A guerra na Ucrânia alterou de forma profunda o mercado brasileiro de combustíveis. O efeito mais visível apareceu nas importações de diesel: em poucos anos, a Rússia deixou uma posição marginal para se tornar uma das principais origens do produto comprado pelo Brasil, ao mesmo tempo em que empresas antes pouco conhecidas ganharam espaço em uma atividade dominada historicamente por grandes tradings, distribuidoras e refinarias.
O movimento foi impulsionado pela combinação de sanções impostas por Estados Unidos, União Europeia e outros países, descontos concedidos pelo petróleo e pelos derivados russos e uma característica estrutural do mercado brasileiro: o país não produz internamente todo o diesel necessário para atender à demanda. Essa dependência das importações transformou o Brasil em destino natural de cargas que precisavam encontrar compradores fora dos mercados que restringiram negócios com Moscou.
Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis mostram que a Rússia continuou exercendo peso relevante nas compras brasileiras em 2026. Em fevereiro, 45,83% do diesel A importado pelo Brasil teve origem russa. Em março, a participação ficou em 45,80% e, em abril, avançou para 46,57%. Os números mostram que, mesmo depois do auge observado nos primeiros anos da guerra, o combustível russo permaneceu importante para o abastecimento nacional.
Como a guerra mudou a lógica das importações
Antes da invasão da Ucrânia, iniciada em fevereiro de 2022, os Estados Unidos ocupavam posição muito mais dominante no fornecimento de diesel ao Brasil, enquanto a Rússia tinha presença reduzida. O cenário começou a mudar quando países ocidentais restringiram a compra, o financiamento, o transporte e outros serviços ligados ao petróleo e aos derivados russos.
Para continuar vendendo, a Rússia passou a depender mais de mercados que não haviam aderido às mesmas restrições. O resultado foi uma redistribuição global das rotas de comércio de energia. China, Índia, Turquia e Brasil passaram a absorver parcelas maiores das exportações russas, com diferenças relevantes entre petróleo bruto, produtos refinados, gás e carvão.
No caso dos derivados de petróleo, o Brasil ganhou peso significativo. Levantamento do Centre for Research on Energy and Clean Air mostra que, entre dezembro de 2022 e maio de 2026, o país respondeu por 11% das compras de produtos petrolíferos russos, atrás de Turquia e China. O dado ajuda a dimensionar como uma mudança geopolítica ocorrida a milhares de quilômetros alterou diretamente a estrutura de suprimento brasileira.
Os descontos tiveram papel central. Com parte de seus compradores tradicionais reduzindo ou interrompendo negócios, fornecedores russos passaram a oferecer condições comerciais mais competitivas. Para importadores capazes de operar navios, crédito, seguros, armazenagem, terminais e distribuição, surgiu uma janela de margem que não existia com a mesma intensidade antes da guerra.
Novos grupos avançaram em um mercado bilionário
A mudança de origem do diesel veio acompanhada de uma alteração no perfil das empresas que passaram a disputar as cargas. Companhias como Nimofast, Atem, Royal FIC, Ciapetro e outras ampliaram presença em uma atividade que exigia estrutura financeira e logística elevada, mas que passou a oferecer uma oportunidade extraordinária de arbitragem entre preços internacionais e o mercado doméstico.
Essa ascensão não significa que todas essas empresas tenham o mesmo modelo de negócio. Algumas já operavam no setor de combustíveis e aproveitaram a nova conjuntura para expandir importações. Outras tinham presença regional, infraestrutura portuária ou capacidade de armazenagem que permitiu crescer rapidamente. Também houve empresas que ganharam projeção nacional justamente no período em que o diesel russo passou a ocupar parcela relevante das compras brasileiras.
A infraestrutura foi decisiva. Importar diesel não é apenas fechar uma operação comercial. Uma única carga pode envolver dezenas de milhões de reais, além de frete marítimo, seguro, financiamento, desembaraço aduaneiro, armazenagem e distribuição. Quem possuía acesso a terminais e capacidade de escoamento ganhou vantagem para capturar a oportunidade criada pela reorganização internacional.
O movimento também reduziu, em termos relativos, a concentração que existia antes da guerra. A Petrobras (PETR4) permaneceu como agente central no abastecimento nacional, mas a abertura de novas rotas e a entrada de importadores privados aumentaram a disputa por parcelas do mercado externo. Ao mesmo tempo, grandes companhias globais adotaram posturas mais cautelosas diante dos riscos de sanções secundárias, regras bancárias e exigências de compliance.
Sanções não impediram o comércio com o Brasil
A importação de combustível russo pelo Brasil não foi proibida pela legislação brasileira. O ponto de maior complexidade está na estrutura internacional de sanções e no chamado teto de preços adotado por integrantes do G7 e pela União Europeia, que limita o acesso a determinados serviços marítimos e financeiros quando petróleo ou derivados russos são negociados acima dos valores definidos pelo regime.
Esse desenho não equivale a uma proibição mundial de compra. Na prática, ele cria restrições para empresas que dependem de seguradoras, bancos, transportadoras e prestadores de serviços vinculados às jurisdições que aplicam as sanções. Isso explica por que companhias com exposição internacional maior tendem a adotar critérios de risco mais rígidos antes de negociar cargas de origem russa.
Em 2026, o regime continuou relevante para o comércio global. A União Europeia manteve limites específicos para petróleo bruto e produtos petrolíferos russos, ao mesmo tempo em que ampliou medidas contra embarcações associadas à chamada frota paralela usada para contornar restrições. Esse ambiente aumentou a importância da rastreabilidade das cargas, da origem dos produtos e dos agentes envolvidos em cada etapa da operação.
Fiscalização ganhou peso com a expansão do mercado
O crescimento acelerado das importações também aumentou a atenção dos órgãos reguladores e de fiscalização. A ANP intensificou o acompanhamento de produtores, distribuidores e importadores, exigindo informações sobre estoques, cargas contratadas, origem, portos de embarque, datas previstas de chegada e documentação marítima.
Entre os nomes que ganharam projeção no período está a Refinaria de Manguinhos, conhecida como Refit. A empresa foi alvo de medidas cautelares e fiscalizações da ANP em 2025. Em 7 de agosto de 2026, a agência revogou a autorização de funcionamento da refinaria depois que a Receita Federal suspendeu o CNPJ da companhia. A decisão ocorreu após processo administrativo no qual, segundo a ANP, foram assegurados contraditório e ampla defesa.
A existência de investigações, fiscalizações ou sanções administrativas envolvendo determinadas empresas não permite concluir que o crescimento de todo o segmento tenha resultado de práticas irregulares. O mercado de importação de combustíveis reúne agentes com perfis distintos, e a expansão das compras russas decorreu de fatores comerciais, geopolíticos, logísticos e regulatórios que afetaram todo o setor.
Dependência externa mantém o Brasil exposto
A transformação ganhou força porque o Brasil continua dependendo de volumes importados para completar o abastecimento de diesel. Em fevereiro de 2026, segundo a ANP, o diesel A importado representou 30,56% das vendas nacionais do produto. Em abril, essa proporção ficou em 24,75%. A variação mostra que a necessidade externa muda de mês para mês, mas permanece relevante.
Essa dependência torna o mercado sensível a guerras, sanções, ataques a refinarias, custos de frete, câmbio e decisões de preço dos produtores nacionais. Quando uma origem se torna mais barata ou mais difícil de acessar, as tradings precisam reorganizar rapidamente as rotas e buscar fornecedores alternativos.
Foi exatamente isso que ocorreu depois de 2022. A Rússia ganhou espaço quando passou a oferecer derivados em condições mais competitivas. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos perderam parte da participação que tinham no mercado brasileiro. O processo, porém, não é irreversível. Alterações nos descontos russos, na disponibilidade de produto, nas regras de sanções ou na política de preços doméstica podem redirecionar novamente as compras.
O mercado entra em uma nova fase
A principal diferença de 2026 em relação ao início da guerra é que o mercado já incorporou a Rússia como uma origem possível e desenvolveu infraestrutura comercial para operar essas cargas. O choque deixou de ser apenas conjuntural e passou a fazer parte do cálculo permanente de importadores, distribuidoras e autoridades.
Ao mesmo tempo, a vantagem comercial que permitiu a ascensão de novos participantes passou a enfrentar mais limitações. O endurecimento de mecanismos de compliance, a fiscalização brasileira, as mudanças no regime internacional de sanções e os ataques à infraestrutura energética russa alteraram a disponibilidade e o custo do produto.
Ainda assim, os dados mostram que o diesel russo continua longe de ser irrelevante para o Brasil. A participação próxima de metade das importações em diferentes meses de 2026 revela que a relação criada após o início da guerra deixou marcas estruturais no abastecimento nacional.
O próximo capítulo dependerá da evolução do conflito, da capacidade de produção e exportação da Rússia, das decisões dos países que aplicam sanções e da política de preços no mercado brasileiro. Para os importadores, a oportunidade permanece, mas acompanhada de riscos maiores e de exigências crescentes de rastreabilidade, capital e conformidade regulatória.
Fontes:
Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis — Dados de importações e exportações:
ANP — Síntese Mensal de Comercialização de Combustíveis, fevereiro de 2026:
ANP — Síntese Mensal de Comercialização de Combustíveis, abril de 2026:
ANP — Revogação da autorização da Refinaria de Manguinhos – Refit:
Conselho da União Europeia — Sanções contra a Rússia e teto de preços do petróleo:
Centre for Research on Energy and Clean Air — Análise mensal de maio de 2026:








