Augusto Cury, candidato do Avante à Presidência da República, alcançou 10% das intenções de voto e apareceu isolado na terceira colocação da pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira, 2 de setembro. O resultado coloca o escritor e psiquiatra à frente dos demais candidatos que tentam ocupar o espaço eleitoral entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro e revela uma mudança relevante na configuração da chamada terceira via a pouco mais de um mês do primeiro turno.
No cenário sem Pablo Marçal, Lula lidera com 37%, seguido por Flávio Bolsonaro, com 29%. Cury aparece com 10%, enquanto Renan Santos registra 3%. Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Samara Martins aparecem com 1% cada. A margem de erro geral da pesquisa é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
O avanço de Cury ganha dimensão quando comparado à rodada anterior da Quaest, divulgada em 14 de agosto, na qual aparecia com 2%. A comparação, porém, exige cautela porque os cenários testados não eram exatamente os mesmos. O levantamento anterior incluía Leonardo Avalanche, então apresentado como candidato do PRTB, que posteriormente deixou de concorrer à Presidência. Ainda assim, a mudança de patamar de Cury é suficientemente ampla para transformar sua candidatura em um elemento novo da disputa.
A pesquisa também mostra que o crescimento não se limita à intenção de voto estimulada. O percentual de eleitores que conhecem Cury e afirmam que poderiam votar nele passou de 10% para 21%. Ao mesmo tempo, a parcela que declara não conhecê-lo recuou de 74% para 54%. Em poucas semanas, portanto, aproximadamente um quinto do eleitorado pesquisado deixou de colocá-lo na condição de completo desconhecido.
O crescimento da exposição também trouxe uma consequência previsível: a rejeição aumentou. A parcela que conhece Cury e afirma que não votaria nele passou de 16% para 25%. Mesmo assim, seu índice permanece abaixo dos registrados pelos principais candidatos e por outros nomes da disputa. Na mesma pesquisa, a rejeição chega a 55% para Flávio Bolsonaro, 53% para Lula, 40% para Caiado, 38% para Zema e 28% para Renan Santos.
Cury passa a ocupar sozinho o espaço da terceira via
O dado mais importante para a estrutura da eleição não é apenas o crescimento de oito pontos entre as duas rodadas, mas a distância que passou a separar Cury dos demais candidatos que tentam romper a polarização entre PT e bolsonarismo.
Com 10%, o candidato do Avante registra mais de três vezes o percentual de Renan Santos, segundo colocado dentro desse grupo, com 3%. Caiado e Zema aparecem ainda mais distantes, ambos com 1% no cenário considerado.
Esse deslocamento modifica uma disputa que, até agosto, estava mais pulverizada. Cury, Renan, Caiado e Zema concorriam por uma parcela semelhante do eleitorado que rejeita ou procura alternativa aos dois polos principais. Agora, pelo menos na fotografia apresentada pela Quaest, um deles começa a concentrar essa demanda.
A própria distribuição dos votos ajuda a explicar o fenômeno. É entre os eleitores classificados como independentes que Cury registra seu resultado mais expressivo: 24%. Nesse segmento, aparece numericamente com um ponto a mais que Lula, que tem 23%, e mais que o dobro de Flávio Bolsonaro, com 11%.
A Quaest considera independentes os eleitores que não se identificam como lulistas, bolsonaristas, integrantes da esquerda ou da direita. O grupo corresponde a aproximadamente um terço do eleitorado e tende a receber atenção especial das campanhas por apresentar menor vínculo com os dois grandes campos políticos.
Como as amostras dos diferentes segmentos são menores do que a amostra nacional, suas margens de erro são superiores aos dois pontos percentuais do levantamento geral. Por isso, diferenças pequenas dentro desses recortes não devem ser interpretadas automaticamente como liderança estatisticamente consolidada. O que chama atenção no caso de Cury é o patamar alcançado entre os independentes, muito superior aos seus 10% no conjunto da pesquisa.
Jovens e eleitores com ensino superior puxam desempenho
A distribuição por idade reforça a característica do eleitorado que está se aproximando da candidatura. Cury chega a 14% entre eleitores mais jovens, seu melhor resultado entre as faixas etárias pesquisadas. Entre pessoas de 35 a 59 anos, registra 10%, enquanto entre eleitores de 60 anos ou mais cai para 3%.
O corte por escolaridade produz uma diferença ainda maior. Entre os entrevistados com ensino superior, o candidato alcança 15%. No grupo com ensino médio, registra 13%. Entre aqueles com ensino fundamental, fica em 4%.
