A Ágora Investimentos fez uma única alteração em sua carteira recomendada de small caps para setembro: retirou as ações da Cury Construtora (CURY3) e colocou no lugar os papéis da Cyrela Brazil Realty (CYRE3). Copasa (CSMG3), JHSF Participações (JHSF3), OceanPact (OPCT3) e Smart Fit (SMFT3) permanecem no portfólio, que distribui igualmente 20% do capital entre cada uma das cinco empresas.
A mudança não representa uma deterioração da visão sobre a Cury. A avaliação apresentada pela casa foi de que a Cyrela oferece maior liquidez para a carteira, enquanto a tese da companhia substituída continua sendo considerada positiva.
O portfólio combina empresas expostas a cinco vetores diferentes: saneamento, incorporação imobiliária, ativos de renda recorrente e alta renda, serviços marítimos ligados à indústria de óleo e gás e academias. A diversificação reduz a dependência de um único gatilho econômico, embora não elimine os riscos característicos de ações de menor capitalização.
Entre os papéis escolhidos, a JHSF apresenta o maior dividend yield projetado para 2026 na carteira da Ágora, de 7,3%. Na sequência aparecem Cyrela, com 6,4%; Copasa, com 3,6%; Smart Fit, com 3,3%; e OceanPact, para a qual a projeção indicada é de 0%.
Os percentuais, porém, não devem ser interpretados como retorno garantido. Dividend yield é apenas uma relação entre os proventos estimados e o preço da ação e pode mudar conforme os resultados das empresas, decisões sobre distribuição de caixa e oscilações das próprias cotações.
Cyrela entra no lugar da Cury
A principal novidade da carteira é a Cyrela (CYRE3). A avaliação favorável da Ágora considera a rentabilidade da incorporadora, a recuperação da geração de caixa e a expansão da participação de produtos destinados ao segmento de menor renda, combinação que tem contribuído para melhorar o perfil operacional do grupo.
No segundo trimestre de 2026, a companhia registrou lucro líquido de R$ 452 milhões, avanço de 16% em relação ao mesmo intervalo de 2025. A receita líquida chegou a aproximadamente R$ 2,48 bilhões, enquanto a margem bruta alcançou 34,4%.
A incorporadora também encerrou o período com dívida líquida ajustada inferior à observada no trimestre anterior, outro elemento importante para uma empresa de um setor particularmente sensível ao custo de capital.
Mas há uma mudança relevante em relação ao cenário considerado inicialmente na avaliação da ação.
No começo de agosto, a Cyrela havia anunciado um memorando de entendimentos com a TRX para uma potencial venda de ativos imobiliários ao TRX Real Estate Fundo de Investimento Imobiliário (TRXF11). O portfólio estava avaliado em cerca de R$ 2,14 bilhões e incluía lajes comerciais e participações ligadas a quatro galpões logísticos.
A operação chegou a ser vista como um possível mecanismo de monetização de ativos e liberação de capital. Esse catalisador, entretanto, deixou de existir antes do início de setembro.
Em 31 de agosto, a Cyrela comunicou oficialmente que TRX e TRXF11 haviam desistido de prosseguir com a potencial aquisição. Como o memorando era não vinculante, o acordo foi encerrado sem multa, penalidade ou obrigação adicional para as partes.
Isso significa que o investidor que analisar CYRE3 em setembro não deve considerar a venda do portfólio ao TRXF11 como uma operação futura contratada. A tese passa a depender essencialmente da capacidade operacional da própria Cyrela, da geração de caixa, das vendas de imóveis, das margens e de novas alternativas de monetização que eventualmente sejam estruturadas.
Copasa combina operação defensiva e distribuição de caixa
A Copasa (CSMG3) permanece na seleção da Ágora como a representante de um segmento tradicionalmente mais defensivo: saneamento.
No segundo trimestre, a companhia apresentou receita líquida de água, esgoto e resíduos sólidos de aproximadamente R$ 1,95 bilhão, avanço de 8,9% sobre o mesmo período de 2025. O Ebitda ajustado atingiu cerca de R$ 762 milhões, crescimento de 11,7%, enquanto o lucro líquido ajustado ficou em R$ 275,5 milhões.
Parte da expansão da receita esteve associada ao efeito tarifário e ao crescimento do volume medido.
A companhia também continua distribuindo recursos aos acionistas. Somente no primeiro semestre de 2026, os juros sobre capital próprio declarados pela Copasa somaram aproximadamente R$ 320,1 milhões. Foram R$ 177,6 milhões referentes ao primeiro trimestre e R$ 142,5 milhões relativos ao segundo.
Embora a projeção de dividend yield da Ágora para CSMG3, de 3,6%, seja inferior à de JHSF e Cyrela, a característica da tese é diferente. O investidor compra exposição a um negócio regulado, com receitas menos dependentes diretamente do consumo discricionário das famílias.
Isso não significa ausência de risco. Tarifas, investimentos, eficiência operacional, regulação e decisões relacionadas ao controle acionário permanecem elementos capazes de modificar substancialmente a avaliação da empresa.
JHSF chega a setembro após resultado recorde
A JHSF (JHSF3), dona de ativos como shopping centers, hotéis, restaurantes, clubes, empreendimentos imobiliários e negócios voltados ao público de alta renda, também foi preservada pela Ágora.
Os números do segundo trimestre ajudam a explicar a manutenção.
