As taxas do Tesouro Direto recuaram na abertura desta quarta-feira (24) no mercado brasileiro, em um movimento de valorização dos títulos públicos provocado pela queda do petróleo, pelo recuo dos rendimentos dos Treasuries nos Estados Unidos e pela redução momentânea da aversão ao risco no exterior. Apesar do fechamento da curva, os papéis prefixados continuam oferecendo retornos nominais próximos de 14,6% ao ano, enquanto o Tesouro IPCA+ 2032 permanece com remuneração real de 8,40% ao ano acima da inflação.
O movimento representa uma devolução parcial dos prêmios acumulados nas sessões anteriores, quando a combinação de inflação pressionada, incerteza fiscal e tensões geopolíticas levou as taxas do Tesouro Direto a níveis elevados.
Na abertura desta quarta-feira, o Tesouro IPCA+ 2032 pagava IPCA mais 8,40% ao ano, abaixo dos 8,47% registrados no encerramento de terça-feira (23). O Tesouro Prefixado 2029 recuou de 14,66% para 14,61%, enquanto o Prefixado 2032 passou de 14,68% para 14,59%.
No vencimento mais longo entre os prefixados disponíveis, o Tesouro Prefixado com Juros Semestrais 2037 oferecia retorno de 14,41% ao ano, ante 14,50% na sessão anterior.
A redução das taxas não significa queda da rentabilidade acumulada dos títulos já adquiridos. Como os preços e os rendimentos dos papéis públicos se movimentam em direções opostas, o fechamento da curva tende a elevar o valor de mercado dos títulos, especialmente daqueles com vencimentos mais longos.
Queda das taxas valoriza títulos adquiridos anteriormente
A movimentação do Tesouro Direto nesta quarta-feira favorece, no curto prazo, os investidores que compraram títulos prefixados ou indexados ao IPCA quando as taxas estavam mais altas.
Quando o juro exigido pelo mercado diminui, o preço do título sobe para que sua remuneração seja ajustada às novas condições. Esse mecanismo, conhecido como marcação a mercado, é refletido diariamente no saldo exibido ao investidor.
O efeito costuma ser mais intenso nos títulos de prazo longo. Um Tesouro IPCA+ com vencimento em 2050 ou 2060, por exemplo, pode apresentar variações expressivas de preço diante de mudanças relativamente pequenas na curva de juros.
Para quem pretende manter o papel até o vencimento, as oscilações intermediárias não alteram a taxa contratada no momento da compra. No Tesouro IPCA+, o investidor recebe a variação da inflação oficial acrescida do juro real acordado, desde que permaneça com o título até a data final.
A situação é diferente para quem precisa vender antecipadamente. Nesse caso, o Tesouro Nacional recompra o papel pelo preço vigente no mercado. Se as taxas tiverem subido desde a aquisição, o investidor poderá registrar perda ou rentabilidade inferior à inicialmente esperada.
Na prática, o recuo observado no Tesouro Direto hoje produz dois efeitos distintos: melhora o valor de mercado dos títulos já comprados, mas reduz ligeiramente a remuneração disponível para novas aplicações.
IPCA+ 2032 mantém retorno real acima de 8%
Mesmo após o recuo desta quarta-feira, o Tesouro IPCA+ 2032 continua oferecendo retorno de 8,40% ao ano acima do IPCA. O nível permanece elevado para um ativo garantido pelo Tesouro Nacional e ajuda a explicar o interesse crescente pelos títulos públicos indexados à inflação.
A taxa real corresponde ao rendimento que excede a variação do IPCA. Em uma simulação simplificada, caso a inflação permaneça em 5% ao ano, um papel que pague IPCA mais 8,40% poderá apresentar retorno nominal bruto superior a 13% no período, embora o cálculo efetivo dependa da composição das taxas.
Os vencimentos mais longos também permaneceram com prêmios relevantes. O Tesouro IPCA+ 2040 pagava IPCA mais 7,56%, enquanto o Tesouro IPCA+ 2050 oferecia IPCA mais 7,17%. O papel com juros semestrais e vencimento em 2060 tinha taxa de IPCA mais 7,39%.
Esses títulos podem ser utilizados em estratégias de preservação do poder de compra e formação de patrimônio de longo prazo. Em contrapartida, estão entre os papéis mais sensíveis à marcação a mercado.
Quanto maior o tempo restante até o vencimento, maior tende a ser a oscilação do preço diante de mudanças nas expectativas de inflação, Selic, risco fiscal e juros internacionais.
Prefixados ainda oferecem retorno próximo de 14,6%
Os títulos prefixados do Tesouro Direto também permaneceram com taxas elevadas, apesar da queda registrada na abertura.
