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Caso Master: PF mira ‘Projeto DV’ de Vorcaro e vê ofensiva para coagir jornalistas e atacar BC

Nova fase da Operação Compliance Zero investiga suspeita de uso de influenciadores, propostas milionárias e busca de informações privadas para pressionar críticos da liquidação do Banco Master.

por Álvaro Lima
09/07/2026 às 20h39
em Economia
Daniel Vorcaro - Caso Master - Gazeta Mercantil

A investigação sobre o Banco Master avançou para um novo eixo nesta quinta-feira (9): a suspeita de que uma estrutura de comunicação, batizada de “Projeto DV”, teria sido usada para pressionar jornalistas, influenciadores e autoridades, além de tentar colocar em dúvida a atuação do Banco Central no processo que levou à liquidação da instituição financeira.

A 10ª fase da Operação Compliance Zero, autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), mira a atuação do publicitário Thiago Miranda, apontado nas investigações como operador de uma campanha coordenada em favor do ex-banqueiro Daniel Vorcaro e do Banco Master. A Polícia Federal apura indícios de intimidação, coação, monitoramento ilícito de pessoas, obtenção indevida de informações sigilosas e tentativa de interferência nas investigações do caso. Leia também: Bolsas da Europa fecham em alta após comentários de Lagarde e dados dos EUA | Finanças.

Segundo trechos da decisão judicial citados no material-base, a PF afirmou que, em caso de recusa das vantagens financeiras ofertadas, o grupo investigado utilizava informações privilegiadas, supostamente obtidas de forma ilícita, para intimidar ou coagir pessoas que não aderissem ao chamado “Projeto DV”. O plano teria como objetivo alavancar a imagem do Banco Master e questionar a atuação do Banco Central no contexto da liquidação da instituição.

A nova etapa da operação amplia o alcance do caso Master para além das suspeitas financeiras. O que está sob análise agora é a existência de uma engrenagem reputacional e política destinada a moldar a opinião pública, descredibilizar o regulador financeiro e constranger profissionais de imprensa que produziam reportagens sobre o banco e seu controlador. Leia também: China libera entrada de carne bovina brasileira vetada após caso atípico de mal da vaca louca | Agronegócios.

Campanha teria usado influenciadores e propostas milionárias

De acordo com a decisão, Vorcaro e Miranda teriam feito propostas de até R$ 2 milhões a influenciadores. A finalidade, segundo os investigadores, seria publicar conteúdos favoráveis ao Banco Master e questionar a atuação do Banco Central. As minutas contratuais, ainda conforme a decisão, previam cláusulas de confidencialidade e coordenação estratégica de postagens nas redes sociais.

Esse ponto é central para a investigação porque sugere que a ofensiva não se limitava a uma ação convencional de gestão de crise. A PF vê indícios de uma campanha coordenada, com pagamentos, sigilo contratual e direcionamento de narrativa, voltada a influenciar a percepção pública sobre a liquidação do banco. Leia também: CVM absolve Yduqs e ex-executivos em caso sobre guarda de documentos | Empresas.

A suspeita é especialmente sensível porque envolve uma instituição financeira já submetida a medidas excepcionais do Banco Central. Em novembro de 2025, a autoridade monetária decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master S.A. e instaurou Regime de Administração Especial Temporária (RAET) no Banco Master Múltiplo S.A., em meio a crise de liquidez e investigações sobre fraudes no sistema financeiro. O próprio Banco Central informa que a decretação dos regimes de resolução no Conglomerado Master foi motivada por grave crise de liquidez e comprometimento significativo da situação econômico-financeira das instituições.

Em março de 2026, o Banco Central transformou o RAET do Banco Master Múltiplo em liquidação extrajudicial, após relatório do administrador do regime. A decisão reforçou o quadro de deterioração do conglomerado e consolidou a intervenção regulatória sobre as estruturas remanescentes do grupo.

Ataques ao Banco Central entram no centro do caso

O Banco Central aparece como alvo relevante da ofensiva investigada. A PF apura se o “Projeto DV” buscava criar uma narrativa de que a liquidação do Master teria sido precipitada ou injustificada, em tentativa de reduzir a legitimidade da atuação do regulador.

A gravidade do ponto está no papel institucional do BC. Em processos de liquidação extrajudicial, a autoridade monetária atua para preservar a estabilidade do Sistema Financeiro Nacional, proteger credores dentro das regras legais e impedir que crises bancárias se espalhem. Quando uma campanha tenta desacreditar a autarquia com base em conteúdo coordenado e eventualmente financiado, o caso deixa de ser apenas reputacional e passa a tocar a integridade da supervisão financeira.

A Operação Compliance Zero já vinha tratando o caso Master como uma investigação de grande escala. Em março, o STF informou que o ministro André Mendonça determinou a prisão preventiva de Daniel Vorcaro e de outros investigados por supostas fraudes no Banco Master, apontando risco concreto de interferência nas investigações.

Em maio, o Supremo também autorizou prisões e medidas cautelares na 6ª fase da operação, a pedido da Polícia Federal, contra investigados ligados ao núcleo familiar e empresarial de Vorcaro.  Em junho, a 9ª fase alcançou São Paulo, Bahia e Distrito Federal, com medidas cautelares relacionadas a gestores do Banco Master e agentes públicos investigados.

A 10ª fase, portanto, não surge isolada. Ela se encaixa em uma sequência de atos investigativos que passaram de suspeitas sobre operações financeiras para apuração de articulações políticas, influência institucional, comunicação coordenada e possível obstrução.

