Transformar cinzas em diamantes: como funciona o processo que virou tendência no Brasil e ganhou destaque após homenagem a Preta Gil
A busca por novas formas de preservar a memória de entes queridos tem ganhado força no Brasil e despertado a atenção de famílias que procuram alternativas simbólicas e afetivas após a perda de um parente ou de um animal de estimação. Entre essas novas práticas, uma ganhou repercussão nacional nos últimos meses: transformar cinzas em diamantes. A técnica, que já vinha sendo oferecida discretamente por empresas brasileiras, ganhou projeção após a revelação de que parte das cinzas da artista Preta Gil foi convertida em pedras preciosas produzidas em laboratório.
Com avanço de tecnologia, redução de custos e maior aceitação cultural, transformar cinzas em diamantes tornou-se um serviço cada vez mais procurado. No centro dessa tendência está a paranaense The Diamond, empresa pioneira no país no uso de carbono humano e animal para a criação de pedras preciosas artificiais com alto padrão de qualidade. Criada em 2020 por Mylena Cooper, a companhia surgiu de uma demanda crescente observada no setor funerário: famílias interessadas em transformar o luto em uma recordação física que possa ser guardada, usada como joia ou mantida como objeto simbólico.
A morte de Preta Gil, em julho de 2025, após complicações decorrentes de um câncer no intestino, trouxe visibilidade à prática. A artista manifestou em vida o desejo de ter suas cinzas transformadas em diamantes como forma de permanecer simbolicamente junto à família e aos amigos. Parte das pedras foi produzida por laboratórios em São Paulo e Curitiba, e outra parcela ficou a cargo da The Diamond, que criou peças exclusivas para homenagear a cantora. O episódio impulsionou o interesse pelo procedimento e ampliou a divulgação da técnica no país.
Cinzas em diamantes: a ciência por trás da lembrança eterna
Para transformar cinzas em diamantes, empresas especializadas utilizam o carbono — elemento químico presente na composição natural das cinzas humanas e animais após o processo de cremação. Esse carbono é isolado e submetido a equipamentos capazes de reproduzir as condições geológicas que formam diamantes naturais. O processo envolve altíssima pressão e temperaturas que podem chegar a 1.500 °C, replicando artificialmente o ambiente das profundezas terrestres, onde as pedras naturais levam milhões de anos para se formar.
As máquinas utilizadas funcionam como câmaras de alta pressão e alta temperatura (HPHT), tecnologia que permite converter o carbono em grafite e, posteriormente, em diamante cristalizado. Dependendo do tamanho desejado, uma pedra pode levar cerca de três meses para ficar pronta. A lapidação e o polimento ocorrem depois, e cada diamante recebe certificação com informações químicas e técnicas da peça, incluindo cor, quilate, corte e clareza.
O resultado final é um diamante com propriedades físicas semelhantes às de pedras naturais, mas com valor emocional incomparável para as famílias. Essa personalização é o que diferencia o produto: cada peça contém o carbono exclusivo de um ente querido ou de um animal, tornando-o único.
A expansão do mercado e o crescimento da demanda no país
A The Diamond nasceu após Mylena Cooper identificar a oportunidade de internalizar um serviço que era, até então, realizado majoritariamente no exterior. Antes da criação da empresa, a empreendedora mantinha parceria com uma companhia suíça especializada no processo. O aumento da procura e o desejo de oferecer um serviço nacional motivaram a criação de uma operação própria no Brasil.
O interesse crescente pelo serviço fez a empresa ampliar sua estrutura. Até recentemente, a produção era feita peça por peça, com máquinas capazes de realizar apenas um diamante por ciclo completo. Com o avanço da demanda, especialmente após a repercussão do caso envolvendo Preta Gil, a companhia adquiriu novo equipamento com capacidade para produzir até 14 diamantes simultaneamente, um salto logístico que permitirá atender um número muito maior de famílias.
Segundo Mylena, os pedidos aumentaram de forma significativa após a veiculação de reportagens em rede nacional. A exposição do processo fez com que muitas famílias buscassem informações e entrassem em contato para solicitar orçamentos. Embora a empresa não revele o faturamento nem o volume total de pedidos mensais, a expectativa é de crescimento acelerado nos próximos meses.
Os preços variam conforme o tamanho da pedra, partindo de R$ 3,8 mil. Para famílias que desejam transformar cinzas de pets, o procedimento é semelhante, mas exige um estágio adicional: a conversão de pelos ou cabelos em cinzas antes da extração do carbono.
