O Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M) registrou queda de 0,36% na segunda prévia de agosto de 2026, mostrando que a deflação medida pelo indicador perdeu intensidade em relação ao mesmo estágio de coleta de julho, quando o índice havia recuado 1,11%. Os dados divulgados nesta quarta-feira (19) mostram uma composição incomum entre os três grandes blocos do indicador: os preços no atacado continuam caindo, os preços ao consumidor também passaram ao campo negativo, enquanto os custos da construção avançaram e impediram uma queda maior do índice geral.
O principal responsável pela leitura negativa continuou sendo o Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA-M), que recuou 0,50% na segunda prévia de agosto. A queda, no entanto, foi significativamente menor do que a baixa de 1,72% registrada na mesma etapa de julho. O movimento indica que a pressão baixista observada sobre os preços no atacado continua presente, mas perdeu força entre um mês e outro.
Ao mesmo tempo, o Índice de Preços ao Consumidor (IPC-M) passou de alta de 0,12% na segunda prévia de julho para queda de 0,49% em agosto. Na direção oposta, o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC) avançou 0,73%, depois de subir 0,66% na leitura equivalente do mês anterior. A combinação revela uma inflação bastante heterogênea: a descompressão aparece tanto no atacado quanto no varejo, enquanto a construção civil continua convivendo com aumentos de custos.
Atacado ainda derruba o IGP-M, mas efeito perde intensidade
A composição do IGP-M ajuda a explicar por que o comportamento do atacado é decisivo para a direção do indicador. O índice produzido pelo FGV IBRE é calculado a partir de três componentes, com peso de 60% para o IPA, 30% para o IPC e 10% para o INCC. Isso significa que movimentos mais fortes nos preços recebidos pelos produtores tendem a exercer influência muito maior sobre o resultado geral do que oscilações equivalentes na construção civil.
Na segunda prévia de agosto, essa estrutura ficou particularmente evidente. Considerando apenas os valores arredondados divulgados para os três componentes, a contribuição do IPA-M de -0,50% é equivalente a aproximadamente -0,30 ponto percentual no índice geral. O IPC-M, com queda de 0,49%, acrescenta contribuição negativa próxima de 0,15 ponto. O INCC, por sua vez, com alta de 0,73%, exerce pressão positiva de cerca de 0,07 ponto percentual.
O exercício não reproduz exatamente o resultado oficial porque os índices divulgados são arredondados, mas mostra a mecânica do indicador: sem a alta dos custos da construção, a deflação do IGP-M seria mais intensa. Ao mesmo tempo, a redução do ritmo de queda do IPA explica por que o IGP-M passou de -1,11% na segunda prévia de julho para -0,36% em agosto.
A tendência já podia ser acompanhada a partir do resultado fechado de julho. No mês passado, o IGP-M terminou com queda de 1,16%, depois de recuar 0,50% em junho. Naquele resultado definitivo, o IPA havia caído 1,74%, aprofundando a baixa de 0,97% registrada no mês anterior. Julho terminou com alta acumulada de 2,08% no ano e de 2,76% em 12 meses.
A segunda prévia de agosto sugere, portanto, que a queda dos preços ao produtor continua contribuindo para retirar pressão do índice, mas em velocidade menor. Para empresas, essa diferença importa porque o IPA acompanha preços de produtos agropecuários e industriais em diferentes estágios da cadeia produtiva e pode antecipar movimentos que posteriormente chegam — ou deixam de chegar — ao consumidor.
Consumidor entra em deflação na segunda prévia
Outro movimento relevante ocorreu no IPC-M. O componente passou de alta de 0,12% em julho para queda de 0,49% em agosto, invertendo o sinal entre as duas prévias. Como o IPC representa 30% do IGP-M, a mudança passou a reforçar, em vez de compensar, o movimento de queda vindo do atacado.
A diferença entre os dois indicadores também deve ser observada com cautela. A queda do IPA não significa automaticamente que os preços pagos pelas famílias cairão na mesma intensidade. Custos de distribuição, salários, serviços, impostos, margens empresariais e contratos fazem com que a transmissão entre atacado e varejo ocorra de maneira desigual e com diferentes intervalos de tempo.
Ainda assim, quando IPA e IPC ficam simultaneamente negativos, o IGP-M recebe pressão baixista de componentes que, juntos, representam 90% de sua estrutura. Em agosto, o único grande bloco a atuar na direção contrária foi justamente o custo da construção.
O comportamento também reforça a diferença entre uma prévia e o resultado mensal definitivo. A segunda prévia representa apenas parte do período de coleta e pode sofrer alterações até o fechamento do mês. Por isso, ela funciona mais como um sinal da direção dos preços do que como valor definitivo para contratos ou reajustes.
Construção civil segue na contramão
O ponto de resistência inflacionária da leitura de agosto veio do INCC. O indicador avançou 0,73%, acelerando diante dos 0,66% observados na segunda prévia de julho. Embora represente somente 10% do IGP-M, o comportamento chama atenção porque ocorre enquanto os outros dois grandes componentes estão negativos.
A pressão sobre a construção não começou agora. No resultado definitivo do IGP-M de julho, o INCC havia registrado alta de 0,62%, após avanço de 0,85% em junho. No detalhamento divulgado pela FGV para julho, materiais, equipamentos e serviços avançaram 0,40%, enquanto o custo da mão de obra aumentou 0,93%. Em 12 meses, o INCC acumulava naquele momento alta de 6,40%, com a mão de obra avançando 7,06%.
Isso cria uma dinâmica distinta para construtoras, incorporadoras e empresas ligadas à cadeia imobiliária. Mesmo em um ambiente no qual determinados preços de matérias-primas ou produtos industriais possam recuar, contratos de trabalho, serviços especializados e outros componentes da construção não necessariamente acompanham a mesma trajetória.
A consequência é uma espécie de inflação em velocidades diferentes dentro do próprio IGP-M. Para setores que compram produtos industriais ou commodities, a deflação do IPA pode representar algum alívio. Para atividades intensivas em construção e mão de obra, porém, a estrutura de custos continua mais pressionada.
Queda da prévia não significa reajuste negativo automático dos aluguéis
O resultado também exige atenção de consumidores e proprietários porque o IGP-M ficou conhecido por sua utilização como referência em contratos de aluguel e outros contratos privados. A queda de 0,36% divulgada nesta quarta-feira, entretanto, não deve ser tratada como índice de reajuste de agosto.
Primeiro porque o número corresponde apenas à segunda prévia. Segundo porque contratos corrigidos pelo IGP-M normalmente utilizam a variação acumulada em 12 meses do índice definitivo correspondente ao período previsto no contrato, e não a oscilação isolada de uma prévia.
No fechamento de julho, por exemplo, o IGP-M acumulava 2,76% em 12 meses, apesar da queda mensal de 1,16%. O contraste mostra por que uma deflação mensal não significa necessariamente que contratos indexados ao indicador terão redução nominal.
A taxa acumulada depende da substituição, mês a mês, das variações registradas um ano antes. Assim, mesmo que agosto termine novamente negativo, o comportamento do indicador em 12 meses dependerá também da base de comparação e das demais variações acumuladas no período.
Agosto pode marcar terceira queda mensal seguida
O comportamento das prévias aumenta a possibilidade de o IGP-M registrar mais um mês de deflação, depois das quedas de 0,50% em junho e 1,16% em julho. Ainda não é possível, porém, antecipar o número definitivo apenas a partir da segunda leitura.
A trajetória de 2026 também mostra como o índice tem oscilado intensamente. O IGP-M começou janeiro com alta de 0,41%, caiu 0,73% em fevereiro, avançou 0,52% em março, saltou 2,73% em abril e subiu mais 0,84% em maio. Depois vieram as quedas de 0,50% em junho e 1,16% em julho. Ao final do sétimo mês do ano, o índice acumulava alta de 2,08%.
Essa volatilidade está ligada justamente à elevada participação dos preços ao produtor na composição do indicador. Commodities, produtos agrícolas, matérias-primas industriais, câmbio e condições de oferta podem provocar movimentos muito mais intensos no IPA do que aqueles normalmente observados nos índices concentrados exclusivamente no consumidor.
Por isso, o IGP-M pode apresentar quedas expressivas mesmo quando determinados custos enfrentados pelas famílias ou pelas empresas continuam subindo.
Resultado definitivo será conhecido em 28 de agosto
A leitura mais importante para contratos e para a avaliação da inflação medida pelo IGP-M será divulgada no dia 28 de agosto, quando a FGV apresentará o resultado definitivo do mês. A própria instituição informou, no relatório de julho, que a próxima apuração utilizará os preços coletados entre 21 de julho e 20 de agosto de 2026.
Até lá, a segunda prévia deixa três sinais principais. O primeiro é que os preços ao produtor continuam caindo, embora em ritmo consideravelmente menor do que em julho. O segundo é que os preços ao consumidor passaram ao campo negativo nesta etapa da coleta. O terceiro é que a construção civil permanece como foco de pressão, com o INCC acelerando para 0,73%.
Se esse desenho persistir até o fechamento, agosto poderá consolidar mais um mês de alívio no IGP-M, mas com uma diferença importante em relação ao mês anterior: a força da deflação no atacado está diminuindo. Essa mudança será determinante para saber se a sequência de quedas do índice continuará nos próximos meses ou se o IGP-M começará a se aproximar novamente de variações positivas.
Fonte: FGV IBRE










