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Quaest: 65% veem caso Lulinha como problema para Lula; 64% dizem o mesmo sobre Flávio

Maioria também considera insuficientes as explicações dadas pelos dois candidatos sobre as investigações que atingem seus respectivos campos políticos.

por Júlia Campos
02/09/2026 às 21h33
em Política
Pesquisa Eleitoral - Gazeta Mercantil

As investigações que cercam pessoas próximas aos dois principais candidatos à Presidência entraram de forma concreta na campanha eleitoral. Pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira, 2 de setembro, mostra que 65% dos eleitores consideram que as apurações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, prejudicam a candidatura à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No outro lado da disputa, 64% avaliam que a investigação relacionada ao financiamento do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro, causa prejuízo à campanha do senador Flávio Bolsonaro.

A semelhança dos percentuais é um dos aspectos mais relevantes do levantamento. No caso de Lula, 40% afirmam que a investigação envolvendo seu filho prejudica muito a campanha e 25% dizem que prejudica um pouco. Outros 31% não enxergam impacto eleitoral e 4% não souberam ou não responderam. Para Flávio Bolsonaro, 42% dizem que o caso Dark Horse prejudica muito, 22% veem algum prejuízo, 29% não percebem efeito e 7% não souberam responder.

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A diferença entre os dois resultados é de apenas um ponto percentual. Na prática, dentro da margem de erro da pesquisa, o eleitorado demonstra uma percepção praticamente equivalente sobre o risco político dos dois episódios. Isso não significa que as investigações estejam efetivamente retirando votos dos candidatos na mesma proporção, nem permite estabelecer relação causal entre os casos e as oscilações registradas nas intenções de voto. O que a Quaest mede é a avaliação declarada pelos entrevistados sobre o potencial de desgaste de cada investigação.

A pesquisa ouviu presencialmente 2.004 eleitores de 16 anos ou mais entre 30 de agosto e 1º de setembro. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. O levantamento foi registrado na Justiça Eleitoral sob o número BR-07065/2026.

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Maioria considera explicações insuficientes nos dois casos

O resultado fica ainda mais simétrico quando a Quaest pergunta sobre as explicações oferecidas pelos próprios candidatos. No episódio envolvendo Lulinha, 54% dos entrevistados afirmam que Lula não apresentou explicações convincentes, enquanto 22% consideram satisfatórios os esclarecimentos dados pelo presidente. Outros 24% não souberam ou preferiram não responder.

No caso de Flávio Bolsonaro, 52% consideram que o senador não deu explicações convincentes sobre as questões envolvendo o financiamento de Dark Horse. Para 24%, as explicações foram suficientes, e outros 24% não souberam responder. Novamente, a diferença entre os dois candidatos é pequena e permanece dentro da margem de erro.

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Os números mostram uma dificuldade que ultrapassa a existência das investigações: mais da metade do eleitorado pesquisado não se declara convencida pelas respostas dadas por Lula e Flávio. Isso cria para as duas campanhas um problema de comunicação que pode permanecer aberto enquanto as apurações estiverem em andamento e novos fatos forem divulgados.

Lula tem afirmado publicamente que não interferirá nas investigações envolvendo o filho e que, se algum ilícito tiver sido cometido, deverá haver responsabilização. Fábio Luís é investigado pela Polícia Federal por suspeitas relacionadas a possível tráfico de influência em órgãos federais. A existência de investigação, por si só, não representa comprovação de crime ou responsabilidade penal.

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Flávio Bolsonaro, por sua vez, tem defendido que os recursos destinados a Dark Horse tiveram natureza privada e que o dinheiro foi direcionado à produção cinematográfica. A apuração busca esclarecer a origem e o destino de recursos relacionados ao filme e as relações mantidas durante o processo de financiamento. O senador aparece formalmente como investigado em inquérito no Supremo Tribunal Federal, ainda em estágio investigativo e sem equivaler a uma condenação.

Caso Lulinha atinge Lula em momento de disputa apertada

O resultado da pesquisa ganha peso porque aparece numa etapa da campanha em que a vantagem eleitoral de Lula diminuiu. Na mesma rodada da Quaest, o presidente registra 37% das intenções de voto no primeiro turno, enquanto Flávio Bolsonaro aparece com 29% no cenário sem Pablo Marçal. Augusto Cury tem 10%, Renan Santos marca 3%, e os demais candidatos permanecem em patamares menores.

