Operação Compliance Zero: PF Adia Depoimentos Estratégicos e Aprofunda Investigação sobre Rombo de R$ 12 Bilhões
O cenário jurídico-financeiro de Brasília e do mercado bancário nacional viveu mais um capítulo de tensão nesta terça-feira. No âmbito da Operação Compliance Zero, a Polícia Federal (PF) promoveu alterações táticas no cronograma de oitivas, adiando os depoimentos de três investigados cruciais para o deslinde do inquérito que apura um complexo esquema de supostas irregularidades financeiras. O caso, que envolve o Banco Master e o Banco de Brasília (BRB), tramita sob a supervisão do Supremo Tribunal Federal (STF) e coloca em xeque a governança corporativa de instituições financeiras tradicionais.
A Operação Compliance Zero investiga a existência de gestão fraudulenta, gestão temerária e organização criminosa na venda de carteiras de crédito consideradas “insubsistentes” — ou seja, de difícil ou impossível recuperação. O valor das transações sob suspeita ultrapassa a cifra de R$ 12 bilhões, montante que atraiu a atenção dos órgãos de controle e motivou a liquidação extrajudicial do Banco Master pelo Banco Central no ano passado.
O Adiantamento das Oitivas e a Estratégia das Defesas
A agenda da Polícia Federal para esta terça-feira previa a coleta de depoimentos que poderiam trazer luz às conexões entre os executivos do Banco Master e a alta cúpula do BRB. No entanto, as oitivas foram canceladas, frustrando a expectativa de novos elementos probatórios imediatos na Operação Compliance Zero.
Deixaram de ser ouvidos Robério Cesar Bonfim Mangueira, superintendente de Operações Financeiras do BRB; Angelo Antonio Ribeiro da Silva, sócio do Banco Master; e Augusto Ferreira Lima, ex-sócio da instituição. A dinâmica processual da Operação Compliance Zero tem sido marcada por uma batalha técnica entre os delegados federais e as bancas de advocacia criminal que defendem os investigados.
No caso específico de Angelo Antonio Ribeiro da Silva e Augusto Ferreira Lima, a estratégia adotada foi o silêncio. As defesas informaram à autoridade policial que seus clientes permaneceriam calados, fundamentando a decisão no argumento de que não tiveram acesso integral aos autos do inquérito. Diante dessa manifestação prévia, a delegada responsável pelo caso optou pelo cancelamento das oitivas, uma prática comum para evitar deslocamentos desnecessários e atos processuais inócuos, mas que retarda o avanço dos interrogatórios na Operação Compliance Zero.
O acesso à íntegra das provas é um direito constitucional garantido pela Súmula Vinculante 14 do STF, e tem sido o principal instrumento utilizado pelas defesas para adiar depoimentos em grandes operações, ganhando tempo para analisar o material apreendido nas fases ostensivas deflagradas em novembro de 2025 e janeiro deste ano.
A Exceção: Colaboração e Depoimento no STF
Em contraponto à estratégia de silêncio adotada pelos sócios e ex-sócios, a Operação Compliance Zero registrou um depoimento efetivo nesta terça-feira. Luiz Antonio Bull, diretor de Riscos, Compliance, Recursos Humanos e Tecnologia do Banco Master, compareceu ao Supremo Tribunal Federal para prestar esclarecimentos.
A oitiva de Bull durou menos de 40 minutos, um tempo considerado exíguo para a complexidade dos fatos investigados na Operação Compliance Zero, mas suficiente para registrar sua versão. Na saída do STF, o advogado Augusto Botelho, responsável pela defesa do executivo, adotou um tom conciliador e colaborativo perante a imprensa.
Respondeu todas as perguntas da autoridade policial, quanto do Ministério Público, quanto do juiz instrutor aqui do Supremo Tribunal Federal, no interesse de colaborar com as investigações”, afirmou Botelho. A postura de Luiz Antonio Bull destoa da maioria dos investigados e pode sinalizar uma tentativa de dissociar sua atuação técnica nas áreas de risco e compliance das decisões estratégicas que levaram às operações suspeitas investigadas pela Operação Compliance Zero.
O Cerne da Investigação: Carteiras “Podres” e Gestão Temerária
Para compreender a gravidade da Operação Compliance Zero, é necessário dissecar a natureza das transações financeiras sob suspeita. O inquérito apura a venda de carteiras de crédito do Banco Master para o BRB. No jargão bancário, carteiras “insubsistentes” referem-se a conjuntos de dívidas cujos devedores originais não pagaram e dificilmente pagarão. São os chamados “créditos podres.
A tese central da Operação Compliance Zero é que essas carteiras foram negociadas por valores irreais, incompatíveis com a sua capacidade de recuperação, gerando um prejuízo bilionário potencial ao Banco de Brasília e um alívio artificial no balanço do Banco Master. A Polícia Federal investiga se houve conluio entre executivos das duas instituições para viabilizar essas operações, caracterizando os crimes de gestão fraudulenta e temerária.
O volume financeiro de R$ 12 bilhões coloca a Operação Compliance Zero entre as maiores investigações de crimes contra o Sistema Financeiro Nacional da década. A suspeita é que a tentativa de compra do Banco Master pelo BRB seria o ato final para “lavar” essas operações anteriores ou consolidar o prejuízo dentro da estrutura de um banco controlado pelo governo do Distrito Federal.
A Competência do Supremo e o Envolvimento Político
A tramitação da Operação Compliance Zero no Supremo Tribunal Federal não é um acaso processual. Originalmente, a investigação teve início na primeira instância da Justiça Federal. Contudo, o curso natural do inquérito foi alterado após a apreensão de um documento sensível: um contrato envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master e figura central da trama, e um deputado federal.
