As nove maiores participações de Donald Trump em empresas de petróleo e gás registraram valorização estimada entre US$ 1,5 milhão e US$ 4,4 milhões entre 27 de fevereiro e 31 de agosto de 2026, período que engloba o início do conflito entre Estados Unidos e Irã. A estimativa foi obtida a partir do cruzamento das divulgações financeiras do presidente, documentos corporativos e cotações de mercado. Os registros também mostram que as contas de investimento associadas a Trump continuaram realizando operações enquanto ele tomava decisões com potencial de afetar diretamente o preço do petróleo e das ações do setor.
A documentação disponível não demonstra, porém, que Trump tenha ordenado operações específicas ou que os gestores tenham negociado com base em informação não pública. A Casa Branca afirma que os investimentos são administrados de forma independente e que o presidente e seus familiares não podem determinar, influenciar ou antecipar as operações feitas nas contas. A própria análise que identificou a coincidência entre as negociações e os acontecimentos políticos não encontrou evidência de uso de informação privilegiada ou de interferência pessoal de Trump nas ordens.
O caso ganha dimensão porque as operações ocorreram em momentos nos quais declarações e decisões presidenciais produziram movimentos relevantes nos mercados de petróleo e energia. Em 23 de março, por exemplo, Trump anunciou que havia determinado a suspensão, por cinco dias, de ataques contra usinas e infraestrutura energética iranianas, alegando avanços em conversas com Teerã. Na mesma data, registros de suas contas apontam 16 compras de ações de empresas de petróleo e gás.
Nove empresas concentravam as principais posições de energia
A análise identificou como principais participações de Trump no setor Chevron, ConocoPhillips, Exxon Mobil, Kinder Morgan, Marathon Petroleum, Occidental Petroleum, Phillips 66, Valero Energy e Williams Companies. O levantamento considerou as posições divulgadas no fim de 2025 e acompanhou a variação dos papéis no período posterior ao início do conflito.
Os valores exatos das carteiras presidenciais não são públicos porque as declarações financeiras federais trabalham com faixas de patrimônio e de transações, e não com valores exatos. A declaração anual divulgada pelo Office of Government Ethics em junho confirmou a existência de operações em ações individuais e deixou disponível a documentação usada para reconstruir parte relevante do portfólio.
Outro levantamento, produzido pela equipe democrata do Joint Economic Committee do Congresso, utilizou a mesma divulgação financeira anual para estimar o tamanho das posições de petróleo e gás no fim de 2025. Segundo o estudo, os nove principais ativos somavam entre US$ 12,5 milhões e US$ 45,6 milhões naquele momento. A comissão calculou que, pela valorização das ações até 17 de agosto, essas posições teriam passado para uma faixa de US$ 17,2 milhões a US$ 61,1 milhões, implicando aumento estimado entre US$ 4,6 milhões e US$ 15,5 milhões desde o início de 2026.
Os números não devem ser tratados como duas estimativas equivalentes. O cálculo da CNBC acompanha a valorização das nove posições entre 27 de fevereiro e 31 de agosto, enquanto o estudo do comitê parte das posições declaradas no fim de 2025 e mede a variação até 17 de agosto. Além disso, as carteiras podem ter sido modificadas por novas compras e vendas. A diferença metodológica explica por que os valores apurados são distintos.
Compras ocorreram em dias de forte impacto no petróleo
Um dos episódios mais relevantes ocorreu em 23 de março. Antes da abertura dos mercados, Trump afirmou que Estados Unidos e Irã haviam mantido conversas “muito boas e produtivas” e anunciou o adiamento de ataques contra instalações de energia iranianas. O petróleo Brent caiu quase 11% naquele dia com a perspectiva de redução da escalada militar.
Os documentos de transações mostram que as contas do presidente compraram 16 posições de empresas do setor de energia na mesma data, em operações individuais dentro das faixas previstas para divulgações públicas. Entre os papéis envolvidos estavam Exxon Mobil, Chevron e Phillips 66. A estimativa agregada das compras ficou entre aproximadamente US$ 163 mil e US$ 570 mil.