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No segundo turno, a diferença fica ainda mais estreita. Lula aparece com 42% e Flávio com 41%, situação de empate técnico considerando a margem de erro de dois pontos percentuais. Na rodada anterior, a distância numérica entre os dois era maior.

Não é possível afirmar que o caso envolvendo Lulinha seja responsável pelo estreitamento dessa diferença. Pesquisas eleitorais captam diversos movimentos simultaneamente, e a decisão de voto é influenciada por fatores como avaliação do governo, economia, segurança pública, rejeição aos candidatos, propaganda, debates e acontecimentos da campanha.

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O levantamento, entretanto, oferece um dado adicional: quase dois em cada três entrevistados acreditam que a investigação envolvendo o filho do presidente atrapalha sua campanha. Quando a disputa de segundo turno aparece separada por apenas um ponto percentual, qualquer tema percebido como negativo por uma parcela tão grande do eleitorado tende a receber atenção das equipes eleitorais.

Essa pressão se torna maior porque 54% dizem não estar convencidos com as explicações oferecidas pelo presidente. O desafio para a campanha petista é impedir que questionamentos relacionados ao filho sejam transferidos automaticamente para a avaliação pessoal de Lula ou para o julgamento de seu governo.

Dark Horse também impõe custo a Flávio Bolsonaro

O mesmo raciocínio vale para o candidato do PL. O financiamento de Dark Horse, produção cinematográfica sobre Jair Bolsonaro, colocou Flávio no centro de questionamentos sobre sua relação com Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master. A investigação sobre o fluxo de recursos do filme se tornou politicamente mais sensível à medida que o próprio caso Master passou a atingir diferentes personagens dos mundos político, financeiro e jurídico.

Um processo público no Supremo registra Flávio Bolsonaro como investigado em um inquérito de natureza penal, com participação da Polícia Federal. O registro confirma a existência formal de investigação, mas não permite antecipar conclusão sobre eventual responsabilidade. As apurações ainda precisam esclarecer os fatos, e o senador tem direito à presunção de inocência e à defesa.

Politicamente, porém, o custo já aparece na pesquisa. Os 64% que enxergam algum prejuízo à candidatura de Flávio se dividem entre 42% que consideram o efeito muito negativo e 22% que apontam impacto menor. Apenas 29% afirmam que a investigação não prejudica sua campanha.

A proporção de eleitores que classifica o impacto como grande é, inclusive, dois pontos superior à registrada para Lula no caso de Lulinha. Como a margem de erro impede tratar essa pequena diferença como estatisticamente relevante, o dado mais seguro é que os dois episódios são vistos de forma semelhante pelo eleitorado.

A rejeição ajuda a explicar por que esse tipo de desgaste merece atenção. A mesma rodada da Quaest mostra Flávio com rejeição de 55% e Lula com 53%. Ambos enfrentam, portanto, dificuldades significativas para conquistar eleitores que hoje estão fora de suas bases tradicionais.

Escândalos não produzem vantagem automática para o adversário

A característica mais incomum do atual cenário é que os dois principais candidatos possuem investigações próximas de seus respectivos campos políticos capazes de serem utilizadas pelos adversários. Isso dificulta a construção de uma narrativa eleitoral simples na qual apenas um lado possa apresentar-se como atingido pelo desgaste.

Lula pode explorar as relações de Flávio Bolsonaro com Vorcaro e os questionamentos sobre o financiamento de Dark Horse. Flávio, em sentido inverso, pode insistir nas investigações envolvendo Lulinha e cobrar explicações do presidente. A pesquisa indica que as duas estratégias encontram receptividade em parcelas semelhantes da população.

Isso cria uma espécie de neutralização parcial do benefício eleitoral. O fato de 65% considerarem o caso Lulinha prejudicial a Lula não significa que esses mesmos eleitores migrarão para Flávio, sobretudo quando 64% também veem problema nas investigações que atingem a campanha do candidato do PL.

