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Daniel Vorcaro admite mensagens sobre agressões, mas diz a Mendonça que “estava nervoso”

Ex-dono do Banco Master afirmou ao gabinete do ministro do STF que mensagens encontradas pela PF foram desabafos que não se concretizaram; investigação identificou ordens para monitorar adversários e obter dados sigilosos

por Carlos Menezes
03/09/2026 às 12h57
em Política
Daniel Vorcaro - Gazeta Mercantil

Daniel Vorcaro afirmou em depoimento ao gabinete do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, que mensagens nas quais falava em agredir, ameaçar e monitorar pessoas foram escritas em momentos de irritação e não resultaram, segundo sua versão, em violência praticada contra os alvos. O ex-controlador do Banco Master reconheceu ter solicitado a subordinados a obtenção de informações sigilosas sobre pessoas e órgãos de investigação, conduta que classificou como um “erro”, mas rejeitou a interpretação da Polícia Federal de que comandaria uma estrutura voltada a intimidar adversários.

A explicação foi apresentada durante uma oitiva realizada na semana passada por auxiliares do gabinete de Mendonça, relator de procedimentos relacionados ao caso Master no STF. Vorcaro foi questionado sobre mensagens recuperadas pela Polícia Federal e utilizadas meses antes para fundamentar medidas contra ele. Entre os diálogos estão referências a uma possível agressão ao jornalista Lauro Jardim, de O Globo, a ameaças contra uma funcionária ligada à atriz Monique Alfradique e ao levantamento de informações sobre outras pessoas.

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A defesa sustenta desde março que essas mensagens seriam “bravatas” que não se transformaram em atos. Agora, o próprio Vorcaro apresentou explicação semelhante diretamente ao gabinete do relator: afirmou que, entre centenas de milhares de mensagens, haveria apenas algumas manifestações escritas enquanto estava nervoso e que, em conversas posteriores, teria determinado que seus interlocutores esquecessem as ideias.

A versão do ex-banqueiro não elimina os elementos já reunidos pela investigação. A PF identificou diálogos nos quais Vorcaro pede monitoramento de pessoas, solicita informações e utiliza linguagem explícita sobre agressões. A controvérsia passa justamente pela diferença entre o teor das mensagens, o que efetivamente teria sido executado pelo grupo investigado e a responsabilidade penal que poderá ser atribuída a cada envolvido.

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Mensagem sobre Lauro Jardim previa agressão em “assalto”

Um dos episódios mais graves envolve o jornalista Lauro Jardim. As mensagens constam de investigação da Polícia Federal e foram reproduzidas em decisão de André Mendonça que embasou medidas contra Vorcaro em março.

Em um primeiro diálogo, Vorcaro sugere que pessoas acompanhem o jornalista para levantar informações sobre ele. Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário” e apontado pela PF como integrante central do grupo investigado, responde que faria o monitoramento.

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Em outra troca de mensagens, Vorcaro escreve que queria que Lauro Jardim fosse agredido e menciona explicitamente quebrar seus dentes durante um assalto.

A investigação interpretou o diálogo como indicação de intenção de intimidar o jornalista por meio de uma ação que simulasse um crime comum. Lauro Jardim afirmou à época que, segundo o material divulgado, o plano envolveria inicialmente monitorá-lo e, posteriormente, executar a agressão durante um assalto forjado.

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A defesa de Vorcaro negou que ele tivesse determinado qualquer violência e afirmou que as manifestações não saíram do campo das palavras. No depoimento mais recente, o ex-banqueiro voltou a sustentar que nunca praticou violência contra ninguém e que as mensagens seriam manifestações de raiva.

O ponto é relevante porque a existência da mensagem é diferente da demonstração de que uma agressão chegou a ser executada. A investigação pode utilizar o conteúdo dos diálogos como elemento para apurar eventual planejamento, tentativa de intimidação ou obstrução, mas a responsabilização criminal depende da análise do conjunto probatório e das condutas atribuídas aos investigados.

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Vorcaro diz que PF construiu “narrativa” de violência

Ao ser questionado por seus advogados durante o depoimento ao gabinete de Mendonça sobre a acusação de comandar uma espécie de estrutura armada, Vorcaro procurou apresentar uma versão diametralmente oposta.

