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Produtora de Dark Horse prepara entrega de documentos à PF em nova etapa da investigação

Karina Ferreira da Gama deverá apresentar documentos da produção até 28 de agosto, enquanto PF amplia análise de materiais apreendidos em São Paulo

por Júlia Campos
26/08/2026 às 20h01
em Política
Karina Ferreira Da Gama Deverá Apresentar Documentos Da Produção Até 28 De Agosto, Enquanto Pf Amplia Análise De Materiais Apreendidos Em São Paulo-Gazeta Mercantil

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A produtora Go Up Entertainment, responsável pelo filme “Dark Horse”, prepara a entrega voluntária à Polícia Federal de documentos relacionados à produção do longa-metragem que retrata a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. A empresária Karina Ferreira da Gama, proprietária da empresa, deve apresentar até sexta-feira (28) contratos, notas fiscais e documentos de prestação de contas reunidos desde o início do projeto, em uma nova etapa das apurações que passaram a envolver simultaneamente autoridades federais e estaduais.

Segundo as informações apuradas, o material solicitado pela PF inclui documentos financeiros e contratuais de diferentes fases da produção. Entre os arquivos estão pelo menos 300 contratos referentes a profissionais que participaram do desenvolvimento e da realização do filme. A empresária também indicou disposição para prestar esclarecimentos pessoalmente caso seja convocada pelos investigadores.

A solicitação da Polícia Federal ocorreu por meio de comunicação encaminhada à produtora em agosto, antes de o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizar o compartilhamento com a corporação federal das informações obtidas pela Polícia Civil de São Paulo em uma investigação que atingiu empresas e entidades ligadas a Karina.

A movimentação amplia a quantidade de dados que poderá ser analisada pela PF em uma apuração que busca esclarecer a destinação de recursos relacionados ao filme e a eventuais conexões com dinheiro público. A investigação, contudo, não estabeleceu até o momento que recursos públicos tenham sido efetivamente utilizados na produção. As suspeitas continuam sob apuração.

Documentos deverão detalhar a cadeia de gastos do filme

A documentação que a Go Up pretende encaminhar tem importância porque poderá permitir aos investigadores reconstruir a trajetória financeira da produção, desde a contratação de profissionais e fornecedores até os pagamentos efetuados ao longo do projeto.

A estratégia anunciada pela produtora também representa uma mudança em relação ao estágio anterior da controvérsia. Embora Karina já tenha apresentado informações às autoridades estaduais, a Polícia Federal passou a ter acesso a um conjunto mais amplo de elementos depois da decisão de Dino, em 24 de agosto. A autorização permite que investigadores federais utilizem materiais recolhidos durante a operação realizada pela Polícia Civil de São Paulo em junho.

A investigação paulista atingiu o Instituto Conhecer Brasil (ICB), entidade ligada à empresária, além da Go Up Entertainment e de endereços relacionados a Karina. O alvo central da operação estadual foi um contrato firmado com a Prefeitura de São Paulo para a implantação, operação e manutenção de pontos públicos de internet em comunidades da capital.

O acordo, celebrado no âmbito do programa Wi-Fi Livre, tinha valor inicial de R$ 108 milhões e previa a instalação de 5 mil pontos de acesso. A Polícia Civil e o Ministério Público de São Paulo apuram possíveis irregularidades na contratação e na execução do serviço.

Há uma diferença relevante entre os dois eixos investigativos. A apuração paulista se concentra no contrato de conectividade e em possíveis desvios ou fraudes relacionados à execução de recursos públicos. Já a frente federal busca verificar a eventual utilização irregular de emendas parlamentares e outras movimentações financeiras associadas ao filme.

Essa separação é importante porque a autorização concedida pelo STF não significa que a Justiça tenha concluído pela existência de desvio de dinheiro público para o longa. O que houve foi a permissão para que a PF examine provas já recolhidas pela Polícia Civil e avalie sua eventual utilidade para a investigação federal.

Operação estadual colocou as contas da produtora no centro do caso

A investigação em São Paulo ganhou dimensão em 1º de junho, quando a Polícia Civil deflagrou a Operação Wi-Fi Livre. A apuração envolve suspeitas sobre um contrato firmado entre o Instituto Conhecer Brasil e a administração municipal para levar internet gratuita a regiões periféricas da cidade. A entidade é comandada por Karina, que também controla a Go Up Entertainment.

Dados divulgados pela própria Prefeitura de São Paulo mostram que a parceria com o Instituto Conhecer Brasil fazia parte da expansão do Wi-Fi Livre SP. Em julho de 2025, a administração municipal informava que 3.133 pontos haviam sido instalados em áreas de vulnerabilidade social desde o início da parceria, dentro de uma rede mais ampla que já somava 7.842 pontos ativos na cidade.

A escala financeira do contrato torna a prestação de contas particularmente relevante. O valor original de R$ 108 milhões equivale, em uma divisão simples pelo total de 5 mil pontos previstos, a um custo médio contratual de R$ 21,6 mil por ponto ao longo do período considerado. Trata-se apenas de uma média matemática, sem demonstrar quanto efetivamente foi gasto em instalação, operação, manutenção ou outros componentes do serviço.

A própria operação policial, entretanto, não se limita à quantidade de pontos instalados. A investigação busca verificar a regularidade da contratação, a execução dos serviços e a circulação dos recursos. Reportagens sobre a investigação apontaram suspeitas de pagamentos sem a correspondente prestação de serviços e de possíveis conexões financeiras entre estruturas administradas pela empresária.

A Prefeitura de São Paulo mantém, por sua vez, a existência do programa e divulgou que o Wi-Fi Livre estava em expansão. O Instituto Conhecer Brasil também apresenta publicamente o projeto como uma iniciativa de inclusão digital, informando que sua atuação envolve a implantação de novos pontos de acesso em comunidades.

