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Universidade de espiões da França: como funciona o curso secreto que forma agentes e analistas

por Daniel Wicker - Repórter
09/01/2026
em Mundo, Destaque, News
Sala De Aula Automatizada: Universidades Entram Na Era Dos Agentes De Ia - Gazeta Mercantil - Universidade De Espiões Da França: Como Funciona O Curso Secreto Que Forma Agentes E Analistas

Como funciona a universidade de espiões da França que forma agentes e executivos em silêncio absoluto

A chamada universidade de espiões da França não tem placas chamativas, não divulga campanhas de marketing e tampouco estimula seus alunos a falarem sobre o que acontece dentro das salas de aula. Ainda assim, tornou-se um dos ambientes acadêmicos mais singulares da Europa ao reunir, no mesmo espaço, jovens universitários e agentes ativos do serviço secreto francês. Em um cenário internacional marcado por tensões geopolíticas, terrorismo, crimes financeiros e disputas econômicas globais, o país decidiu profissionalizar e ampliar a formação em inteligência de Estado — e encontrou na academia um instrumento estratégico.

Localizada no campus da Sciences Po Saint-Germain-en-Laye, nos arredores de Paris, a instituição abriga um diploma que foge completamente aos padrões tradicionais do ensino superior. O curso Diplôme sur le Renseignement et les Menaces Globales, traduzido livremente como Diploma em Inteligência e Ameaças Globais, foi criado a partir de uma demanda direta do governo francês, em um contexto de reforço das estruturas de segurança nacional após os atentados terroristas de 2015.

O resultado é uma formação híbrida, que mistura teoria acadêmica, estudos de caso reais e a experiência prática de profissionais que atuam ou atuaram no núcleo duro da inteligência francesa. É nesse ambiente que professores admitem não conhecer o nome verdadeiro de parte de seus alunos — e isso não é exceção, mas regra.

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Quando o anonimato vira parte da metodologia

O professor universitário Xavier Crettiez, um dos principais docentes do curso, relata com naturalidade que desconhece a identidade real de vários estudantes matriculados em suas disciplinas. Em qualquer outro curso, essa situação seria impensável. Na universidade de espiões da França, é parte do funcionamento normal.

Segundo Crettiez, os agentes de inteligência encaminhados para o curso chegam sem histórico acadêmico detalhado, sem currículo convencional e, muitas vezes, utilizando nomes que dificilmente correspondem à identidade oficial. O objetivo é preservar operações, trajetórias profissionais e, principalmente, a segurança pessoal desses agentes.

O ambiente acadêmico, ainda que formal, é marcado pela discrição absoluta. O campus, com construções austeras do início do século 20, portões metálicos e acesso pouco chamativo, contribui para essa atmosfera silenciosa. A localização, longe dos holofotes turísticos de Paris, reforça a sensação de que ali se desenvolvem atividades que não devem chamar atenção.

Um curso que nasceu do trauma e da urgência

A criação do diploma está diretamente ligada a um dos momentos mais delicados da história recente da França. Após os ataques terroristas que atingiram Paris em 2015, o governo iniciou uma ampla campanha de fortalecimento das agências de inteligência. Houve aumento expressivo no recrutamento, reestruturação interna e a percepção clara de que o país precisava formar quadros mais preparados para lidar com ameaças cada vez mais complexas.

Foi nesse contexto que o Estado procurou a Sciences Po, uma das instituições mais prestigiadas do país, com a missão de estruturar um curso capaz de formar novos profissionais e, ao mesmo tempo, reciclar agentes experientes. A universidade de espiões da França nasceu, portanto, como resposta direta a uma necessidade estratégica nacional.

Rapidamente, o interesse ultrapassou o setor público. Grandes empresas francesas passaram a enxergar no diploma uma ferramenta valiosa para preparar equipes de segurança corporativa e para recrutar jovens talentos capazes de atuar em áreas sensíveis como análise de risco, inteligência econômica e proteção de ativos estratégicos.

Estrutura, duração e custo do diploma

O curso tem carga horária de 120 horas, distribuídas ao longo de quatro meses. Para alunos externos — incluindo agentes já em atividade e profissionais do setor privado — o custo gira em torno de 5 mil euros. O valor reflete não apenas a complexidade do conteúdo, mas também o nível dos professores envolvidos e o acesso a um conhecimento raramente compartilhado fora dos círculos estatais.

O objetivo central do programa é capacitar os alunos a identificar ameaças em diferentes contextos, compreender sua origem, rastrear conexões e desenvolver estratégias para neutralizá-las. A formação vai muito além do imaginário popular associado à espionagem cinematográfica.

Do terrorismo ao crime financeiro: o que se estuda em sala

Entre os principais temas abordados estão os aspectos econômicos do crime organizado, o jihadismo islâmico, a coleta de inteligência comercial, a violência política e a dependência excessiva da tecnologia nos sistemas de segurança. As aulas discutem tanto ameaças físicas quanto riscos econômicos e institucionais.

