresarial avança em dois dígitos
A expansão também ocorreu entre empresas. A carteira destinada a micro, pequenas e médias companhias atingiu R$ 307,4 bilhões, crescimento de 11,6% em 12 meses. Nas grandes empresas, o saldo aumentou 10,1%, para R$ 474,9 bilhões.
O desempenho empresarial ajudou a elevar a margem financeira com clientes para R$ 32,6 bilhões no trimestre. A linha cresceu 3,3% frente ao primeiro trimestre e 5,1% na comparação anual, favorecida tanto pelo aumento dos ativos de crédito quanto pelo maior número de dias corridos no período.
Para um banco, a margem financeira com clientes representa a diferença entre as receitas obtidas com crédito e outros ativos remunerados e os custos associados à captação e às operações. A expansão da carteira pode aumentar essa receita, mas também amplia a necessidade de provisões caso a qualidade dos empréstimos se deteriore.
No Itaú, esse segundo efeito permaneceu controlado no trimestre. O banco conseguiu aumentar a carteira sem alterar o indicador consolidado de atrasos superiores a 90 dias.
Inadimplência fica em 1,9% pelo sexto trimestre
A inadimplência consolidada acima de 90 dias terminou junho em 1,9%, mesmo patamar observado desde o primeiro trimestre de 2025. O indicador permaneceu estável tanto em relação a março quanto na comparação com junho do ano passado.
No Brasil, o atraso superior a 90 dias ficou em 2,1%. Entre pessoas físicas, a taxa chegou a 3,7%, ante 3,6% em março. Nas grandes empresas, o indicador permaneceu próximo de níveis residuais, enquanto a carteira de pequenas e médias companhias apresentou comportamento mais elevado, mas ainda dentro dos parâmetros administrados pelo banco.
Os atrasos entre 15 e 90 dias, utilizados como sinal antecedente da inadimplência mais longa, apresentaram alguns movimentos de alta em segmentos específicos. Ainda assim, o banco classifica a qualidade global da carteira como compatível com sua política de risco.
O custo anualizado do crédito permaneceu em 2,7% da carteira média. Em valores absolutos, o custo de crédito atingiu R$ 10,1 bilhões no trimestre, acima dos R$ 10 bilhões registrados nos três primeiros meses e dos R$ 9,4 bilhões do segundo trimestre de 2025.
A diferença entre estabilidade da inadimplência e aumento nominal do custo de crédito decorre, entre outros fatores, do próprio crescimento da carteira. Uma base maior de empréstimos exige provisões maiores mesmo quando a proporção de clientes inadimplentes permanece controlada.
Itaú reduz quase pela metade faixa de crescimento de serviços e seguros
O principal ajuste nas perspectivas para 2026 ocorreu na receita de prestação de serviços e no resultado de seguros. O Itaú passou a projetar crescimento entre 2% e 5%, contra uma faixa anterior de 5% a 9%.
Segundo a instituição, a alteração está relacionada principalmente à volatilidade do mercado de capitais acima da considerada no início do ano. As demais linhas do guidance permaneceram sem mudanças.
No segundo trimestre, as receitas de serviços e seguros somaram R$ 14,1 bilhões, avanço de apenas 0,4% sobre o trimestre anterior e de 3,6% na comparação anual. No primeiro semestre, totalizaram R$ 28,1 bilhões, crescimento de 4,4%.
As receitas relacionadas à conta corrente de pessoas físicas continuaram pressionadas por mudanças comerciais nos pacotes de tarifas. A companhia vem reduzindo ou reorganizando determinadas cobranças à medida que aumenta o relacionamento do cliente com o banco, movimento que diminui receitas tradicionais de tarifas e procura ampliar a vinculação a outros produtos.
Em sentido contrário, administração de recursos e seguros contribuíram positivamente. A instituição afirmou que o crescimento do resultado de seguros foi favorecido pela expansão dos prêmios ganhos.
Restante do guidance de 2026 é preservado
Para a carteira total de crédito, o banco continua projetando crescimento entre 5,5% e 9,5% em 2026. No Brasil, a previsão permanece entre 6,5% e 10,5%.
A expectativa para margem financeira com clientes continua em expansão entre 5% e 9%. O custo do crédito segue projetado entre R$ 38,5 bilhões e R$ 43,5 bilhões no ano, enquanto a margem financeira com o mercado permanece estimada entre R$ 2,5 bilhões e R$ 5,5 bilhões.
As despesas não decorrentes de juros devem crescer entre 5% e 9%, e a alíquota efetiva de Imposto de Renda e Contribuição Social continua prevista entre 29,5% e 32,5%.
