Os juros futuros brasileiros encerraram esta quinta-feira, 3 de setembro, em queda na maior parte dos vencimentos, refletindo uma combinação de fatores domésticos e externos. A disputa eleitoral voltou a influenciar a percepção de risco dos investidores, enquanto os títulos do Tesouro dos Estados Unidos perderam força durante parte do pregão após novas declarações de integrantes do Federal Reserve. O movimento foi mais evidente nos contratos de médio e longo prazo, justamente aqueles mais sensíveis às expectativas sobre política fiscal, inflação e trajetória dos juros nos próximos anos.
O contrato de Depósito Interfinanceiro para janeiro de 2029 terminou a sessão com taxa de 13,885% ao ano, abaixo dos 13,950% registrados no fechamento anterior, uma redução de 6,5 pontos-base. No trecho mais longo, o DI para janeiro de 2036 encerrou a 14,285%, com queda de 3,5 pontos-base. Já o vencimento de janeiro de 2027, mais diretamente influenciado pelas expectativas de curto prazo para a política monetária, ficou praticamente estável em 13,575%.
A configuração mostra que a mudança mais relevante ocorreu fora da parte inicial da curva. Isso é importante porque os contratos mais longos carregam uma quantidade maior de incertezas: além da Selic definida pelo Banco Central, incorporam expectativas sobre inflação, resultado das contas públicas, crescimento econômico e risco político. Com a eleição presidencial entrando na reta decisiva, qualquer mudança na percepção sobre o próximo governo tende a aparecer rapidamente nessas taxas.
Curva longa reage mais do que os vencimentos curtos
A diferença entre os movimentos observados nesta quinta-feira ajuda a mostrar como o mercado está separando política monetária de risco fiscal. O DI para janeiro de 2027 praticamente não se moveu, refletindo um horizonte em que as decisões do Banco Central já estão relativamente próximas e podem ser estimadas com maior precisão a partir da inflação, da atividade econômica e das sinalizações do Copom.
Nos prazos mais distantes, o cenário é diferente. O DI para 2029 caiu 6,5 pontos-base e o contrato para 2036 também apresentou fechamento, ainda que menos intenso. Esses vencimentos atravessam integralmente o próximo mandato presidencial e, por isso, respondem com maior intensidade às expectativas sobre a política econômica que será adotada a partir de 2027.
A Selic está atualmente em 14% ao ano, depois de o Banco Central reduzir a taxa em agosto. O ciclo de cortes iniciado neste ano já influencia os contratos mais próximos, mas os juros longos continuam significativamente acima da taxa projetada para o futuro justamente porque carregam prêmio adicional de risco.
Esse prêmio pode diminuir quando os investidores passam a enxergar maior probabilidade de controle das despesas, estabilização da dívida e melhora das expectativas de inflação. Também pode aumentar rapidamente se o cenário político indicar o contrário.
Eleição começa a dominar a formação dos preços
O mercado financeiro vem incorporando as pesquisas eleitorais com intensidade crescente. Nesta quinta-feira, novos levantamentos reforçaram a percepção de uma disputa apertada entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro.
Pesquisa Futura divulgada durante o dia mostrou Lula com 38,7% das intenções de voto no primeiro turno, diante de 33,6% de Flávio. Augusto Cury apareceu em terceiro lugar, com 9,9%. No segundo turno, o levantamento registrou empate técnico, com os dois principais candidatos separados por menos de um ponto percentual.
Outro levantamento, do Datafolha, também apresentou uma disputa competitiva. Lula apareceu com 38% no primeiro turno, contra 33% de Flávio e 8% de Augusto Cury. Em um eventual segundo turno, os dois principais candidatos permaneceram dentro da margem de erro.
Para os mercados, mais importante do que a liderança momentânea de um candidato é a avaliação sobre o que cada resultado pode significar para a condução da política econômica. Investidores procuram antecipar o comportamento das despesas públicas, eventuais mudanças tributárias, a capacidade de cumprir metas fiscais e a composição do Congresso que assumirá em 2027.
É esse conjunto de expectativas que tem produzido o chamado “trade eleitoral”. Bolsa, câmbio e juros passaram a reagir com mais força à divulgação de pesquisas à medida que a eleição se aproxima.
