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Boletim Focus reduz previsão de inflação para 5,01% e corta estimativa do PIB de 2026

Mercado mantém dólar em R$ 5,20 e Selic em 13,75% no fim do ano, mas projeção do IPCA continua acima do teto da meta e expectativa para 2027 piora.

por Camila Braga
31/08/2026 às 17h47
em Economia
Boleitim Focus -Gazeta Mercantil

O mercado financeiro voltou a reduzir nesta segunda-feira, 31 de agosto, suas projeções para a inflação e o crescimento da economia brasileira em 2026. A mediana das estimativas para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) recuou de 5,02% para 5,01%, enquanto a previsão de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) caiu de 1,95% para 1,92%, segundo o Relatório Focus do Banco Central. As expectativas para o dólar e para a taxa Selic no encerramento do ano permaneceram inalteradas, respectivamente, em R$ 5,20 e 13,75% ao ano.

A redução do IPCA representa um movimento pequeno, de apenas 0,01 ponto percentual, mas ocorre depois de um período de desaceleração das estimativas para a inflação corrente. O dado continua, entretanto, acima do limite superior do intervalo de tolerância da meta. O regime brasileiro estabelece meta de inflação de 3%, com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo, colocando o teto em 4,5%.

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Ao mesmo tempo em que melhoraram marginalmente a previsão para 2026, os participantes da pesquisa elevaram novamente a expectativa de inflação para 2027. A mediana passou de 4,25% para 4,28%. Para 2028 e 2029, as projeções permaneceram em 3,80% e 3,50%, respectivamente. O comportamento dos diferentes horizontes mostra que a desinflação esperada para o ano corrente ainda não foi acompanhada por uma melhora semelhante nas expectativas de prazo mais longo.

O Focus não representa uma projeção produzida pelo Banco Central. O levantamento reúne estimativas encaminhadas por bancos, gestoras de recursos, corretoras, consultorias e outras instituições participantes do Sistema Expectativas de Mercado. O BC calcula e divulga estatísticas como a mediana das projeções, que funciona como referência para acompanhar como os agentes econômicos estão modificando suas expectativas sobre inflação, atividade, juros e câmbio.

Inflação de 2026 recua, mas continua acima do teto da meta

A mediana de 5,01% para o IPCA de 2026 permanece 0,51 ponto percentual acima do limite de 4,5% do intervalo de tolerância. Isso significa que, apesar da revisão para baixo, o cenário predominante entre os analistas consultados pelo Banco Central ainda é de inflação acima da faixa perseguida formalmente pelo regime de metas ao final do período relevante.

A evolução recente dos índices de preços oferece sinais de desaceleração, mas não elimina as preocupações do Banco Central. Na reunião realizada nos dias 4 e 5 de agosto, o Comitê de Política Monetária (Copom) reconheceu que a inflação cheia vinha perdendo força, embora permanecesse elevada. O colegiado também observou que as expectativas de inflação continuavam acima da meta, fator que exige cautela na condução da política monetária.

O próprio cenário de referência utilizado pelo Copom na reunião de agosto projetava IPCA de 5,1% em 2026, percentual bastante próximo da mediana de 5,01% agora observada no Focus. Para 2027, porém, o Banco Central trabalhava naquele momento com inflação de 3,8% em seu cenário de referência, abaixo dos 4,28% atualmente esperados pelo mercado.

Essa diferença é relevante porque o Banco Central não toma decisões de juros olhando apenas para a inflação já ocorrida. A política monetária trabalha com defasagem, e o Copom acompanha especialmente as expectativas para os períodos em que suas decisões terão maior efeito. Uma deterioração persistente das projeções futuras pode, portanto, limitar a velocidade de redução da taxa básica mesmo quando indicadores correntes começam a perder força.

PIB de 2026 cai para 1,92% antes de novo dado do IBGE

A outra mudança importante desta edição do Focus ocorreu na atividade econômica. A previsão de crescimento do PIB brasileiro em 2026 caiu de 1,95% para 1,92%. Apesar do corte, as instituições consultadas continuam projetando expansão da economia no ano, e não retração.

Para 2027, a mediana permaneceu em crescimento de 1,50%. As previsões para os dois anos seguintes também ficaram praticamente estabilizadas: 1,98% para 2028 e 2% para 2029. A curva sugere uma economia crescendo em ritmo moderado ao longo dos próximos anos, sem indicação, nas medianas do Focus, de aceleração expressiva da atividade.

O corte na previsão de 2026 ocorre em um momento no qual o próprio Banco Central identifica sinais de moderação. Na ata da reunião de agosto, o Copom afirmou que o conjunto dos indicadores divulgados desde a reunião anterior apontava para uma desaceleração gradual da atividade, ainda que a economia permanecesse resiliente e o mercado de trabalho continuasse aquecido.

A leitura sobre o PIB ganha importância adicional porque o IBGE divulgará nesta terça-feira, 1º de setembro, o resultado das Contas Nacionais referentes ao segundo trimestre. O dado permitirá medir de maneira mais precisa o comportamento da economia depois dos efeitos acumulados de um período prolongado de juros elevados.

Uma desaceleração mais intensa da atividade tende, em condições normais, a reduzir pressões de demanda sobre os preços e pode abrir espaço para juros menores. Esse efeito, porém, não é automático. O Copom acompanha simultaneamente inflação, expectativas, mercado de trabalho, política fiscal, câmbio, cenário internacional e diferentes medidas de inflação subjacente antes de alterar a intensidade da política monetária.

