A produção de açúcar e etanol no Centro-Sul do Brasil registrou forte aceleração na segunda quinzena de abril e reforçou as projeções de uma safra robusta para o setor sucroenergético em 2026/27. Dados divulgados nesta quarta-feira (27) pela União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) mostram que as usinas processaram 40,06 milhões de toneladas de cana-de-açúcar no período, volume 123,12% superior ao registrado no mesmo intervalo do ano anterior.
O avanço da moagem impulsionou a produção tanto de açúcar quanto de etanol. A fabricação do adoçante atingiu 1,80 milhão de toneladas na quinzena, crescimento de 109,5% na comparação anual. Já a produção total de etanol, incluindo o combustível produzido a partir do milho, somou 2,04 bilhões de litros, alta de 105,85%.
Os números superaram as expectativas do mercado e reforçaram a percepção de melhora operacional do setor neste início de safra. Analistas consultados pela S&P Global Energy projetavam moagem de 36,3 milhões de toneladas e produção de açúcar de 1,48 milhão de toneladas no período.
O desempenho também ocorre em meio à melhora da produtividade agrícola, avanço da qualidade da cana e aumento da competitividade do etanol nas bombas, cenário que vem estimulando as usinas a ampliar a destinação da matéria-prima para a fabricação do biocombustível.
Etanol ganha espaço no mix de produção das usinas
Apesar do crescimento expressivo da produção de açúcar, o setor sucroenergético intensificou a estratégia de priorização do etanol diante do cenário mais favorável de rentabilidade do biocombustível no mercado doméstico.
Segundo a Unica, 59,66% da cana processada na segunda quinzena de abril foi direcionada à produção de etanol, acima dos 54,31% registrados no mesmo período da safra passada.
A mudança reflete principalmente a maior competitividade do etanol hidratado frente à gasolina nos postos de combustíveis.
De acordo com Luciano Rodrigues, diretor de Inteligência Setorial, Regulação e Competitividade da Unica, a relação de preços segue amplamente favorável ao consumo do biocombustível.
“A diferença relativa entre os preços do etanol hidratado e da gasolina nos postos está em 64,5% na média do país, chegando a 61,7% no Estado de São Paulo. Essa condição oferece uma opção efetiva de economia e descarbonização ao consumidor brasileiro”, afirmou.
O cenário amplia as perspectivas para uma temporada recorde de produção de etanol no Brasil, especialmente diante do crescimento da fabricação a partir do milho e da maior flexibilidade operacional das usinas.
Moagem supera projeções e reforça recuperação da safra
Os dados da segunda quinzena de abril reforçam a percepção de recuperação consistente da safra após um início marcado por expectativas mais cautelosas do mercado.
A moagem acima das projeções foi impulsionada tanto pela retomada mais intensa das operações industriais quanto pela melhora das condições agrícolas em importantes regiões produtoras.
Segundo a Unica, 38 unidades produtoras reiniciaram as atividades na segunda metade de abril, elevando para 238 o número total de usinas em operação no Centro-Sul, incluindo unidades de etanol de milho.
Além do avanço operacional, o setor registrou melhora relevante na qualidade da matéria-prima. O Açúcar Total Recuperável (ATR), indicador que mede a quantidade de sacarose extraída da cana, cresceu 6,34% em relação à mesma quinzena do ano passado.
A combinação entre maior moagem e melhora do ATR elevou a eficiência industrial das usinas neste início de safra.
Analistas do setor observam que as condições climáticas mais favoráveis e a recuperação parcial da produtividade agrícola ajudaram a sustentar o avanço operacional após os impactos registrados em ciclos anteriores.
Produção acumulada mostra forte crescimento na safra 2026/27
No acumulado da safra 2026/27, iniciada oficialmente em abril, o desempenho do setor também mostra expansão acelerada.
Até 1º de maio, a moagem de cana no Centro-Sul alcançou 60,46 milhões de toneladas, crescimento de 74,58% na comparação anual.
A produção total de etanol chegou a 3,29 bilhões de litros no período, alta de 71,84%.
Desse total, 2,30 bilhões de litros correspondem ao etanol hidratado, utilizado diretamente nos veículos flex, com crescimento de 59,47%. Já a produção de etanol anidro, misturado à gasolina, somou 982,88 milhões de litros, avanço expressivo de 110,07%.
A produção acumulada de açúcar atingiu 2,47 milhões de toneladas, aumento de 55,24% em relação ao mesmo intervalo da safra anterior.
