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Depois do Pix, Brasil entra na corrida por pagamentos feitos por agentes de IA

Banco do Brasil e Visa já realizaram a primeira transação agêntica no país; Pix e Open Finance podem acelerar a adoção de compras executadas por inteligência artificial.

por Álvaro Lima
20/08/2026 às 15h57
em Economia
Depois Do Pix, Brasil Entra Na Corrida Por Pagamentos Feitos Por Agentes De Ia - Gazeta Mercantil - Economia

O Brasil pode estar diante de uma nova etapa da transformação iniciada pelo Pix. Depois de popularizar as transferências instantâneas e avançar na integração de dados bancários com o Open Finance, o sistema financeiro começa a testar uma fronteira mais complexa: compras realizadas por agentes de inteligência artificial em nome dos clientes. A ideia pode parecer futurista, mas já está sendo colocada à prova no país. Em março deste ano, Banco do Brasil e Visa realizaram uma transação em que um agente de IA participou da jornada de compra e efetuou o pagamento seguindo parâmetros previamente definidos pelo usuário, abrindo caminho para um modelo em que parte das decisões hoje tomadas manualmente pelo consumidor poderá ser delegada a softwares.

Na prática, um agente poderá pesquisar produtos, comparar preços, avaliar condições e concluir uma compra sem que o usuário precise acompanhar cada etapa. Um consumidor poderia, por exemplo, pedir que sua assistente digital encontre uma passagem para Recife por até R$ 1.500, sem escala e em determinado horário. O sistema faria as buscas e, caso encontrasse uma opção dentro das condições estabelecidas, poderia concluir a compra. A tecnologia para esse tipo de operação começa a existir. O ponto mais difícil, porém, não é fazer a máquina pagar, mas garantir que ela só faça aquilo que recebeu autorização para fazer. Leia também: Brasil aposta em resposta do Mercosul à UE no mês que vem | Brasil.

Primeira transação agêntica já aconteceu no Brasil

Banco do Brasil e Visa anunciaram em 11 de março de 2026 a realização da primeira transação agêntica do país em ambiente de produção controlado. Na experiência, um cartão BB Visa foi preparado para que um agente de inteligência artificial pudesse concluir uma compra seguindo as autorizações determinadas pelo cliente, enquanto a infraestrutura da Visa cuidava de componentes como autenticação, tokenização e controles de segurança. O teste não significa que clientes poderão simplesmente entregar seus cartões a uma IA e permitir compras irrestritas. Pelo contrário: a viabilidade comercial desse mercado dependerá justamente da criação de limites precisos sobre o que cada agente poderá fazer.

Um usuário poderá determinar quanto a inteligência artificial pode gastar, quais produtos pode comprar, em quais estabelecimentos, durante quanto tempo e em quais circunstâncias deverá interromper a operação para pedir uma nova confirmação. Essa lógica transforma profundamente a autorização financeira. Em vez de aprovar uma compra específica no momento em que ela acontece, o consumidor passa a conceder previamente um conjunto de permissões, algo mais próximo de uma procuração limitada. É esse conjunto de regras que começa a ser tratado pelo mercado como uma espécie de mandato digital. Leia também: China busca vantagem na corrida pelos padrões 6G com tecnologia sem fio mais rápida | Mundo.

Autorizar uma IA é diferente de autorizar uma compra

Em uma operação tradicional, intenção e autorização normalmente acontecem quase ao mesmo tempo. O consumidor escolhe o produto, confere o valor, verifica quem receberá o dinheiro e confirma a operação. Com um agente de IA, esses momentos podem ficar separados por horas ou até dias. Em vez de autorizar uma compra de R$ 800 naquele instante, por exemplo, o usuário poderá dizer que determinado produto deve ser comprado caso o preço caia abaixo de R$ 800 durante a próxima semana.

Nesse cenário, a máquina passaria a acompanhar o mercado e decidir quando agir. O consumidor não autorizaria exatamente uma transação, mas uma política de atuação. Isso cria uma questão que bancos e instituições de pagamento ainda terão de resolver em escala: não basta mais saber se o titular é legítimo; será necessário verificar se a operação executada estava dentro dos limites que ele havia concedido ao agente. Quanto maior a autonomia da inteligência artificial, maior será a importância dessas regras. Leia também: Pela 1º vez, USP entra na lista de universidades TOP 100 do mundo | Brasil.