Mercado mantém Selic em 13,75% no encerramento de 2026

No campo dos juros, o Focus manteve a expectativa de que a Selic terminará 2026 em 13,75% ao ano. A taxa básica atualmente está em 14%, depois de o Copom ter promovido uma redução de 0,25 ponto percentual em sua reunião de agosto. A projeção do mercado pressupõe, portanto, pelo menos mais uma redução de igual magnitude até dezembro, caso as demais variáveis permaneçam próximas do cenário hoje esperado.

Para 2027, a mediana continua em 12%. As instituições projetam ainda Selic de 10,5% no encerramento de 2028 e de 10% no fim de 2029. A trajetória indica expectativa de redução gradual dos juros nos próximos anos, mas preserva patamares nominais elevados durante boa parte do horizonte de projeção.

O Copom deixou claro, contudo, que a trajetória futura não está previamente determinada. No comunicado de agosto, o comitê afirmou que a magnitude total do ciclo de ajuste dependerá das novas informações e da necessidade de assegurar a convergência da inflação à meta. Na ata publicada posteriormente, reforçou que o ambiente continua caracterizado por incerteza e expectativas desancoradas.

A diferença entre a Selic corrente de 14% e a inflação projetada para 2026 também mantém o juro real brasileiro em nível elevado. Embora uma comparação direta entre a taxa nominal atual e a inflação anual esperada tenha limitações metodológicas, a combinação ajuda a explicar por que a política monetária continua exercendo forte efeito restritivo sobre crédito, consumo e investimento.

Juros altos aumentam o custo de financiamentos para famílias e empresas, encarecem capital de giro e tornam aplicações de renda fixa mais atraentes relativamente a determinados investimentos produtivos. Por outro lado, são utilizados pelo Banco Central justamente para reduzir a pressão sobre a demanda e ajudar a conduzir a inflação de volta à meta.

Dólar permanece projetado em R$ 5,20 no fim do ano

A taxa de câmbio foi um dos pontos de maior estabilidade do levantamento. A mediana para o dólar ao final de 2026 permaneceu em R$ 5,20, patamar que vem sendo repetido nas últimas edições do Focus.

Para 2027, a expectativa é de R$ 5,30 por dólar, mesmo valor projetado para o encerramento de 2028. A mediana sobe para R$ 5,36 em 2029. Essas projeções representam estimativas para o câmbio no fim de cada ano e não significam que a moeda norte-americana permanecerá nesses níveis ao longo de todo o período.

O câmbio é uma variável especialmente relevante para a inflação brasileira. Uma valorização persistente do dólar pode encarecer produtos importados, componentes industriais, combustíveis e matérias-primas negociadas internacionalmente. O movimento inverso tende a aliviar parte dessas pressões, embora a transmissão para os preços dependa do estado da economia e da capacidade das empresas de repassar custos.

A taxa brasileira também responde a diferenças de juros entre países, fluxo de capital estrangeiro, percepção sobre as contas públicas, cenário eleitoral, preços de commodities e decisões de bancos centrais internacionais. Por isso, uma mediana estável no Focus não elimina a possibilidade de forte volatilidade durante o percurso.

Focus mostra combinação de inflação resistente e atividade mais fraca

A leitura conjunta dos números desta semana apresenta um cenário menos simples do que a queda isolada da projeção de inflação poderia sugerir. O IPCA esperado para 2026 melhorou marginalmente, mas permanece acima do teto da meta. Simultaneamente, a expectativa para 2027 voltou a subir, enquanto a previsão para o crescimento econômico deste ano foi reduzida.

Essa combinação coloca o Banco Central diante de sinais em direções diferentes. A perda de ritmo da economia favorece, em princípio, a continuidade de uma redução gradual dos juros. A persistência das expectativas inflacionárias acima da meta, especialmente nos horizontes futuros, recomenda cautela para que cortes rápidos demais não interrompam o processo de desinflação.

O Copom já reconheceu essa tensão em seus documentos mais recentes. Na reunião de agosto, decidiu reduzir a Selic para 14%, mas ressaltou que o cenário segue marcado por incerteza elevada e riscos relevantes. O comitê também afirmou que pretende manter a política monetária suficientemente restritiva para assegurar a convergência da inflação.

A próxima reunião do Copom ocorrerá em setembro e será precedida por uma série de indicadores capazes de alterar novamente as expectativas. Entre eles estão o resultado do PIB do segundo trimestre, novas divulgações de inflação, dados do mercado de trabalho, contas públicas e informações sobre a atividade econômica.

A edição seguinte do Focus mostrará se a redução da inflação esperada para 2026 continuará e, principalmente, se a deterioração das expectativas para 2027 perderá força. Essa combinação será decisiva para avaliar se o mercado passa a enxergar espaço para uma sequência mais longa de cortes na Selic ou se o Banco Central precisará manter os juros elevados por mais tempo para assegurar a convergência da inflação à meta.


FONTES:

Banco Central do Brasil — Focus, Relatório de Mercado com data de referência de 28 de agosto de 2026 — divulgado em 31 de agosto de 2026.

Banco Central do Brasil — Sistema Expectativas de Mercado e metodologia do Relatório Focus.

Banco Central do Brasil — Comunicado da 280ª reunião do Comitê de Política Monetária — 5 de agosto de 2026.

Banco Central do Brasil — Ata da 280ª reunião do Comitê de Política Monetária — 11 de agosto de 2026.

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística — Sistema de Contas Nacionais e calendário de divulgação do PIB.

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