Segundo ele, a Polícia Federal teria selecionado quatro ou cinco mensagens em meio a centenas de milhares de conversas para construir a imagem de uma pessoa violenta. Vorcaro afirmou que, depois dos momentos de irritação, recuava das próprias manifestações e dizia aos interlocutores para abandonar aquilo que havia escrito.

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O ex-banqueiro também declarou nunca ter utilizado arma e nunca ter praticado violência física contra adversários.

Essa explicação repete parcialmente a linha adotada pela defesa desde que as mensagens vieram a público. Em março, seus advogados classificaram os diálogos como “bravatas” e argumentaram que nenhuma das agressões mencionadas havia sido concretizada.

A PF, por outro lado, descreveu uma estrutura que não se limitava a manifestações verbais. Segundo os investigadores, pessoas ligadas a Vorcaro realizavam levantamentos sobre adversários, acessavam informações e faziam monitoramentos. Ex-funcionários também relataram episódios de intimidação.

A investigação apontou Mourão, o “Sicário”, como figura relevante nesse núcleo. Ele aparece em diálogos com Vorcaro relacionados à obtenção de informações, monitoramento e possíveis ações contra pessoas consideradas desafetas do banqueiro.

Empregada também apareceu em mensagem de agressão

Outro diálogo recuperado pela investigação menciona uma funcionária relacionada à atriz Monique Alfradique.

Na conversa, Vorcaro afirma que uma empregada estaria ameaçando-o e utiliza uma expressão violenta para indicar o que deveria ocorrer com ela.

A mensagem foi incluída entre os elementos utilizados para sustentar a tese de que o grupo recorria a linguagem e métodos de intimidação contra pessoas vistas como adversárias ou ameaças.

Vorcaro rejeitou essa interpretação em seu depoimento. Disse que jamais ameaçou alguém e que os trechos seriam manifestações momentâneas de irritação.

A existência de relatos de terceiros, contudo, amplia a investigação além das mensagens. Ex-funcionários de uma embarcação ligada ao empresário disseram à Polícia Federal que foram procurados por pessoas que teriam se apresentado como intermediários de Vorcaro. O material é analisado pelos investigadores para determinar se houve, de fato, ações concretas de intimidação.

Essa distinção será fundamental para a apuração. Uma coisa é uma mensagem privada com linguagem violenta. Outra é demonstrar que houve mobilização de pessoas, coleta de dados, acompanhamento de alvos ou prática de ameaças em execução das ordens discutidas nos diálogos.

Ex-banqueiro admite busca por informações sigilosas

Vorcaro fez uma admissão específica durante a oitiva: disse ter chamado pessoas para levantar informações e classificou essa decisão como um erro.

Segundo sua versão, buscou esse tipo de auxílio porque se sentia atacado durante a crise que atingiu o Banco Master.

A declaração é particularmente relevante porque parte da investigação da PF trata justamente da obtenção de dados sobre autoridades, investigadores e adversários do banqueiro.

Os investigadores apuram se integrantes do grupo tiveram acesso indevido a sistemas ou bancos de dados reservados e para quais finalidades essas informações teriam sido utilizadas.

Vorcaro procurou separar essa conduta das acusações de violência. Reconheceu que buscou informações, mas afirmou que isso não significava que pretendesse praticar qualquer ação física contra as pessoas pesquisadas.

A eventual responsabilidade criminal por obtenção irregular de dados também constitui questão autônoma. Mesmo que uma agressão mencionada em conversa não tenha sido executada, acesso indevido a informações sigilosas pode gerar outras consequências, dependendo da origem dos dados, dos meios empregados e da participação de cada pessoa.

Depoimento ocorreu sem presença da Polícia Federal

A forma como a oitiva foi realizada também passou a integrar a controvérsia em torno do caso.

Vorcaro foi ouvido por um juiz auxiliar do gabinete de André Mendonça sem a presença de representantes da Polícia Federal. Segundo informações divulgadas posteriormente, a oitiva ocorreu a pedido da defesa e foi apresentada como urgente.

