As units do Santander Brasil (SANB11) voltaram ao centro das discussões do mercado financeiro após acumularem queda de cerca de 21% em 2026, desempenho inferior ao dos principais bancos listados na B3. No mesmo período, as ações do Grupo Santander na Espanha avançam aproximadamente 24%, ampliando a diferença de valuation entre a matriz e a subsidiária brasileira para um nível considerado recorde desde a listagem do banco no Brasil, em 2009.
A distância entre os múltiplos reacendeu uma tese recorrente entre analistas: a possibilidade de o controlador espanhol lançar uma oferta pública de aquisição (OPA) para comprar a fatia restante do Santander Brasil em circulação no mercado. A hipótese ganhou força porque apenas cerca de 10% das ações permanecem em free float, o que reduziria o custo financeiro de uma eventual operação para a matriz.
Apesar disso, não há anúncio formal de OPA. O tema segue no campo da especulação de mercado, alimentado pelo desconto das units, pela baixa liquidez relativa e pelo histórico do próprio Santander em operações de simplificação societária. Em fevereiro, o então presidente do Santander Brasil, Mario Leão, afirmou que o fechamento de capital não estava no foco da gestão.
Por que SANB11 ficou para trás na Bolsa
O mau desempenho de Santander Brasil (SANB11) não reflete apenas a diferença entre o mercado brasileiro e o europeu. O banco também enfrenta pressão operacional em um ambiente de crédito mais difícil, competição crescente com fintechs e rentabilidade abaixo da meta de médio prazo.
No primeiro trimestre de 2026, o Santander Brasil registrou lucro líquido gerencial de R$ 3,788 bilhões, queda de 7,3% ante o quarto trimestre de 2025 e baixa de 1,9% em relação ao mesmo período do ano anterior. O retorno sobre o patrimônio médio, medido pelo ROAE, ficou em 16%, abaixo do objetivo de médio prazo de 20% citado pela administração e acompanhado de perto por analistas.
A qualidade da carteira também pesa sobre a leitura dos investidores. O índice de inadimplência acima de 90 dias subiu de 2,8% em março de 2025 para 3,3% em março de 2026, segundo a apresentação de resultados do banco. No segmento de pessoa física, a inadimplência acima de 90 dias chegou a 4,9% no fim do primeiro trimestre.
Desconto para a matriz alimenta tese de OPA
A principal razão para a tese de fechamento de capital é a combinação entre valuation descontado e baixa fatia em circulação. Segundo análise da Genial Investimentos, o free float de aproximadamente 10% representaria um custo relativamente baixo para o Grupo Santander diante de sua geração de capital e de seu histórico de reorganização de subsidiárias.
O próprio histórico brasileiro reforça a leitura. Em 2014, o Santander Espanha realizou uma oferta pública voluntária de permuta de ações e units do Santander Brasil por BDRs representativos de ações da matriz. A operação elevou a participação do grupo no capital da subsidiária brasileira para 88,3%, mas não retirou integralmente o banco da Bolsa brasileira.
Desde então, o controlador avançou em outros movimentos de simplificação. A Bloomberg Línea informou que a matriz também fechou o capital de negócios como a operação de financiamento ao consumidor nos Estados Unidos, em 2021, e a unidade mexicana, em 2023, além da Getnet no Brasil.
O que pesa contra uma operação agora
Embora o desconto de SANB11 torne a discussão mais relevante, o momento do Grupo Santander pode reduzir a probabilidade de uma OPA no curto prazo. A matriz está envolvida em uma agenda internacional intensa, com aquisições relevantes no Reino Unido e nos Estados Unidos.
Em 2025, o Santander anunciou a compra de 100% do TSB Banking Group, do Banco Sabadell, por 2,65 bilhões de libras. A operação fortalece a posição do grupo no Reino Unido e deve tornar o Santander UK o terceiro maior banco do país em saldos de contas correntes pessoais.
Em fevereiro de 2026, o grupo também anunciou a aquisição do Webster Financial, nos Estados Unidos, por US$ 12,2 bilhões. Segundo o comunicado oficial, a transação deve criar um banco entre os dez maiores do varejo e banco comercial americano por ativos, além de ampliar a base de depósitos no nordeste dos EUA.