A relevância financeira do movimento está no fato de que a decisão de Trump alterou imediatamente as expectativas do mercado. Ao postergar a possibilidade de ataques contra infraestrutura petrolífera iraniana, o presidente reduziu naquele momento o prêmio de risco embutido no petróleo. A compra de ações de produtoras justamente após essa queda criou, para as contas do presidente, exposição a uma eventual recuperação posterior do setor.
Os registros mostram ainda que as compras não começaram em março. Em 2 de março, primeiro pregão após o início das operações militares de Estados Unidos e Israel contra o Irã, as contas registraram aquisições em oito companhias de petróleo e gás, incluindo a Exxon Mobil. O conflito começou em 28 de fevereiro, segundo documentos posteriores da própria administração americana.
Venda de Exxon ocorreu antes do anúncio de cessar-fogo
Outro episódio analisado envolve a Exxon Mobil. Em 7 de abril, uma das contas de investimento registrou a venda de ações da companhia em uma faixa entre US$ 500 mil e US$ 1 milhão. Cerca de duas horas e meia depois do fechamento do mercado, Trump anunciou a suspensão dos ataques por duas semanas e qualificou a medida como um cessar-fogo bilateral, condicionado à reabertura do Estreito de Ormuz. Na abertura do pregão seguinte, as ações da Exxon recuaram mais de 6%.
O ponto relevante é a sequência temporal, não uma conclusão sobre a origem da ordem. Os registros públicos demonstram que a venda foi reportada antes do anúncio presidencial. Eles não mostram, contudo, quem tomou a decisão específica, que modelo de gestão foi acionado ou se o administrador da carteira tinha conhecimento prévio da decisão política.
A Casa Branca sustenta que os investimentos são administrados por instituições independentes. Segundo declaração atribuída ao porta-voz Davis Ingle, nem Trump nem seus familiares teriam capacidade de determinar ou influenciar quando ações são compradas ou vendidas, e as decisões seriam tomadas exclusivamente pelos gestores.
O histórico das operações também impede tratar os episódios isolados como uma estratégia única. Até 29 de junho, foram identificadas pelo menos 23 vendas envolvendo as nove principais empresas de energia analisadas, além de numerosas compras em diferentes setores. O volume elevado de negociações faz parte de um padrão mais amplo das contas de investimento de Trump, que apresentaram milhares de operações financeiras em seus registros.
Ganhos das petrolíferas aumentaram durante a crise energética
A valorização dos papéis ocorreu em paralelo à forte melhora dos resultados de grandes empresas de petróleo e gás. No segundo trimestre, a Exxon Mobil registrou lucro de US$ 14,5 bilhões, contra US$ 7,1 bilhões no mesmo período de 2025. A companhia informou que preços e margens mais elevados, investimentos no segmento de exploração e produção e redução estrutural de custos contribuíram para o resultado.
A Chevron, por sua vez, registrou lucro atribuível de US$ 12,1 bilhões no segundo trimestre, ante US$ 2,5 bilhões um ano antes. O resultado da área de exploração e produção chegou a US$ 8,2 bilhões, enquanto a operação de refino e comercialização teve lucro de US$ 4,9 bilhões.
Considerando nove empresas analisadas em conjunto, a avaliação reproduzida pela CNBC estimou lucro de US$ 47,6 bilhões no segundo trimestre, cerca de três vezes os US$ 15,9 bilhões registrados no mesmo período de 2025. Essa expansão aumentou a capacidade das companhias de absorver o choque de preços e, ao mesmo tempo, sustentou as cotações das ações do setor.
O levantamento do Joint Economic Committee foi ainda mais amplo. O estudo afirmou que mais de 20 grandes empresas de petróleo e gás acumularam cerca de US$ 125,2 bilhões em lucros no primeiro semestre, sendo aproximadamente US$ 85,2 bilhões no segundo trimestre e US$ 40 bilhões no primeiro. Esses números são uma agregação feita pelo próprio comitê a partir dos resultados divulgados pelas companhias.