O Tesouro Prefixado 2029 pagava 14,61% ao ano. O vencimento de 2032 oferecia 14,59%, enquanto o papel com pagamento de juros semestrais e vencimento em 2037 apresentava rendimento de 14,41%.
No título prefixado, o investidor conhece desde o momento da aplicação a taxa nominal que receberá caso mantenha o papel até o vencimento. A rentabilidade real, entretanto, dependerá do comportamento da inflação durante o período.
Uma inflação abaixo da esperada aumenta o ganho real do título. Uma aceleração mais intensa dos preços reduz o poder de compra da remuneração contratada.
A taxa próxima de 14,6% mostra que o mercado ainda exige prêmio elevado para financiar a dívida pública brasileira por períodos mais longos. Entre os fatores considerados estão a trajetória da inflação, o ritmo dos cortes da Selic, as contas públicas e a evolução da dívida federal.
Copom promete cautela após reduzir Selic para 14,25%
O movimento do Tesouro Direto ocorre uma semana depois de o Comitê de Política Monetária reduzir a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,25% ao ano.
Na ata divulgada pelo Banco Central, o Copom afirmou que pretende manter “serenidade e cautela na condução da política monetária” diante da incerteza elevada e dos riscos inflacionários associados ao cenário internacional.
O documento também indicou que as próximas decisões dependerão de novas informações sobre os conflitos no Oriente Médio e seus efeitos sobre petróleo, câmbio e preços ao consumidor.
Embora tenha reduzido a Selic, o Banco Central apresentou uma avaliação mais adversa para a inflação. A projeção do Copom para o IPCA de 2026 ficou em 5,2%, enquanto a estimativa para o quarto trimestre de 2027, atual horizonte relevante da política monetária, alcançou 3,7%.
As duas projeções permanecem acima do centro da meta de inflação, de 3%. O intervalo de tolerância vai de 1,5% a 4,5%.
O Copom também registrou que, em um ambiente de expectativas desancoradas, é necessária uma “restrição monetária maior e por mais tempo”. A afirmação reduziu a possibilidade de uma sequência automática de cortes da Selic e manteve elevados os prêmios cobrados nos títulos públicos.
Focus mostra nova piora das expectativas de inflação
Dados posteriores à reunião do Copom reforçaram a cautela dos investidores.
No Relatório Focus divulgado em 19 de junho, a mediana das projeções do mercado para o IPCA de 2026 subiu para 5,33%. Para 2027, a estimativa avançou para 4,15%.
As projeções estão acima dos números utilizados pelo próprio Banco Central na reunião de junho e indicam que os agentes financeiros ainda não enxergam uma convergência rápida da inflação ao centro da meta.
O IPCA oficial avançou 0,58% em maio e acumulou alta de 4,72% em 12 meses. A inflação corrente, portanto, já se encontra acima do teto de 4,5% estabelecido pelo regime de metas.
A desancoragem das expectativas afeta diretamente o Tesouro Direto. Quando o mercado prevê inflação mais alta ou maior dificuldade para o Banco Central controlar os preços, os investidores exigem taxas superiores para adquirir títulos prefixados e indexados ao IPCA.
O cenário também limita a velocidade dos cortes da Selic. Uma redução acelerada dos juros, sem melhora consistente das expectativas, poderia pressionar o câmbio e aumentar novamente os preços de bens, serviços e combustíveis.
Petróleo reduz pressão sobre juros nesta quarta-feira
O principal fator de alívio para o Tesouro Direto hoje veio do exterior.
Os contratos futuros do petróleo Brent recuavam mais de 4%, para a região de US$ 74 por barril, diante da expectativa de normalização do transporte de cargas pelo Estreito de Ormuz e de aumento da oferta de petróleo do Oriente Médio.
A redução do petróleo diminui o risco de novas pressões sobre combustíveis, transportes, energia e cadeias industriais. Para países importadores e economias emergentes, o movimento tende a aliviar as expectativas de inflação e os juros de longo prazo.
Os rendimentos dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos também apresentavam queda moderada. A taxa da Treasury de dez anos operava ao redor de 4,49%, favorecendo a procura por ativos de países emergentes e ajudando a reduzir os prêmios da curva brasileira.
Juros norte-americanos menores podem ampliar a atratividade relativa dos títulos brasileiros. O efeito, contudo, depende do comportamento do dólar e da percepção de risco dos investidores internacionais.
Uma valorização mais intensa da moeda americana pode neutralizar parte do impacto positivo do petróleo, ao encarecer produtos importados e aumentar a pressão sobre a inflação brasileira.
IPCA-15 e relatório do BC podem mudar as taxas
O alívio observado no Tesouro Direto poderá ser testado na quinta-feira (25), quando serão divulgados o IPCA-15 de junho e o novo Relatório de Política Monetária do Banco Central.