A companhia registrou receita bruta consolidada de R$ 985,2 milhões, crescimento de aproximadamente 81% frente ao mesmo trimestre de 2025. O Ebitda ajustado alcançou R$ 502,6 milhões, mais que o dobro do registrado um ano antes, e o lucro líquido ficou em R$ 444,4 milhões.
Nos chamados negócios de renda recorrente, a receita bruta avançou aproximadamente 30%, para R$ 439,6 milhões, enquanto o Ebitda ajustado dessa divisão cresceu 31%, chegando a R$ 197,3 milhões.
Esse componente recorrente é importante para a leitura da JHSF porque reduz, parcialmente, a dependência do ciclo de lançamentos imobiliários.
Na carteira da Ágora, JHSF3 aparece ainda com o maior dividend yield projetado para 2026 entre as cinco ações, de 7,3%.
A contrapartida está no custo financeiro. Empresas intensivas em ativos e capital continuam expostas ao nível dos juros, e a própria JHSF registrou aumento do resultado financeiro negativo na comparação anual. A trajetória da taxa de juros brasileira, portanto, permanece relevante para a avaliação do papel.
OceanPact ganha novo catalisador com combinação com a CBO
A OceanPact (OPCT3) é provavelmente a ação com o evento societário mais importante no horizonte imediato da carteira.
A companhia presta serviços marítimos e opera embarcações utilizadas pela indústria de petróleo e gás. No segundo trimestre, apresentou receita líquida consolidada de aproximadamente R$ 736 milhões e Ebitda ajustado de R$ 256 milhões.
O Ebitda ajustado cresceu 84% sobre o mesmo trimestre do ano anterior, enquanto a companhia registrou lucro líquido de R$ 56 milhões.
Além do desempenho operacional, a OceanPact entra em setembro em uma fase decisiva de sua combinação de negócios com a CBO Holding.
Nesta terça-feira, 1º de setembro, a companhia informou que, depois da aprovação definitiva da operação pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica, foram atendidas as condições necessárias para avançar com a transação.
Os conselhos das empresas fixaram 16 de setembro como data de fechamento da operação.
A incorporação prevê a emissão de cerca de 274,6 milhões de novas ações ordinárias da OceanPact destinadas aos acionistas da CBO. A partir de 17 de setembro, esses novos papéis deverão passar a ser negociados na B3.
Para OPCT3, isso acrescenta uma dimensão que vai além do resultado trimestral: o mercado terá de reavaliar escala, frota, endividamento, potenciais sinergias e estrutura acionária da companhia resultante da combinação.
Também haverá risco de execução. Fusões desse porte exigem integração operacional e financeira, e o aumento expressivo do número de ações modifica a estrutura de capital. O teste decisivo virá nos balanços posteriores ao fechamento da transação.
Smart Fit mantém crescimento acima de 20%
A quinta ação da carteira é a Smart Fit (SMFT3), tese mais diretamente associada a crescimento e expansão regional.
No segundo trimestre, a companhia registrou receita líquida de aproximadamente R$ 2,18 bilhões, crescimento de 22% na comparação anual. O Ebitda chegou a R$ 712 milhões, avanço de 24%, enquanto o lucro líquido recorrente ficou em R$ 204 milhões.
A rede encerrou o período com mais de 2,1 mil academias, sustentando uma estratégia de expansão que combina novas unidades, amadurecimento das academias já inauguradas e desenvolvimento de receitas adicionais.
Um dos ativos importantes dentro dessa estratégia é o TotalPass, plataforma corporativa que amplia a capacidade do grupo de monetizar sua rede e alcançar consumidores por meio de benefícios oferecidos por empresas.
O ponto de atenção é que expansão acelerada exige investimento. Quanto maior o ritmo de abertura de unidades, maior a necessidade de capital e maior a importância da disciplina financeira para impedir que crescimento de receita seja acompanhado por deterioração do retorno sobre o capital.
Carteira mistura dividendos, crescimento e eventos corporativos
A composição escolhida pela Ágora para setembro não é uma aposta uniforme em small caps baratas. Cada empresa possui um motor diferente.
A Copasa oferece exposição a saneamento e geração de caixa. A Cyrela reúne o ciclo imobiliário, melhora operacional e potencial de monetização de ativos, embora a transação com o TRXF11 tenha sido cancelada. A JHSF combina incorporação com receitas recorrentes e dividendos. A OceanPact entra no mês às vésperas da implementação de uma transformação societária relevante. A Smart Fit continua apoiada em expansão e ganho de escala.
A carteira fica, portanto, composta por Copasa (CSMG3), Cyrela (CYRE3), JHSF (JHSF3), OceanPact (OPCT3) e Smart Fit (SMFT3), cada uma com peso de 20%.
A principal mudança em relação a agosto é a saída da Cury (CURY3). A substituição foi justificada pela busca de maior liquidez, e não por uma mudança negativa na avaliação fundamental da construtora.
Para setembro, dois eventos merecem atenção especial. O primeiro será a capacidade da Cyrela de apresentar alternativas depois do cancelamento da operação de R$ 2,14 bilhões com a TRX. O segundo ocorrerá em 16 de setembro, data prevista para o fechamento da combinação entre OceanPact e CBO. Esses acontecimentos podem alterar justamente as duas teses que chegam ao mês com os catalisadores corporativos mais relevantes da carteira.










