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PF investiga R$ 97 milhões do Iprev no Banco Master; atas mostram aporte de R$ 80 milhões

Documentos do instituto registram que o Banco Master foi credenciado internamente em 29 de novembro de 2023 e, dois dias depois, teve aprovada uma letra financeira de dez anos; PF apura credenciamento, risco, governança e tomada de decisão.

por Álvaro Lima
10/08/2026 às 16h01
em Política
Pf Investiga R$ 97 Milhões Do Iprev No Banco Master; Atas Mostram Aporte De R$ 80 Milhões - Gazeta Mercantil - Política

A Polícia Federal, com apoio da Controladoria-Geral da União (CGU), cumpriu nesta segunda-feira, 10 de agosto de 2026, oito mandados de busca e apreensão em Alagoas e São Paulo em uma investigação sobre duas aplicações do regime próprio de previdência de Maceió em letras financeiras. As operações foram realizadas em 2023 e 2024 e somam R$ 97 milhões.

Segundo a PF, o inquérito busca esclarecer o processo de credenciamento, cotação, análise de risco, governança e tomada de decisão que antecedeu os investimentos. A apuração também considera a possível prática de gestão fraudulenta, sem prejuízo da investigação de outros delitos eventualmente relacionados às operações.

Leia também: Leo Dias recebeu R$ 9,9 milhões do Master e mais R$ 2 milhões via empresa ligada, mostram relatórios.

Atas oficiais do Comitê de Investimentos do então Instituto de Previdência dos Servidores Públicos do Município de Maceió (Iprev), atualmente Maceió Previdência, ajudam a reconstruir a cronologia das decisões. Em 29 de novembro de 2023, o colegiado aprovou o credenciamento interno do Banco Master S.A. e de outras instituições financeiras.

Dois dias depois, em 1º de dezembro de 2023, o comitê aprovou uma proposta do Banco Master para uma letra financeira de R$ 80 milhões, com prazo de dez anos e remuneração equivalente ao IPCA acrescido de 7,60% ao ano.

A documentação pública permite identificar os atos administrativos que antecederam a aplicação, mas não permite, isoladamente, concluir pela existência de crime. A regularidade das operações depende da análise do cumprimento das normas federais aplicáveis aos regimes próprios de previdência, da política de investimentos do instituto e dos procedimentos efetivamente adotados pelos responsáveis.

Regra da lista exaustiva já aparecia nas atas

Antes mesmo da aprovação do primeiro aporte ao Banco Master, o próprio Comitê de Investimentos havia registrado condições para a realocação da carteira previdenciária.

Em reunião realizada em 21 de setembro de 2023, o colegiado aprovou ajustes destinados a adequar os investimentos à política do instituto e à Resolução CMN nº 4.963/2021. Na ocasião, a ata registrou que as realocações deveriam passar por instituições financeiras, gestoras ou corretoras autorizadas a administrar recursos de regimes próprios de previdência e integrantes da chamada lista exaustiva aplicável aos RPPS.

Na mesma reunião, a consultoria Crédito e Mercado apresentou uma análise da carteira do instituto. Segundo o documento, em 31 de julho de 2023 o patrimônio analisado alcançava aproximadamente R$ 858,8 milhões e estava integralmente sob gestão no Banco do Brasil.

A ata apontava concentração de 51,64% dos recursos no BB Fluxo FIC Renda Fixa Simples Previdenciário e indicava a necessidade de redistribuição da carteira, inclusive por meio de investimentos em títulos privados e instrumentos de renda fixa com prazos mais longos.

A entrada do Banco Master ocorreu, portanto, dentro de um processo administrativo apresentado como estratégia de diversificação e adequação da carteira. A necessidade de reduzir a concentração, entretanto, não afastava as exigências relativas a credenciamento, elegibilidade, análise de risco, governança e segurança dos recursos previdenciários.

Master foi credenciado internamente em 29 de novembro

A ata de 29 de novembro de 2023 registra uma reunião extraordinária do Comitê de Investimentos com a presença de Ronnie Reyner Teixeira Mota, então diretor-presidente do Iprev; Marília Alexandre de Lima Alves, diretora executiva de Governança e Gestão Interna; Marcelo Brasileiro Santos, integrante do Conselho Fiscal; e Gustavo Antônio Rodrigues de Souza, coordenador-geral de Investimentos e Receitas dos Fundos.

O representante da consultoria Crédito e Mercado, Renan Calamia, apresentou ao colegiado um novo relatório de análise de portfólio e realocação.

O documento relaciona pedidos de credenciamento de BB Gestão de Recursos, Banco BTG Pactual, BTG Pactual Serviços Financeiros, Banco Master, Caixa Distribuidora e Caixa Econômica Federal.