O IPCA-15 será acompanhado por investidores em busca de sinais sobre o comportamento dos alimentos, combustíveis, serviços e preços administrados. Uma leitura acima das projeções poderá provocar nova abertura das taxas do Tesouro Direto.
O Relatório de Política Monetária apresentará análises mais detalhadas sobre atividade econômica, mercado de trabalho, crédito, inflação e balanço de riscos. A comunicação do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, também poderá alterar as expectativas para as próximas reuniões do Copom.
O mercado buscará indicações sobre a possibilidade de uma pausa no ciclo de cortes ou de manutenção da redução gradual da Selic. A ata não apresentou compromisso prévio com nenhuma das alternativas.
A volatilidade poderá aumentar porque as taxas do Tesouro Direto são baseadas nas condições do mercado secundário de títulos públicos. Mudanças nas projeções econômicas são rapidamente incorporadas aos preços oferecidos aos investidores.
Tesouro Selic mantém retorno próximo da taxa básica
Entre os papéis pós-fixados, o Tesouro Selic 2031 oferecia a variação da Selic acrescida de 0,0742% ao ano. O investimento mínimo era de R$ 192,27, correspondente a uma fração do título.
O Tesouro Selic sofre menos oscilações de preço do que os prefixados e os títulos indexados ao IPCA. Por essa característica, costuma ser utilizado para recursos de curto prazo ou reservas que podem precisar de resgate antecipado.
A rentabilidade acompanha a taxa básica definida pelo Banco Central. Com a Selic em 14,25% ao ano, o título permanece com retorno nominal elevado, embora sujeito à cobrança de Imposto de Renda e, nas condições previstas pelo programa, à taxa de custódia.
O Tesouro Reserva 2036 aparecia com investimento mínimo de R$ 1 e remuneração equivalente à Selic. O produto busca simplificar o acesso ao título público para formação de reservas financeiras.
RendA+ e Educa+ seguem com prêmios reais elevados
Os títulos voltados à geração de renda futura também acompanharam o fechamento da curva.
O Tesouro RendA+ 2030 oferecia IPCA mais 7,67% ao ano. Nos vencimentos mais longos, o RendA+ 2050 pagava IPCA mais 7,05%, enquanto o RendA+ 2065 apresentava taxa de IPCA mais 7,04%.
O RendA+ foi estruturado para acumular recursos e realizar pagamentos mensais durante um período posterior à data de conversão. O vencimento financeiro efetivo, por isso, ocorre anos depois do início dos pagamentos.
No Tesouro Educa+, destinado à formação de renda para despesas educacionais, as maiores taxas estavam concentradas nos vencimentos mais próximos. O Educa+ 2027 pagava IPCA mais 8,60%, enquanto o Educa+ 2028 oferecia IPCA mais 8,54%.
Assim como ocorre com os demais papéis indexados à inflação, a venda antes do período planejado pode produzir resultados diferentes da taxa contratada devido à marcação a mercado.
Confira as taxas do Tesouro Direto nesta quarta-feira
Os valores abaixo correspondem à abertura do mercado em 24 de junho de 2026 e podem sofrer alterações durante a sessão.
| Título | Rendimento anual | Investimento mínimo | Preço unitário | Vencimento |
|---|---|---|---|---|
| Tesouro Reserva 2036 | Selic | R$ 1,00 | R$ 10,66 | 01/01/2036 |
| Tesouro Selic 2031 | Selic + 0,0742% | R$ 192,27 | R$ 19.227,19 | 01/03/2031 |
| Tesouro Prefixado 2029 | 14,61% | R$ 7,11 | R$ 711,12 | 01/01/2029 |
| Tesouro Prefixado 2032 | 14,59% | R$ 4,73 | R$ 473,58 | 01/01/2032 |
| Tesouro Prefixado com Juros Semestrais 2037 | 14,41% | R$ 8,24 | R$ 824,43 | 01/01/2037 |
| Tesouro IPCA+ 2032 | IPCA + 8,40% | R$ 28,94 | R$ 2.894,63 | 15/08/2032 |
| Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais 2037 | IPCA + 7,88% | R$ 41,57 | R$ 4.157,52 | 15/05/2037 |
| Tesouro IPCA+ 2040 | IPCA + 7,56% | R$ 16,99 | R$ 1.699,81 | 15/08/2040 |
| Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais 2045 | IPCA + 7,58% | R$ 40,58 | R$ 4.058,83 | 15/05/2045 |
| Tesouro IPCA+ 2050 | IPCA + 7,17% | R$ 8,99 | R$ 899,50 | 15/08/2050 |
| Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais 2060 | IPCA + 7,39% | R$ 40,58 | R$ 4.058,47 | 15/08/2060 |
| Tesouro RendA+ 2030 | IPCA + 7,67% | R$ 19,17 | R$ 1.917,60 | 15/12/2049 |
| Tesouro RendA+ 2035 | IPCA + 7,41% | R$ 13,80 | R$ 1.380,85 | 15/12/2054 |
| Tesouro RendA+ 2040 | IPCA + 7,23% | R$ 10,02 | R$ 1.002,81 | 15/12/2059 |
| Tesouro RendA+ 2045 | IPCA + 7,12% | R$ 7,28 | R$ 728,22 | 15/12/2064 |
| Tesouro RendA+ 2050 | IPCA + 7,05% | R$ 5,28 | R$ 528,02 | 15/12/2069 |
| Tesouro RendA+ 2055 | IPCA + 7,03% | R$ 3,78 | R$ 378,91 | 15/12/2074 |
| Tesouro RendA+ 2060 | IPCA + 7,04% | R$ 2,69 | R$ 269,27 | 15/12/2079 |
| Tesouro RendA+ 2065 | IPCA + 7,04% | R$ 1,92 | R$ 192,03 | 15/12/2084 |
| Tesouro Educa+ 2027 | IPCA + 8,60% | R$ 37,26 | R$ 3.726,44 | 15/12/2031 |
| Tesouro Educa+ 2028 | IPCA + 8,54% | R$ 34,40 | R$ 3.440,23 | 15/12/2032 |
| Tesouro Educa+ 2029 | IPCA + 8,45% | R$ 31,83 | R$ 3.183,83 | 15/12/2033 |
| Tesouro Educa+ 2030 | IPCA + 8,36% | R$ 29,50 | R$ 2.950,81 | 15/12/2034 |
| Tesouro Educa+ 2031 | IPCA + 8,24% | R$ 27,44 | R$ 2.744,69 | 15/12/2035 |
| Tesouro Educa+ 2032 | IPCA + 8,11% | R$ 25,60 | R$ 2.560,69 | 15/12/2036 |
| Tesouro Educa+ 2033 | IPCA + 7,98% | R$ 23,94 | R$ 2.394,97 | 15/12/2037 |
| Tesouro Educa+ 2034 | IPCA + 7,86% | R$ 22,43 | R$ 2.243,75 | 15/12/2038 |
| Tesouro Educa+ 2035 | IPCA + 7,76% | R$ 21,02 | R$ 2.102,50 | 15/12/2039 |
| Tesouro Educa+ 2036 | IPCA + 7,68% | R$ 19,69 | R$ 1.969,01 | 15/12/2040 |
| Tesouro Educa+ 2037 | IPCA + 7,61% | R$ 18,44 | R$ 1.844,48 | 15/12/2041 |
| Tesouro Educa+ 2038 | IPCA + 7,56% | R$ 17,25 | R$ 1.725,65 | 15/12/2042 |
| Tesouro Educa+ 2039 | IPCA + 7,51% | R$ 16,15 | R$ 1.615,84 | 15/12/2043 |
| Tesouro Educa+ 2040 | IPCA + 7,46% | R$ 15,14 | R$ 1.514,54 | 15/12/2044 |
| Tesouro Educa+ 2041 | IPCA + 7,41% | R$ 14,21 | R$ 1.421,03 | 15/12/2045 |
| Tesouro Educa+ 2042 | IPCA + 7,37% | R$ 13,32 | R$ 1.332,41 | 15/12/2046 |
| Tesouro Educa+ 2043 | IPCA + 7,33% | R$ 12,50 | R$ 1.250,35 | 15/12/2047 |
| Tesouro Educa+ 2044 | IPCA + 7,29% | R$ 11,74 | R$ 1.174,22 | 15/12/2048 |
Inflação e risco fiscal impedem alívio mais amplo nas taxas
A queda registrada nesta quarta-feira representa um alívio pontual, mas ainda não caracteriza uma mudança definitiva na tendência dos juros de longo prazo.
O petróleo mais barato e o recuo dos Treasuries reduzem a pressão imediata sobre a curva. No ambiente doméstico, porém, as projeções de inflação acima da meta, a resistência dos preços de serviços e as dúvidas sobre a trajetória das contas públicas continuam sustentando prêmios elevados.
A divulgação do IPCA-15 e das novas projeções do Banco Central será decisiva para determinar se o fechamento das taxas do Tesouro Direto terá continuidade ou se os rendimentos voltarão a subir.
Enquanto essas incertezas permanecem, os títulos públicos brasileiros combinam remunerações elevadas com forte sensibilidade às mudanças de cenário, sobretudo nos vencimentos prefixados e indexados à inflação de prazo mais longo.








