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Retomada de fábrica da Petrobras expõe encruzilhada do Brasil com fertilizantes nitrogenados

Unidade em MS vai gerar 15% da oferta nacional de ureia a partir de 2029; gás caro põe competitividade em xeque, enquanto tecnologia limpa ainda é cara014, vai suprir 15% da demanda interna de ureia a partir de 2029, mas custo do gás natural — que representa até 80% da produção — ameaça competitividade, enquanto rota de baixo carbono ainda é cara e demorada para chegar em escala

por Daniel Wicker
26/06/2026 às 21h39
em Agronegócio
Fertilizantes No Agronegócio - Gzt - Gazeta Mercantil

O Brasil, uma das maiores potências agrícolas do globo, vive uma encruzilhada estrutural na área de fertilizantes nitrogenados, que ficou explícita com o anúncio feito pela Petrobras (PETR4) na quinta‑feira, 25, de retomar as obras da Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III (UFN‑III), em Três Lagoas (Mato Grosso do Sul). Paralisada desde 2014, a unidade demandará investimentos superiores a R$ 5 bilhões, com recursos do novo Programa de Aceleração do Crescimento, e terá capacidade para produzir 3,6 mil toneladas por dia de ureia e 2,2 mil toneladas por dia de amônia, o suficiente para atender 15% de todo o consumo nacional do insumo. A previsão de entrada em operação vai do final de 2028 ao início de 2029. A medida, apresentada como avanço rumo à soberania alimentar e à redução da dependência externa — hoje 80% da ureia consumida no país vem do exterior, sobretudo da Rússia, da China e do Oriente Médio — esconde, porém, dois desafios centrais: o custo proibitivo do gás natural no mercado interno, que pode inviabilizar a competitividade do produto sem subsídios, e o fato de a tecnologia adotada ser a mesma de 15 anos atrás, baseada em combustível fóssil, num momento em que o mundo acelera a transição para processos de baixo carbono.

A guerra na Ucrânia, os choques sucessivos de preços internacionais e os gargalos logísticos registrados a partir de 2022 deixaram claro para produtores, governo e autoridades que a exposição a fornecedores estrangeiros tem custo elevado e pode comprometer safras inteiras. É nesse cenário que a UFN‑III volta ao centro da agenda, integrante do Plano Nacional de Fertilizantes, que prevê dobrar a capacidade produtiva nacional até o fim da década.

Potência agrícola continua refém de insumos importados

O paradoxo brasileiro salta aos olhos em qualquer levantamento setorial: o país ocupa posição de liderança na exportação de soja, milho, café, açúcar, carne e suco de laranja, mas permanece extremamente vulnerável na ponta dos insumos básicos. Dos fertilizantes consumidos em geral, cerca de 70% vem de fora; entre os nitrogenados, cujo principal representante é a ureia, essa taxa chega aos 80%. O produto é a fonte mais utilizada de nitrogênio, elemento indispensável ao desenvolvimento vegetal, aplicado em larga escala nas lavouras de milho, cana‑de‑açúcar, trigo, arroz, café e pastagens.

A concentração geográfica da oferta mundial agrava o risco. Rússia e China respondem, sozinhas, por quase metade da capacidade produtiva global de ureia. Ambas já usaram restrições a exportações como instrumento de política interna ou de negociação geopolítica, o que provoca saltos abruptos de preço e desabastecimento temporário em mercados dependentes como o brasileiro. Para o governo, ampliar a produção doméstica aparece, portanto, como medida tanto econômica quanto de segurança nacional.

A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, explicou no ato de relançamento que a estratégia da estatal vai além da UFN‑III. “Estamos considerando a hipótese de duplicar todas as nossas fábricas, seja a Unidade de Nitrogênio de Aratu, na Bahia, as unidades Fafen, em diferentes estados, ou a própria UFN‑III, no Centro‑Oeste”, disse. A região foi escolhida justamente por concentrar cerca de 60% de todo o consumo de fertilizantes do país, o que reduz custos logísticos na distribuição.