Queda dos juros não significa apoio formal a candidato
A interpretação dos movimentos precisa ser feita com cuidado. A redução dos juros futuros não significa que o mercado financeiro, como um bloco único, tenha escolhido ou apoiado determinado candidato. Os preços resultam de milhares de posições mantidas por bancos, fundos locais, investidores estrangeiros, seguradoras, empresas e outros participantes com estratégias e horizontes diferentes.
O que pode ser observado é a forma como esses agentes alteram os prêmios exigidos para carregar risco brasileiro quando as probabilidades eleitorais mudam. Uma percepção de maior compromisso futuro com a disciplina fiscal tende a produzir fechamento da curva. Expectativas de expansão das despesas sem contrapartidas, por outro lado, costumam pressionar principalmente os vencimentos mais longos.
A proximidade entre Lula e Flávio também aumenta a volatilidade. Em uma eleição com vantagem ampla e estável, o mercado tende a incorporar mais rapidamente determinado cenário. Quando a diferença é pequena, cada pesquisa pode modificar as probabilidades e provocar ajustes de posições.
Esse comportamento deverá se intensificar nas próximas semanas, principalmente conforme os levantamentos ficarem mais frequentes e as campanhas apresentarem propostas econômicas mais detalhadas.
Treasuries também deram algum alívio ao mercado brasileiro
O cenário externo contribuiu para o fechamento dos juros durante parte do pregão. Os rendimentos dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos recuaram depois de declarações do diretor do Federal Reserve Christopher Waller, que sinalizou disposição para defender a manutenção dos juros americanos caso os próximos dados confirmem uma trajetória mais favorável para a inflação.
Waller afirmou que a decisão para a próxima reunião dependerá de maneira importante dos números de inflação de agosto. A mensagem reduziu parte das apostas mais agressivas de aperto monetário e produziu alívio temporário nos rendimentos dos Treasuries.
Ao longo do final da sessão, os juros americanos voltaram a oscilar próximos da estabilidade e alguns vencimentos chegaram a apresentar pequenas altas. Ainda assim, a moderação observada durante boa parte do dia ajudou mercados emergentes, inclusive o Brasil.
A relação é direta. Quando os títulos americanos pagam taxas maiores, tornam-se mais atraentes para investidores globais e aumentam o retorno exigido para aplicar dinheiro em economias consideradas mais arriscadas. Quando os Treasuries recuam, essa pressão pode diminuir e abrir espaço para fechamento dos juros em países emergentes.
Payroll dos EUA pode mudar o cenário nesta sexta-feira
A calmaria externa ainda será testada rapidamente. Nesta sexta-feira, os investidores acompanharão a divulgação do relatório oficial de emprego dos Estados Unidos, o payroll, um dos indicadores mais importantes para as decisões do Federal Reserve.
Um mercado de trabalho muito aquecido pode reforçar a percepção de que a economia americana continua forte o suficiente para sustentar pressões sobre salários e inflação. Nesse caso, as expectativas de juros podem voltar a subir. Uma geração de empregos mais fraca, por outro lado, tende a fortalecer a tese de que o Fed pode adotar uma postura menos dura.
O impacto pode chegar rapidamente ao Brasil. Uma abertura dos Treasuries costuma pressionar a curva local, principalmente nos contratos intermediários e longos, mesmo quando não há nenhuma mudança no cenário doméstico.
Essa influência explica por que o mercado de juros brasileiro não pode ser analisado apenas a partir do Banco Central. Em determinados pregões, a movimentação externa chega a superar o peso das notícias locais.
Selic caiu para 14%, mas curva ainda cobra prêmio elevado
O Banco Central reduziu a meta da Selic para 14% ao ano na reunião de agosto, dando continuidade ao processo de flexibilização iniciado depois de a taxa ter permanecido em 15% durante vários meses.
Apesar disso, os contratos futuros continuam negociando em níveis elevados. O DI para 2029 permanece próximo de 14%, enquanto a parte longa da curva trabalha acima desse patamar.
