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Citi encerra alerta negativo para GMAT3, mas mantém recomendação neutra

Banco vê ajustes operacionais próximos do fim no Grupo Mateus, mas segue cauteloso com vendas mesmas lojas, consumo no Norte e Nordeste e potencial de valorização das ações.

por João Souza
25/08/2026 às 18h07
em Mercados
Citi Encerra Alerta Negativo Para Gmat3, Mas Mantém Recomendação Neutra - Gazeta Mercantil - Mercados

O Citi retirou o Grupo Mateus (GMAT3) de seu catalyst watch negativo de 90 dias depois de avaliar que a companhia apresentou resultados melhores que o esperado no segundo trimestre de 2026 e avançou na fase mais pesada de seus ajustes operacionais. A mudança, porém, não representa uma recomendação de compra: o banco manteve classificação neutra, avaliação de risco elevado e preço-alvo de R$ 4 para as ações.

A decisão sinaliza uma melhora na percepção de curto prazo sobre a empresa, mas ainda não uma reversão completa da tese. O preço-alvo adotado pelo Citi representa potencial negativo de aproximadamente 7% em relação à cotação de referência considerada pelo banco, indicando que os analistas ainda veem espaço limitado para valorização imediata.

Leia também: FIIs de papel lideram carteira do Itaú BBA em abril; banco mantém 13 fundos e vê dividend yield de 10,7%.

A leitura mais favorável surgiu depois de uma visita às operações do Grupo Mateus em São Luís, no Maranhão. Os analistas João Pedro Soares e Felipe Husein se reuniram com o fundador e presidente do conselho, Ilson Mateus, com o CEO Jesuíno Martins, o CFO Túlio Queiroz e integrantes da área de Relações com Investidores.

Na avaliação do banco, a companhia está próxima de concluir uma etapa marcada por redução de práticas comerciais que comprimiam margens, revisão da estrutura organizacional e maior controle das despesas. O desafio agora passa a ser recuperar crescimento e participação de mercado sem voltar a sacrificar rentabilidade.

Leia também: STF mantém prisão de militares por trama golpista e fortalece combate a ameaças à democracia.

Ajuste operacional estaria perto do fim

Um dos principais pontos observados pelo Citi foi a normalização progressiva das margens e das despesas operacionais.

Nos últimos trimestres, o Grupo Mateus vinha revendo práticas que favoreciam volume de vendas, mas pressionavam a rentabilidade. Entre elas estava a comercialização de balcão para clientes empresariais, modalidade B2B que podia aumentar a receita sem necessariamente produzir retorno proporcional.

A companhia também realizou uma reorganização interna com o objetivo de enxugar estruturas e elevar produtividade.

Segundo a avaliação apresentada pelo banco, tanto a margem bruta quanto as despesas com vendas, gerais e administrativas começam a se aproximar de níveis considerados mais sustentáveis.

Esse movimento é importante porque muda a prioridade da administração. Durante a fase de ajuste, a preservação das margens e o controle dos custos assumiram protagonismo. Com parte dessas correções encaminhada, o Grupo Mateus poderá voltar gradualmente a disputar crescimento de vendas e participação regional.

A expansão, contudo, deverá ser mais seletiva.

A administração estaria priorizando o desempenho das unidades existentes e exigindo retornos mais elevados para novos investimentos, em vez de perseguir uma abertura acelerada de lojas.

Essa mudança reduz o risco de expansão excessivamente dependente de capital em um ambiente no qual o custo financeiro continua elevado.

Consumo no Norte e Nordeste ainda limita recuperação

A principal preocupação do Citi permanece relacionada às vendas em mesmas lojas, indicador conhecido pela sigla SSS.

Esse dado mede o desempenho das unidades que já estavam abertas em períodos comparáveis e ajuda a separar crescimento orgânico de expansão produzida simplesmente pela inauguração de novas lojas.

Para o banco, a recuperação do indicador ainda pode ser lenta diante das condições de consumo nas regiões Norte e Nordeste, mercados nos quais o Grupo Mateus possui presença relevante.

Mesmo que a intensidade competitiva diminua, uma retomada mais ampla das vendas depende do comportamento da renda disponível, do crédito, da inflação de alimentos e das condições econômicas regionais.

Por isso, o encerramento do catalyst watch negativo não significa que o Citi tenha passado a projetar uma aceleração imediata dos negócios.

O banco considera que o balanço entre riscos e oportunidades ficou mais equilibrado após o desempenho recente, mas ainda não identifica elementos suficientes para abandonar a recomendação neutra.

Essa distinção é fundamental para o investidor. Retirar uma visão tática negativa de curto prazo significa reduzir a expectativa de eventos capazes de pressionar a ação nos meses seguintes. É diferente de concluir que o papel está barato ou que oferece uma relação de risco e retorno suficientemente atraente para recomendar compra.

Farmácias entram no radar de crescimento

Entre as iniciativas consideradas promissoras está a entrada do Grupo Mateus no segmento farmacêutico por meio de uma parceria com a Mix Toureiro.

O modelo foi estruturado como uma joint venture com um operador regional e combina atendimento ao consumidor final com operações voltadas a clientes empresariais.

Segundo as informações apresentadas ao Citi, as unidades utilizam formato de maior porte e um portfólio amplo de produtos.

A estrutura da parceria pode reduzir o risco inicial de execução porque parte da experiência operacional é compartilhada com uma empresa já estabelecida no setor. Ao mesmo tempo, o acordo não impediria o Grupo Mateus de desenvolver drogarias próprias futuramente.

A entrada no mercado farmacêutico também pode ampliar a utilização dos pontos comerciais e da logística da companhia, embora o retorno financeiro dessa estratégia ainda dependa da escala alcançada e das margens obtidas.

O movimento representa uma tentativa de diversificar fontes de receita sem promover, ao menos inicialmente, uma expansão integralmente financiada e operada pelo Grupo Mateus.

Para o Citi, essa característica torna a iniciativa mais interessante do ponto de vista de controle de risco.

Novas lojas terão de superar retorno mínimo

Outro ponto que ganhou destaque nas conversas com a administração foi a disciplina de capital.

A companhia estaria trabalhando com uma taxa interna de retorno superior a 25% como referência para aprovar novos investimentos.

Na prática, isso significa que uma nova loja ou projeto de expansão precisaria demonstrar capacidade de gerar retorno elevado antes de receber capital.

O parâmetro ganha relevância em um cenário de juros altos. Quanto maior o custo do dinheiro, maior precisa ser o retorno esperado de uma expansão para justificar o investimento.

Caso não existam projetos capazes de alcançar essa rentabilidade, a administração considera alternativas como pagamento de dividendos ou eventual recompra de ações.

Essa postura representa uma mudança importante em relação a estratégias de varejo baseadas essencialmente no crescimento da quantidade de lojas.

O Citi interpreta que a companhia está privilegiando produtividade e rentabilidade do ativo existente antes de iniciar um novo ciclo acelerado de expansão.

Para os acionistas, a execução dessa estratégia será um dos principais pontos a observar nos próximos trimestres.

Digitalização pode abrir nova frente de eficiência

Além da revisão comercial e da disciplina de capital, o Grupo Mateus aposta em tecnologia para reduzir custos.

Durante a visita às operações, os analistas conheceram um dark store que funciona também como pequeno centro de distribuição, com área aproximada de 3 mil metros quadrados.

Estruturas desse tipo são utilizadas para organizar pedidos e abastecimento sem depender integralmente da operação das lojas destinadas ao público.

A companhia também estuda automação de armazéns.

A digitalização pode produzir ganhos de produtividade principalmente em atividades de estoque, separação de pedidos, transporte e distribuição, áreas particularmente relevantes para um grupo varejista com presença geográfica extensa.

O potencial de redução de despesas, entretanto, dependerá dos investimentos necessários e da capacidade de transformar novas tecnologias em ganhos permanentes de produtividade.

Em uma empresa com margens relativamente estreitas, pequenas melhorias operacionais podem ter impacto relevante sobre o resultado consolidado.

GMAT3 ainda precisa provar recuperação das vendas

O encerramento do alerta negativo de curto prazo muda o tom da avaliação sobre GMAT3, mas deixa praticamente intacta a principal exigência do Citi: a companhia ainda precisa mostrar recuperação consistente do crescimento orgânico.

A reorganização da estrutura e a redução de práticas comerciais que sacrificavam margens atacam problemas internos. A evolução das vendas em mesmas lojas, por outro lado, depende também de fatores externos.

Caso a companhia consiga combinar melhora das margens com recuperação do SSS, a percepção sobre o papel poderá mudar novamente.

Se as vendas continuarem fracas, o ganho obtido com os ajustes de custos poderá ter alcance limitado.

O preço-alvo de R$ 4 ilustra essa cautela. Mesmo depois do resultado considerado melhor que o esperado e da retirada do catalyst watch, a avaliação do banco ainda não oferece potencial de valorização em relação à cotação utilizada como referência.

Isso coloca GMAT3 em uma situação peculiar: a visão deixou de ser particularmente negativa no curto prazo, mas ainda não se tornou positiva o suficiente para justificar uma recomendação de compra.

Os próximos balanços terão, portanto, uma função decisiva na tese. O mercado deverá acompanhar especialmente o comportamento das vendas em mesmas lojas, a evolução da margem bruta, o controle das despesas operacionais e o retorno obtido sobre novos investimentos.

Também haverá atenção à estratégia de capital. Uma desaceleração das inaugurações acompanhada de maior produtividade pode produzir geração adicional de caixa, enquanto dividendos ou recompras poderiam alterar a percepção sobre retorno ao acionista.

Por enquanto, o Citi reconhece que a parte mais difícil da reorganização interna parece estar próxima do fim. A próxima prova para o Grupo Mateus será demonstrar que essa estrutura mais enxuta consegue voltar a crescer sem reconstruir os desequilíbrios que levaram ao ciclo de ajustes.

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