A manutenção dessas projeções indica que a administração não identificou, até a divulgação do balanço, deterioração suficiente do ambiente econômico para alterar suas hipóteses centrais de crédito, margem ou custo de risco.
A redução específica no guidance de serviços e seguros, porém, mostra que determinadas áreas são mais sensíveis à volatilidade dos mercados financeiros e à transformação da relação comercial com os clientes.
Despesas chegam a R$ 16,7 bilhões
As despesas não decorrentes de juros somaram R$ 16,7 bilhões, aumento de 3,3% sobre o primeiro trimestre e de 3,1% em relação ao mesmo período de 2025. No primeiro semestre, atingiram R$ 32,9 bilhões, crescimento anual de 3,9%.
No Brasil, as despesas totalizaram R$ 14,6 bilhões. Gastos comerciais e administrativos com pessoal ficaram em R$ 6,5 bilhões, enquanto despesas transacionais chegaram a R$ 4,1 bilhões. Os custos relacionados a tecnologia somaram R$ 3,1 bilhões, alta de 4,4% em 12 meses.
O índice de eficiência das operações brasileiras atingiu 35,5%. Quanto menor esse indicador, menor é a parcela das receitas consumida pela estrutura operacional do banco. O desempenho reflete os investimentos realizados em digitalização, automação e modernização dos sistemas.
A instituição também intensificou o uso de inteligência artificial nos processos de relacionamento, atendimento e análise de crédito. A estratégia pretende aumentar produtividade e capacidade de personalização sem exigir crescimento equivalente da estrutura física e operacional.
Capital principal sobe para 12,3%
O índice de capital principal CET1 atingiu 12,3% em junho, ante 12% em março. A melhora refletiu principalmente a geração de lucro, parcialmente compensada pelo crescimento dos ativos ponderados pelo risco e pela distribuição de dividendos e juros sobre capital próprio.
O nível oferece uma margem superior às exigências regulatórias e dá ao banco capacidade para continuar expandindo a carteira sem necessidade imediata de reforço relevante de capital.
Essa posição é particularmente importante em um ambiente de juros altos. Um período prolongado de política monetária restritiva tende a aumentar o custo financeiro de famílias e empresas e pode resultar em piora da qualidade do crédito, exigindo capital e provisões adicionais dos bancos.
A estratégia do Itaú tem sido evitar crescimento indiscriminado da carteira e concentrar originação em clientes e linhas nas quais a relação entre risco e retorno permaneça favorável.
Juros altos e desaceleração mantêm cautela sobre crédito
Os próprios indicadores macroeconômicos acompanhados pelo Itaú apontam para uma economia em processo gradual de desaceleração. A área econômica da instituição mantinha projeção de crescimento de 1,9% para o PIB brasileiro em 2026 e vinha identificando perda de ritmo no consumo, no varejo e em atividades mais sensíveis às condições de crédito.
Ao mesmo tempo, a inflação continuava acima da meta, apesar de sinais mais favoráveis em determinados componentes. Esse quadro manteve a política monetária em território restritivo e reduziu a velocidade esperada de flexibilização dos juros.
O cenário é relevante para o balanço dos bancos porque taxas elevadas produzem efeitos distintos. De um lado, podem beneficiar determinadas margens financeiras e aplicações de tesouraria. De outro, aumentam o comprometimento da renda, encarecem a dívida das empresas e elevam a probabilidade de atraso nos pagamentos.
O Itaú entra nessa fase com indicadores de inadimplência historicamente baixos e uma carteira considerada mais defensiva pela própria administração. A capacidade de preservar esses níveis durante a desaceleração econômica será um dos principais testes para os próximos balanços.
Expansão do crédito será testada no segundo semestre
O resultado do segundo trimestre confirmou a combinação que tem sustentado a rentabilidade do Itaú: crescimento de crédito próximo de dois dígitos, inadimplência estável, margem financeira em expansão e aumento moderado das despesas.
O lucro recorrente de R$ 12,4 bilhões e o ROE de 24,3% mantêm a rentabilidade em patamar elevado mesmo com a Selic e as condições financeiras pressionando famílias e empresas. A carteira de R$ 1,52 trilhão amplia a capacidade de geração de receita, mas também aumenta a exposição do banco a uma eventual deterioração do ciclo de crédito.
A principal sinalização de cautela foi a redução da previsão para serviços e seguros. Fora dessa linha, a administração manteve suas projeções para 2026, indicando confiança na capacidade de controlar custos, risco e capital durante o restante do exercício.
Os próximos trimestres deverão mostrar se a expansão do consignado privado, do crédito imobiliário e das operações empresariais continuará ocorrendo sem aumento significativo da inadimplência. Esse equilíbrio será determinante para a manutenção do ROE em níveis próximos aos registrados no primeiro semestre.