Há, portanto, diferença de 11 pontos percentuais entre os extremos de escolaridade. O padrão indica que a candidatura avançou com maior intensidade justamente entre segmentos que, em outra pergunta da mesma pesquisa, demonstraram dar peso mais elevado às propostas apresentadas pelos presidenciáveis.
A renda segue direção parecida, embora com diferenças menos acentuadas. Cury tem 12% entre eleitores cuja renda familiar supera cinco salários mínimos, 10% entre aqueles que recebem de dois a cinco salários e 7% na faixa de até dois salários mínimos.
O resultado ajuda a desenhar um perfil inicial de maior penetração eleitoral: Cury apresenta desempenho acima de sua média nacional entre independentes, jovens, pessoas com maior escolaridade e famílias de renda mais alta. Isso não significa que esses grupos componham de maneira uniforme sua base eleitoral, mas mostra onde sua candidatura encontrou maior receptividade até agora.
Nordeste aparece como melhor região para Cury
Regionalmente, as diferenças são menores. Cury registra 11% no Nordeste, seu maior percentual entre as regiões apresentadas pela Quaest. No Sudeste e no Sul, aparece com 10%, enquanto no agrupamento Centro-Oeste e Norte tem 8%.
O desempenho nordestino chama atenção porque a região é historicamente o principal território eleitoral de Lula. Levantamentos estaduais da própria Quaest realizados nas semanas anteriores mostraram que o presidente continua mantendo vantagem importante em grande parte dos estados nordestinos.
Os 11% de Cury, portanto, não significam uma ruptura desse domínio. Mostram, porém, que a candidatura conseguiu encontrar eleitores em uma região na qual candidatos apresentados como alternativa aos dois principais polos frequentemente enfrentam dificuldade para ganhar escala.
No recorte por sexo, a diferença é pequena: Cury registra 11% entre os homens e 9% entre as mulheres. Também não há variação significativa nos dados gerais apresentados por cor ou raça, com 10% entre eleitores brancos, pardos e pretos.
Entre grupos religiosos, o candidato aparece com 10% entre evangélicos e 8% entre católicos. Novamente, as margens de erro específicas desses segmentos recomendam cautela na comparação entre percentuais próximos.
Potencial de voto mais que dobra
Além dos 10% de intenção de voto, outro indicador importante para medir até onde Cury pode avançar é o chamado potencial de voto. A Quaest pergunta aos entrevistados se conhecem determinado candidato e se poderiam votar nele. Em agosto, apenas 10% estavam nessa categoria em relação ao nome do escritor. Agora são 21%.
O avanço de 11 pontos representa mais que a duplicação do indicador. Enquanto isso, a parcela dos que ainda não conhecem o candidato caiu 20 pontos, de 74% para 54%.
Os dois movimentos estão diretamente relacionados. Quanto maior a exposição de uma candidatura, maior tende a ser tanto sua possibilidade de atrair votos quanto a formação de rejeição. Foi exatamente isso que aconteceu: ao mesmo tempo em que o potencial subiu, a proporção dos que conhecem Cury e dizem que não votariam nele avançou de 16% para 25%.
Esse processo diferencia candidatos emergentes de nomes que já passaram por diversas campanhas nacionais. Lula e integrantes da família Bolsonaro, por exemplo, começam uma eleição conhecidos por praticamente todo o eleitorado e com taxas elevadas de rejeição já consolidadas. Um estreante nacional como Cury tem inicialmente um espaço maior para ganhar conhecimento, mas ainda precisa descobrir como esse aumento de exposição será convertido entre voto possível e rejeição.
Esse será um dos indicadores centrais das próximas pesquisas. Se o conhecimento continuar crescendo e o potencial de voto avançar em ritmo superior ao da rejeição, a candidatura poderá ampliar seu espaço. Se a exposição produzir crescimento mais rápido da rejeição, o atual salto pode encontrar um teto.
Segundo turno mede dimensão diferente do crescimento
A Quaest também incluiu pela primeira vez uma simulação de segundo turno entre Lula e Cury. Nesse cenário, o presidente aparece com 40%, diante de 34% do candidato do Avante. A diferença é de seis pontos percentuais.
O resultado não significa que Cury esteja próximo de chegar ao segundo turno. No levantamento de primeiro turno, ele está 19 pontos atrás de Flávio Bolsonaro e 27 pontos abaixo de Lula. A simulação serve para medir outro aspecto: como o eleitorado se comportaria caso fosse obrigado a escolher entre os dois nomes em uma etapa posterior.