Segundo a ata, a documentação das instituições havia sido submetida à verificação de conformidade pela consultoria antes da deliberação do comitê.

Os integrantes aprovaram os credenciamentos e reconheceram internamente as instituições relacionadas como aptas a receber recursos do regime próprio de previdência, autorizando também providências para abertura das contas necessárias às operações.

Esse credenciamento interno constitui uma etapa relevante da cronologia administrativa, mas não encerra a análise sobre a regularidade do investimento. O cumprimento das regras também dependia das condições impostas pela regulamentação federal e pela própria política de investimentos do instituto.

Dois dias depois, R$ 80 milhões foram aprovados

Em 1º de dezembro de 2023, os integrantes do comitê voltaram a se reunir.

A ata informa que a pauta era dar continuidade às realocações e adequar a carteira à política de investimentos de 2023. O documento registra que o BB Fluxo ainda representava 43,74% da carteira considerada na análise.

Na sequência, foi apresentada a proposta do Banco Master.

A operação previa uma letra financeira no valor de R$ 80 milhões, com emissão programada para 6 de dezembro de 2023 e vencimento em 6 de dezembro de 2033.

A remuneração estabelecida era de IPCA mais 7,60% ao ano.

A proposta foi aprovada pelos integrantes presentes, e a diretoria da Presidência recebeu autorização para adotar os procedimentos necessários à efetivação do investimento.

O intervalo de apenas dois dias entre o credenciamento interno da instituição e a aprovação da aplicação é um dado objetivo registrado nos documentos públicos. Esse intervalo não demonstra, por si só, irregularidade ou fraude, mas integra o conjunto de circunstâncias que podem ser analisadas pelos investigadores.

Entre os pontos anunciados formalmente pela Polícia Federal estão justamente as condições de credenciamento, a realização de cotações, a análise de risco, os procedimentos de governança e a tomada de decisão que antecedeu o emprego dos recursos previdenciários.

Ata de 2024 registra nova proposta do Banco Master

A Polícia Federal informou que a investigação envolve duas aplicações, realizadas em 2023 e 2024, cujo valor total alcançou R$ 97 milhões.

Uma ata de 9 de maio de 2024 registra nova reunião do Comitê de Investimentos e a apresentação de uma proposta do Banco Master envolvendo letras financeiras.

Segundo o documento, a proposta tinha prazo de dez anos e remuneração equivalente a IPCA mais 7,30% ao ano.

Na reunião estavam presentes Ronnie Reyner Teixeira Mota, Marília Alexandre de Lima Alves e Marcelo Brasileiro Santos. A ata também registra a participação de Renan Calamia na apresentação da análise de portfólio.

O documento mostra que a discussão voltou a ocorrer dentro de um processo de realocação destinado a reduzir a concentração da carteira. Naquele momento, um dos fundos ainda representava parcela superior a 38% dos recursos analisados.

A nota oficial divulgada pela Polícia Federal nesta segunda-feira não detalha individualmente as condições financeiras das duas aplicações nem apresenta publicamente todos os elementos probatórios reunidos no inquérito.

Por essa razão, R$ 97 milhões é o montante oficialmente identificado como objeto das investigações, sem que a abertura da apuração permita antecipar eventual responsabilidade criminal dos envolvidos.

O que a legislação exige dos gestores previdenciários

A Resolução CMN nº 4.963/2021 estabelece as regras aplicáveis às aplicações dos recursos dos regimes próprios de previdência social.

A norma determina que os responsáveis pelos investimentos observem princípios de segurança, rentabilidade, solvência, liquidez, motivação, adequação às obrigações previdenciárias e transparência.

Também são exigidos procedimentos de diligência, controles internos, análise prévia dos riscos e credenciamento das instituições responsáveis por administrar ou receber os recursos.

Entre os critérios considerados no processo estão histórico de atuação, solidez patrimonial, exposição a riscos, condições operacionais e aderência às exigências regulatórias.

A política anual de investimentos de cada regime deve ainda estabelecer limites para exposição a determinados emissores e classes de ativos, metodologia de análise de risco e instrumentos de acompanhamento da carteira.

No caso de ativos de renda fixa emitidos por instituições bancárias, a regulamentação prevê limites específicos e condiciona as aplicações ao atendimento das demais exigências estabelecidas para os regimes próprios de previdência.

Lista exaustiva entra no centro da investigação

Outro ponto relevante é a chamada lista exaustiva de instituições financeiras que atendem aos requisitos estabelecidos para operações com recursos dos RPPS.

O próprio Comitê de Investimentos do Iprev havia mencionado essa exigência em sua reunião de setembro de 2023.