Pix resolve o dinheiro, mas não resolve a autorização

O Brasil parte de uma posição favorável porque já construiu uma infraestrutura nacional capaz de movimentar dinheiro em tempo real e em enorme escala. O Pix é usado por mais de 170 milhões de pessoas físicas e processa bilhões de transações por mês. Isso significa que o país não precisa criar do zero um trilho para transferências instantâneas entre contas, disponível 24 horas por dia e integrado a praticamente todo o sistema financeiro.

O problema é que, nos pagamentos agênticos, movimentar o dinheiro é apenas a última etapa. Antes da transferência será necessário saber quem autorizou aquela inteligência artificial, quanto ela podia gastar, se a autorização ainda estava válida, quais categorias eram permitidas e em que situações uma nova confirmação deveria ser exigida. Uma transação pode ser tecnicamente perfeita, passar por todos os sistemas de segurança e ainda assim desrespeitar a vontade do usuário. É nessa diferença que está boa parte do desafio.

Open Finance pode fornecer parte da estrutura

O Open Finance brasileiro também oferece elementos importantes para essa nova arquitetura. O sistema já trabalha com consentimento, prazo de autorização, compartilhamento padronizado de informações, autenticação e revogação. Um cliente pode permitir que determinadas instituições acessem seus dados e, posteriormente, retirar essa permissão. Embora esse modelo não tenha sido criado especificamente para agentes de inteligência artificial, ele fornece uma referência concreta para controlar o que terceiros podem fazer dentro do ambiente financeiro.

Outro avanço está na iniciação de pagamentos. Com a chamada Jornada Sem Redirecionamento, determinadas operações podem ser iniciadas sem que o consumidor precise abandonar o ambiente no qual está realizando a compra para abrir manualmente o aplicativo do banco. A instituição financeira continua participando da operação, mas pode atuar nos bastidores enquanto outra interface conduz a experiência. Hoje essa interface pode ser uma carteira digital ou um comércio eletrônico; no futuro, poderá ser uma conversa com um agente de IA.

Bancos brasileiros já começaram os testes

A experiência realizada pelo Banco do Brasil não ficou isolada. A Visa ampliou seus testes no país e passou a trabalhar com instituições como Banco do Brasil, Bradesco, Santander, XP e Dock em iniciativas relacionadas ao comércio realizado por agentes. A movimentação mostra que o setor financeiro já começa a se preparar para um mercado em que o comprador nem sempre será uma pessoa navegando diretamente pelo site de uma empresa. Em determinadas situações, quem chegará ao estabelecimento será um software autorizado a representar aquele consumidor.

Essa transformação também afeta o comércio eletrônico. Hoje, lojas virtuais são desenvolvidas principalmente para convencer pessoas, com páginas de produto, banners, avaliações, filtros e técnicas de conversão voltadas ao comportamento humano. Em um ambiente no qual agentes participam da decisão, parte das vendas poderá depender de outro tipo de organização da informação: preço, prazo, disponibilidade, política de troca, formas de pagamento e características do produto terão de ser facilmente interpretáveis por máquinas. O comércio passará a disputar não apenas a atenção das pessoas, mas também a preferência dos sistemas que as representam.

O problema começa quando alguma coisa dá errado

A conveniência prometida pelos agentes de IA traz consigo uma questão difícil: quem responde quando a máquina compra errado? Imagine que uma pessoa autorize seu agente a comprar uma passagem de até R$ 2 mil, desde que seja um voo direto e tenha bagagem incluída. O sistema encontra um bilhete de R$ 1.850, realiza a compra e só depois o consumidor percebe que existe uma conexão. O valor estava dentro do limite, o estabelecimento era legítimo e o pagamento foi processado normalmente, mas uma das condições centrais do mandato foi ignorada.

Situações mais complicadas podem surgir quando o agente gasta acima do limite, compra produtos de uma categoria proibida ou interpreta incorretamente informações publicadas pelo vendedor. Também existe o risco de estabelecimentos tentarem influenciar sistemas automáticos por meio da forma como apresentam preços, estoques, condições e descrições. Isso cria um novo tipo de disputa, no qual será necessário reconstruir não apenas o pagamento, mas também o processo de decisão que levou até ele. Saber que a compra ocorreu não será suficiente; será preciso saber por que ela foi considerada autorizada.

Bancos terão de explicar por que permitiram uma operação

Esse ponto pode se tornar um dos maiores desafios para as instituições financeiras. Hoje, grande parte dos mecanismos de segurança procura confirmar se determinada operação foi realizada pelo titular ou por alguém devidamente autorizado. Com agentes, haverá uma segunda camada: mesmo que o usuário e o agente sejam legítimos, será necessário verificar se aquela compra específica estava dentro do mandato concedido.