Crettiez, que leciona sobre radicalização política, destaca que o trabalho de inteligência hoje envolve muito mais do que prevenir atentados. O combate a crimes financeiros, lavagem de dinheiro e corrupção tornou-se um eixo central das atividades dos serviços secretos.

Segundo ele, além das duas principais agências francesas — o DGSE, responsável por assuntos internacionais, e o DGSI, voltado às ameaças internas — há estruturas especializadas como a Tracfin, dedicada ao monitoramento de fluxos financeiros ilícitos. O avanço do tráfico de drogas, especialmente no sul da França, e a infiltração de recursos ilegais em setores públicos e privados ampliaram significativamente o escopo da inteligência estatal.

Professores que vieram do coração do Estado

O corpo docente do curso reflete essa diversidade de ameaças. Entre os professores estão agentes do DGSE com experiência em missões internacionais, ex-embaixadores franceses em regiões estratégicas, especialistas seniores da Tracfin e executivos responsáveis pela segurança de grandes grupos empresariais.

O chefe de segurança da gigante francesa de energia EDF, por exemplo, conduz um dos módulos do programa. Essa integração entre Estado e setor privado é vista como essencial em um cenário em que ataques cibernéticos, espionagem industrial e sabotagem econômica se tornaram ameaças reais e constantes.

Alunos de perfis radicalmente diferentes

A turma reúne dois grupos bastante distintos. De um lado, estudantes universitários com pouco mais de 20 anos, interessados em compreender o funcionamento do mundo da inteligência e suas implicações geopolíticas. De outro, agentes profissionais, geralmente entre 35 e 50 anos, que já atuam no serviço secreto francês.

A convivência entre esses grupos é discreta. Durante os intervalos, os agentes costumam se reunir separadamente, evitam conversas com desconhecidos e demonstram desconforto com aproximações externas. Muitos assinam listas de presença apenas com o primeiro nome, reforçando a cultura de anonimato.

Um dos agentes relata que o curso é visto internamente como um trampolim para promoções mais rápidas e para a transição do trabalho de escritório para funções de campo. Outro destaca que o ambiente acadêmico permite desenvolver ideias novas, longe da pressão operacional do dia a dia.

A nova geração e a guerra econômica global

Entre os alunos mais jovens está Alexandre Hubert, de 21 anos, interessado em compreender a crescente disputa econômica entre Europa e China. Para ele, a visão romantizada da espionagem é irrelevante. O foco está na análise de riscos, na antecipação de movimentos estratégicos e na proteção de interesses nacionais.

Valentine Guillot, também de 21 anos, conta que seu interesse foi despertado inicialmente por uma série de televisão francesa sobre serviços secretos. A experiência prática, no entanto, ampliou suas ambições. Ela afirma que o curso revelou um universo muito mais complexo e estimulante do que o retratado na ficção, reforçando o desejo de ingressar nos serviços de segurança.

Mulheres ganham espaço na inteligência francesa

Quase metade da turma é composta por mulheres, um dado que chama atenção em um setor historicamente dominado por homens. Para o professor Sebastien-Yves Laurent, especialista em tecnologia de espionagem, esse movimento é relativamente recente.

Segundo ele, muitas mulheres demonstram interesse pela inteligência por acreditarem que podem contribuir para a construção de um mundo mais seguro e estável. Outro traço comum entre os estudantes, de acordo com os professores, é um sentimento de patriotismo mais acentuado do que o observado em gerações anteriores.

Critérios rígidos e seleção cuidadosa

Para se matricular no curso, é obrigatório possuir cidadania francesa, embora alguns casos de dupla cidadania sejam aceitos. Ainda assim, o processo de seleção é conduzido com extremo cuidado. Crettiez afirma receber candidaturas frequentes de estrangeiras com currículos excelentes, mas que são automaticamente descartadas por razões de segurança.

Em fotos oficiais da turma, os agentes de inteligência costumam aparecer de costas para a câmera, enquanto os estudantes civis são identificáveis. O contraste visual simboliza a linha invisível que separa o mundo acadêmico tradicional do universo da inteligência estatal.

Longe do mito de James Bond

Apesar da aura de mistério, os professores fazem questão de desconstruir o imaginário associado a personagens como James Bond. A realidade, segundo Crettiez, é bem diferente. Poucos recrutas atuarão diretamente em campo. A maioria dos profissionais da inteligência francesa trabalha em escritórios, analisando dados, cruzando informações e produzindo relatórios estratégicos.

A universidade de espiões da França não forma aventureiros, mas analistas, estrategistas e especialistas capazes de operar em um mundo cada vez mais interconectado, competitivo e instável.

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