Um mercado que vai além dos diamantes: joias de murano com cinzas
O movimento de ressignificar o luto também impulsionou outros modelos de negócio. No Paraná, a empresa Sopro, criada pela empreendedora Julyana Czezacki, oferece joias de murano incorporando cinzas humanas ou de animais ao vidro derretido. A ideia surgiu após anos de experiência da família da empresária no segmento funerário. Ao unir essa vivência à formação em moda e joalheria, nasceu um produto que também atende à demanda por homenagens personalizadas.
A Sopro produz colares, pingentes, acessórios decorativos e peças sob medida. As vendas, segundo a empresa, somam entre 50 e 100 pedidos mensais. O contato inicial costuma ser intermediado por crematórios, que apresentam a opção no momento em que famílias decidem o destino das cinzas. O modelo ganhou aceitação e deixou de causar estranhamento, tornando-se alternativa recorrente para quem busca um tributo duradouro.
A personalização como tendência emocional e cultural
Transformar cinzas em diamantes, assim como incorporá-las a peças de murano, reflete um movimento global de busca por rituais personalizados de despedida. Com mudanças culturais, redução do tabu em torno da morte e ampliação do acesso à cremação no Brasil, novas práticas têm se consolidado como parte do processo de luto.
O simbolismo do diamante — associado à eternidade, força e brilho — torna-se ainda mais significativo quando carrega componentes físicos do ente homenageado. Famílias relatam que a prática cria uma sensação de presença permanente e uma memória tangível que ultrapassa o tradicional guardado de urnas, fotografias ou objetos pessoais.
Para especialistas em comportamento, produtos deste tipo representam uma transformação na forma como o luto é vivido e processado. A criação de rituais personalizados fortalece vínculos emocionais e se adapta às novas necessidades afetivas em um mundo digitalizado e acelerado.
Por que o mercado está crescendo tão rápido
A aceleração do setor após o caso Preta Gil não é coincidência. Entre os fatores que explicam o crescimento da demanda estão:
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Maior acesso à cremação — A ampliação de crematórios no país tornou o processo mais comum e menos estigmatizado.
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Rituais personalizados — Famílias buscam alternativas afetivas e simbólicas para manter vivas as recordações.
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Tecnologia acessível — A evolução dos equipamentos HPHT tornou o processo mais rápido e financeiramente viável.
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Influência midiática — Casos de personalidades públicas impulsionam tendências e reduzem barreiras culturais.
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Mercado pet em expansão — A crescente valorização de animais de estimação ampliou a procura por homenagens exclusivas.
Esses elementos criam ambiente favorável para que o mercado de transformar cinzas em diamantes cresça de maneira contínua.
A delicadeza de comunicar o luto e a importância ética
Empresas que atuam no segmento enfrentam desafios particulares, sobretudo na comunicação com o público. Trata-se de um serviço sensível, carregado de emoção e que exige ética, empatia e transparência. Por isso, muitas companhias adotam estratégias comunicacionais distintas para evitar misturar conteúdos promocionais com mensagens relacionadas ao luto.
A Sopro, por exemplo, decidiu separar suas operações entre joias convencionais e peças memorialísticas para evitar conflitos de narrativa. A The Diamond adota postura semelhante, com atendimento humanizado e processos de acompanhamento detalhado para garantir que cada cliente receba atenção particular.
A tecnologia como ferramenta para eternizar memórias
Embora complexa, a tecnologia usada para transformar cinzas em diamantes segue princípios científicos bem definidos. A extração do carbono, a conversão em grafite e a cristalização em diamante passam por diversas etapas controladas. A certificação emitida após a conclusão do processo assegura autenticidade e garante que cada pedra contenha, de fato, o carbono do homenageado.
Esse modelo de certificação confere credibilidade ao processo e tranquiliza famílias que desejam um registro seguro e duradouro. A joia final, independentemente do formato escolhido — colar, anel, brinco ou pulseira —, carrega consigo a narrativa emocional de quem foi homenageado.
Uma tendência que deve se consolidar
Especialistas projetam que o mercado de transformar cinzas em diamantes continuará crescendo no Brasil. Com mais empresas investindo em tecnologia, redução de custos operacionais e ampliação de máquinas com capacidade múltipla, a tendência é que os preços se tornem mais acessíveis e que mais famílias passem a considerar o procedimento.
O movimento acompanha fenômenos globais, nos quais alternativas à inumação tradicional começam a ganhar protagonismo. Com a disseminação de práticas sustentáveis, econômicas e personalizadas, homenagens simbólicas tendem a se tornar parte permanente dos rituais funerários modernos.