O movimento fica ainda mais importante porque Augusto Cury aparece com 10% e consolidou, nesta rodada, uma posição isolada em terceiro lugar. Eleitores incomodados simultaneamente com os dois principais candidatos não precisam necessariamente escolher imediatamente entre Lula e Flávio no primeiro turno. Há outras candidaturas disponíveis, e isso aumenta a importância do segmento que tenta escapar da polarização.

A eventual conversão desse desgaste em voto dependerá de fatores que a pergunta específica da Quaest não mede. Um eleitor pode considerar uma investigação prejudicial à campanha de um candidato e, ainda assim, manter seu voto nele por razões ideológicas, econômicas ou por rejeição ainda maior ao adversário.

Percepção de prejuízo é diferente de comprovação de crime

A leitura dos resultados exige uma distinção fundamental. A pesquisa mede percepção política, não culpa criminal. Quando 65% dizem que determinada investigação prejudica Lula, isso não representa julgamento sobre a responsabilidade de Lulinha. Da mesma forma, os 64% que enxergam prejuízo para Flávio Bolsonaro não estão necessariamente afirmando que houve crime no financiamento de Dark Horse.

Essa diferença é especialmente importante em período eleitoral, quando investigações em andamento passam rapidamente a integrar propaganda, discursos, debates e conteúdo produzido para redes sociais. Uma suspeita pode gerar impacto político muito antes de existir denúncia criminal, julgamento ou decisão definitiva.

No sistema jurídico, as etapas são distintas. Uma investigação busca reunir elementos para esclarecer determinado fato. Somente posteriormente poderá haver, conforme as evidências reunidas e a avaliação das autoridades competentes, arquivamento, oferecimento de denúncia ou outras providências. Mesmo uma eventual denúncia não equivaleria a condenação.

Para as campanhas, no entanto, o calendário eleitoral é muito mais curto que o tempo da Justiça. O primeiro turno está marcado para 4 de outubro, o que significa que as apurações provavelmente continuarão sendo discutidas enquanto os eleitores tomam sua decisão.

Quase dois terços enxergam desgaste dos dois lados

A comparação direta permite identificar três movimentos. O primeiro é a quase igualdade na percepção de prejuízo: 65% no caso Lulinha e 64% em Dark Horse. O segundo é a semelhança na avaliação das respostas oferecidas pelos candidatos: 54% não se dizem convencidos por Lula e 52% fazem a mesma avaliação sobre Flávio. O terceiro é que cerca de três em cada dez eleitores rejeitam a ideia de impacto eleitoral nos dois episódios — 31% no primeiro caso e 29% no segundo.

Isso sugere que nenhum dos principais candidatos entra na reta final com vantagem evidente quando o assunto são as investigações envolvendo pessoas ou projetos próximos às suas candidaturas. Ambos terão de lidar com cobranças públicas enquanto tentam deslocar a campanha para temas nos quais consideram possuir maior capacidade de convencimento.

O próximo teste virá das novas rodadas de pesquisa. Se as investigações produzirem fatos adicionais, será possível observar se a percepção de prejuízo permanece estável e se ela começa a aparecer acompanhada de mudanças mais claras na intenção de voto, na rejeição ou no potencial eleitoral dos candidatos.

Por enquanto, a fotografia da Quaest é menos uma indicação de quem ganha com os escândalos do que um alerta sobre quem pode perder. Lula e Flávio Bolsonaro estão separados por apenas um ponto numa simulação de segundo turno e, simultaneamente, enfrentam investigações que aproximadamente dois terços dos entrevistados consideram prejudiciais às respectivas campanhas. Em uma eleição apertada, nenhum dos dois tem margem confortável para ignorar esse tipo de desgaste.

Fontes:

Quaest – pesquisa nacional registrada sob o número BR-07065/2026, com dados sobre impacto eleitoral das investigações envolvendo Lulinha e o filme Dark Horse

Supremo Tribunal Federal – registros processuais de inquéritos relacionados às apurações envolvendo Flávio Bolsonaro e o financiamento do filme Dark Horse

Tribunal Superior Eleitoral – registro e informações metodológicas da pesquisa eleitoral BR-07065/2026

Quaest – rodada nacional de setembro de 2026 com cenários de primeiro e segundo turnos, rejeição e avaliação dos candidatos

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