Um trabalhador remunerado pelo salário mínimo precisou dedicar, em média, 105 horas e 51 minutos de sua jornada mensal para comprar a cesta básica de alimentos em junho de 2026 nas 27 capitais brasileiras. O conjunto de produtos custou, pela média simples dos valores pesquisados, R$ 779,95 e absorveu 52,02% do piso nacional líquido. O levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostra que a alimentação básica encareceu em 17 capitais no mês, enquanto todas acumularam alta no primeiro semestre.
A parcela do rendimento destinada aos alimentos manteve-se praticamente estável em relação a maio, quando correspondia a 52,01% do salário mínimo líquido. Em comparação com junho de 2025, porém, o comprometimento médio aumentou 0,89 ponto percentual, enquanto o tempo de trabalho necessário avançou de 104 horas e três minutos para quase 106 horas.
O cálculo considera o salário mínimo de R$ 1.621, em vigor desde 1º de janeiro, e desconta a contribuição previdenciária de 7,5%, conforme a metodologia utilizada pela pesquisa. Isso significa que, para quem recebe o piso nacional, mais da metade da renda disponível após o recolhimento ao Instituto Nacional do Seguro Social é consumida apenas por alimentos considerados essenciais.
O peso é ainda maior porque a cesta básica não inclui despesas como aluguel, energia elétrica, transporte, medicamentos, vestuário, educação, higiene e comunicação. Depois da compra dos alimentos, o trabalhador que recebe o mínimo precisa acomodar todas essas obrigações na parcela restante da remuneração.
São Paulo tem cesta de R$ 965,47 e maior esforço do país
São Paulo permaneceu no topo do levantamento, com uma cesta básica de R$ 965,47 em junho. O valor subiu 1,39% em relação a maio, acumulou avanço de 14,13% no primeiro semestre e ficou 9,37% acima do registrado no mesmo mês de 2025.
Na capital paulista, a cesta consumiu 64,39% do salário mínimo líquido. Para adquirir os produtos pesquisados, um trabalhador remunerado pelo piso nacional precisou dedicar 131 horas e dois minutos, equivalentes a mais de 16 jornadas completas de oito horas.
Cuiabá apareceu na segunda posição, com cesta de R$ 937,93 e comprometimento de 62,55% da renda líquida. O tempo necessário para a compra chegou a 127 horas e 17 minutos. A capital mato-grossense também registrou a maior alta em 12 meses entre as cidades pesquisadas, de 14,71%.
O Rio de Janeiro teve a terceira cesta mais cara, avaliada em R$ 920,94. O conjunto de alimentos absorveu 61,42% do salário mínimo líquido e exigiu 124 horas e 59 minutos de trabalho. Florianópolis veio logo depois, com custo de R$ 918,42 e jornada necessária de 124 horas e 39 minutos.
Porto Alegre completou o grupo das cinco capitais mais caras. A cesta alcançou R$ 889,58 após subir 2,18% no mês, uma das maiores variações de junho. O trabalhador precisou destinar 120 horas e 44 minutos para adquiri-la.
Em 15 das 27 capitais, o conjunto de alimentos comprometeu pelo menos metade do salário mínimo líquido. Além das cinco cidades mais caras, esse grupo inclui Campo Grande, Vitória, Curitiba, Belo Horizonte, Fortaleza, Goiânia, Brasília, Palmas, Belém e Boa Vista.
Diferença entre capitais supera R$ 335
Na outra ponta do levantamento, Aracaju registrou a cesta básica mais barata do país, de R$ 630,40. Mesmo nessa condição, o trabalhador precisou dedicar 85 horas e 34 minutos à compra dos alimentos, enquanto a despesa consumiu 42,04% de seu rendimento líquido.
A diferença entre São Paulo e Aracaju chegou a R$ 335,07. Em tempo de trabalho, o morador da capital paulista remunerado pelo piso nacional precisou cumprir 45 horas e 28 minutos a mais para comprar a cesta.
São Luís apresentou o segundo menor custo, de R$ 654,73, seguido por Maceió, com R$ 671,41, e Natal, com R$ 686,07. João Pessoa completou o grupo das cinco capitais mais acessíveis, com valor de R$ 689,95.
As comparações precisam considerar que a composição da cesta não é idêntica em todo o país. As quantidades e determinados produtos variam conforme os hábitos alimentares estabelecidos para cada região. A pesquisa, portanto, mede quanto custa adquirir um conjunto básico de alimentos adequado à composição definida para cada localidade.
