O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), confirmou ter recebido Daniel Vorcaro em São Paulo em março de 2025, depois da divulgação de mensagens e áudios encontrados no celular do então controlador do Banco Master que revelam uma articulação iniciada semanas antes para aproximar os dois. O encontro ocorreu no endereço do Instituto Iter, instituição fundada por Mendonça, na região da Avenida Paulista. O ministro afirma que a conversa durou entre 20 e 30 minutos, que se limitou a ouvir o empresário e que o assunto tratado foi um processo envolvendo precatórios. Os registros atribuídos ao telefone de Vorcaro, entretanto, acrescentam uma questão ainda sem resposta definitiva: antes da reunião, um dos responsáveis pela aproximação disse ter conversado com Mendonça sobre a situação do Banco Master no Banco Central.
A confirmação é particularmente relevante porque Mendonça se tornou, posteriormente, relator de investigações relacionadas ao caso Master no Supremo e passou a comandar decisões que atingem diretamente Vorcaro e pessoas de seu círculo. Isso não significa, por si só, que tenha existido irregularidade no encontro de 2025 ou que o ministro tenha adotado alguma providência em benefício do banqueiro. A reunião ocorreu meses antes da primeira fase pública da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal em novembro daquele ano. O que os novos registros permitem reconstruir é a forma como a aproximação foi organizada, quem participou dela e a divergência entre o contexto indicado nas mensagens anteriores ao encontro e a explicação apresentada agora pelo gabinete do ministro.
A reunião foi marcada para 14 de março de 2025, uma sexta-feira. Segundo as mensagens divulgadas, o deputado federal Cezinha de Madureira informou a Vorcaro, na véspera, que ele teria um compromisso às 17 horas com André Mendonça em São Paulo. Em seguida, enviou o endereço da Alameda Santos, 647, 16º andar. O local corresponde ao Instituto Iter, organização educacional que apresenta o próprio Mendonça como fundador. Vorcaro confirmou o compromisso.
No dia seguinte, às 16h37, o banqueiro avisou ao deputado que estava a caminho. Poucos minutos depois, recebeu como resposta que o ministro já o aguardava. Conversas com o motorista registradas no mesmo período mostram Vorcaro encaminhando o endereço, informando que estava descendo e pedindo que fosse levado ao local. Às 18h40, voltou a falar com o motorista para dizer que estava saindo. A sequência indica uma permanência de aproximadamente duas horas no endereço, embora os registros, isoladamente, não demonstrem que todo esse período tenha sido passado em reunião com Mendonça.
Essa distinção ganhou importância depois da manifestação do próprio ministro. Mendonça afirma que conversou com Vorcaro durante apenas 20 a 30 minutos. Não há, no material divulgado até agora, gravação da reunião, ata do encontro ou registro que permita estabelecer com precisão quando a conversa com o ministro começou e terminou. Portanto, não é possível concluir que a versão de Mendonça sobre a duração da reunião seja incompatível com as mensagens que mostram Vorcaro no endereço por aproximadamente duas horas.
Aproximação começou semanas antes
Os registros divulgados mostram que o encontro não surgiu de maneira casual. A aproximação vinha sendo construída desde pelo menos fevereiro de 2025 pelo advogado Ciro Rocha Soares e pelo deputado Cezinha de Madureira, ambos em contato com Vorcaro. Em 7 de fevereiro, Ciro avisou ao banqueiro que estava com André Mendonça. No dia seguinte, enviou uma fotografia na qual aparecia ao lado do ministro e relatou ao empresário que estava trabalhando para aproximá-los.
Dias depois, a articulação tornou-se mais explícita. Ciro informou a Vorcaro que Mendonça queria recebê-lo e ressaltou que considerava importante que o banqueiro participasse do encontro acompanhado por ele. Houve uma primeira tentativa de marcar a conversa para fevereiro, mas a reunião não aconteceu naquela data. A agenda foi retomada posteriormente por intermédio de Cezinha de Madureira, até resultar no encontro de 14 de março em São Paulo.