Combustíveis continuam pressionados nos Estados Unidos
O efeito da guerra sobre os consumidores também pode ser medido por dados oficiais de energia. A média nacional da gasolina regular estava em US$ 3,015 por galão na semana de 2 de março. Na semana encerrada em 21 de setembro, a média havia alcançado US$ 4,478. A diferença de US$ 1,463 representa alta de aproximadamente 48,5% no período.
No diesel, a pressão foi ainda maior. O preço médio nacional do combustível para uso rodoviário chegou a US$ 6,529 por galão em 21 de setembro, ante US$ 5,967 uma semana antes. O valor estava US$ 2,780 acima do registrado um ano antes, segundo a Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos.
O Joint Economic Committee calculou que as famílias americanas haviam desembolsado US$ 71,5 bilhões adicionais com gasolina desde o início da guerra, ou US$ 604 por família, em média. Trata-se de uma estimativa elaborada pela equipe democrata do comitê, e não de uma conta oficial do governo federal sobre a renda disponível das famílias. O documento atribui a diferença de gasto ao aumento dos preços observado desde 28 de fevereiro.
Esse impacto ajuda a explicar por que as ações das petrolíferas passaram a ter importância política além do mercado financeiro. O aumento do petróleo eleva custos de combustíveis, transporte e diversos insumos industriais, enquanto a valorização das produtoras tende a beneficiar acionistas e ampliar resultados corporativos.
Cessar-fogo reduziu a intensidade militar, mas não encerrou a incerteza
O conflito mudou de estágio em 7 de abril, quando Trump anunciou a suspensão dos ataques por duas semanas. A Casa Branca posteriormente afirmou que as hostilidades iniciadas em 28 de fevereiro haviam terminado com o cessar-fogo.
A ausência de um acordo definitivo, entretanto, manteve o risco geopolítico incorporado aos preços de energia. Em 22 de setembro, Trump afirmou que um eventual acordo de paz com o Irã poderia ocorrer somente depois das eleições de meio de mandato de novembro e voltou a mencionar a possibilidade de ação militar caso não houvesse entendimento. Naquele dia, o Brent era negociado próximo de US$ 100 por barril.
O resultado é uma combinação de três fatores que ainda afetam os mercados: a incerteza sobre a evolução das relações entre Washington e Teerã, as condições de oferta de petróleo e derivados e a exposição financeira do próprio presidente a empresas que se beneficiam de preços mais elevados.
Os documentos públicos permitem reconstruir a proximidade temporal entre algumas decisões presidenciais e operações em ações de energia. Eles também permitem medir a valorização das posições. O que não permitem, até o momento, é estabelecer que Trump tenha determinado essas negociações para obter vantagem financeira ou que tenha usado informação sigilosa para orientar os gestores. Essa distinção é central para interpretar os registros: coincidência temporal está documentada; a existência de uma ordem presidencial ou de operação baseada em informação não pública não está demonstrada pela apuração disponível.
Fontes:
Office of Government Ethics – declaração financeira anual de Donald Trump e registros públicos de transações de investimentos
Joint Economic Committee do Congresso dos Estados Unidos – análise sobre as participações de Trump em empresas de petróleo e gás, valorização dos ativos e custos adicionais de gasolina
The American Presidency Project – declarações de Donald Trump de 23 de março e 7 de abril de 2026 sobre negociações com o Irã, infraestrutura energética e cessar-fogo
Exxon Mobil – resultados financeiros do segundo trimestre de 2026 e informações apresentadas em documentos regulatórios
Chevron – resultados financeiros do segundo trimestre de 2026 apresentados à Securities and Exchange Commission
U.S. Energy Information Administration – séries semanais de preços nacionais de gasolina e diesel em 2026









