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Banco Central aponta R$ 6,24 bilhões em dinheiro esquecido para resgate

Saldo pertence a mais de 24 milhões de pessoas e 2,27 milhões de empresas; parte dos recursos foi transferida ao FGO.

por Maria Helena Costa
21/07/2026 às 16h27
em Economia
Banco Central Aponta R$ 6,24 Bilhões Em Dinheiro Esquecido Para Resgate - Gazeta Mercantil - Economia

Mais de 24 milhões de brasileiros e 2,27 milhões de empresas ainda têm R$ 6,24 bilhões em dinheiro esquecido em bancos, cooperativas de crédito, administradoras de consórcios e outras instituições financeiras. O saldo, informado pelo Banco Central com data-base de maio de 2026, permanece disponível para consulta e resgate no Sistema de Valores a Receber, o SVR.

Do total de dinheiro esquecido, R$ 4.437.422.917,99 pertencem a 24.080.039 pessoas físicas. Outros R$ 1.804.196.767,06 estão registrados em nome de 2.274.851 pessoas jurídicas. Leia também: FT: ‘Saiam do nosso caminho’: como a marcha de mercenários até Moscou fracassou | Mundo.

A divisão simples dos valores pelo número de beneficiários aponta uma média aproximada de R$ 184 por pessoa física e de R$ 793 por empresa. O cálculo, porém, não representa necessariamente o montante que cada titular encontrará, porque o dinheiro esquecido está distribuído de forma desigual e pode envolver desde quantias residuais até saldos mais elevados.

Desde o início da operação do SVR, cerca de R$ 15,47 bilhões já foram devolvidos a pessoas físicas e empresas. O volume resgatado mostra que o sistema deixou de ser apenas uma ferramenta de consulta para se transformar em um canal permanente de restituição de recursos dispersos no sistema financeiro. Leia também: Envio de bombas polêmicas à Ucrânia pelos EUA é sinal de fraqueza, diz Rússia | Mundo.

Saldo de dinheiro esquecido cai após mudança na destinação dos recursos

O total de dinheiro esquecido disponível em maio ficou abaixo dos R$ 10,6 bilhões registrados em março. A diferença entre os dois levantamentos não foi provocada apenas por saques realizados pelos titulares.

Parte relevante da redução decorreu da transferência de aproximadamente R$ 5,7 bilhões ao Fundo de Garantia de Operações, o FGO. O fundo passou a utilizar os recursos em uma estrutura separada destinada a garantir operações de crédito vinculadas ao Novo Desenrola Brasil. Leia também: Banco Central aprova aumento de capital de R$ 82 milhões na financeira da Marisa | Finanças.

A transferência alterou a composição do dinheiro esquecido que continuou aparecendo nas estatísticas do SVR. Recursos mantidos nas instituições financeiras e informados ao Banco Central até 31 de dezembro de 2024 foram alcançados pelas novas regras definidas pelo governo federal.

A mudança foi promovida pela Medida Provisória nº 1.355, publicada em 4 de maio de 2026. A norma determinou o envio ao FGO de valores que estavam registrados como quantias a devolver no Sistema de Valores a Receber. Leia também: Arthur Lira diz que 8/1 “jamais será esquecido” em rede social | Política.

Antes da medida provisória, a Lei nº 14.973, de setembro de 2024, havia estabelecido um mecanismo para o recolhimento de saldos não reclamados. A nova norma modificou esse caminho, revogou o artigo que tratava da incorporação dos recursos pela União e direcionou o dinheiro ao FGO.

A distinção é importante. O dinheiro esquecido não foi simplesmente classificado como receita corrente do governo. Pela modelagem apresentada pelo Ministério da Fazenda, os recursos devem permanecer em conta apartada dentro do fundo e servir como garantia para novas operações de reestruturação de dívidas.

Repasse ao FGO busca dar suporte ao Novo Desenrola Brasil

O FGO funciona como um mecanismo de compartilhamento de risco entre o poder público e as instituições financeiras. Quando uma operação de crédito é coberta pelo fundo, parte da eventual inadimplência pode ser suportada pela garantia, reduzindo o risco assumido pelo banco.

No Novo Desenrola Brasil, o governo pretende utilizar essa estrutura para estimular renegociações com juros menores e prazos mais longos. O programa atende pessoas físicas com renda mensal de até cinco salários mínimos e dívidas em atraso em determinadas modalidades de crédito sem garantia.

A lógica econômica consiste em reduzir o risco das instituições para criar espaço para condições mais favoráveis aos devedores. A garantia, entretanto, não equivale a um pagamento antecipado aos bancos. O FGO é acionado quando as condições previstas para cobertura das operações são preenchidas.