Essas operações exigem integração, capital e atenção da administração. Por isso, parte dos analistas avalia que uma eventual OPA no Brasil pode fazer sentido estratégico, mas não necessariamente agora.
Santander Brasil tenta recuperar rentabilidade
A nova fase do Santander Brasil envolve uma combinação de controle de custos, seletividade no crédito e busca por clientes de maior renda. A apresentação do primeiro trimestre mostrou receita total de R$ 21,248 bilhões, avanço de 0,9% em relação ao primeiro trimestre de 2025, enquanto as despesas gerais ficaram praticamente estáveis na comparação anual.
O banco também vem tentando melhorar a eficiência operacional. No primeiro trimestre, o índice de eficiência ficou em 37,7%, melhora de 1,1 ponto percentual ante o trimestre anterior, embora ainda 0,5 ponto acima do registrado um ano antes.
A estratégia passa por reduzir exposição a carteiras de maior risco, priorizar originação mais rentável e ampliar a participação de segmentos como alta renda, pequenas e médias empresas e atacado. Em relatório, a Genial apontou que a administração segue buscando um ROE sustentável de 20%, mas que esse patamar pode ficar mais factível apenas em 2027.
Troca no comando aumenta atenção sobre o banco
A mudança na liderança também entrou no radar. Em março, o Santander Brasil anunciou a saída de Mario Leão da presidência, com transição prevista até julho de 2026. Para o cargo, o conselho escolheu Gilson Finkelsztain, então presidente da B3, ainda sujeito às aprovações regulatórias necessárias.
A chegada de Finkelsztain ocorre em um momento sensível. O banco precisa recuperar confiança do mercado, provar que a deterioração da inadimplência está sob controle e mostrar que a reestruturação operacional pode gerar rentabilidade mais próxima da meta.
Para investidores, a troca de comando pode ser positiva se acelerar a disciplina de capital e a simplificação do banco. Mas também adiciona um período de transição em uma fase em que SANB11 já sofre com pressão de resultados e comparação desfavorável com pares locais.
Fintechs pressionam bancos tradicionais
Outro ponto estrutural é a competição com fintechs. O avanço de bancos digitais, especialmente em cartões, conta corrente e crédito de varejo, reduziu vantagens históricas de bancos tradicionais e pressionou margens no segmento massificado.
O Santander Brasil tem exposição relevante ao financiamento ao consumo, o que torna seus resultados mais sensíveis ao ciclo de juros, à inflação e à inadimplência. Em períodos de Selic elevada, o custo de funding e o risco de crédito tendem a pesar mais sobre instituições com carteiras voltadas ao consumo.
Esse cenário ajuda a explicar por que a matriz espanhola valorizou fortemente enquanto a operação brasileira perdeu valor. O grupo global se beneficiou de resultados recordes e expansão internacional, enquanto o Brasil ainda tenta recompor retorno em um mercado bancário mais competitivo.
O que observar em SANB11 daqui para frente
A tese de investimento em Santander Brasil (SANB11) passa por quatro pontos principais: evolução da inadimplência, recuperação do ROE, disciplina de custos e sinais da matriz sobre alocação de capital.
Se os indicadores de crédito estabilizarem e a rentabilidade caminhar para a meta de 20%, o desconto pode diminuir sem necessidade de OPA. Por outro lado, se SANB11 continuar negociando com múltiplos pressionados, a discussão sobre fechamento de capital tende a permanecer no radar.
Por enquanto, a conclusão mais prudente é que uma OPA é uma possibilidade financeira e estratégica, mas não um fato. O desconto recorde para a matriz torna o tema inevitável, mas a agenda global do Santander e a ausência de manifestação formal impedem tratar a operação como iminente.
Para o investidor, o ponto central não é apenas se o Santander Brasil pode sair da Bolsa. É se o banco conseguirá recuperar rentabilidade em um ambiente no qual fintechs, juros altos e inadimplência ainda limitam o potencial de valorização de SANB11.