O depoimento não se limitou às mensagens relacionadas a ameaças. Vorcaro falou sobre a investigação do Banco Master, sua relação com autoridades, tentativas anteriores de celebrar acordo de colaboração premiada e alegações de que teria sofrido intimidações enquanto estava preso.

Ele também afirmou estar disposto a fornecer informações sobre integrantes do governo e mencionou sua relação anterior com o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.

Vorcaro sustentou que uma eventual colaboração poderia envolver pessoas de um “núcleo político”. Até agora, porém, informações tornadas públicas não demonstram que essas alegações tenham sido acompanhadas de provas suficientes para sustentar novas investigações.

A Procuradoria-Geral da República já havia rejeitado tentativa anterior de colaboração por considerar frágil o conteúdo apresentado.

PGR pediu arquivamento de relato sobre ameaças sofridas por Vorcaro

Na quarta-feira, 2 de setembro, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu o arquivamento de uma petição relacionada às alegações feitas por Vorcaro de que estaria sofrendo ameaças e intimidações.

Esse pedido de arquivamento precisa ser distinguido das investigações sobre as mensagens em que o próprio Vorcaro fala sobre terceiros.

A manifestação da PGR refere-se às denúncias apresentadas pelo ex-banqueiro sobre supostas intimidações contra ele durante sua situação de custódia. Segundo Gonet, o depoimento não apresentou fatos concretos ou elementos mínimos de verossimilhança capazes de justificar novas providências investigativas.

O procurador-geral também recordou que tentativas anteriores de colaboração premiada de Vorcaro não avançaram. De acordo com a manifestação, a autoridade policial entendeu que não havia informações inéditas suficientes, e o Ministério Público avaliou como frágil o conteúdo oferecido.

O pedido ainda precisa ser analisado por André Mendonça.

A petição aparece nos registros públicos do STF sob relatoria do ministro e foi encaminhada à Procuradoria-Geral da República antes da manifestação de Gonet.

Mensagens continuam sendo parte de investigação mais ampla

A explicação de que Vorcaro estava nervoso acrescenta sua versão pessoal às mensagens que já integram o caso, mas não encerra a discussão sobre o significado jurídico dos diálogos.

A Polícia Federal procura reconstruir se existia uma estrutura organizada destinada apenas a reunir informações para proteção do banqueiro ou se o grupo ultrapassou essa finalidade e passou a monitorar, intimidar ou ameaçar pessoas consideradas adversárias.

As mensagens atribuídas a Vorcaro formam uma das peças desse quebra-cabeça. Há também depoimentos, dados obtidos em dispositivos eletrônicos, registros financeiros e informações sobre as pessoas que integravam o círculo do ex-controlador do Master.

Para a defesa, o conjunto foi interpretado de forma exagerada e utilizado para criar a imagem de um empresário violento. Para os investigadores, os diálogos precisam ser analisados em conjunto com as atividades atribuídas aos interlocutores de Vorcaro.

A afirmação de que as ordens não foram executadas será, portanto, confrontada com os demais elementos da investigação.

O episódio também amplia o alcance do caso Master para além das suspeitas financeiras relacionadas ao banco. A apuração passou a envolver relacionamento com autoridades, acesso a informações sigilosas, possíveis tentativas de intimidação e a atuação de pessoas contratadas ou acionadas por Vorcaro.

Ao dizer ao gabinete de Mendonça que “estava nervoso”, Vorcaro reconhece o conteúdo de ao menos parte das manifestações que agora tenta contextualizar. O ponto que permanece aberto é até onde essas mensagens ficaram restritas ao desabafo — e em que medida foram acompanhadas por ações concretas do grupo investigado.

Fontes:

Supremo Tribunal Federal – Petição 16.662, despachos, movimentações processuais e documentos públicos relacionados ao caso

Polícia Federal – elementos da investigação reproduzidos em decisões do Supremo Tribunal Federal sobre mensagens e atuação do grupo investigado

Procuradoria-Geral da República – manifestação sobre as alegações apresentadas por Daniel Vorcaro e pedido de arquivamento

Decisão do ministro André Mendonça – mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro e Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão utilizadas na investigação

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