Segundo a exposição de motivos da medida provisória, os valores transferidos serão destinados exclusivamente à garantia das novas operações de crédito para reestruturação de dívidas. A proposta também prevê um procedimento para que os titulares possam contestar a transferência e reclamar o dinheiro esquecido.

O Ministério da Fazenda, com o apoio do FGO, deve disponibilizar um edital com informações sobre os montantes transferidos, a instituição responsável, a agência e a natureza da conta, quando aplicável. A partir da publicação, o titular terá prazo para contestar o repasse.

Encerrado esse período, os valores não contestados poderão ser incorporados definitivamente ao patrimônio do FGO. Ainda assim, a legislação preserva o direito do titular de requerer o dinheiro esquecido posteriormente, observados os procedimentos e os prazos legais.

O governo também estabeleceu a manutenção de uma parcela dos recursos para atender pedidos futuros. A reserva busca impedir que a utilização do patrimônio como garantia inviabilize a devolução a quem comprovar a titularidade.

Medida provisória ainda depende de votação no Congresso

Embora esteja em vigor, a Medida Provisória nº 1.355 ainda precisa ser analisada pelo Congresso Nacional para se transformar definitivamente em lei.

Em 21 de julho, a proposta aguardava a instalação da comissão mista de deputados e senadores responsável pela análise inicial do texto. A medida entrou em regime de urgência em 18 de junho e tinha prazo de deliberação prorrogado até 31 de agosto de 2026.

Enquanto a votação não ocorre, as regras produzem efeitos jurídicos. O Congresso pode aprovar o texto integralmente, alterar dispositivos durante a tramitação ou permitir que a medida perca a validade.

Esse processo mantém uma camada de incerteza sobre o desenho definitivo do uso do dinheiro esquecido. As transferências já realizadas, os direitos dos titulares e os efeitos produzidos durante a vigência da medida deverão ser considerados pelo Legislativo em qualquer decisão futura.

A discussão também envolve o tratamento fiscal e patrimonial dos recursos. Como o dinheiro pertence originalmente a clientes de instituições financeiras, sua utilização em uma política pública exige mecanismos que preservem o direito à devolução e identifiquem de forma adequada os titulares.

Para o cidadão, a principal orientação permanece a mesma: quem possui dinheiro esquecido deve verificar a existência do saldo e solicitar o resgate pelos canais oficiais.

Valores surgem de contas encerradas, consórcios e cobranças indevidas

O dinheiro esquecido reunido pelo SVR tem diferentes origens. Uma das situações mais comuns envolve contas-correntes ou contas de poupança encerradas com saldo disponível.

Também entram no sistema cotas de capital e rateios de sobras líquidas de ex-participantes de cooperativas de crédito, além de recursos não procurados de grupos de consórcio encerrados.

Outra fonte são tarifas bancárias cobradas indevidamente, desde que a devolução tenha sido reconhecida pela instituição. Parcelas ou despesas relacionadas a operações de crédito cobradas de forma incorreta também podem aparecer no SVR.

O Banco Central inclui ainda saldos de contas de pagamento pré-pagas ou pós-pagas encerradas, inclusive contas vinculadas a cartões, e recursos mantidos em contas de registro de corretoras e distribuidoras de títulos e valores mobiliários.

O sistema não cria um novo direito financeiro nem determina que toda cobrança contestada seja automaticamente devolvida. O SVR reúne valores que as próprias instituições já reconheceram como disponíveis para restituição.

Por isso, o dinheiro esquecido pode ter sido gerado muitos anos antes da consulta. Mudanças de endereço, encerramento de relacionamento bancário, falecimento do titular e ausência de informações atualizadas ajudam a explicar por que parte dos recursos permanece sem movimentação.

Consulta inicial não exige login na conta Gov.br

A verificação sobre a existência de dinheiro esquecido é gratuita. Na primeira etapa, a pessoa física informa o CPF e a data de nascimento. Para empresas, são exigidos o CNPJ e a data de abertura.

Essa consulta inicial não exige login. O sistema informa apenas se existem ou não valores associados ao documento pesquisado.

Quando há dinheiro esquecido disponível, o titular precisa acessar a área restrita para consultar o montante, identificar a origem e verificar qual instituição deve realizar a devolução.

O acesso exige conta Gov.br de nível prata ou ouro, com a verificação em duas etapas habilitada. A exigência decorre do sigilo bancário e busca reduzir o risco de terceiros consultarem ou solicitarem recursos em nome de outra pessoa.

Para acessar informações de uma empresa ativa, o representante precisa utilizar certificado digital de pessoa jurídica vinculado à sua conta Gov.br. Empresas que não possuem certificado devem procurar diretamente as instituições com as quais mantêm ou mantiveram relacionamento.

Depois do login, o sistema apresenta a instituição responsável, a origem do dinheiro esquecido e as formas disponíveis para recebimento.