Um áudio atribuído a Ciro Rocha Soares é o trecho que mais amplia as perguntas sobre o contexto da aproximação. Na mensagem enviada a Vorcaro antes da reunião, o advogado diz que Mendonça estava informado sobre a situação do banco no Banco Central e afirma ter conversado com o ministro sobre o tema. Segundo o relato de Ciro, Cezinha também já teria falado com Mendonça.
Esse registro não demonstra que André Mendonça tenha efetivamente discutido o Banco Master com Vorcaro no encontro posterior. A afirmação parte do advogado e foi dirigida ao banqueiro antes da reunião. Também não é possível saber, apenas pelo áudio, quais informações teriam sido apresentadas ao ministro, em que profundidade ou como Mendonça reagiu ao que ouviu.
O gabinete do ministro apresenta uma versão mais específica sobre o encontro. Segundo a manifestação divulgada nesta quarta-feira, o assunto tratado foi a Suspensão de Tutela Provisória 976, processo relacionado a créditos decorrentes de uma disputa envolvendo a Agro Industrial Tabu e a União. Mendonça afirma que se limitou a ouvir Vorcaro e que sua atuação jurisdicional posterior no caso não beneficiou a posição defendida pelo empresário.
Processo citado por Mendonça envolve precatórios bilionários
A STP 976 existe desde 2023 e está relacionada a uma disputa judicial de longa duração sobre indenizações devidas a empresas do setor sucroalcooleiro. O processo chegou ao Supremo depois de decisões relacionadas à expedição de precatórios sem que tivesse sido concluída, segundo a União, a liquidação necessária para definir corretamente os valores.
Nos registros do Supremo aparecem, entre os interessados, a Agro Industrial Tabu e fundos de investimento em direitos creditórios. Em 2023, o Tribunal suspendeu os efeitos de decisões que permitiam o prosseguimento da execução e determinou o cancelamento das requisições de pagamento já expedidas. O processo envolvia valores bilionários e fazia parte de um conjunto maior de execuções originadas de indenizações reivindicadas por empresas do setor.
Esse é o processo que Mendonça afirma ter sido objeto da conversa com Vorcaro. O gabinete do ministro sustenta que os interesses discutidos na reunião estavam associados aos créditos da STP 976 e não às dificuldades regulatórias enfrentadas pelo Banco Master naquele momento.
A declaração cria uma diferença que ainda precisa ser esclarecida em relação às mensagens anteriores ao encontro. De um lado, Mendonça apresenta um objeto processual específico para a reunião. De outro, Ciro Rocha Soares dizia a Vorcaro, semanas antes, que havia relatado ao ministro a situação do banco no Banco Central. As duas circunstâncias não são necessariamente excludentes: o advogado poderia ter mencionado o Master anteriormente e a reunião posterior ter se limitado ao processo dos precatórios. Até agora, não há registro público do conteúdo integral da conversa que permita estabelecer o que efetivamente foi discutido.
Encontro ocorreu antes da fase pública da Compliance Zero
A cronologia também é importante. A reunião aconteceu em março de 2025, enquanto a primeira fase pública da Operação Compliance Zero seria deflagrada pela Polícia Federal apenas em 18 de novembro daquele ano. A operação passou a investigar suspeitas relacionadas a operações financeiras e títulos de crédito envolvendo instituições do Sistema Financeiro Nacional e posteriormente se expandiu para outras frentes.
Isso significa que não é correto interpretar automaticamente o encontro de março como uma reunião entre o relator da Compliance Zero e uma pessoa já submetida naquele momento à investigação que hoje está sob responsabilidade de Mendonça. O ministro só assumiria posteriormente papel central nos procedimentos derivados do caso Master.
Ao mesmo tempo, a referência feita por Ciro à situação do banco perante o Banco Central mostra que as dificuldades envolvendo a instituição financeira já estavam no radar dos interlocutores de Vorcaro meses antes da operação policial se tornar pública. É justamente esse detalhe que transforma a reunião em assunto de interesse público agora que Mendonça exerce a relatoria de procedimentos relacionados ao banqueiro.
Instituto Iter confirma Mendonça como fundador
O endereço repassado a Vorcaro nas mensagens é o mesmo informado atualmente pelo Instituto Iter: Alameda Santos, 647, 16º andar, no Jardim Paulista, em São Paulo. A própria instituição apresenta André Mendonça como seu fundador e informa que foi criada com atuação voltada a educação, gestão pública, direito e formação profissional.