O Ministério da Previdência mantém relações periódicas das instituições consideradas enquadradas nos critérios regulatórios.

Documentos posteriores explicam que, quando determinada instituição não aparece na relação, isso pode significar que a confirmação dos requisitos necessários ainda não havia sido obtida para aquela atualização.

A posição específica do Banco Master na lista aplicável no momento exato do primeiro investimento, em dezembro de 2023, deverá ser confrontada com os documentos recolhidos pela investigação e com os registros utilizados pelos responsáveis pela decisão.

Esse ponto é especialmente relevante porque a investigação busca determinar se todos os procedimentos necessários ao credenciamento e à seleção da instituição foram observados antes de os recursos previdenciários serem aplicados.

Maceió Previdência sustentou regularidade das aplicações

Em novembro de 2025, após a liquidação do Banco Master pelo Banco Central, o Maceió Previdência divulgou uma manifestação institucional sobre os investimentos.

A autarquia afirmou, naquela ocasião, que o banco estava habilitado perante os órgãos competentes quando as aplicações foram realizadas e que os investimentos haviam seguido as regras vigentes, além de terem passado pelas instâncias administrativas responsáveis.

O instituto também informou patrimônio de aproximadamente R$ 1,4 bilhão e declarou que sua exposição aos títulos vinculados ao Banco Master correspondia a menos de 10% do total.

Essa manifestação é anterior às diligências realizadas pela Polícia Federal em 10 de agosto de 2026 e, portanto, não constitui resposta específica à atual operação.

A nota, entretanto, registra a posição institucional adotada pelo Maceió Previdência e deverá ser confrontada com os documentos, pareceres, registros de credenciamento, análises de risco e demais elementos reunidos pelos investigadores.

O que os documentos já permitem afirmar

As atas públicas confirmam uma sequência objetiva de acontecimentos.

Em setembro de 2023, o Comitê de Investimentos discutiu a necessidade de diversificação da carteira e registrou a exigência de utilização de instituições enquadradas nas regras aplicáveis aos regimes próprios de previdência.

Em 29 de novembro de 2023, o Banco Master foi credenciado internamente pelo colegiado.

Em 1º de dezembro de 2023, apenas dois dias depois, foi aprovada uma letra financeira do banco no valor de R$ 80 milhões, com vencimento previsto para 2033.

Em maio de 2024, nova proposta do Banco Master envolvendo letras financeiras foi analisada pelo comitê.

A Polícia Federal afirma que duas aplicações realizadas em 2023 e 2024 atingiram, juntas, R$ 97 milhões.

Esses fatos estão documentados. O que ainda precisa ser esclarecido é se todos os requisitos de elegibilidade estavam preenchidos nas datas das aplicações, se as análises de risco foram suficientes, quais alternativas foram consideradas, de que forma ocorreu a tomada de decisão e se houve alguma conduta deliberadamente fraudulenta.

A realização de buscas, a existência de um inquérito e a apuração de possível gestão fraudulenta não significam condenação nem comprovam antecipadamente a responsabilidade dos investigados.

Investigação deve confrontar atas com documentos apreendidos

Com o material recolhido durante os oito mandados de busca e apreensão em Alagoas e São Paulo, a Polícia Federal poderá confrontar os registros formais das reuniões do Iprev com documentos internos, comunicações, pareceres, cotações, análises de risco e dados relacionados às instituições envolvidas nas operações.

A Controladoria-Geral da União participa da ação, enquanto as medidas judiciais foram autorizadas no âmbito do Supremo Tribunal Federal.

O ponto central da investigação será determinar se o fluxo administrativo registrado nas atas correspondia, na prática, aos controles exigidos pela legislação previdenciária e financeira ou se houve falhas, omissões ou manipulações capazes de configurar ilícitos.

Até a conclusão dessas diligências, os documentos públicos permitem estabelecer a cronologia dos investimentos e identificar os responsáveis pelas deliberações administrativas, mas não permitem antecipar a conclusão criminal que ainda será produzida pelas autoridades responsáveis pela investigação.

Fontes:

  1. Polícia Federal — investigação sobre aplicação de recursos previdenciários em Maceió, 10 de agosto de 2026
  2. Prefeitura de Maceió / Iprev — Comitê de Investimentos e atas de 21/09/2023, 29/11/2023, 01/12/2023 e 09/05/2024
  3. Conselho Monetário Nacional — Resolução CMN nº 4.963/2021
  4. Ministério da Previdência — Lista Exaustiva de Instituições Financeiras
  5. Maceió Previdência — manifestação institucional sobre os investimentos no Banco Master

 

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