Frente federal envolve emendas e financiamento de “Dark Horse”

Além da investigação estadual, o filme passou a ser objeto de apurações no STF depois de questionamentos sobre recursos destinados a organizações ligadas a Karina. O ministro Flávio Dino é o relator de uma investigação relacionada à possível destinação irregular de emendas parlamentares para entidades associadas à produtora.

Um dos pontos já identificados foi o direcionamento de R$ 2 milhões em emendas para o Instituto Conhecer Brasil por iniciativa do deputado federal Mário Frias (PL-SP), em meio às discussões sobre a estrutura que envolve a produtora. A representação que levou o tema ao STF foi apresentada pela deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP).

A existência dessas emendas, porém, não significa que os recursos tenham sido empregados no filme. Essa é justamente uma das questões que a investigação procura esclarecer. O deputado nega irregularidades e afirma que os recursos foram destinados a projetos próprios das entidades beneficiárias.

O financiamento privado do longa constitui outro eixo do caso. A produção ganhou repercussão depois da divulgação de um áudio no qual o senador Flávio Bolsonaro aparece tratando com o então banqueiro Daniel Vorcaro sobre recursos para o filme. Segundo informações publicadas durante as investigações, o valor negociado teria chegado a R$ 134 milhões, dos quais R$ 61 milhões teriam sido efetivamente repassados. A origem e a destinação desses recursos passaram a ser objeto de questionamentos adicionais.

Flávio Bolsonaro nega irregularidades e sustenta que os recursos envolvidos eram privados. A produtora também afirma que o filme não recebeu dinheiro público. Essas posições permanecem no centro do contraditório enquanto os investigadores analisam documentos financeiros, contratos e transferências.

Decisão de Dino amplia material disponível à Polícia Federal

A autorização concedida por Flávio Dino em 24 de agosto acrescentou uma nova camada à investigação. Com o acesso ao material recolhido pela Polícia Civil, a PF poderá confrontar documentos contábeis, registros financeiros, notas fiscais, contratos e outros elementos apreendidos durante as buscas.

O ganho investigativo potencial está no cruzamento das bases. Em vez de analisar apenas documentos fornecidos voluntariamente pela produtora, a PF poderá comparar a prestação de contas apresentada pela Go Up com informações obtidas de outras empresas, entidades e pessoas alcançadas pela operação estadual.

A entrega voluntária anunciada por Karina acrescenta um terceiro conjunto documental a essa equação. Na prática, os investigadores poderão confrontar contratos, notas fiscais e despesas declaradas pela produtora com dados que já estejam nos autos da investigação paulista e com as informações relacionadas às apurações federais.

Esse cruzamento poderá ajudar a esclarecer pontos como os responsáveis pelos pagamentos, os fornecedores efetivamente contratados, a correspondência entre despesas e serviços prestados e a origem dos valores utilizados em cada etapa da produção. Até que essa análise seja concluída, não é possível afirmar que eventual coincidência entre empresas, contratos ou transferências represente, por si só, desvio de recursos.

Produção avança enquanto investigação permanece aberta

Paralelamente às investigações, “Dark Horse” avançou no processo de regularização para lançamento no mercado brasileiro. A Agência Nacional do Cinema concedeu em agosto o Registro de Obra Estrangeira para o longa, etapa necessária para sua circulação no país. A produção também passou a ser tratada no mercado brasileiro pelo título “O Azarão”, embora ainda dependa de outras providências regulatórias antes da estreia comercial.

O filme foi produzido com Jim Caviezel no papel de Jair Bolsonaro e teve as filmagens realizadas no Brasil. A obra, portanto, encontra-se em uma situação incomum: ao mesmo tempo em que percorre as etapas necessárias para chegar ao público, sua estrutura empresarial e financeira continua submetida a diferentes investigações.

No plano policial, a apresentação dos documentos até 28 de agosto poderá fornecer à PF uma visão mais detalhada da contabilidade da produção. No plano judicial, os elementos compartilhados pela Polícia Civil passam a integrar a apuração federal nos limites definidos pela decisão do STF. E, no campo político, o caso permanece associado à disputa eleitoral de 2026 depois de alcançar diretamente o entorno do senador Flávio Bolsonaro.

A empresária Karina Ferreira da Gama nega os crimes investigados, entre eles suspeitas relacionadas a organização criminosa, evasão de divisas e lavagem de dinheiro. A apresentação dos documentos pela produtora deverá ser acompanhada da análise das autoridades, que ainda terão de verificar a consistência das informações, a origem dos recursos e a compatibilidade entre os gastos declarados e os demais dados reunidos nas investigações.

O próximo passo formal é, portanto, documental: a entrega dos arquivos à Polícia Federal e o cruzamento desse material com as provas já apreendidas. Somente depois dessa análise será possível avaliar se as suspeitas inicialmente levantadas encontram respaldo nos registros financeiros e contratuais ou se os documentos apresentados afastam parte das hipóteses investigadas.

Fontes:

Supremo Tribunal Federal – decisão do ministro Flávio Dino que autorizou o acesso da Polícia Federal aos dados da investigação da Polícia Civil de São Paulo

Agência Brasil – informações sobre a Operação Wi-Fi Livre e a investigação envolvendo o Instituto Conhecer Brasil

Prefeitura de São Paulo – dados oficiais sobre o programa Wi-Fi Livre SP e a parceria com o Instituto Conhecer Brasil

Agência Nacional do Cinema – registro da obra estrangeira “Dark Horse” e informações sobre a regularização do filme para exibição no Brasil

Instituto Conhecer Brasil – informações institucionais sobre o programa Wi-Fi Livre Comunidades

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