Ainda assim, o número de horas trabalhadas permite comparar o esforço imposto aos assalariados. Mesmo em Aracaju, onde a cesta é mais barata, quase 39% de uma jornada mensal convencional de 220 horas foi necessária apenas para pagar os alimentos pesquisados.
A ampliação do levantamento para todas as capitais decorre de uma parceria firmada entre Conab e Dieese em 2024. Antes disso, a coleta de preços abrangia 17 cidades. Os resultados nacionais com as 27 capitais passaram a ser divulgados em agosto de 2025.
Preços aumentam em 17 capitais e recuam em dez
Entre maio e junho, a cesta básica ficou mais cara em 17 capitais e apresentou redução em outras dez. As maiores altas mensais ocorreram em Boa Vista, com 3,28%; Palmas, com 3,01%; Rio Branco, com 2,20%; e Porto Alegre, com 2,18%.
As principais quedas foram registradas em João Pessoa, de 3,97%; Recife, de 3,62%; Maceió, de 3,61%; Natal, de 3,48%; e Aracaju, de 3,42%. Sete das dez capitais com redução estão localizadas no Nordeste.
O alívio mensal em parte do país não reverteu o movimento acumulado. Todas as 27 capitais encerraram o primeiro semestre com a cesta básica mais cara do que em dezembro de 2025. As altas variaram de 4,02%, em São Luís, a 21,48%, em Fortaleza.
Na comparação com junho do ano passado, houve aumento em 26 capitais. São Luís foi a única exceção, com redução de 0,09%, variação que indica estabilidade. Depois de Cuiabá, as maiores altas anuais ocorreram em Aracaju, de 13,12%, e Belo Horizonte, de 12,52%.
O resultado da cesta básica conviveu com uma queda de 0,24% do grupo Alimentação e bebidas no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo de junho. Os movimentos não são contraditórios, porque os indicadores têm escopos, pesos e metodologias diferentes.
O IPCA acompanha um conjunto mais amplo de bens e serviços consumidos por famílias com renda de um a 40 salários mínimos. A cesta da Conab e do Dieese utiliza uma relação fixa de alimentos básicos e mostra as variações específicas observadas nas capitais. Assim, a queda de determinados produtos pode reduzir o índice geral de alimentação sem impedir que a cesta fique mais cara em várias cidades.
Feijão sobe em todas as capitais
O feijão foi um dos principais focos de pressão em junho. O preço aumentou em todas as capitais pesquisadas, tanto nas cidades onde é coletado o feijão-preto quanto naquelas em que predomina o tipo carioca.
Para o feijão-carioca, as altas mensais variaram de 2,10%, em Belo Horizonte, a 18,92%, em Manaus. Em 12 meses, todas as cidades pesquisadas para esse tipo de grão acumularam avanço, com taxas entre 10,80%, em São Luís, e 70,95%, em Goiânia.
Segundo a análise técnica, a valorização está associada à redução da área cultivada e às condições climáticas que prejudicaram a primeira e a segunda safras. O comportamento do feijão é particularmente relevante porque o produto tem participação recorrente na alimentação das famílias e poucas substituições diretas dentro do padrão tradicional de consumo.
A carne bovina de primeira também subiu em 19 capitais. Em 12 meses, o preço aumentou em todas as localidades, com variações entre 1,15%, em Macapá, e 17,92%, em Rio Branco. Os altos volumes exportados e a oferta mais restrita ajudaram a sustentar as cotações, embora o enfraquecimento do consumo interno tenha limitado reajustes em alguns mercados.
O leite integral ficou mais caro em 16 capitais, apresentou redução em dez e permaneceu estável em São Paulo. As maiores altas mensais foram registradas em São Luís, Boa Vista e Maceió.
O comportamento desses alimentos mostra por que a redução de outros itens não foi suficiente para produzir queda generalizada da cesta. Produtos de consumo frequente e com participação relevante no orçamento continuaram pressionando o valor final, especialmente nas cidades onde o feijão, a carne e o leite avançaram simultaneamente.
Café, açúcar e óleo de soja trazem alívio parcial
Em sentido contrário, o café em pó ficou mais barato em 25 das 27 capitais. As reduções variaram de 0,39%, em Campo Grande, a 4,82%, em Goiânia. Apenas Macapá e Natal apresentaram alta no mês.
Em 12 meses, o café recuou em 25 capitais, com destaque para as quedas de 23,82% no Rio de Janeiro e de 23,36% em Brasília. A expansão da oferta com o avanço da colheita da safra 2026/2027 contribuiu para a redução no varejo.
