São Paulo, 17 de junho de 2026 — Uma das parcerias mais longas e icônicas do mundo dos negócios, selada em 1955 entre Ray Kroc, fundador do McDonald’s, e Waddy Pratt, executivo da Coca-Cola, pode estar vivendo seus últimos anos no formato que se tornou referência global. Ao completar sete décadas, a união que transformou o refrigerante em companheiro obrigatório do hambúrguer enfrenta turbulências provocadas por mudanças profundas no comportamento do consumidor e pela necessidade de crescimento em um
mercado cada vez mais competitivo.
O
que parecia uma aliança inquebrável, que ajudou a construir a imagem do fast-food moderno e a espalhar a cultura americana para todos os continentes, agora é testada por transformações que vão muito além de desentendimentos comerciais. O principal motivo é a queda sustentada na procura por refrigerantes tradicionais, especialmente entre jovens, que trocam bebidas açucaradas por opções mais leves, com sabores diferentes, apelo visual forte
para redes sociais ou promessas de benefícios à saúde.
McDonald’s abre portas para concorrentes e cria marcas próprias
Para o McDonald’s, o cenário é claro: o segmento de bebidas deixou de ser apenas um complemento e se tornou uma das maiores fontes de lucro e crescimento do setor. Exemplos como Starbucks e Dunkin’
mostram que é possível faturar bilhões com cardápios variados, capazes de atrair clientes o dia todo, e não apenas na hora do almoço ou jantar.
De olho nesse potencial, a rede de fast-food começou a agir. Recentemente, lançou linhas próprias de refrigerantes personalizados, chás e refrescos, com receitas exclusivas e nomes que remetem a
tendências virais. O próximo passo, já confirmado, é a
entrada no mercado de energéticos, em parceria com a Red Bull — marca que durante anos esteve distante das lojas McDonald’s, justamente por causa da exclusividade com a Coca-Cola.
A estratégia de diversificação
não significa rompimento imediato, mas deixa claro que a empresa não quer mais depender de um único fornecedor para tocar um negócio que movimenta milhões de dólares por dia. Segundo reportagem do
The Wall Street Journal, que ouviu executivos de ambas as partes, a diretoria da rede global entende que precisa oferecer o que o público quer, mesmo que isso signifique dividir espaço com concorrentes históricos.
Coca-Cola corre para não perder espaço
Do outro lado, a Coca-Cola também se mexe, mas em uma posição defensiva. Acostumada a ser a escolha automática em milhões de pontos de venda, a marca viu
sua participação em restaurantes cair nos últimos anos e sabe que precisa se reinventar para não ficar para trás.
Executivos da companhia admitem internamente que esse movimento é desconfortável, pois mexe com uma identidade construída ao longo
de mais de um século, mas afirmam que é indispensável para manter a relevância no mercado de foodservice, um dos pilares do faturamento global.
Aliança segue oficialmente, mas com contornos novos
Publicamente, o discurso continua o mesmo: as duas
empresas reforçam que a parceria segue firme, forte e “fantástica”. A Coca-Cola, inclusive, tem participado do desenvolvimento de algumas das novas bebidas do McDonald’s, como as chamadas
dirty sodas — misturas de refrigerante
com xaropes e cremes que fazem sucesso nas redes sociais. A rede também garante que o refrigerante tradicional da
marca segue sendo item central no cardápio e um dos produtos mais vendidos em todas as unidades.
Mas
por trás das declarações amigáveis, o movimento é outro: o McDonald’s quer se tornar uma marca de bebidas também, enquanto a Coca-Cola tenta provar que pode entregar muito mais do que apenas o produto que a consagrou. A exclusividade absoluta,
que durou 70 anos, parece ser a primeira vítima dessa nova realidade.
Símbolo do capitalismo diante de nova era
A história da parceria começou em um estacionamento em Illinois,
nos Estados Unidos, quando Kroc e Pratt selaram um acordo simples: em todas as lojas que abrissem, só haveria Coca-Cola. A decisão ajudou ambas a crescer juntas, a padronizar qualidade e a criar uma
associação tão forte que, até hoje, para milhões de pessoas, um não faz sentido sem o outro.
Hoje, com operações em mais de 100 países e valores de mercado que ultrapassam centenas de bilhões de dólares, as duas marcas
enfrentam o maior desafio dessa trajetória: provar que uma aliança construída no século XX tem fôlego para continuar relevante no século XXI, onde o consumidor manda, a variedade é regra e nenhum acordo é eterno.