Os números consolidam a percepção de que o setor iniciou a temporada em ritmo significativamente mais forte do que em 2025, impulsionado por melhores condições agrícolas, maior eficiência industrial e demanda doméstica resiliente por combustíveis renováveis.
Mercado acompanha impacto sobre preços internacionais do açúcar
O avanço da produção brasileira também ocorre em um momento de forte atenção do mercado internacional de commodities agrícolas.
O Brasil ocupa posição central no mercado global de açúcar e etanol, sendo o maior exportador mundial do adoçante e um dos principais produtores de biocombustíveis.
O crescimento da moagem e da produção no Centro-Sul tende a aumentar a oferta global de açúcar, fator acompanhado de perto por traders, usinas, fundos e importadores internacionais.
Ao mesmo tempo, a maior destinação da cana para o etanol reduz parte do potencial de expansão da oferta de açúcar, ajudando a equilibrar o mercado internacional.
Nos últimos meses, os preços globais do açúcar vinham sendo influenciados por preocupações envolvendo oferta na Índia, condições climáticas em grandes produtores e oscilações no mercado de energia.
Especialistas avaliam que a estratégia das usinas brasileiras continuará fortemente condicionada à relação entre preços internacionais do açúcar, petróleo, gasolina e etanol no mercado doméstico.
Como o setor possui elevada flexibilidade industrial, parte relevante da produção pode migrar entre açúcar e etanol conforme as condições de rentabilidade.
Etanol de milho amplia transformação estrutural do setor
Um dos movimentos mais relevantes da atual safra é o crescimento contínuo da produção de etanol de milho no Brasil.
Embora o Centro-Sul siga amplamente dominado pela cana-de-açúcar, o avanço das usinas flex e da produção baseada em milho vem alterando gradualmente a dinâmica do setor sucroenergético.
O modelo ganhou força principalmente em estados do Centro-Oeste, impulsionado pela ampla disponibilidade de milho, investimentos em infraestrutura e crescimento da demanda por combustíveis renováveis.
A expansão da produção de etanol de milho ajuda a reduzir a sazonalidade tradicional do setor, já que as usinas podem operar durante períodos mais longos do ano.
Além disso, o crescimento desse segmento fortalece a estratégia brasileira de ampliação da matriz energética renovável e redução de emissões de carbono.
Investidores acompanham o movimento com atenção diante do aumento dos investimentos em biocombustíveis, transição energética e descarbonização.
Empresas ligadas ao setor sucroenergético também vêm ampliando projetos voltados à cogeração de energia, biogás, biometano e créditos de carbono.
Competitividade do biocombustível sustenta demanda doméstica
A forte competitividade do etanol segue sendo um dos principais fatores de sustentação do consumo interno.
Segundo dados da Unica, o volume diário comercializado pelas usinas em abril avançou 15,26% em relação a março, totalizando 1,75 bilhão de litros.
A relação de preços entre etanol hidratado e gasolina continua favorecendo o biocombustível em importantes mercados consumidores, especialmente no Estado de São Paulo.
Além da vantagem econômica ao consumidor, o etanol também mantém protagonismo na estratégia brasileira de redução de emissões no setor de transportes.
Especialistas avaliam que o ambiente atual combina fatores positivos para o segmento: preços competitivos, maior eficiência industrial, aumento da produção e crescimento estrutural da demanda por combustíveis de menor intensidade de carbono.
Ao mesmo tempo, o setor segue monitorando riscos ligados ao clima, volatilidade das commodities, oscilações do petróleo e possíveis mudanças regulatórias envolvendo combustíveis e tributação.
Safra forte reforça protagonismo do Brasil no mercado global
O desempenho robusto da safra 2026/27 reforça o protagonismo do Brasil no mercado internacional de açúcar e etanol em um momento de crescente atenção global sobre segurança energética e transição para fontes renováveis.
O avanço da moagem no Centro-Sul aumenta a expectativa de que o país mantenha posição estratégica tanto no fornecimento global de açúcar quanto na expansão da indústria de biocombustíveis.
A combinação entre produtividade agrícola, flexibilidade industrial e grande capacidade exportadora mantém o setor sucroenergético brasileiro entre os mais competitivos do mundo.
Com usinas ampliando a produção, maior competitividade do etanol e crescimento do segmento de milho, o setor inicia a nova safra em ambiente mais favorável do que o observado nos últimos ciclos.
O desempenho também fortalece as perspectivas de geração de receita, investimentos e expansão operacional das companhias ligadas ao agronegócio e aos biocombustíveis ao longo de 2026.