A presença de um parlamentar federal com mandato atrai a competência da Corte Suprema, devido à prerrogativa de foro (foro privilegiado). O ministro Dias Toffoli assumiu a relatoria do caso, supervisionando cada passo da Polícia Federal e do Ministério Público Federal na Operação Compliance Zero.
Essa mudança de jurisdição elevou o perfil político da investigação. O STF agora detém a custódia de todas as provas reunidas, o que inclui quebras de sigilo bancário, telemático e fiscal. A supervisão de Toffoli é vista com atenção pelo mercado, uma vez que as decisões monocráticas do ministro definirão o ritmo e a abrangência das próximas fases da Operação Compliance Zero.
O Padrão do Silêncio e a Defesa Técnica
O adiamento dos depoimentos desta terça-feira segue um padrão que vem se desenhando na Operação Compliance Zero. Na véspera, Alberto Felix de Oliveira Neto, superintendente-executivo de tesouraria do Banco Master, compareceu à PF mas exerceu seu direito constitucional ao silêncio.
Outras oitivas já haviam sido suspensas temporariamente após pedidos das defesas, que reiteradamente alegam a falta de acesso completo ao arcabouço probatório. Na visão de juristas especializados em direito penal econômico, essa é uma manobra de “contenção de danos. Em inquéritos complexos como o da Operação Compliance Zero, onde há milhares de páginas de laudos periciais contábeis e financeiros, falar sem conhecer a totalidade das provas é um risco que poucos advogados permitem que seus clientes corram.
A insistência das defesas no acesso aos autos sugere que a Polícia Federal possui um material robusto coletado nas fases ostensivas de novembro de 2025 e janeiro deste ano. A Operação Compliance Zero parece ter atingido o núcleo decisório do Banco Master, e o silêncio dos executivos pode ser um prelúdio para futuras negociações de colaboração premiada ou, alternativamente, para uma batalha longa sobre nulidades processuais.
Impactos no Sistema Financeiro e a Liquidação do Master
A Operação Compliance Zero não ocorre em um vácuo jurídico; ela tem consequências reais na economia. O Banco Master sofreu uma liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central no ano passado. A liquidação é a pena de morte de uma instituição financeira: o BC assume o controle, afasta os administradores e inicia o processo de venda de ativos para pagar credores.
A investigação da PF traz à tona as razões que podem ter levado ao colapso do banco. Se comprovada a gestão fraudulenta apontada pela Operação Compliance Zero, os ex-administradores não apenas responderão criminalmente, mas terão seus bens indisponibilizados para cobrir o rombo. A tentativa de venda para o BRB, agora sob escrutínio, aparece como uma tentativa desesperada de salvar a instituição às custas de um banco público.
O mercado financeiro observa a Operação Compliance Zero com apreensão. A exposição de R$ 12 bilhões em operações suspeitas levanta dúvidas sobre a eficácia dos mecanismos de controle interno (compliance) e externo (auditorias) no setor bancário. O nome da operação, aliás, é uma ironia direta à suposta ausência total de conformidade nas práticas do Banco Master.
O Papel do BRB e a Governança Pública
Do outro lado do balcão, a Operação Compliance Zero atinge em cheio o Banco de Brasília (BRB). Como uma sociedade de economia mista controlada pelo governo distrital, o BRB tem deveres estritos de transparência e zelo com o patrimônio público. A investigação sobre a conduta de Robério Cesar Bonfim Mangueira, superintendente de Operações Financeiras do BRB — cujo depoimento foi adiado —, é vital para entender como as operações foram aprovadas internamente.
A PF busca esclarecer se os comitês de risco do BRB foram enganados, coagidos ou se participaram ativamente do esquema investigado na Operação Compliance Zero. A compra de carteiras de crédito “podres” de um banco privado em dificuldades não é uma operação trivial e exige pareceres técnicos robustos. A suspeita de irregularidades nessas aprovações coloca a governança do banco estatal na berlinda.
Perspectivas Futuras da Operação Compliance Zero
Com o adiamento das oitivas de figuras-chave como Angelo Antonio Ribeiro da Silva e Augusto Ferreira Lima, a Operação Compliance Zero deve entrar em uma fase de análise documental mais intensa enquanto aguarda o saneamento das questões processuais sobre o acesso aos autos. A Polícia Federal terá que garantir que todas as provas estejam disponíveis às defesas para evitar nulidades futuras no STF.
A expectativa é que, superada essa fase de “trincheira jurídica”, os depoimentos sejam remarcados. A Operação Compliance Zero ainda tem muitas pontas soltas, especialmente no que tange à participação política sugerida pela apreensão do contrato com o deputado federal. O ministro Dias Toffoli terá o papel de árbitro nessas disputas processuais, garantindo o devido processo legal sem permitir que a investigação seja paralisada indefinidamente.
Para o investidor e para o cidadão, a Operação Compliance Zero serve como um lembrete amargo dos riscos de governança no setor bancário. A cifra de R$ 12 bilhões não é apenas um número em um inquérito; representa capital que foi alocado de forma ineficiente e, supostamente, criminosa. O desenrolar dessa operação definirá responsabilidades e, possivelmente, resultará em novas regulações para a compra e venda de carteiras de crédito no Brasil.
A Polícia Federal mantém o sigilo sobre os próximos passos, mas a Operação Compliance Zero já se consolidou como um marco no combate aos crimes de colarinho branco no sistema financeiro nacional. A sociedade aguarda agora que o silêncio dos investigados seja substituído, eventualmente, pelas respostas que o Judiciário e o mercado exigem.