Obra iniciada em 2011 é retomada após 12 anos parada

A história da unidade de Três Lagoas ajuda a explicar por que o país nunca conseguiu avançar de forma sustentada na produção própria. As obras começaram em 2011, com previsão de conclusão para 2016, mas foram interrompidas abruptamente em 2014, em meio a ajustes orçamentários, reavaliação de carteira de projetos da estatal e mudanças na política de preços do gás natural. Desde então, as estruturas permanecem ociosas, com cerca de 40% dos serviços físicos já executados, conforme levantamentos técnicos.

Agora, com o cronograma revisto, a expectativa é que em pouco mais de dois anos e meio o complexo esteja em plena produção. Além de atender diretamente à demanda, a presença de uma unidade de grande porte costuma funcionar como referência de preço regional, reduzindo a capacidade de oscilação abusiva por parte de importadores. A estimativa oficial é que cerca de 3 mil empregos diretos e indiretos sejam gerados durante a fase de construção, e outros 400 postos permanentes na operação.

A despeito dos números positivos, especialistas ouvidos pela reportagem alertam que capacidade instalada, por si só, não significa oferta garantida nem preços mais baixos ao produtor rural. Dois fatores explicam por quê: a estrutura de custos da produção nacional e o histórico de oferta irregular das unidades da Petrobras ao longo das últimas duas décadas.

Gás natural corresponde a até 80% do custo final da ureia

O entrave maior à competitividade dos fertilizantes nitrogenados fabricados no Brasil é o preço do insumo energético básico. “O gás natural representa entre 60% e 80% do custo de produção da ureia”, explica Marcelo Soto, diretor de operações e inteligência de suprimentos da SCA, empresa especializada em análise e comercialização de insumos para o agronegócio. Para que a produção nacional consiga competir em pé de igualdade com grandes exportadores como Rússia, Irã e Catar, o custo do gás precisaria ficar em torno de US$ 3 por milhão de BTUs.

Na prática, o preço pago por usuários industriais no mercado livre brasileiro varia bastante, mas em muitos períodos chega a US$ 12 e pode ultrapassar US$ 15 por milhão de BTUs — cinco vezes o valor de referência. Nessa conta, sem subsídios cruzados, isenções tributárias ou uma política específica de preços para a indústria química, a ureia produzida em Três Lagoas só será mais vantajosa do que a importada em momentos de picos extremos de cotação internacional ou de frete marítimo muito elevado.

Há ainda uma segunda camada de concorrência que costuma ficar de fora dos anúncios oficiais. O produtor rural não compra apenas ureia: ele arbitra entre todas as fontes disponíveis de nitrogênio, como o sulfato de amônio, majoritariamente proveniente da China, e o nitrato de amônio, que vem em grande parte da Rússia, escolhendo sempre a alternativa com melhor relação custo‑benefício naquele momento. Além disso, a oferta das fábricas da Petrobras foi, historicamente, intermitente, funcionando em geral apenas quando o preço de mercado ficava favorável. “Essa falta de continuidade impede que distribuidores e produtores firmem contratos de longo prazo, mantendo a dependência estrutural da importação”, completa Soto.

Procurada, a Petrobras não se pronunciou sobre a projeção de custo unitário do produto, nem sobre eventuais mecanismos para baratear o gás ou adaptar o processo no futuro.

Tecnologia projetada há 15 anos acende debate sobre obsolescência

Outra frente de discussão ganhou força depois do anúncio: a UFN‑III foi concebida em 2011, usando rota química tradicional, na qual a amônia é sintetizada a partir de gás natural, com emissão intensa de gás carbônico. Hoje, a indústria global caminha rapidamente para a amônia produzida a partir de hidrogênio renovável, a chamada amônia verde, que dispensa o uso de combustível fóssil e tem pegada de carbono próxima de zero.