Jornalistas também estavam na mira, segundo a PF

Um dos pontos mais delicados da decisão envolve a suspeita de monitoramento de jornalistas. Mensagens citadas no material-base indicam que Miranda e Vorcaro teriam discutido formas de buscar informações privadas sobre a jornalista Malu Gaspar, de O Globo, na tentativa de impedir novas reportagens sobre o Banco Master.

Segundo o relato da decisão, ao não encontrarem elementos que pudessem comprometer a jornalista, os investigados teriam cogitado a alternativa de contratá-la com salário de cerca de R$ 120 mil e pagamento de “luvas” contratuais. A PF vê nesse conjunto de mensagens indícios relevantes para justificar a urgência das buscas, especialmente diante do risco de perda de provas digitais.

A apuração também indica que Miranda teria tido participação direta na contratação de jornalistas e influenciadores. Ele é dono da Miranda Comunicação, também conhecida como Agência MiThi, e foi apontado pela PF como figura operacional do “Projeto DV”.

A defesa de Miranda, segundo informações públicas citadas por veículos que tiveram acesso ao caso, nega ilegalidades e sustenta que sua atuação profissional ocorreu no campo da comunicação e da gestão de crise. Como se trata de investigação em andamento, os fatos ainda dependem de contraditório, análise de provas e eventual manifestação do Ministério Público.

Ainda assim, a linha adotada pelo STF ao autorizar as medidas mostra que o Judiciário considerou haver elementos suficientes para permitir busca e apreensão em endereços ligados ao publicitário. Na decisão, Mendonça destacou o caráter urgente das diligências para evitar destruição ou ocultação de provas digitais.

Do colapso bancário à disputa de narrativa

O caso Master se tornou um dos episódios mais relevantes do sistema financeiro brasileiro nos últimos anos porque combina crise bancária, investigação criminal, impacto sobre investidores, atuação do Banco Central e disputa pública de narrativa.

A liquidação extrajudicial de uma instituição financeira não é um ato comum. Ela ocorre quando o regulador conclui que a situação da instituição compromete sua continuidade e exige intervenção direta. No caso do Banco Master, o Banco Central apontou crise de liquidez e deterioração significativa da situação econômico-financeira do conglomerado.

A partir daí, o caso passou a envolver várias camadas. A primeira é financeira: o alcance das perdas, os efeitos sobre credores, a atuação do Fundo Garantidor de Créditos e a avaliação dos ativos do banco. A segunda é regulatória: o papel do Banco Central antes e depois da crise. A terceira é criminal: as suspeitas de fraudes e lavagem de dinheiro investigadas pela PF. A quarta, agora em evidência, é reputacional: a tentativa de influenciar a opinião pública e pressionar atores institucionais.

É nessa quarta camada que o “Projeto DV” ganha importância. Se confirmada a tese da PF, a campanha não teria sido apenas uma defesa de imagem, mas uma estrutura organizada para constranger críticos, interferir no ambiente informacional e afetar a credibilidade do regulador.

Risco para o mercado vai além do Banco Master

Para o mercado financeiro, o caso tem relevância maior do que o destino de uma instituição específica. A confiança no sistema depende da percepção de que supervisão bancária, liquidação extrajudicial e investigações criminais funcionam sem intimidação externa.

Quando uma instituição em crise tenta disputar a narrativa pública, isso é esperado. Bancos, empresas e controladores têm direito à defesa e à comunicação institucional. O limite investigado pela PF é outro: uso de informações privadas, coação, intimidação, contratação coordenada de influenciadores e tentativa de interferência sobre autoridades e jornalistas.

Esse limite é fundamental para preservar a integridade de decisões regulatórias. O Banco Central pode ser criticado, questionado judicialmente e submetido ao escrutínio público. O que a investigação busca saber é se houve uma operação paralela para enfraquecer a autoridade monetária por meios ilícitos.

A apuração também coloca em evidência o mercado de influência digital. Campanhas pagas, perfis coordenados e conteúdo supostamente espontâneo passaram a ter peso em disputas financeiras de alta complexidade. No caso Master, a suspeita é que influenciadores tenham sido usados para dar aparência orgânica a uma narrativa favorável ao banco e contrária ao BC.

STF mantém operação sob relatoria de André Mendonça

A presença do Supremo no caso decorre da existência de investigados com foro por prerrogativa de função em fases anteriores da apuração. André Mendonça tem autorizado medidas cautelares sucessivas no âmbito da Operação Compliance Zero, a pedido da Polícia Federal.

Na nova fase, foram autorizados dois mandados de busca e apreensão em Brasília. A PF busca documentos, celulares, computadores e outros elementos que possam confirmar ou afastar a suspeita de atuação coordenada para intimidação, monitoramento e interferência nas investigações.

A investigação ainda está em curso, e os alvos têm direito de defesa. Até eventual denúncia e julgamento, as condutas atribuídas permanecem no campo da suspeita. O avanço da operação, porém, mostra que o caso Master continua produzindo desdobramentos relevantes para o sistema financeiro, para a regulação bancária e para a relação entre dinheiro, influência digital e poder político no Brasil.

A leitura econômica é direta: o colapso do Banco Master deixou de ser apenas um episódio de liquidação bancária. Tornou-se um teste para a capacidade do Estado de proteger a supervisão financeira contra pressões externas, campanhas coordenadas e tentativas de constranger quem fiscaliza, investiga ou informa.

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