O açúcar também caiu em 25 capitais. As maiores baixas ocorreram no Rio de Janeiro, de 7,16%; em Porto Alegre, de 4,93%; e em João Pessoa, de 4,27%. Macapá foi a única cidade com alta, enquanto o preço permaneceu estável em Palmas.
Em 12 meses, o açúcar acumulou redução em todas as capitais. A maior oferta gerada pelo avanço da moagem de cana no Centro-Sul favoreceu a queda dos preços.
O óleo de soja ficou mais barato em 24 cidades, permaneceu estável em Macapá e subiu apenas em Aracaju e Manaus. A Conab e o Dieese relacionam o movimento à maior disponibilidade do produto e a uma demanda por biocombustíveis inferior à esperada.
Essas reduções impediram uma pressão ainda maior sobre o orçamento, mas não compensaram integralmente os aumentos observados em outros produtos. O resultado mensal da cesta refletiu justamente essa combinação: recuo de itens como café, açúcar e óleo, de um lado, e avanço de feijão, carne, leite e outros alimentos, de outro.
Salário mínimo necessário sobe para R$ 8.110,92
Com base na cesta mais cara do país e nas despesas previstas pela Constituição, o Dieese calculou que o salário mínimo necessário para sustentar uma família de quatro pessoas deveria ter sido de R$ 8.110,92 em junho.
O valor corresponde exatamente a cinco vezes o piso oficial de R$ 1.621. Em maio, a renda necessária havia sido estimada em R$ 7.999,44, ou 4,93 vezes o salário mínimo. Em apenas um mês, a diferença chegou a R$ 111,48.
Na comparação com junho de 2025, quando a estimativa era de R$ 7.416,07, o salário mínimo necessário aumentou R$ 694,85. O indicador avançou aproximadamente 9,4% em 12 meses.
A estimativa não constitui uma proposta automática de reajuste do piso nacional. Seu objetivo é dimensionar a remuneração que permitiria cobrir alimentação, moradia, saúde, educação, vestuário, higiene, transporte, lazer e Previdência Social para uma família formada por dois adultos e duas crianças.
O rendimento médio real habitual do trabalho chegou a R$ 3.726 no trimestre encerrado em maio, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. A comparação deve ser feita com cautela: o dado do IBGE representa a renda média individual das pessoas ocupadas, enquanto o indicador do Dieese estima as necessidades de uma família.
Ainda assim, a distância entre os valores evidencia a dificuldade enfrentada por domicílios dependentes de uma única renda. O rendimento médio individual corresponde a menos da metade do valor calculado pelo Dieese, enquanto o salário mínimo oficial equivale a apenas 20% dessa referência familiar.
Alimentação mantém pressão sobre poder de compra
Os números de junho mostram que a desaceleração de parte dos preços não foi suficiente para devolver poder de compra aos trabalhadores remunerados pelo piso nacional. A cesta básica subiu em quase dois terços das capitais, ficou mais cara em todas no acumulado do ano e avançou em 26 cidades na comparação anual.
A pressão não ocorre apenas nas localidades onde os alimentos atingiram os maiores valores absolutos. Mesmo nas capitais mais baratas, a compra da cesta exigiu entre 85 e 95 horas de trabalho, consumindo uma parcela elevada da remuneração disponível.
Para famílias de baixa renda, o efeito se espalha pelo restante do orçamento. Quando alimentos essenciais absorvem mais da metade do salário líquido, gastos com moradia, transporte, energia e saúde precisam disputar uma base financeira cada vez mais estreita.
O levantamento da Conab e do Dieese coloca esse impacto em uma medida concreta: o tempo. Em junho, quase 106 das 220 horas mensais de trabalho foram destinadas apenas à compra da cesta básica. Em São Paulo, essa exigência alcançou 131 horas, deixando menos de 90 horas de remuneração para todas as demais necessidades do mês.
Fontes
- Conab e Dieese — Análise Mensal da Cesta Básica de Alimentos, resultados de junho de 2026: levantamento completo com preços, variações, comprometimento da renda e horas de trabalho nas 27 capitais.
- Dieese — série histórica do salário mínimo nominal e necessário: valores mensais utilizados na comparação entre o piso oficial e a renda familiar estimada.
- Presidência da República — Decreto nº 12.797: fixação do salário mínimo nacional de 2026 em R$ 1.621.
- IBGE — PNAD Contínua do trimestre encerrado em maio de 2026: rendimento médio real habitual de R$ 3.726 e indicadores do mercado de trabalho.
- IBGE — IPCA de junho de 2026: inflação oficial de 0,16% e variação de menos 0,24% no grupo Alimentação e bebidas.