Devolução pode ser solicitada pelo Pix ou diretamente ao banco

Existem três formas principais de recuperar o dinheiro esquecido. A primeira é entrar em contato diretamente com a instituição responsável e combinar o pagamento.

A segunda permite solicitar a devolução pelo próprio SVR, desde que a instituição tenha aderido ao sistema facilitado do Banco Central e o titular possua uma chave Pix válida. Chaves aleatórias não são aceitas nessa modalidade.

O Banco Central também oferece a solicitação automática para pessoas físicas que tenham uma chave Pix vinculada ao CPF. Depois de ativar a funcionalidade, novos valores identificados podem ser enviados diretamente à conta cadastrada, sem a necessidade de registrar um pedido individual para cada ocorrência.

A devolução automática não alcança todas as situações. Ela depende da adesão da instituição financeira e não está disponível para pessoas jurídicas, contas conjuntas ou titulares que não possuam chave Pix do tipo CPF.

Quando o botão de solicitação não aparece, isso não significa que o dinheiro esquecido deixou de existir. O titular deve utilizar os dados de contato fornecidos pelo sistema e combinar a forma de pagamento diretamente com a instituição.

O Banco Central não realiza a transferência com recursos próprios. A devolução é feita pelo banco, cooperativa, administradora de consórcio, corretora ou outra instituição que mantém o valor.

Herdeiros podem consultar valores de pessoas falecidas

O SVR também permite verificar a existência de dinheiro esquecido em nome de pessoas falecidas. A consulta inicial exige o CPF e a data de nascimento do titular.

Caso exista saldo, o acesso às informações detalhadas deve ser feito com a conta Gov.br do herdeiro, testamentário, inventariante ou representante legal. Não se utiliza a conta da pessoa falecida.

Dentro do sistema, o responsável deve selecionar a área destinada a valores de pessoas falecidas e aceitar um termo de responsabilidade para consulta de dados de terceiros.

O SVR informa a instituição que mantém o dinheiro esquecido, a origem e a faixa do valor. A liberação, contudo, não é solicitada diretamente pela plataforma.

O herdeiro ou representante deve procurar a instituição financeira e apresentar os documentos exigidos para comprovar sua condição. As regras podem variar conforme o processo de inventário, a existência de outros sucessores e o montante envolvido.

Empresas encerradas também podem ser consultadas pelo representante legal. O sistema apresenta a faixa do valor, a origem e os dados da instituição que deverá ser procurada para efetuar a devolução.

Golpes usam promessa de dinheiro esquecido para cobrar taxas

A divulgação de saldos bilionários aumenta a circulação de mensagens falsas que prometem liberar dinheiro esquecido mediante o pagamento de taxas ou o fornecimento de dados bancários.

O Banco Central não cobra qualquer valor para consulta ou resgate. Também não envia links por e-mail, SMS, WhatsApp ou aplicativos de mensagem para confirmar dados pessoais.

Nenhuma pessoa ou empresa está autorizada a cobrar antecipadamente em nome do Banco Central. A instituição responsável pela devolução também não solicita a senha bancária ou a senha da conta Gov.br.

Mensagens com senso de urgência, prazo de poucas horas, promessa de saldo elevado ou cobrança para desbloqueio devem ser ignoradas. O cidadão deve acessar o sistema oficial por iniciativa própria, sem utilizar endereços recebidos de desconhecidos.

A principal proteção é conferir o domínio antes de informar CPF, CNPJ, data de nascimento ou credenciais de acesso. Sites falsos costumam reproduzir a identidade visual do governo para capturar senhas e dados financeiros.

Dinheiro esquecido passa a integrar garantia do Novo Desenrola

Os R$ 6,24 bilhões que permanecem disponíveis mostram que o Sistema de Valores a Receber ainda concentra uma parcela relevante de patrimônio privado não solicitado. Ao mesmo tempo, a transferência de R$ 5,7 bilhões ao FGO abriu uma nova fase para o tratamento desses recursos.

O dinheiro esquecido deixou de permanecer integralmente nas tesourarias das instituições e passou a participar de uma estrutura de garantia de crédito. A mudança procura dar escala ao Novo Desenrola Brasil, mas exige que o direito dos titulares continue protegido durante a execução do programa.

Para pessoas físicas e empresas, o resgate não depende da contratação de intermediários nem do pagamento de taxas. A consulta continua gratuita, e os valores que permanecem registrados no SVR podem ser solicitados a qualquer momento.

A atualização dos dados do Banco Central reforça a dimensão do problema: mesmo depois da devolução de R$ 15,47 bilhões, milhões de titulares ainda não procuraram recursos mantidos em seu nome. A combinação de saldos pequenos, contas antigas e desconhecimento sobre o sistema ajuda a manter bilhões de reais fora do alcance imediato de seus proprietários.

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