Não há, nos registros divulgados, indicação de que o encontro tenha ocorrido nas dependências oficiais do Supremo. Também não foi apresentada até agora uma agenda pública do ministro daquele dia que registre formalmente a reunião. A inexistência de um registro público, por si só, não torna o encontro irregular, mas ganha relevância diante da posição que Mendonça passaria a ocupar posteriormente nos processos envolvendo Vorcaro.
O gabinete afirma ainda que Mendonça recebeu o banqueiro apenas uma vez e que houve, separadamente, encontro com o advogado Ciro Rocha Soares. Segundo o ministro, os memoriais entregues relacionados à STP 976 permanecem registrados em seu gabinete. Essa documentação pode se tornar importante para estabelecer com maior precisão o objetivo das audiências e a sequência das manifestações apresentadas ao magistrado.
Revelação surge em momento de tensão no caso Master
A confirmação do encontro ocorre no momento em que Mendonça enfrenta questionamentos da Procuradoria-Geral da República sobre outra frente do caso Master. O procurador-geral Paulo Gonet pediu a anulação de uma diligência determinada pelo ministro que levou a Polícia Federal a produzir um relatório concentrado em comunicações envolvendo Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro.
A coincidência temporal aumenta a repercussão política do novo episódio, mas são questões juridicamente diferentes. O encontro de Mendonça com Vorcaro ocorreu em 2025 e, até o momento, não há documento público demonstrando que o ministro tenha tomado decisão em benefício do banqueiro como resultado daquela conversa. A controvérsia atual sobre Moraes, por sua vez, envolve os limites da atuação do relator na supervisão de uma investigação criminal.
O aspecto ainda não explicado é mais objetivo: por que Ciro Rocha Soares dizia, antes do encontro, que Mendonça havia sido informado sobre a situação do Banco Master no Banco Central, enquanto o ministro afirma que a reunião posterior com Vorcaro teve como objeto apenas a STP 976. A resposta depende de documentos ou depoimentos que permitam reconstruir o conteúdo efetivo das conversas.
A revelação também torna relevante verificar se a reunião foi considerada por Mendonça quando ele posteriormente passou a atuar como relator de procedimentos envolvendo Vorcaro e se houve alguma avaliação sobre eventual impedimento ou suspeição. O simples fato de um magistrado ter recebido anteriormente uma parte ou interessado para tratar de assunto judicial não estabelece automaticamente uma dessas hipóteses, especialmente porque audiências com advogados e partes fazem parte da atividade dos tribunais. A análise depende da natureza da relação, do conteúdo da conversa e de eventual interesse jurídico no processo posterior.
Por enquanto, os fatos confirmados permitem uma conclusão mais restrita. Mendonça recebeu Vorcaro em São Paulo em março de 2025; a aproximação foi organizada previamente por Ciro Rocha Soares e Cezinha de Madureira; o encontro ocorreu no endereço do Instituto Iter; e o ministro afirma que discutiu com o banqueiro exclusivamente um processo relacionado a precatórios. Os registros anteriores mostram, ao mesmo tempo, que um dos articuladores da reunião dizia ter informado Mendonça sobre a situação do Master perante o Banco Central.
A próxima etapa será esclarecer se existem registros oficiais da audiência, quais memoriais foram apresentados ao ministro e se o conteúdo desses documentos corresponde integralmente à versão apresentada pelo gabinete. Esses elementos poderão determinar se a reunião permanecerá como um episódio regular de interlocução institucional ou se exigirá explicações adicionais diante da atual posição de Mendonça como relator das investigações relacionadas a Daniel Vorcaro.
Fontes:
Supremo Tribunal Federal — registros processuais da Suspensão de Tutela Provisória 976.
Gabinete do ministro André Mendonça — manifestação sobre o encontro realizado com Daniel Vorcaro em março de 2025.
Instituto Iter — informações institucionais sobre sua fundação e sede em São Paulo.
Polícia Federal — registros oficiais da Operação Compliance Zero e de suas fases posteriores.