A resposta terá de ser obtida em tempo real e permanecer disponível depois da operação. Caso o consumidor conteste uma compra, a instituição precisará demonstrar quais limites estavam ativos, que tipo de produto era permitido, qual autorização havia sido concedida e por que o sistema considerou aquela operação válida. Quanto maior a autonomia entregue às máquinas, maior será a necessidade de produzir uma trilha de auditoria capaz de reconstruir suas decisões de forma compreensível.

Regulação ainda terá de acompanhar a tecnologia

Apesar dos testes em andamento, o Brasil ainda não possui uma regulamentação financeira específica voltada a um modelo amplo em que agentes de IA recebem autorização para realizar compras autônomas em nome dos clientes. O país, porém, já dispõe de várias peças que podem servir de base. O Pix oferece liquidação instantânea, o Open Finance trabalha com consentimento e APIs, a iniciação de pagamentos integra jornadas entre diferentes instituições e o Pix Automático introduziu novos mecanismos para operações previamente autorizadas.

Nenhuma dessas estruturas, isoladamente, resolve o problema dos agentes. Juntas, entretanto, formam uma base difícil de encontrar em mercados que ainda tentam padronizar pagamentos instantâneos ou compartilhamento financeiro. A próxima discussão deverá avançar justamente sobre como transformar uma autorização humana em instruções que possam ser entendidas e aplicadas por diferentes agentes, bancos e comerciantes sem depender de interpretações individuais.

Visa e empresas de IA disputam esse mercado

A corrida é internacional. Bandeiras, empresas de inteligência artificial, grandes plataformas digitais e marketplaces trabalham para definir os protocolos que poderão sustentar o comércio feito por agentes. A Visa, por exemplo, desenvolve ferramentas destinadas a identificar agentes legítimos e permitir que consumidores imponham limites de gasto, categorias de produtos e outras condições para as operações, além de ter anunciado parceria com a OpenAI voltada ao comércio agêntico.

Essa disputa mostra que o mercado não será definido apenas pela qualidade dos modelos de inteligência artificial. Haverá também uma batalha pela infraestrutura que permitirá às máquinas comprar com segurança. Quem estabelecer padrões amplamente adotados para identidade, autorização, limites e revogação poderá ocupar uma posição estratégica semelhante à das bandeiras e redes de pagamento no comércio eletrônico atual.

Brasil tem vantagem, mas liderança não está garantida

Pix e Open Finance oferecem ao país uma posição de partida privilegiada, mas isso não significa que o Brasil automaticamente liderará esse novo mercado. Protocolos internacionais podem ganhar escala antes que uma estrutura brasileira específica seja desenvolvida e acabar se tornando padrões globais. Ao mesmo tempo, o país possui uma experiência pouco comum de coordenação entre Banco Central, instituições financeiras e empresas de tecnologia, algo que foi determinante para a implantação do Pix.

Uma lógica semelhante poderia ser utilizada para os agentes. Em vez de cada banco, plataforma ou empresa de IA definir isoladamente como uma autorização deve funcionar, poderia existir um padrão capaz de registrar identidade, limites, prazo de validade e revogação. Isso permitiria que diferentes agentes e instituições conversassem entre si seguindo regras comuns e reduziria a dependência de soluções fechadas criadas por grandes empresas estrangeiras.

Próxima revolução pode acontecer antes do pagamento

O Pix mudou a maneira como o dinheiro circula no Brasil. Os agentes de inteligência artificial podem provocar uma transformação em uma etapa anterior: quem toma a decisão de gastar. Nesse cenário, a velocidade da transferência continuará importante, mas a confiança dependerá principalmente da capacidade de demonstrar que a máquina fez exatamente aquilo que recebeu permissão para fazer.

O consumidor precisará definir quanto seu agente pode gastar, onde, durante quanto tempo e sob quais condições. Bancos terão de entender essas regras e aplicá-las em segundos. Comerciantes precisarão reconhecer que aquele software é legítimo. E, quando alguma coisa der errado, todos os envolvidos terão de conseguir reconstruir o caminho que levou à compra. O Brasil já criou o trilho para movimentar dinheiro instantaneamente; a próxima disputa será construir as regras que permitirão às máquinas decidir quando podem usá-lo.

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