Isso mostra que o mercado não está simplesmente projetando a trajetória da Selic. As taxas incorporam prêmios relacionados à incerteza fiscal, inflação futura e risco político, além das condições internacionais.
Se os investidores acreditassem em uma queda contínua e sem obstáculos da inflação e dos juros, os contratos mais longos provavelmente estariam em níveis significativamente inferiores. A persistência de taxas próximas ou superiores a 14% indica que ainda existe cautela sobre a capacidade de o país manter uma trajetória fiscal compatível com juros estruturalmente mais baixos.
É justamente por isso que a eleição possui impacto tão grande sobre esses contratos. A política fiscal do governo que assumir em 2027 será um dos principais determinantes da possibilidade de redução sustentável dos juros reais brasileiros.
Curva de juros também afeta Bolsa, crédito e empresas
A queda dos DIs não interessa apenas a quem negocia contratos futuros. A curva de juros é utilizada como referência para uma ampla variedade de decisões financeiras e influencia diretamente a avaliação das empresas listadas na Bolsa.
Quando as taxas longas caem, o valor presente dos fluxos futuros de caixa das companhias tende a aumentar. Setores mais sensíveis ao custo de capital, como construção civil, varejo e empresas com elevado nível de endividamento, costumam responder de maneira particularmente intensa.
O efeito também chega ao mercado de crédito. Bancos e empresas utilizam a curva como uma das referências para definir custos de captação e preços de empréstimos, debêntures e outras operações financeiras. Uma redução persistente das taxas pode melhorar as condições de financiamento, embora esse processo não seja imediato e dependa também dos spreads de crédito.
O movimento desta quinta-feira ocorreu depois de uma forte valorização recente da Bolsa brasileira associada à mesma reprecificação eleitoral. O Ibovespa encerrou praticamente estável nesta sessão, na região dos 185 mil pontos, após uma sequência de altas que havia levado o índice a sucessivos recordes.
O comportamento simultâneo dos ativos mostra que o mercado está ajustando diferentes preços à mesma pergunta: qual será a política econômica adotada depois das eleições.
Disputa eleitoral deverá manter volatilidade elevada
A sessão desta quinta-feira dificilmente será um episódio isolado. À medida que outubro se aproxima, a sensibilidade dos juros às pesquisas deverá aumentar. Diferenças de poucos pontos entre os candidatos podem produzir movimentos relevantes porque alteram as probabilidades utilizadas pelos investidores na construção de seus cenários.
Ao mesmo tempo, qualquer leitura puramente eleitoral continuará sujeita ao ambiente internacional. Inflação americana, decisões do Fed, petróleo, Treasuries e aversão global ao risco têm capacidade de neutralizar ou intensificar os movimentos domésticos.
No Brasil, dados de inflação e atividade também continuarão influenciando a parte curta da curva, especialmente porque o Banco Central já iniciou o processo de redução da Selic e precisa definir o ritmo dos próximos cortes.
O resultado é uma curva submetida simultaneamente a três forças: política monetária no curto prazo, eleição e fiscal nos vencimentos longos e juros americanos como fator externo.
Nesta quinta-feira, essa combinação favoreceu o fechamento da maior parte dos contratos. O DI para 2029 caiu a 13,885%, enquanto o vencimento de 2036 terminou em 14,285%. Os números mostram redução do prêmio em relação à sessão anterior, mas ainda mantêm os juros brasileiros em patamares elevados.
Até que haja maior clareza sobre o resultado eleitoral, a composição do próximo Congresso e o programa fiscal do governo que assumir em 2027, a tendência é que os contratos mais longos continuem funcionando como um dos principais termômetros da percepção de risco do país.
Fontes:
B3 – dados de negociação e informações sobre contratos futuros de DI
Banco Central do Brasil – histórico da taxa Selic e decisão do Copom de agosto de 2026
Federal Reserve – sinalizações sobre a condução da política monetária dos Estados Unidos
Futura Inteligência – pesquisa presidencial divulgada em 3 de setembro de 2026
Datafolha – pesquisa de intenção de voto divulgada em 3 de setembro de 2026
Dados de mercado – taxas dos contratos futuros e rendimentos dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos







