A Light (LIGT3) avançou mais uma etapa na reconstrução financeira de sua principal operação. A S&P Global Ratings elevou em 17 de setembro as classificações de crédito da Light Serviços de Eletricidade (Light Sesa), retirando a distribuidora da faixa “D” e atribuindo rating “brBB+” para a dívida de longo prazo e para as debêntures senior unsecured. A nota de curto prazo passou de “D” para “brB”. A perspectiva foi definida como estável. A mudança ocorre poucos dias depois de a Justiça do Rio de Janeiro encerrar formalmente a recuperação judicial da companhia.
A S&P também atribuiu “brBB+” à 9ª e à 21ª emissões de debêntures da Light Sesa. A decisão incorpora a avaliação de que a estrutura de capital da companhia melhorou após a conclusão do processo de recuperação, com redução do endividamento e reforço patrimonial. A agência destacou a conversão de aproximadamente R$ 1,7 bilhão de dívida e um aumento de capital de R$ 1,5 bilhão como elementos centrais da reestruturação.
A mudança representa uma diferença relevante em relação ao ponto de partida da crise. A S&P havia levado o rating da Light Sesa para “D” em abril de 2023, em meio à suspensão do pagamento de obrigações financeiras e ao agravamento da situação de liquidez. Na nova avaliação, a agência considera que a conclusão da recuperação judicial modificou a estrutura de capital e reduziu parte dos riscos associados ao endividamento.
Alavancagem deve cair, mas ainda permanece elevada
A melhora do balanço aparece de forma mais clara na projeção da relação entre dívida líquida e Ebitda ajustado. A S&P estima que o indicador recue de 6,5 vezes em 2025 para cerca de 5,3 vezes em 2026 e 4,8 vezes em 2027. Em termos relativos, a projeção representa uma redução de aproximadamente 18,5% na alavancagem entre 2025 e 2026 e de 26,2% em dois anos.
A trajetória é relevante porque a capacidade de reduzir a dívida passou a depender menos de uma renegociação extraordinária e mais da geração recorrente de caixa da operação de distribuição. A S&P, porém, não considera o processo concluído do ponto de vista financeiro. A agência aponta riscos ligados à capacidade de geração de caixa e à necessidade de acesso ao mercado de capitais para financiar investimentos nos próximos anos.
A avaliação introduz uma distinção importante para o mercado: sair do rating “D” significa que a companhia deixou para trás a situação associada à inadimplência que marcou a crise de 2023, mas a nova classificação ainda exige acompanhamento da evolução financeira e operacional. O rating “brBB+” está abaixo das faixas superiores da escala nacional e, portanto, não elimina a percepção de risco de crédito que acompanha uma empresa em processo de reestruturação.
O movimento também precisa ser analisado à luz da composição da dívida. A Light Sesa mantém instrumentos locais emitidos em diferentes séries, inclusive debêntures decorrentes da própria reestruturação. A área de relações com investidores da Light registra, entre esses papéis, títulos associados à conversão de créditos e emissões com vencimentos posteriores ao período da recuperação judicial.
Fim da recuperação judicial muda o marco financeiro da companhia
A recuperação judicial da Light foi iniciada em 2023 e teve o plano aprovado pelos credores em 2024. O processo reorganizou cerca de R$ 11 bilhões em obrigações e incluiu conversão de créditos, novos instrumentos de dívida, reestruturação de títulos emitidos no exterior, pagamentos a pequenos credores e mecanismos de capitalização.
Em setembro, a 3ª Vara Empresarial da Comarca da Capital do Rio de Janeiro decretou o encerramento da recuperação judicial depois de reconhecer o cumprimento das obrigações previstas no plano durante o período de fiscalização, iniciado em junho de 2024 e concluído em junho de 2026. A decisão contou com manifestações favoráveis da administração judicial e do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro.
Entre as medidas cumpridas estavam o pagamento à vista de mais de 27 mil credores com créditos de até R$ 30 mil, a emissão e entrega dos instrumentos de dívida previstos no plano e a reestruturação das notas emitidas no exterior. O aumento de capital vinculado à renovação da concessão também integrou a execução da estratégia de reorganização financeira.
A sequência dos acontecimentos ajuda a explicar a alteração no rating. A companhia passou de uma situação em que a continuidade da operação estava associada à execução de um plano judicial para uma estrutura em que a dívida reestruturada, a capitalização e a renovação da concessão passaram a formar a base do novo ciclo operacional.
A Light também registrou uma operação de aumento de capital de R$ 1,5 bilhão em julho, enquanto a Light Sesa teve posteriormente uma capitalização de R$ 1,35 bilhão aprovada em assembleia extraordinária, elevando o capital social da distribuidora de R$ 8,16 bilhões para R$ 9,51 bilhões. As operações ocorreram no âmbito da reorganização financeira do grupo e da execução das medidas relacionadas ao plano de recuperação.
Renovação da concessão amplia o horizonte operacional
A melhora do perfil de crédito ocorre paralelamente a uma mudança de horizonte para a operação de distribuição. Em abril, o Tribunal de Contas da União acompanhou a prorrogação da concessão da Light Serviços de Eletricidade por mais 30 anos. O contrato atende aproximadamente 3,9 milhões de unidades consumidoras em 37 municípios do Rio de Janeiro e alcança uma população estimada em quase 11 milhões de habitantes. O faturamento anual associado à concessão foi estimado pelo TCU em cerca de R$ 19,8 bilhões.
A renovação reduz uma das incertezas estruturais que acompanhavam a empresa desde o agravamento da crise financeira. O novo ciclo de concessão, no entanto, também eleva a exigência operacional, principalmente em relação à qualidade do serviço, aos investimentos e ao tratamento das perdas de energia.
Essa questão aparece diretamente na análise da S&P. A agência considera que a situação financeira poderá melhorar a partir de março de 2027, quando está prevista a próxima revisão tarifária, com mudanças na forma de reconhecimento das perdas não técnicas. A avaliação considera ainda o aumento do limite regulatório de perdas de 43% para 58% em 2027.
Para a distribuidora, o tema é particularmente relevante porque as perdas afetam simultaneamente receita, geração de caixa e necessidade de capital. Uma parcela relevante da diferença entre energia comprada e energia efetivamente faturada não é recuperada integralmente nas condições atuais, tornando a definição regulatória um elemento importante para a capacidade de geração de caixa projetada pela agência.
S&P mantém foco em caixa e investimentos
Apesar da elevação das notas, a perspectiva estável não significa ausência de riscos. A S&P ressalta que a Light Sesa ainda precisará demonstrar capacidade de transformar a melhora da estrutura de capital em geração operacional de caixa suficiente para financiar investimentos, capital de giro e obrigações financeiras.
Esse ponto é particularmente sensível para uma distribuidora que inicia um novo ciclo de concessão com metas operacionais mais exigentes. A companhia precisa conciliar investimentos na rede, qualidade do serviço e redução de perdas com uma estrutura financeira que, embora tenha sido reforçada, continua apresentando alavancagem elevada em relação a empresas de perfil de crédito mais robusto.
A própria estrutura das novas emissões mostra parte dessa transição. A página de relações com investidores da Light lista debêntures locais decorrentes da conversão de créditos, além de títulos com vencimentos distribuídos ao longo da próxima década. O reperfilamento alongou o passivo, mas não eliminou a necessidade de administrar cuidadosamente vencimentos, custo da dívida e capacidade de geração de caixa.
A companhia também terá de operar dentro das novas condições da concessão. O TCU destacou que a extensão por 30 anos está associada a requisitos de prestação adequada do serviço e a condições regulatórias que envolvem continuidade, qualidade e eficiência econômico-financeira.
Próximo teste será a execução operacional
Com o encerramento da recuperação judicial, o principal desafio financeiro da Light passa a ser acompanhado fora do regime de supervisão específico do processo. Isso desloca parte da atenção do mercado da renegociação da dívida para a execução do negócio regulado.
A redução projetada da relação dívida líquida sobre Ebitda, de 6,5 vezes em 2025 para 4,8 vezes em 2027, dependerá de duas frentes simultâneas: a manutenção dos benefícios obtidos com a reestruturação e a melhora efetiva da geração de caixa da distribuidora. A materialização dessas premissas será especialmente observada durante o novo ciclo tarifário.
A elevação do rating também pode ter efeito sobre as condições de financiamento da companhia, mas não elimina automaticamente os desafios de acesso ao mercado de capitais apontados pela própria S&P. Eventuais novas emissões continuarão condicionadas à percepção de risco da empresa, ao ambiente de crédito e à evolução de seus indicadores financeiros.
Para a Light, portanto, o encerramento da recuperação judicial e a elevação do rating marcam a conclusão de uma etapa de reestruturação, mas não encerram o processo de desalavancagem. O próximo ciclo será medido pela capacidade de sustentar a concessão renovada, elevar a geração de caixa e reduzir progressivamente o peso da dívida sobre a operação.
Fontes:
Light – comunicado ao mercado sobre a elevação dos ratings da Light Sesa pela S&P Global Ratings
S&P Global Ratings – classificação de crédito da Light Serviços de Eletricidade e histórico das ações de rating
Light Relações com Investidores – documentos sobre recuperação judicial, ratings e emissões de dívida
Tribunal de Contas da União – acompanhamento da prorrogação da concessão da Light Serviços de Eletricidade por 30 anos
Comissão de Valores Mobiliários – documentos societários e informações financeiras da Light em 2026