A diferença relativamente menor no confronto direto mostra que Cury possui capacidade de receber parte dos votos que hoje estão distribuídos entre outras candidaturas ou mesmo entre eleitores que rejeitam o presidente. Isso é comum em testes de segundo turno, nos quais os entrevistados deixam de ter várias alternativas e passam a escolher entre apenas dois candidatos.
No confronto eleitoral mais competitivo medido pela pesquisa, Lula e Flávio aparecem tecnicamente empatados: 42% para o presidente e 41% para o senador. Lula registra ainda 42% contra 37% de Caiado, 43% contra 36% de Renan Santos e 44% contra 33% de Zema.
Cury, portanto, não supera Lula no teste, mas seu resultado de 34% o coloca em posição comparável à de candidatos que estavam no debate presidencial havia mais tempo.
Estreia eleitoral encontra um espaço pouco ocupado
O crescimento também chama atenção porque Augusto Cury disputa uma eleição pela primeira vez. Conhecido principalmente como escritor e psiquiatra, ele entrou na política nacional sem trajetória anterior em cargos eletivos e teve sua candidatura à Presidência apresentada pelo Avante.
A Justiça Eleitoral registrou o pedido de candidatura de Augusto Jorge Cury entre os pedidos apresentados para a Presidência em agosto. O Avante também está entre as legendas com material de propaganda eleitoral presidencial distribuído conforme as regras da campanha de 2026.
A entrada tardia no centro da disputa ajuda a explicar por que mais da metade do eleitorado ainda afirma não conhecê-lo. Esse desconhecimento é simultaneamente a maior oportunidade e o maior risco de sua campanha. Ao contrário dos líderes, que disputam eleitores com imagens políticas profundamente consolidadas, Cury ainda está em processo de apresentação para milhões de brasileiros.
O desafio será transformar curiosidade e reconhecimento em intenção de voto sem perder a característica que parece impulsionar seu crescimento: a imagem de alternativa aos dois grandes polos.
Polarização continua dominando eleição
Apesar do avanço do terceiro colocado, a pesquisa não indica até agora o desmonte da polarização. Lula e Flávio Bolsonaro somam juntos 66% das intenções de voto no cenário em que aparecem com 37% e 29%. A distância entre Cury e o segundo colocado permanece em 19 pontos.
Levantamentos recentes da própria Quaest também mostram que a geografia eleitoral continua fortemente organizada em torno dos campos lulista e bolsonarista. Lula mantém maior força no Nordeste, enquanto Flávio reproduz boa parte da vantagem construída pelo bolsonarismo no Sul. Nos grandes colégios do Sudeste, a disputa aparece mais equilibrada.
O que mudou nesta rodada é o campo que vem imediatamente depois dos dois líderes. Em vez de quatro ou cinco candidaturas disputando pequenas parcelas semelhantes do eleitorado, Cury abriu vantagem e passou a concentrar parte dos votos de quem procura uma alternativa.
A pesquisa foi realizada presencialmente com 2.004 eleitores de 16 anos ou mais entre 30 de agosto e 1º de setembro, possui margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos e nível de confiança de 95%. O levantamento está registrado na Justiça Eleitoral sob o número BR-07065/2026.
Com o primeiro turno marcado para 4 de outubro, as próximas rodadas indicarão se os 10% representam o início de uma consolidação ou um salto momentâneo provocado pelo aumento rápido de conhecimento da candidatura. Para Cury, a principal medida de sucesso nas próximas semanas não será apenas manter a terceira posição, mas demonstrar que consegue reduzir a enorme distância que ainda o separa de Flávio Bolsonaro e transformar seu crescimento entre independentes em presença competitiva no conjunto do eleitorado.
Fontes:
Quaest – pesquisa nacional de intenção de voto para presidente divulgada em 2 de setembro de 2026 e dados de conhecimento, potencial de voto, rejeição e segmentação do eleitorado
Tribunal Superior Eleitoral – registros de pedidos de candidatura à Presidência da República nas Eleições 2026
Tribunal Superior Eleitoral – informações sobre propaganda eleitoral presidencial e material do Avante para Augusto Cury
Quaest – metodologia das pesquisas eleitorais de 2026 e levantamentos sobre a distribuição regional do voto presidencial