A pergunta que circula nos meios técnicos e acadêmicos é se vale a pena investir mais de R$ 5 bilhões numa tecnologia que, no momento em que a fábrica ficar pronta, já estará defasada do ponto de vista climático, correndo o risco de sofrer restrições comerciais ou encargos adicionais por conta de regras de fronteira de carbono que já começam a ser adotadas na Europa e nos Estados Unidos. Para alguns, o ideal seria projetar a unidade já com capacidade de conversão gradual para a rota limpa; para outros, a urgência de segurança de suprimento fala mais alto, e a adaptação pode ser feita em etapas posteriores.

A resposta não é simples, pois a alternativa renovável ainda esbarra em limitações econômicas claras.

Amônia verde é a solução de longo prazo, mas escala só vem depois de 2030

Luiz Viga, presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira da Indústria do Hidrogênio Verde, resume o dilema com uma frase repetida à exaustão no setor: “O fertilizante mais caro é aquele que não se tem”. Na sua avaliação, a retomada da UFN‑III é uma medida necessária para o curto prazo, mas não dispensa o planejamento acelerado da rota limpa, única capaz de dar competitividade sustentada ao país nas próximas décadas.

Diferente da rota fóssil, a amônia verde usa apenas água e eletricidade de fontes renováveis — hidráulica, eólica, solar —, dois recursos em abundância no território nacional. O custo, porém, ainda é elevado, embora venha caindo em ritmo acelerado. Há poucos anos, a tonelada custava entre US$ 2 mil e US$ 3 mil; hoje já existem projetos estruturados na Índia e na China com custo na casa dos US$ 700. A tendência é de nova queda forte, na mesma proporção que ocorreu com painéis fotovoltaicos e baterias elétricas nos últimos 15 anos.

“O principal risco para o Brasil não é a tecnologia, mas manter a competitividade do preço da energia elétrica”, observa Viga. Encargos setoriais, tributos e leilões com deságios cada vez menores pressionam a tarifa e podem inviabilizar não só a indústria de hidrogênio, mas toda a estratégia de eletrificação da economia. Programas como o Profert, que concede incentivos fiscais e linhas de crédito especiais, são vistos como avanço, mas ainda insuficientes para atrair o volume de capital necessário. A expectativa do setor é que os primeiros grandes projetos comerciais de fertilizantes verdes saiam do papel até 2028, com operação plena a partir de 2030, e que o produto já tenha participação relevante no mercado doméstico entre 2030 e 2040, ainda que não seja a maioria.

Escolha revela tensão permanente entre segurança e transição energética

A decisão de seguir adiante com a UFN‑III nos moldes atuais é, na prática, a materialização de uma escolha política e econômica difícil: priorizar, no curto prazo, a redução da dependência externa e a garantia de abastecimento, mesmo com tecnologia madura mas intensiva em carbono, enquanto se constrói paralelamente a base para a nova geração de insumos. Não há consenso sobre se o equilíbrio está no ponto certo.

Para o agronegócio, o ganho potencial está na maior estabilidade de oferta e na formação de um preço de referência interno, mas o benefício só chegará de fato ao bolso do produtor se o custo do gás for tratado como questão de Estado. Para a Petrobras, o projeto reforça o retorno da empresa a segmentos estratégicos que havia abandonado, mas também expõe a estatal ao risco de operar uma unidade com margens apertadas ou negativas por longos períodos. Para o clima, o saldo é negativo nas emissões, mas pode ser parcialmente compensado se a estrutura física servir depois como plataforma de conversão para amônia verde.

Seja qual for o resultado final, o caso de Três Lagoas permanecerá como exemplo emblemático: num país de dimensões continentais e vocação agrícola inquestionável, avançar na autossuficiência de fertilizantes nitrogenados nunca foi apenas uma questão de construir fábricas, mas de alinhar preços de energia, regulação, incentivos e visão de futuro numa mesma direção.

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